Os Donos Do Fim Do Mundo: A Chave Dos Céus.
3 Salvamos a princesa do "Octonkey Kong" - Erick
Notas iniciais
-O QUÊ?!
O óleo na bandeja balançava com a força do grito da indagação.
-Já te disse — Respondeu Erick — Eu não tenho permissão para fazer qualquer portal e ir te visitar em São Paulo, Cris. Parece que é por causa dos ataques estranhos que vêm acontecendo ultimamente.
-Jeez — Respondeu a brasileira enquanto cruzava os braços fazendo os cabelos longos e loiros balançarem ao acenar com a cabeça — Então é verdade... Os ataques dos “anti-magos”.
O que é verdade. Nos últimos tempos um estranho grupo de pessoas anda atacando os diversos Nomos onde os descendentes dos antigos faraós vivem hoje. Vários magos foram sequestrados e ninguém faz a menor ideia de onde foram parar. Por enquanto, os Nomos onde Erick — no Brooklyn — e Cris — em São Paulo, no Brasil — estão continuam intactos, mas todos os Nomos ao redor do globo estão em estado de alerta.
— Erick, tome cuidado — Continuou Cris — A maior parte dos ataques foi aí, nos Estados Unidos. Ninguém sabe ao certo por que, mas eles se concentram mais aí. O que me deixa assustada, é o fato dos sequestradores não serem magos, demônios ou coisa do tipo... O Primeiro Nomo conseguiu capturar um desses “anti-magos” e confirmou que eles não possuem qualquer ligação com os faraós...
-Hmm.
Uma trovejada fez Erick dar um salto com o susto. O céu estava cinzento de horizonte à horizonte já faz dias, e agora uma grande nuvem escura e pesada movia-se rapidamente pelo céu em direção à Manhattan. Pingos de chuva dispersos caíam aqui e ali.
-Cris, eu acho que vou ter de sair, vai chover aqui.
-Ahh... — Respondeu ela desanimada enquanto pingos de chuva caíam em seu rosto cada vez mais rápido. — Só espera um momento, eu preciso falar algo MUITO importante pra você — Disse enquanto corava.
Erick pensou: “Cris? Corando? Ela não iria corar nem se recebesse um beijo do seu maior ídolo!”.
-Diga — Respondeu ele envergonhado.
-É que eu... eu... — Ela não conseguiu completar a frase pois a chuva logo se tornou um temporal que impediu qualquer conversa pela bandeja de óleo mágica.
-Droga! — Erick ficou ensopado enquanto gritava para a bandeja que tinha mais água do que óleo agora. Só restava a opção de entrar e esperar a chuva passar.
Os trovões gritavam do lado de fora enquanto o temporal rugia na varanda. Erick agora estava em seu quarto relativamente antigo. As paredes tinham manchas de patas de babuínos por todos os lados que não queriam ser limpas de jeito nenhum.
Erick se lembra claramente de quando chegou ao Vigésimo Primeiro Nomo aos oito anos pequeno, perdido e assustado. Foi encaminhado para este quarto eu parecia estar abandonado fazia anos, e pouco tempo depois, descobriu que ninguém menos que o grande Carter Kane tinha usado ele por vários anos.
Qualquer um que diz saber alguma coisa sobre mitologia egípcia sabe quem é Carter Kane. Famoso arqueólogo e egiptólogo que trabalha junto com sua esposa, Zia Rashid, para o Museu do Cairo. Mas o que poucos sabem é que eles são também dois dos magos descendentes de faraós mais importantes para a história do mundo. Ok, talvez haja um pouco de exagero nisso.
Agora, Erick está no Nomo faz seis anos. Ele é um dos poucos lugares onde os magos podem se sentir seguros, bom, pelo menos deveria, mas estes estranhos ataques aos Nomos de todo o mundo (principalmente dos Estados Unidos) andam deixando a situação meio... complicada.
Erick se lavou e colocou as roupas de linho brancas tradicionais entre os magos. Enquanto descia as escadas, escudava um barulho que de tão alto, cobria o som do temporal: Seus colegas do Nomo.
Até que hoje eles estão bem calmos, já que vários foram transferidos para outros Nomos no exterior por medidas de segurança. Mas os que sobraram não se calam nem que você os pague (bom, talvez).
Todos estavam reunidos no grande salão com a estátua de Tot (o deus com cabeça de íbis. Deus do conhecimento e patrono de nosso Nomo) o centro, agora vandalizada pela “gangue” infantil que vêm causando problemas desde quando chegou ao Vigésimo Primeiro Nomo. É quase impossível acreditar como um bando de “crias” de seis anos consegue fazer uma estátua ficar de tutu multicolorido usando magia.
No geral, tudo está como sempre. A “gangue infantil” corre loucamente pelo salão aos berros enquanto é perseguida por Lyzza, de dezesseis anos, mais conhecida como “a ceifeira flamejante”, pois, dizem os rumores, quando entra em batalha, seu corpo fica tão imbuído com o poder de seu patrono (Hórus) que além de se tornar mortal, seus cabelos ruivos parecem incandescentes. Não sei se por azar ou por sorte, ainda não a vi em nenhum combate e não quero ver tão cedo.
George dorme nos sofás — como sempre — enquanto ronca tão alto que faz os furacões de Shu (Deus do vento e o deus patrono de George) soarem como um mero assovio. Ele é o mais velho dos “alunos” do Nomo, completou dezenove anos mês passado.
A curandeira Jaz está novamente procurando os travessos e pequenos gêmeos Arthur e Morgana provavelmente por terem colocado escorpiões nas roupas de alguém ou coisa do tipo. Os dois vivem sempre juntos e têm apenas dez anos mas já causam algumas confusões. Ainda não escolheram qual o deus que irão estudar, mas o vício deles em artrópodes faz todos se lembrarem de Serket. Eles se escondem atrás de um sofá enquanto riem de Jaz e sussurram coisas um no ouvido do outro que provocam grandes risadas neles — detalhe importante: eles são surdos.
-Erick! — Gritou uma voz conhecida de todos no lugar — Você estava falando de novo com aquela menina bonita do Brasil, meu gatinho?
-Érr... Mais ou menos. Pode parar com o “gatinho”, Bastet? — Respondeu Erick à deusa felina, que respondeu com um biquinho irritado.
-Bom, meu filhote, tem outra menina bonita te procurando na biblioteca, eu seria rápido se fosse você — Disse Bastet maliciosamente.
-A Jennie? Será que é sobre...
-Seus pais? Provavelmente. Agora vamos lá tigrão, antes que ela se canse de esperar. — Continuou a deusa enquanto empurrava-o até a grande biblioteca.
A grande biblioteca mais parecia um grande salão muito desorganizado. O lugar que deveria ser um ambiente tranquilo e bom para um estudo virou um verdadeiro caos. Os vários shabti ajudantes corriam histericamente para todos os lados tentando organizar os papiros que se jogavam e desenrolavam no ar com a magia que transbordava da sala. Grandes pilhas de papéis e livros se espalhavam por todos os lados tornando difícil visualizar as imagens de Geb e Nut que guardavam o salão de forma nobre.
Numa pilha de almofadas localizada no meio dos papéis, estava o grande gordo e depressivo babuíno que vivia no Nomo, Khufu, a lamber o fundo de um potinho de Jell-O. Ele costumava ser muito alegre e causar muita confusão, mas desde que a antiga bibliotecária (Cleo, a mãe de Cris) voltou ao seu país natal, Khufu tem ficado cada vez mais depressivo. Ele adorava muito ela, provavelmente pelo seu nome. Khufu tem uma certa fixação por coisas cujo nome termine com a letra “O”.
Erick estava tentando limpar seu caminho de todos os papiros, livros e documentos que se acumularam ali com o passar dos anos quando “As Crônicas de Nárnia: Volume Único” veio voando e acertou em cheio a sua cabeça fazendo-o cair e ficar inconsciente.
-ERICK! Acorda!
-P...
-Erick?
-Peitos.
Jennie se afastou dele cobrindo sua “comissão de frente” com os braços.
-Seu pervertido!
Era difícil para ele não comentar algo como aquilo. Parecia que Jennie gostava de balançá-los na frente de Erick e se fingir de coitada toda vez que o via.
-Ok, ok, me desculpe por isso. — Disse Erick — Mas enfim, Bastet disse que você descobriu algo sobre... bem.
-O papai e a mamãe do senhorzinho? — Disse ela, completando a frase.
-É...
-Vem cá — Disse novamente enquanto acenava para uma grande pilha de documentos que rodeavam um dos vários shabtis inativos da biblioteca.
Ao se aproximar dos papéis, eles começavam a dançar no ar como se um furacão se formasse ali. As palavras voavam dos papéis e se prendiam em telas invisíveis no ar mostrando um relatório que se tornou um monte de hieróglifos.
Todo livro, papel ou documento, mesmo em computadores ou pen-drives, reagia de forma estranha na presença de Jennie. Ela, assim como Cris e sua mãe, é uma seguidora de Tot, então tudo que contenha alguma informação fervilha com a magia que emana do corpo delas.
Jennie em especial é muito poderosa. Assim como Erick, ela foi encontrada muito jovem vagando sozinha pelo mundo e foi acolhida pelo Nomo. Ninguém sabe ao certo de onde ela veio, mas ela se lembra de que já esteve presa num lugar onde faziam experiências que lhe causavam muitas dores, e provavelmente é essa a origem de suas habilidades superiores.
-Essa é uma carta que o representante do Nomo de Saint Louis mandou para o Primeiro Nomo faz alguns anos — Disse Jennie — É um pedido de ajuda por conta de um ataque que eles sofreram e que por algum motivo não foi divulgado. Não somente o Nomo foi atacado como também todos as famílias de magos independentes da região. Muitos ficaram desaparecidos e olhe para a data do ocorrido. É o único evento “mágico” que ocorreu nos cinco meses antes de você ser encontrado vagando para cá.
O silêncio preencheu a grande biblioteca por alguns momentos.
-Você acha que isso pode ter alguma relação com os meus pais? — Disse Erick
-Tenho quase certeza. Se você olhar através do Duat, verá que sua força magia é quase tão forte quanto a minha, porém dormente, e... — Ela estava procurando alguma palavra que fosse melhor que “verdadeira”.
-Tudo bem, eu sei.
-Certo... Bom, é muito provável que isto tenha sido de uma herança genética. E onde há magos poderosos, há pessoas querendo coisas más. No momento, a melhor dica que temos é isso. — Disse Jennie.
Erick pensava que não estava sendo grato o bastante. Jennie sempre se preocupou muito com ele. Ela tinha seus dezoito anos e muitos compromissos fora do Nomo, mas sempre estava ajudando Erick. Ela ficou tão fixada nessa “procura” que seus lindos olhos azulados foram tomados pela vermelhidão do sono e seus belos cabelos lisos e negros estavam quebrados aqui e ali por causa da falta de cuidado que tinha com eles. Tantas horas de sono perdido para ajudar um amigo.
Ele estava prestes a falar algo quando ele ouviu algo ao longe.
“Ha-di!”
Isso foi seguido da explosão da porta da biblioteca e a atual representante e “protetora” do Nomo entrou na biblioteca.
-Vocês não ouviram os alertas? Tem um ataque há quatro quarteirões daqui. Levantem seus traseiros daí e vamos lá AGORA. — Disse a “ditadora”, Sadie Kane.
A chuva não havia diminuído nem um pouco desde quando Erick saiu da varanda. Ele, Bastet, George, Lyzza e Sadie, juntamente com uma comissão de outros magos, corriam no meio da escuridão e chuva.
-Quietos vocês aí! — Sussurrou Sadie ao se aproximarem de um aglomerado de sombras disformes em um beco sem luz.
-Fique bem quietinha que talvez a gente não te machuque muito, mocinha... — Disse uma voz áspera que lembrava um ofídio.
Os gritos abafados vindos do meio do grupo provocavam um pequeno tumulto enquanto ele se abria e revelava o que havia no meio.
Um homem magro e encapuzado segurava um pequeno lampião. A pouca luz que o lampião emitia revelava uma língua bifurcada saindo de lábios alvos e ressecados. Ao erguer mais o lampião, foi possível ver com mais clareza o que cercava o estranho homem.
Um pequeno exército de humanos jazia no beco. O engraçado era que todos eram muito diferentes uns dos outros. Havia pessoas que pareciam vir dos lugares mais longínquos do mundo. E ainda, havia magos usando vestes egípcias ou armas destes, mas também havia pessoas usando outro tipo de armamento, que se assemelhava ao que os Greco-romanos apareciam usando em todos os museus.
Mas o mais estranho foi aquilo que a luz quase não conseguiu iluminar por completo. Próximo ao homem encapuzado algo comprido se enrolava pelo chão e se movia lentamente. Olhando com mais atenção veria que aquilo era um tentáculo, e outros sete tentáculos gigantes se escavam por todo beco, todos ligados a um gigantesco corpo na sobras de onde se ouvia os gritos abafados.
-No meu sinal, atacamos — Disse Sadie.
...
...
...
-VÃO!
Naquele momento a onde de magos estourou e foi em direção ao estranho aglomerado.
Todos lutavam incrivelmente. Bastet não é conhecida como a “lady das lâminas” à toa, ela tirava uma lâmina diferente do Duat a cada instante e estava simplesmente brincando com os adversários enquanto praticamente voava no ar durante os ataques.
Lyzza não fazia qualquer esforço. Empunhava uma kophesh flamejante em cada mão e derrotava dezenas de inimigos como se fossem de papel.
Até mesmo George lutava com vontade. A magia do vento que podia usar atordoava os inimigos dentro de pequenos furacões que giravam tão rápido que os privavam de oxigênio.
Vários magos inimigos tentavam impedir os avanços dos magos do Nomo, mas todos caíam no sono quando Sadie desenhava o hieróglifo para “dormir” no ar. Mas os guerreiros de armadura Greco-romana eram mais difíceis de combater. Parecia que alguns eram imunes à certos tipos de magia, além disso, eram fortes e lutavam de um jeito completamente diferente que Erick já viu.
Ele conseguiu avançar no meio da multidão até alcançar um ponto mais próximo do estranho encapuzado e da grande fera amorfa. Então pode finalmente usar aquilo que esteve treinando fazia meses.
Erick se ajoelhou e escreveu um hieróglifo no chão. “Tempestade”. Erick é um mago de Néftis, com alguma inclinação para Ísis. O resultado? Magia da natureza capaz de criar uma enchente capaz de inundar metade dos EUA.
O hieróglifo começou a brilhas fazendo o ar e a chuva ao redor ficarem mais densos enquanto as nuvens se tumultuavam no céu formando um vértice que fazia o ar vibrar.
O estranho “polvorila” começava a ser erguido e atacado pela pressão no ar que rompia tendões e o impedia de respirar. As gotas de chuva se movendo naquela velocidade seriam capaz de furar aço, e provocavam diversos danos graves na fera cujo sangue escuro e denso como piche se espalhava para todo lugar tingindo tudo de negro. Apesar da fúria com que Erick feria o monstro com magia, ele fazia o possível para manter a vítima intacta.
Quando o monstro estava quase se rendendo, Erick é surpreendido por um golpe na cabeça (mais uma vez... fail) e toda a magia é interrompida.
-Mais de seis anos de procura para tudo ser interrompido por um garotinho como você? Não tão cedo meu rapaz — Disse a voz áspera do homem encapuzado.
-Ah, não se preocupe meu senhor — Disse uma voz conhecida — Eu me esconderia em meu quarto pra sempre que alguém tão... “inexperiente”... Se divertisse mais do que eu aqui.
Então um grande estrondo rompeu o ar quando Sadie gritou “A’max” (egípcio para “queimar”) e chamas se espalharam provocando graves queimaduras no estranho do capuz e seu monstro.
-Hey, garoto, vai lá ajudar aquela pessoa logo. — Disse Sadie fraquejando.
-V-você está bem? — Perguntou Erick.
-Pode se dizer que sim... é só que... faz tempo que eu não uso tanta magia em um dia só, vai lá, AGORA.
Erick prontamente se pôs a correr com as poucas forças que tinha. A criatura polvo-gorila segurava a pessoa estranha com força apesar de ainda estar queimando muito.
Ele subiu em um dos diversos tentáculos enquanto escalava o monstro, rápida, porém cuidadosamente. Não queria se queimar, é claro.
Ao chegar no tórax usou magia para flutuar por pouco tempo do ar e mirou na cabeça do monstro.
-Ha-di! — Gritou, quebrando o crânio de gorila com a magia, e saltando para a gigantesca mão da besta, que começava a se esfarelar. O monstro tinha começado a simplesmente se desfazer em pó.
A pessoa que estava aprisionada na mão da criatura caía em direção ao chão. Quando Erick a alcançou, viu que era uma menina, de pouco mais de dez anos, uma criança. Usava grandes óculos de aros grossos e de lentes quebradas.
Erick a segurou com cuidado — ela era tão leve que parecia ser feita de algodão — e a colocou no chão, tirando o pano de sua boca que a impedia de falar cuidadosamente e depois, removeu os óculos quebrados. Os olhos dela eram muito azuis, porém de tons diferentes. O direito era um azul triste e acinzentado, e o esquerdo era profundo e escuro.
A garota se agarrou no corpo de Erick e começou a chorar.
-Hey... calma mocinha — Disse Erick — Está tudo bem agora, vai ficar tudo bem.
-M-mas... a-a onee-chan... — Resmungou a menina entre os soluços.
-Calma, agora vai ficar tudo bem. A gente vai pra casa. Todos nós.
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