Os Donos Do Fim Do Mundo: A Chave Dos Céus.
2 Caço veteranos com uma galinha - Marcus
Notas iniciais
-Mentiroso!
-Esquisito!
-Falso!
Era o que diziam as vozes que anunciavam o começo da aula. Todos os dias são assim, desde que seu pai morreu e Marcus precisou se mudar para a casa dos tios em Manhattan, o que já faz quase oito anos. Também foi quando ele começou a ver... coisas estranhas o tempo todo.
Ele tinha somente seis anos na época e não sabia como reagir. Começou quando foram a um passeio ao Central Park e Marcus jurou que viu uma linda mulher saindo das árvores, literalmente, direto do tronco. Ou então quando ele gritou no meio da aula, pois tinha visto um grande leão no pátio da escola, um leão com cascos de cabra e rabo de cobra.
Mas aparentemente ninguém mais conseguia ver o mesmo já que todo mundo riu a da cara dele e insinuaram que ele estava mentindo para chamar a atenção. E acabou que não fez nenhum amigo em todos esses anos estudando no mesmo lugar.
Já tentaram mudar ele de escola, mas os tios acharam que isso deixaria a família “mal-vista”. Então os tios o viam mais como um incômodo, os primos viviam importunando ele e os colegas da escola o tratavam como um animal.
Ele até tentou simplesmente ignorar o fato dessas “coisas” ficarem perseguindo ele para ver se as pessoas se esqueciam desse detalhe, mas não foi muito útil. Já pegou a fama de mentiroso na escola.
E ainda tinha esse pessoal estranho do segundo ano do ensino médio, os garotos altos que costumavam bater nos “nerds” e fazer outras coisas do gênero. Eles nunca atacaram Marcus, mas sempre ficavam olhando para ele como se fossem um bando de abutres esperando um animal morrer para comerem suas vísceras.
Hoje a aula foi excepcionalmente bem, além de todos os xingamentos de sempre o valentão da turma, que gosta de ser chamado de “Dark Bob”, resolveu que poderia ser bem divertido bater no Marcus.
Só ele já é um oponente injusto. “Dark Bob” é bem mais velho, reprovou umas três vezes e tem 17 anos, além disso, é uma verdadeira muralha, grande, feia e com cara de fome. Comparando ao Marcus, que apesar de não ser uma pessoa fora de forma, não possui qualquer coordenação motora. Mas ele ainda estava acompanhado por seus “macaquinhos” que adoram chutar os restos dos “brinquedinhos” de que ‘Bob’ se cansou.
Sorte que a enfermeira da escola é bonitinha, digo, que os hematomas não ficaram muito feios e nem houve grandes ferimentos, então Marcus pode voltar para a aula logo após o segundo período.
Mas ao chegar à sala, viu algo estranho. Novato. Um menino com cara de criança estava na sala. Criança mesmo, parece um adolescente com rosto de um menino de dez, doze anos no máximo.
-Ele e o irmão dele vão ficar na escola por uma semana por conta da profissão dos pais. Evite causar problemas enquanto eles estão aqui — avisou a professora de química olhando para ele como se pensasse como iria preparar o fígado dele caso não se comportasse.
Hora do almoço. Hora de problemas.
Era sempre um desafio conseguir comer em paz. As conhecidas “panelinhas” eram praticamente feitas de titânio na escola, e a repartição das mesas do refeitório eram mais ou menos por panelinha. Só se senta com o pessoal da sua. E adivinha quem não está em nenhuma? Pois é.
Normalmente Marcus faz o próprio almoço em casa e foge para o telhado para comer lá, já que todas as mesas sempre estão ocupadas e os tios não confiam que ele vá comprar o almoço corretamente — falam como se ele fosse um traficante de drogas ou coisa do tipo.
Mas hoje, quando estava a caminho das escadas, se deparou com alguém estranho. Um garoto baixinho de cabelos super claros, quase brancos e olhos castanho-claros. Ele se levantou e disse:
-Estávamos esperando por você.
-Por mim? — Pergunta Marcus surpreso.
-É, você é o cara estranho de que todo mundo fala.
-Ah, certo, vão me bater hoje também? — Responde
-Olha amigo, se você não vier conosco aí que você vai apanhar mesmo. — Diz uma voz vinda de trás de Marcus.
Ao se virar ele encontra o garoto com cara de criança. Olhando agora, ele é bem mais alto que Marcus, apesar de parecer muito mais jovem pelo rosto redondo e infantil.
-Isto é um sequestro então? — Pergunta Marcus.
-Não exatamente. — Fala o garoto baixo novamente, provavelmente é o irmão do cara de criança — Digamos que está mais para um resgate. Só pode ser você... como eu não tinha reparado! Os perfumes fortes que as meninas daqui usam esconderam até mesmo o seu cheiro, e que cheiro! Esse é dos bons, Peter — Falou se voltando ao “irmão”.
“Quer dizer agora que eu cheiro bem?”, perguntava-se Marcus.
-Calma calma. Por favor não se assuste com o Karl, ele realmente exagera quando se trata disso, mas vamos direto ao ponto. Marcus certo? — Marcus confirma com a cabeça — Ótimo, precisamos que seja bem sincero agora, você... já viu alguma coisa “estranha” alguma vez?
-Estranha? Olha, eu tenho uma vizinha com mais de vinte gatos e todos usam roupas cor-de-rosa, serve?
-É estranho, mas não é isso que queremos. — Diz Peter — Procuramos algo estranho como...
O pensamento dele é interrompido por um barulho vindo depois da curva do corredor. Algo como um soco e alguns gritos, e depois foi possível ver a sombra de algo vindo.
Os garotos do segundo ano.
Eles olharam para nós. Andavam em um bandinho com um cara grande de aparência oriental na frente, como uma alcatéia faminta seguindo um lobo alfa indo à caça. Faminta mesmo. Eles lambiam os lábios e olhavam para os três garotos como se fossem um grande hambúrguer. Um sorriso assustador se formou no rosto do cara grande de oriental.
-Corre — Disse Karl.
Marcus, Peter e Karl correram escada acima rumo ao terraço enquanto aquela verdadeira manada os perseguia. Ao chegarem lá em cima encontram o céu cinzento de um dia chuvoso. Ao seu redor, uma queda de três andares e vários prédios enormes cobriam a vista do horizonte.
-Oh-ow. — Escapa Karl.
-Estamos encurralados. — Diz Peter
-É, eu percebi. — Responde Marcus
Os garotos foram empurrados contra a cerca de arame enquanto os valentões se aproximam.
-É impressão minha ou eles estão maiores?
Enquanto eles se aproximavam, ficavam cada vez maiores e mais pesados, desenvolvendo músculos e inchando como um desses brinquedos que crescem na água. E mais feios. Os dentes entortavam e as caras inchavam e amassavam. Resultado final? Uma montanha de músculos de dois metros e meio feia e fedida.
-O QUE É ISSO? — Pergunta Marcus.
-Estes são bem diferentes dos de sempre não é Karl? — Diz Peter.
-Eu não lembrava desse cheiro de “asa” de ciclope sujo. — Responde o outro tapando o nariz.
Então Peter retira uma estranha arma do bolso — uma lâmina cor de ferrugem de pouco mais de 50 centímetros — e começa a atacar os “valentões”. Enquanto isso, Karl parece ter um ataque de loucura e começa a tirar as calças deixando visíveis as suas pernas brancas de peludas como... as de um bode... ou melhor, suas pernas brancas de bode! E também entra em combate usando dois facões de bronze.
Karl e Peter lutam ferozmente, mas acabam sendo fortemente feridos pelo grandão de cara oriental.
-Alguém pode me explicar o que está havendo?! — Grita Marcus.
Para Marcus as coisas ficam cada vez mais confusas. Peter e Karl correm em direção dele e o agarram para todos tomarem distância dos “grandalhões”.
Karl vai a um canto e usa um colar com um prisma para fazer um arco-íris e então lança algo pequeno e dourado na direção dele enquanto resmunga algumas palavras.
-Venha me ajudar com isso. — Grita Peter para Marcus.
Ele está fazendo uma espécie de barricada para manter os gigantes longe. Logo Karl se junta a eles na tarefa, mas os gigantes conseguem ultrapassá-la e o grande oriental agarra Karl e ergue-o no ar com uma das mãos.
Karl começa a agonizar de dor conforme o gigante o aperta com força enquanto dá grandes e grotescas gargalhadas. Mas ambos os sons são repentinamente cortados por um som agudo vindo do céu.
Todos de repente fazem silêncio para ouvir o som agudo para descobrir o que o fez. Conforme o som se repetia os gigantes pareciam ficar com medo. E foi aí que aconteceu.
Uma galhinha gigantesca e azul cai do céu bem acima do gigante que segurava Karl, o fazendo libertar o garoto baixo.
Os gigantes recuam um pouco enquanto a ave se aproxima de Marcus.
-Um Grifo — Diz Peter.
-Eu não vejo um desses faz muito tempo mesmo — Responde seu irmão.
-Eu realmente não sei o que está havendo! — Completa Marcus com um grito de pavor quando a criatura avança em sua direção e o agarra com o bico e levantando vôo.
-Ele parece gostar de você! — Grita Karl — Pare de gritar ou vai assustá-lo, a maioria dos grifos é bem perigosa mas este parece que vai ajudar, talvez seja o que as Néfeles mandaram! Somente tente montar direito nessa coisa e deixe ela trabalhar!
Montar e deixá-la trabalhar certo? Nada demais, não é? Bem, quando ela te arremessa pelos ares e por algum milagre da física você acaba caindo perfeitamente bem e seguro sentado nas costas de um grifo gigantesco e azul, esse “nada demais” pode ser muito traumático.
Peter quase desmaiou de pânico a partir daí. A fera dava vários mergulhos em direção aos gigantes provocando grandes arranhões neles. A força bruta deles não era páreo para a velocidade e agilidade do grifo que causou tantos danos que acabou afugentando eles. Vários ficaram muito machucados e o “líder” ficou com um grande corte no tórax e outro que cruzava a sobrancelha.
Após isso, o animal subitamente agiu de forma estranha e atirou Marcus no terraço da escola deixando-o sozinho com Peter e Karl enquanto voava para longe.
-Cara, o que foi aquela coisa?! — Gritou Marcus.
-Olha amigo — disse Karl — Eu não sei ao certo, mas aquilo é a nossa carona — Falou erguendo o dedo em direção à uma grande nuvem negra de tempestade que engolia o céu de Manhattan.
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