Notas iniciais
Primeiro capítulo romano o/ Espero que gostem

A grama que crescia nos campos pomerianos pinicava suas costas enquanto tentava descansar. Ignis fugia para os campos muito frequentemente nos últimos tempos, mais precisamente, sempre que era a causa de um desastre na Quinta Coorte. Desta vez, quebrou uma grande seleção de estátuas milenares que não poderão ser substituídas tão facilmente... Pelo menos a cabeça de Julius amorteceu a queda das pobres estatuazinhas...

-Ei! Levante daí menina! — Gritou uma voz doce e conhecida.

-Não! Não quero ver a cara daqueles abutres de novo na vida! — Respondeu Ignis com um grito que mais soou como um rugido, de um gatinho, filhote, com problemas vocais, mas um rugido!

-Anda amiga, não foi tããão ruim assim — Consolou a amiga de infância, Marie, que sempre esteve do lado de Ignis desde que foi trazida ainda bebê para Nova Roma — Você só destruiu dezenas dos tesouros mais antigos da região, nocauteou um metido a rei, quebrou o braço direito dele, deixou duas “seguidoras” dele com ferimentos leves e vai precisar lavar a louça e polir as armas pelos próximos três meses, sozinha é claro, nada demais. — Melhores amigas, é para isso que servem!

-Marie, consolando, você é uma ótima jardineira.

-Eu sei, eu sei, não precisa me elogiar mais, agora vamos! Eu preciso voltar logo se não eu perco o encontro.

-Vai lá, eu vou ficar bem aqui no sol sendo comida por pequenos insetos até que meu corpo desmanche e a minha alma comece a caçar e torturas os habitantes de Nova Roma pelas próximas três gerações. — Disse a encrenqueira.

-Está bem, só não vá causar uma infecção intestinal em nenhum bichinho.

-Vai mesmo me largar aqui?

-Claro que não, agora vamos lá, eu quero ver você terminar o seu “brinquedinho” agora.

-E o “encontro”?

-Acha que eu vou estar em um encontro? — Perguntou Marie com uma risada — Vamos logo!

Depois de mais alguma insistência, Ignis desiste e volta junto com Marie. Apesar do jeito estranho da amiga, Ignis sabe que Marie é uma boa pessoa e que sempre estará ao seu lado, mas não consegue descobrir como um pilar de elegância e beleza como Marie iria se interessar na amizade de uma garota desastrada e explosiva como Ignis.

Ao chegar às ruas Ignis virou um imã para os olhos frustrados de todos. É incrível como as pessoas ficam irritadas por coisas simples, como derramar pimenta no suprimento de água “sem querer” ou colar ferraduras com fita adesiva e outras coisas do tipo, de qualquer forma, ela conseguiu uma fama incrível com coisas assim.

O caminho até a oficina apertada e claustrofóbica da Quinta Coorte foi bem tranquilo, um chingão ou outro aqui e ali, nada demais. Mas assim que chegaram Marie já ficou mais animada. Num cantinho escuro, sob um lençol branco encardido está aquilo em que Ignis está colocando os seus esforços nos últimos três meses.

Marie pula apressadamente e retira o lençol revelando a “engenhoca”, uma caixa de metal com rodas e uma coisa que se assemelhava a um canhão.

-Nossa — disse Marie — é tão... tão... Ok, eu não consigo encontrar nenhum adjetivo para isso. O que é?

-É uma caixa.

-Acho que isso eu percebi, mas pra que serve?

-Carregar armamentos.

-Só isso?

-Na verdade não. Ela pode disparar coisas flamejantes, mas precisa de muito combustível e munição.

-Coisas? Tipo melões e meninos irritantes?

-Desde que caibam no compartimento de munição, sim.

-Legal! — Disse Marie com um sorriso travesso — E funciona?

-Essa é a parte interessante, eu não sei. Nunca testei.

As palavras deixaram Marie meio desanimada. Ela realmente acha as invenções de Ignis muito interessantes, e a única coisa que ela fez que não quebrou ou colocou alguém no hospital foi um presente para Marie, uma caixinha que rega e toca música para as plantas da amiga.

-Que tal nós testarmos hoje? Eu acho que consigo reunir o pessoal nos campos, aonde você sempre vai. É só falar que tem alguma coisa de graça lá que todo mundo aparece. — Disse Marie com aquela voz confiante que só ela tinha.

-Não! Não vai dar certo... Alguém pode acabar se machucando...

Os olhos verdes meio dourados de Marie pareciam olhar além de Ignis. O que a irritava muito, pois tinha medo de pensar que Marie a conhecia tão bem que seria capaz de ler a sua mente, mas também a deixava feliz, fazia ela se sentir querida, coisa que ninguém fazia por ela.

-Não precisa se preocupar — Falou Marie enquanto pegava um pote de tinta verde numa mesinha.

Ela molhou o polegar na tinta e carimbou a máquina de Ignis depois esticou a tinta para a amiga.

-Faça o mesmo ou eu faço o seu cabelo cair. — Disse.

Ignis então fez o mesmo, pintando a máquina ao lado da marca de Marie.

-Agora vai dar tudo certo mesmo, não é? — Voltou Marie. Às vezes ela agia como se brincadeiras que crianças fossem a cura do câncer.

-Sim — Disse Ignis com um sorriso no rosto. Marie era mesmo a amiga mais bonita e idiota que alguém poderia ter, mas ela sempre estaria do lado de Ignis. Sempre.

Conforme as horas passavam, Ignis ficava mais e mais nervosa. Tinha dado um trabalhão mover a máquina que Marie insistiu em chamar de “Miss Sun Shine” — não pergunte — até o local combinado.

Já estava escurecendo e dava para ver as primeiras estrelas no céu. Se ela não fosse para a cama logo, estaria em sérios apuros. Mas quando estava finalmente desistindo e guardando os materiais, viu Marie se aproximando com um pequeno grupo de pouco mais de vinte pessoas.

-Ignis! Olha só quem eu consegui trazer! — Disse Marie com os cabelos castanhos balançando em uma trança enquanto corria. Ela tinha se arrumado de forma muito especial para esta noite. Vestia um lindo vestido branco, um cinto que aparentava ser feito de vinhas verdes e vários enfeites nos braços e cabelo feitos de capim dourado.

-Cadê a comida grátis? — Pergunta uma pobre menina enganada.

-Beeem, na verdade eu chamei vocês aqui para algo mais incrível que isso. — Diz Marie deixando o pessoal magoado e desapontado. Ela conseguiu trazer um pessoal bem importante, tal como alguns membros das Primeira e Segunda Coortes, dentre eles alguns ferreiros bem experientes, filhos diretos de Vulcano, deus das forjas e ferreiros, e alguns filhos e descendentes de Marte. Se estes aprovassem a “Miss Sun Shine” ela poderia ser produzida em massa aqui para ser usada em combates e na proteção de Nova Roma.

-Calma, calma pessoal — Voltou a falar — Eu e minha amiguinha ali — apontou freneticamente para mim — viemos demonstrar uma invenção que irá mudar a vida de todos em Nova Roma. — Talvez, só talvez, Marie estivesse exagerando um pouquinho.

-E o que ela faz? Faz torradas sem queimar o pão? — Pergunta um cara mais velho da Primeira Coorte.

-Na verdade, não — Diz Ignis.

-Extermina esses malditos gregos que crescem como ervas daninhas por aqui? — Disse uma pessoa que nunca mais iria conseguir dormir novamente se Ignis descobrisse quem é.

-Não! — Voltou Marie — Observem o incrível poder de “Miss Sun Shine”!

Marie acabou provocando uma avalanche de risadas e gozações, o que acabou deixando Ignis extremamente vermelha de vergonha. Mas enquanto elas riam, Marie foi até a amiga e insistiu para que fizesse a “Miss Sun Shine” funcionar naquele instante.

Então Ignis preparou a munição (uma pilha de laranjas do tamanho de bolas de handebol que só os deuses sabem onde Marie arrumou) e fez o canhão mirar em uma pedra no campo. Mas por algum motivo, quando ela foi disparar, o projétil ficou entalado, provocando um ruído quase tão irritante quanto a voz da inventora.

Foi aí que a “Miss Sun Shine” começou a superaquecer de forma perigosamente anormal.

-Corram, AGORA! — Gritou Ignis, mas a plateia parecia não se importar e só achar a situação mais engraçada.

Então o mundo virou chamas. Miss Sun Shine explodiu, liberando uma onda de fogo rápida que atingiu todo mundo ao redor. Ignis só se lembra de ver suas roupas e pele queimando rapidamente, até que a escuridão tomou conta de sua visão.

-Foi um verdadeiro milagre você não ter queimaduras no corpo. — Diz Thiago, um filho de Febo da Segunda Coorte de pouco mais de 17 anos que é responsável pela enfermaria. Várias vezes Ignis passou horas e mais horas conversando com ele. Depois de Marie, ele era provavelmente a pessoa em que ela mais confiava.

Às vezes ela se sentia estranha por conversar com alguém tão mais velho. Ela e Marie tinham doze anos, Ignis poucos meses mais velha que a amiga. Mas com Thiago era diferente, ele parecia entender Ignis e gostar de conversar com ela. Sempre que ela quebrava algum osso ou algo do tipo, ela podia ficar um bom tempo falando com ele sobre tudo em Nova Roma que a incomodava.

E era muito difícil não confiar nele. Sua voz amena a relaxava, o jeito como ele parecia se importar com os problemas dos outros era incrível. Falando em incrível, ele tinha cabelos loiros dourados bem aparados que pareciam o próprio sol, olhos dourados que brilhavam na luz e um corpinho de Adônis — Não que isso fosse muito importante...

-Ignis? Está me ouvindo? — Chamou Thiago.

-Ãhn? Ah, sim. — Respondeu boba enquanto enrubescia.

-Então, o como se sente? Deve estar meio abalada.

-O quê?

-Você não me ouviu mesmo não é? — Falou Thiago enquanto virava os olhos.

-Desculpe, não... Pode repetir?

-Eu disse que você aparentemente não teve ferimento nenhum, a maior parte das pessoas lá teve queimaduras leves, mas ainda sim estão feridos e vão ficar por aqui por enquanto. — Disse enfim — Mas tem algo mais importante no meio disso tudo — A voz dele ficou mais pesada e séria.

-Thiago, o que houve?

-Temos como cuidar dela... mas as queimaduras nela foram muito sérias e há outros ferimentos estranhos pelo corpo dela.

-Dela quem? — Ignis já estava tão aflita que o coração dela estava saindo pela boca.

-Ignis, Marie não está nada bem.

Notas finais
Ficou meio longo e bobo hehe, mas espero que quem tenha lido tudo também tenha gostado tanto quanto eu gostei de escrever.