Os Dias eram Assim

1 E eles eram assim


Perdoem a cara amarrada
Perdoem a falta de abraço
Perdoem a falta de espaço
Os dias eram assim

Me lembro da expressão de meu pai ao me olhar quando eu chegava da escola, me dizia que ele não me amava.

Minha mãe morreu quando nasci, pois não havia aguentado perder tamanha quantidade de sangue como tinha.

Eu era um acidente, também.

Quando completei meus nove anos, ele começou a bater, a descontar toda a sua raiva e frustração em meu pequeno e frágil copo, molenga e esguio.

Quando fiz doze, percebi que ele trazia uma certa mulher com mais frequência que trazia as outras, então eles se casaram.

Ele nunca demonstrou afeto por mim, e eu nunca senti gosto em brincar com as outras crianças, ele não deixava, ele não se importava.

Meu quarto era a sala da casa, menos quando ele trazia elas pra cá, aí meu quarto era o porão.

Os dias eram assim e eu achei que eles nunca iriam mudar.

Perdoem por tantos perigos
Perdoem a falta de abrigo
Perdoem a falta de amigos
Os dias eram assim

Eu quase morri, muitas vezes.

Eu não tinha ninguém pra chamar de porto seguro, eu não tinha ninguém pra chamar de inimigo, eu não tinha nada.

Aos quatorze eu fui sexualmente abusada pelos garotos da minha classe, todos.

Eu não tinha forças pra fazer nada, é verdade.

Eu nem ao menos tentei para-los.

Os dias eram assim.

Perdoem a falta de folhas
Perdoem a falta de ar
Perdoem a falta de escolha
Os dias eram assim

Não haviam folhas caídas no quintal quando era outono, eu as varria.

Não haviam arvores para que purificassem o ar, meu pai as cortou no meu aniversário de quatro.

Eu não tinha para onde ir, eu não tinha com quem falar, eu não tinha nada.

Os dias eram assim

E quando passarem a limpo
E quando cortarem os laços
E quando soltarem os cintos
Façam a festa por mim

Quando fiz dezesseis anos, conheci uma menina.

Ela tinha a mesma idade que eu, mas era energética, era extrovertida, era feliz.

Um dia, ela me chamou para uma festa e eu fui. Escondida de meu pai. No meio da noite.

Eu bebi, eu chorei, eu gritei e eu ri.

Eu dancei como se não houvesse amanhã, e na minha cabeça não haveria.

Eu fiquei com vários garotos, eu me senti bem.

Dois dias depois ela morreu de overdose. E eu nunca mais fiz algo do tipo, e eu nunca mais vi nenhum dos garotos com que eu fiquei. E eu nunca mais fui tão feliz.

Os dias eram assim.

Quando lavarem a mágoa
Quando lavarem a alma
Quando lavarem a água
Lavem os olhos por mim

Meu pai foi preso por violência doméstica quando eu fiz dezoito anos.

Eu não senti nada por ele, nada.

Eu não estava brava com ele, não estava triste por ele, eu não me senti feliz.

Eu só tomei meu café calmamente enquanto os policias o arrastavam para fora de casa.

Os olhos de meus meio irmãos transbordavam de água, eles choravam como se nosso pai tivesse morrido.

Eu limpei os olhos de todos, secando suas lágrimas e beijando-os nas bochechas.

Eu não os amava, mas senti que aquilo deveria ser feito.

E eu espero que eles não chorem quando eu morrer.

Os dias começaram a ser assim.

Quando brotarem as flores
Quando crescerem as matas
Quando colherem os frutos
Digam o gosto pra mim

Foram plantadas diversas flores e árvores no quintal de minha antiga casa.

Eles tinham abundancia de frutas em seu café da manha.

E eu espero, do fundo de meu coração.

Que me digam como é abraçar sua mãe depois de chegar da escola.

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