Os Dias escuros de Peeta
16 A Pérola
Notas iniciais
Se fosse descrever os dias que passei em observação, usaria apenas duas palavra: Sem Graça. Todas aquelas pessoas em uniformes cinzas tiravam e punham seringas em meus braços e pernas. O quarto não oferece nem um pouco de diversão, paredes lisas, chão liso, cama lisa, abajur liso, roupas lisas, sapatos lisos... Acho que devo mudar meu nome para “Liso Sem Graça”.
Apesar de não ver as pessoas, sei que elas estão escondidas em algum lugar, sinto a presença delas, o que é repugnante. Delly vem me visitar todos os dias, tenho gostado tanto da presença dela que só notei agora como seus olhos brilham quando ela fala de pintura. Seu cabelo loiro está sempre amarrado em uma trança, e ela sempre usa um vestido branco, acho que ela deve ter ganhado o “Direito Roupa Normal” por me visitar.
Além dela já recebi visitas inoportunas. Haymitch foi uma delas.
Ele simplesmente chegou e ficou parado em uma extremidade me encarando. Por fim ele começou:
–Legal sua roupa.
Olhei-me por um segundo e me deparei com algo diferente. Haviam posto algo mais em mim enquanto eu dormia.
Uma pérola. Pequena e com uma superfície macia. Não tinha lembranças daquele objeto que pendia em uma pulseira.
Encarei Haymitch e ele me respondeu.
–Acharam isso, depois que a arena foi destruída. Estava na única ostra encontrada no mar. Como você deve saber, Beetee fritou tudo que vinha da água.
–E...?- pergunto.
Haymitch encara o ladrilho e depois retoma o olhar para mim.
–Como já disse, ou disse de outra forma, só acharam isso na areia. O resto era só destruição.
–Como chegou a suas mãos?
–Bem, Snow mandou para o 13 a fim de fazer com que Katniss sentisse algum remoço pela pérola. Mas esta não era a dela. Era diferente.
–Diferente?- pergunto não ouvindo minha própria voz.
Haymitch da cambaleada leve para o lado, balança a cabeça e continua.
–Katniss tem uma parecida. A diferença é que a dela está mais “amarelada”.
Ele respira fundo.
–Você deu essa pérola á ela.
Ele balança um pouco novamente e caí de costas no piso branco. Em seguida, médicos entram na sala e o retiram com cuidado. Bêbado, eu suponho.
Em minha mão, balança debilmente de um lado para o outro a pérola que arranquei da pulseira.
Eu sei o que isso significa. Sei que alguém está mentindo. Isso só me colocou em mais um turbilhão de dúvidas e pensamentos desagradáveis.
Durmo. Isso significa é claro, pesadelos. Mas não sei mais como lidar com eles. Assombram-me á noite e torturam de dia. O que á de bom em minha vida agora? Não tenho família, só tenho á Delly e um país inteiro que me odeia.
–Peeta?- ela pergunta ao sussurro.
Em questão de segundos ela está sentada ao meu lado no chão.
–Sei que está confuso, você pode perguntar qualquer coisa para mim.
Qualquer coisa. A palavra ecoa em meus pensamentos.
–Por que me apaixonei por ela e não por você Delly?
Ela fecha os olhos .
–Somos diferentes. Ela é corajosa, eu não.
–Matar pessoas não é sinal de coragem.- digo.
Ela fita o teto.
–Ela dá esperança a todos Peeta. Ela é o Tordo. — diz ela.
–Grande coisa.
–Ela tem o país ao seu lado. E gostaria que você a respeitasse mais.
Ela se levanta e vai embora.
Fico sozinho novamente, em mais uma onda de pensamentos conturbados.
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