Os Diários de Diego Dorhemee - Fevereiro

3 04 de Fevereiro de 1880 - Conspirações


Notas iniciais
Demorei um bom tempo para escrever esse, talvez por preguiça mesmo...

Idéias explodindo em minha cabeça, assim como um revolucionário que tem em mente um enorme plano para mudar o curso da humanidade, sendo ele próprio pequeno demais executá-lo.

Aquele foi um dia de noites em claro, revoltas nos corredores, brigas, negócios e descobertas sem a mínima importância.

04 de Fevereiro de 1880

Ontem, durante a aula de desenho esquemático nos deram os nossos materiais de desenho, e em vez que guardar o meu nos armários após a aula, eu os levei para meu dormitório, subi no meu beliche e lá comecei a esquematizar meu plano.

- O que está fazendo? – Perguntou Jeremy.

- Não interessa! – Respondi rudemente.

Higor que estava sobre o outro beliche espichava o pescoço para tentar ver o que eu fazia, mas bastou um olhar para que ele percebesse que eu não queria que ele se intrometesse.

Os garotos ficaram conversando por um bom tempo e rapidamente pegaram no sono, com a exceção de Higor, que ficou cantarolando uma música infantil. Já era mais de meia-noite, então já era “hoje”.

- É uma espécie de projeto, não é? – Disse ele – Desculpa, eu não consegui evitar de ler o título... Varredor Pneumático de Corredores...

- Isso, é um projeto pessoal e eu não quero que ninguém se intrometa...

- Não é só um simples limpador, não é? Você escreveu várias notas durante a aula de desenho e uma delas caiu no chão e...

- Conte para alguém e você será um garoto morto! – Disse eu bem ríspido.

- Eu não vou contar pra ninguém! – Disse Higor – Mas é bem engenhoso! Uma máquina de limpeza como disfarce para um transportador...

- Eu estou cansado! – Disse eu – Cansado de ter que apanhar toda vez que preciso ir ao banheiro, toda vez que ponho um pé no corredor! Caso meu projeto seja aprovado e ao menos um desses varredores seja construído, eu não precisei mais passar por isso...

O que eu estava fazendo? Eu estava desabafando com um idiota?

- Você será um herói!

- Eu não planejo compartilhar isso com mais ninguém – Eu falei – E não planeje contar para mais ninguém, entendeu?

- Só que não é assim que funcionam os projetos aqui...

- Como não? O tal do José disse que quando ele era calouro ele criou o projeto da Arma de Pulso e aí está ela construída!

- Ele só a construiu quando estava no segundo ano! – Explicou Higor – Nós do primeiro ano só somos responsáveis pela parte teórica e pela manutenção de máquinas, nós não temos autoridade para criar nada, mesmo que nosso projeto seja aprovado... afinal é decisão do segundo ano construí-lo ou não...

Mas que merda! É claro que o segundo ano não o construiria! Eu me joguei na cama, todo meu esforço havia sido em vão...

- Mas eu posso pedir que alguém do terceiro ano construa-o para nó... quer dizer, para você! – Disse Higor – Mas acho que eles cobrarão alguma coisa...

- E quem é você para conseguir falar com alguém do terceiro ano? – Perguntei.

- Toda a minha família já estudou aqui! Ainda existem amigos do meu primo que repetiram o terceiro ano e ainda estudam aqui!

Bem, agora que ele sabia do meu plano, não havia por que negar a ajuda dele... Afinal sem essa ajuda ele não se concretizaria...

- Bem, eu creio que os alunos do terceiro ano podem te ajudar porque eles precisam cumprir um estágio na fábrica além de estudar as matérias essenciais – Explicou Higor – Na minha opinião, a criação dessa escola ao lado da fábrica nada mais é do que uma maneira de blá blá blá... – E ele começou a tagarelar de novo...

Eu acabei dormindo e não ouvi nem o começo do que Higor disse. Durante a manhã, nós fomos tomar café como de costume, nada de especial. Higor terminou rapidamente e sumiu dizendo que tinha algo importante pra fazer, certamente ele já ia procurar os alunos do terceiro ano.

Os três últimos tempos da manhã eram do maçante professor de História, essa aula eu assistia junto com Karina e Jeremy. Ele estava falando alguma coisa sobre a Mesopotâmia num ritmo chatíssimo e maçante.

Karina levantou a mão e pediu para ir ao banheiro, o professor consentiu. Olhando pelo vidro da porta (eu sentava ao lado da porta) eu vi quando após a saída dela, os veteranos José e Eddie a seguiram com um sorriso de orelha a orelha.

- Professor! Eu posso ir ao banheiro? – Perguntei.

- Você não poderia esperar sua colega voltar? – Ele disse.

- Só que... – até hoje eu não acredito que eu disse aquilo – Estou me segurando por muito tempo! Se eu não for agora eu vou acabar urinando aqui mesmo!

A sala inteira riu, o professor bateu a sua palmatória sobre a mesa para que todos parassem e me deu um sinal de que podia ir, e eu saí correndo porta afora para aumentar a urgência da minha encenação.

Logo adiante eu já vi os dois veteranos cercando Karina contra a parede, eles pareciam estar irritados e ela parecia não querer pagar dinheiro algum.

Eu me perguntava se esses filhos da puta nunca tinham aula! E onde estavam os inspetores de corredor quando se precisa deles?

- E se eu não quiser pagar? Vocês vão me bater? Mesmo eu sendo uma menina?

Karina chutou Eddie entre as pernas e deu-lhe um soco no nariz quando este se curvou, e ele caiu no chão. Eu fiquei surpreso e parado de onde estava.

Eddie puxou sua Arma de Pulso da cintura e apontou-a para Karina, era aquela mesma Arma de Pulso mais potente que só ele possuía.

- Vai disparar em mim? Vamos! Atire!

Nesse instante um inspetor de corredor apareceu atrás de mim e gritou:

- Parados aí vocês! O que está acontecendo aqui?

- Essa garota! – Disse Eddie – Ela é louca! Ela chutou e deu um soco em meu amigo!

José ainda estava ajoelha com as mãos sobre o nariz para conter o sangue que escorria pelas narinas. O inspetor o levantou e exclamou:

- José? Vamos todos vocês para a diretoria! Você está com sérios problemas, mocinha!

- Espera! – Eu gritei, só nesse momento eles notaram minha presença – Ela estava se defendendo! Eles estavam cobrando pedágio dela!

Eddie me olhou com ódio nos olhos, aquele típico olhar “Você é um cara morto”.

- Arruela... – Sussurrou José.

- Então vamos vocês quatro para a diretoria! Lá vocês contam toda a história...

Passamos quinze minutos na diretoria, eu e Karina falávamos que os dois veteranos cobravam pedágio dos calouros nos corredores enquanto José e Eddie diziam que ela simplesmente lhes bateu sem motivo.

O diretor acabou achando a história dos veteranos inconsistente e vi que as duas versões eram verdadeiras. Deu-nos uma advertência mas não nos liberou antes de nos passar um enooorme sermão sobre violência.

- Você tem coragem... – Disse Karina.

- Eu teria que dizer o que eu vi também! Eu não lhe deixaria sozinha!

- Você teria se livrado da advertência se tivesse me deixado, sua atitude foi no mínimo idiota! – Disse Karina rindo.

- Não se preocupe, em breve não teremos mais esse problema...

- Por quê? Você está armando alguma coisa? – Perguntou ela me olhando com seus olhos penetrantes...

Estou certo de que eu já soube me manter calado por muito mais tempo, não sei o que há naquela garota, mas ela extrai tudo de mim! Dentro de algum tempo ela já estava sabendo do projeto do limpador e do trato que eu fiz com Higor. Inicialmente eu me senti arrependido, mas depois eu vi que isso foi bastante produtivo, e sem ela eu não teria conseguido avançar...

Durante o almoço estava sentado à mesa com Karina, Jeremy, Márcio (ok, amanhã eu pergunto o nome dele de verdade) e aquele garoto esquisito e calado, o Humbert, que havia me flagrado fugindo do dormitório.

Jeremy parecia um papagaio que não parava de falar de suas férias perfeitas, de como sua vida era incrível e tudo mais. Eu não dava a mínima, eu tenho certeza de que ele só fazia isso para tentar impressionar Karina, mas era o Marcos (ou Márcio?) quem estava mais interessado e fazia milhões de perguntas.

Higor ainda não havia chegado e eu estava ficando preocupado, o que teria acontecido? Ele disse que ia falar com os formandos e não chegou até agora.

Do nada ele apareceu, e de surpresa me puxou pelo ombro. Por um lado tive vontade de socar aquela cara gorda, mas por outro fiquei aliviado por ele ter aparecido e me dar esperanças de concretizar meu plano.

- Diego, posso falar com você um instante? – Disse Higor, sério.

Jeremy e Marco(s) deram uma risadinha, Karina levantou-se logo depois.

- Não! – Disse Higor – Você tem que ficar aqui!

- Ela pode ir... – Disse eu, afinal ela já sabia do plano e quem sabe ela poderia ajudar.

Nós três andamos até as escadas do refeitório, não havia ninguém por lá, então ninguém nos ouviria. Karina chegou logo depois, pois ela fora antes devolver seu prato na bancada do refeitório.

- Um aluno do terceiro ano se dispôs a fazer o limpador! – Disse Higor eufórico.

- Incrível! – Eu estava incrivelmente feliz.

- Mas tem um porém... – Disse ele.

- Qual é? Sempre tem que ter um porém? – Eu disse já desanimado – Por que você não fala tudo logo de uma vez?

- Ele cobrou um preço para fazer aquilo: 500 áureos.

- Quinhentos áureos?! – Exclamamos eu e Karina ao mesmo tempo.

- É impossível! – Eu disse – Não temos nenhum dinheiro!

- Não é impossível! – Disse Karina – Nós só precisamos de uma idéia...

- Ok! – Disse eu muito estressado – Se você conseguir transformar palha em fios de ouro já estamos feitos!

- Deixe de ser rude! – Exclamou Karina – Eu estou tentando te ajudar, seu idiota! – Karina deu as costas e foi embora na direção do dormitório.

Eu e Higor voltamos para a mesa, Marco já tinha ido embora e Jeremy havia acabado de dar a última garfada em sua comida e já se levantava para deixar o prato na bancada.

- Você vai me esperar almoçar? – Perguntou Higor.

- Não. – Respondi rispidamente, pegando meu prato sobre a mesa e indo na direção da bancada.

Para o meu azar, Jeremy veio logo atrás de mim, e já foi tagarelando:

- Pois é... Se lembra daquela casa de campo que eu estava falando? Lá tem uma piscina natural enorme! Foi incrível quando eu fui passar aas férias com minha namorada lá...

Eu me surpreendi, ele realmente disse isso?

- Namorada?

- Pois é! Estamos juntos há... – Ele se interrompeu, percebeu o erro que ele havia cometido.

- Se você tem namorada lá fora, por que fica dando em cima da Karina?

Jeremy ficou sem fala por um instante, mas logo depois disse:

- Isso é um negócio meu, Diego! Você mesmo disse que não é amigo de nenhum de nós, então você não tem razões para contar para ela!

Dessa vez fui eu quem ficou em silêncio. Eu realmente não tinha afinidade por nenhum deles, não era tão próximo de Karina a ponto de ter que falar para ela e também não odiava tanto Jeremy para querer acabar com os flertes podres dele.

Então eu percebi que eu posso encontrar vários idiotas, eu posso ser um idiota, mas acabei de encontrar um idiota que superou todos os outros.

Notas finais
Essa história é puramente fictícia, qualquer semelhança com pessoas próximas a mim é somente um erro da minha mente fértil e doentia! :P
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.