Os Dias de Enishi
11 A feira livre
Um mundo com duas realidades
Muitas crenças, poucas verdades
Uma escolha, vários caminhos
Muitas pessoas, mas estamos sozinhos
Quando se deram conta do horário, já era tarde da noite.
- Nossa! Pelo horário, quer dormir aqui hoje? – ofereceu o anfitrião. – Seu quarto continua do mesmo jeito.
- Eni... vou ter que aceitar. Já chega de dirigir por hoje. – as sutis olheiras não negavam o cansaço e a tensão do stress cotidiano.
A casa, apesar de simples, possuía três quartos. Originalmente eram dois, mas com a reforma feita com a ajuda financeira de Satoshi, o terceiro quarto fora construído.
Como Enishi morava só, o novo quarto nunca foi devidamente usado. Acabou virando uma pequena dispensa para as diversas ervas do garoto.
O segundo quarto raramente era usado, mas era destinado a Satoshi, que havia recusado a oferta, mas Enishi insistiu como sendo um pequeno agradecimento pela reforma da casa.
A decoração era simples, mas com diversos itens da preferência de Satoshi: alguns amuletos de boa sorte, pedras diversas e um carpete em tons de verde-azulado e lilás. Havia uma cama simples de solteiro, um pequeno armário e um puff.
- Faz tempo que não o uso... mas continua do mesmo jeito! Só ta faltando o incenso... – Satoshi comentou.
- Ah, você nem vai usar agora mesmo...
- É minha mania de controle de estoque. Ah, cadê meu ursinho também?Não consigo dormir sem ele!
- Hahaha! Vai se catar! – Enishi não tinha o costume de proferir esse tipo de palavra às pessoas, mas com seu melhor amigo ele podia se dar ao luxo de brincar.
Entregues os lençóis e feitos os votos de boa noite, deitaram-se, cada qual em seu quarto.
Acordaram cedo na manhã seguinte. Dessa vez Enishi iria pessoalmente entregar os produtos na feira da cidade. Com o amigo auxiliando, alimentaram os animais, colheram e embalaram os vegetais rapidamente, colocando-os no Subaru.
- Quer? – Satoshi ofereceu as chaves do carro ao amigo.
- Claro, pra matar a saudade.
Colocaram os cintos, girou a chave e partiram rumo à cidadezinha.
O motor pedia mais giros, mas o motorista postiço não queria abusar do carro do amigo. A estrada, apesar não ser asfaltada, permitia trafegar numa velocidade relativamente alta. Quando percebeu, já estavam entrando na cidade e depararam-se com a famosa Feira Livre de Anzu.
Nela reuniam-se os mais diferentes mercadores. Vendia-se praticamente de tudo um pouco, desde alimentos básicos até jóias raras. Os vendedores eram em sua maioria pessoas humildes, mas era possível encontrar algumas barracas para pessoas abastadas, mirando especialmente os turistas que tanto visitavam a cidadela.
Especialmente às terças e quintas Enishi levava os vegetais e ovos para a barraquinha duma senhora muito idosa, Chiyo Ariyoshi. Ela cuidava do temporário estabelecimento com a ajuda da única neta, Ren Ariyoshi.
Era um contraste curioso observar a avó e a neta lado a lado. Chiyo tinha profundas rugas no rosto manchado pelo sol. Corpo pequeno, aparentemente frágil, costas curvadas pelo peso dos anos de trabalho. Seus cabelos muito brancos eram escondidos pela túnica bege e surrada que usava. As mãos trêmulas recebiam as poucas moedas pelos produtos vendidos.
A senhora ficava à frente da lojinha improvisada, enquanto Ren auxiliava no trabalho mais pesado, como carregar as caixas e repor o estoque. As diferenças eram nítidas entre as duas mulheres. Ren, por sua vez, era extremamente linda, apesar das vestimentas humildes e do rosto sujo. Alta, quase da altura de Enishi, postura elegante, longos cabelos inacreditavelmente lisos, muito negros. Dependendo da luz que incidia sobre eles, variavam dum tom verde-petróleo a um roxo digno de luz negra. Pele clara, pernas fortes encobertas por um velho vestido azul marinho. A cintura fina destacava ainda mais seu corpo escultural.
A única coisa que essas duas tinham em comum eram os grandes olhos num fantástico tom de violeta, assim como a humildade e a vontade de trabalhar.
- Bom dia, Oba-chan. – era como Enishi se referia à senhora.
- Muito bom dia, meu filho. Que bom que veio hoje, o movimento está grande e precisamos mesmo da sua ajuda.
- Por sorte temos mais um braço hoje, meu amigo Satoshi veio comigo.
- Ah! Pois é muito bem vindo! Obrigado pela disponibilidade, Saitou-san.
- Prefiro que me chame pelo primeiro nome, Chiyo-san. – solicitou Satoshi.
- Desculpe, é a força do hábito.
- Então... mãos à obra! – Enishi incentivou.
- Mas antes... – interveio a senhora. — Ren! Traga mais um avental para Satoshi-kun.
- Sim senhora. – respondeu prontamente a garota. — Bom dia, Enishi-kun, Sai... digo, Satoshi-kun.
- Bom dia! – responderam os dois.
A chegada dos garotos foi na hora exata: subitamente aumentou o número de clientes, o que é ótimo para as vendas, mas as duas não dariam conta de tudo sozinhas.
Já passava das 10 horas quando o fluxo começou a diminuir e os garotos puderam respirar mais tranquilamente.
Enishi observou novamente a diversidade daquela feira. Era incrível vislumbrar tantos itens, pessoas e culturas diferentes num mesmo local, como se fossem vários mundos diferentes. Na própria tenda em que estava isso já se fazia presente, posto a diferença entre aquelas mulheres.
Se havia tantas diferenças entre os próprios familiares, quiçá a feira como um todo?! Quantas diferenças haveriam de existir?
Mais que uma feira livre, era uma convenção da liberdade de expressão, liberdade cultural, liberdade de pensamento. Tantas dificuldades, tantas experiências, tantas vivências num só lugar. Realmente, “Feira Livre” é o nome perfeito para ela.
Olhou novamente para a avó e a neta. Viu nelas o passado, o presente e o futuro da barraca, da feira, da cidade...
“Realmente, é bom sair de casa e conhecer melhor o mundo, conhecer as pessoas, para depois, quem sabe, conhecer a mim mesmo.”
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