Os Deuses da Mitologia
160 KAYLA - Liquidificador de Titanic
Notas iniciais

KAYLA
Uma hora eu me segurava no barco, que sacudia para todo lado possível, e no outro o barco virou demais. A água explodiu pela porta, piorando a situação. Foi tanta coisa acontecendo que eu nem tive tempo de processar a pancada na cabeça contra sei lá o que, e o tanto de água que desceu garganta abaixo ou meu cérebro chacoalhando dentro do meu crânio. Bati meu corpo em tudo que havia por perto de forma bem dolorosa quando o chão virou teto e o teto virou chão.
A água continuava a entrar e tudo parecia um liquidificador maluco gigante. Minha cabeça latejava e meu ombro doía muito também depois de bater em sei lá o que. Quando tive um mero segundo no qual algo no meu campo de visão fazia algum sentido, a água já tinha tomado conta da cabine do barco e eu estava de cabeça pra baixo. Aliás, o barco também.
Me arrumei e segurei minha vontade de tossir água que conseguiu entrar na minha boca. Mais água entrava desconfortavelmente pelo meu nariz, como se quisesse forçar o caminho até o cérebro depois de toda aquela confusão, mas eu focava mais na urgência de sair dali. Os outros estavam numa situação tão ruim quanto eu. Mas a parte mais preocupante foi notar um filete de sangue cada vez maior flutuava ao redor da cabeça de Lavínia.
Os restos dos nossos lanchinhos boiavam na minha frente quando eu peguei Lavínia, desacordada, desesperada para sair de lá e carregar ela pra fora também. Com olhos arregalados, Grover colocava a mão sobre a própria boca e nariz, tentando impedir a água de entrar. Hazel parecia sofrer para segurar a vontade de tossir e logo imitou Grover no mesmo instante que Piper agarrou seu braço, pronta para puxá-la para fora dali.
Eu já desesperadamente me perguntava onde estava Percy até que Calon surgiu da porta que levava para a pequena cabine do capitão. Já tinha esquecido dela. Ops. Ela surgiu com uma bolha ao redor do nariz e da boca, claramente uma magia para ajudá-la a respirar.
Eu já tentava puxar Lavínia dali, quando Calon fez bolhas de ar para nós. As bolhas começaram a flutuar na água na nossa direção quando repentinamente Percy surgiu da porta. Ele claramente vinha nos resgatar, mas ficou visivelmente tranquilo quando viu que cada um ganhava sua bolsa particular de respiração.
Eu tossi aliviada quando a minha bolsa de ar chegou, os outros também, mas voltei minha atenção pra Lavínia, ainda desacordada. Não sei se por ter batido a cabeça ou por ter engolido água, ou todas as opções acima.
— Temos que tirar Lavínia da água! — falei, torcendo pra minha voz ser audível no meio da água e através da bolha.
Eu apressadamente checava se Lavínia tinha respiração e batimentos quando Percy falou com a voz estranha por causa da água ao nosso redor:
— Segurem firme! Vou tentar virar o barco e tirar a água dele.
Fiz o que podia para me segurar considerando que tinha que segurar também uma pessoa desacordada. Deitei Lavínia no banco do barco e deitei sobre ela cantarolando Elastic Heart, da Sia, na esperança de curá-la. Foi a primeira música que pensei, espero que meu pai aprove a escolha.
Vinhas criadas pela Calon tentaram nos prender no lugar, cada um deitado em algum lugar, enquanto Percy saiu para tentar nos ajudar. Não prestei atenção em como Calon fez para se segurar, nem olhei mais do que alguns segundos para o resto do pessoal também. Meu foco, enquanto eu continuava a cantar Elastic Heart, era impedir que Lavínia ficasse pior do que já estava e eu também.
Quando Percy começou a movimentar o barco, tudo virou um liquidificador de novo. Meu estômago se revirou, torci pra ter uma câmera escondida em algum lugar para revelar que na verdade estávamos na gravação secreta e surpresa de Titanic 2, mas continuei cantando Elastic Heart num loop do refrão torcendo para Lavínia se curar.
Água sacudia para todo lado dentro daquele liquidificador gigante, na verdade só mexendo de um lado para o outro enquanto Percy tentava conseguir força o suficiente para o virar no meio do caos que devia estar lá fora para ele. Repentinamente, Lavínia acordou com os olhos esbugalhados, assustados e também puxando o ar desesperadamente.
— CALMA! CALMA! — gritei, torcendo pra ela realmente ficar calma — NÃO SE MEXE.
— Q-QUE TÁ ACONTECENDO? — gritou ela, totalmente perdida.
— LONGA HISTÓRIA! — gritou Piper de algum lugar que eu não conseguia vir — SÓ NÃO SE MEXA E SEGURE FIRME!
— SEGURAR FIRME EM QUÊ? — gritou Lavínia.
— EM MIM! — gritei.
— T-TÁ! — gritou Lavínia de volta, segurando o choro na voz e se agarrando a mim.
O barco balançou de um lado para o outro mais vezes do que eu consegui contar, meu estômago pedia socorro, a água balançava e batia contra nós numa confusão enorme. O tanto que o barco virava aumentava cada vez mais, como um brinquedo insano de um parque de diversões com segurança questionável, e então, num empurrão mais forte que qualquer outro interior, o barco conseguiu girar o suficiente para finalmente o chão ser o chão de novo.
Esperei dois segundos para ter certeza de que o barco realmente estaria estável enquanto a água jorrava para fora ou era puxada por Percy. As videiras de Calon se desfez lentamente nesse pequeno tempo que tirei e então, assim que eu estava livre, eu me levantei de uma vez, extremamente tonta, e vomitei no chão.
Nojento, eu sei, mas não fui a única, Hazel também fez sua parte na obra de arte no chão, mas tentei ser rápida e voltar minha atenção à minha paciente.
— Como está se sentindo? Alguma dor? — perguntei pra Lavínia, tentando checar o estado da cabeça dela.
— Só uma vontade de vomitar aumentada pelo seu v- — disse Lavínia antes de vomitar também.
— Ai que nojo… — resmungou Piper, virando o olhar para longe enquanto Hazel continuava a vomitar.
Amarrei apressadamente o cabelo de Lavínia e aproveitei para confirmar se havia algum corte. Nada. Minha música tinha funcionado. Ela fechou a respiração e os olhos e se sentou novamente de forma confortável no banco, ao invés de curvada na direção do próprio vômito.
— Tô bem… tô bem... — resmungou ela.
Realmente convencida que Lavínia estava bem, logo tentei arrumar forças para tentar arrumar Hazel apesar da minha vontade de ficar largada e me recuperando tal como Lavínia. Contudo, Annabeth olhou para mim, com um olhar que dizia “eu cuido daqui”, ao amarrar o cabelo de Hazel firmemente para que não ficasse no meio do vômito. Me deixei esparrar no banco, exausta, tonta, com gosto ruim na garganta, e olhando para Lavínia para certificar de que ela estava bem mesmo.
Bem que uma garrafa d’água fechada poderia ter sobrevivido… mas logo notei… talvez eu também não estivesse afim de mais água.
— TODO MUNDO BEM? — gritou Percy repentinamente ao entrar no barco novamente.
— Vivos. Mas com estômago bem revirado. — respondeu Grover.
— Foi mal. — disse Percy.
— Melhor seguirmos o mais rápido possível. — disse Calon, apressadamente indo para o banco do capitão novamente — Antes que tentem nos afogar novamente!
— Tem razão! — disse Percy logo se virando para ir embora, mas Grover agarrou o braço dele apressadamente.
— Dá pra jogar uma água rápida nessa nojeira aqui rapidinho? — pediu Grover — Se não, a gente vai vomitar até nossas tripas antes de chegar na praia.
Percy rapidamente puxou um punhado d’água do lado de fora e jogou no nosso chão nojento. Tirei o pé apressadamente do chão, desejando silenciosamente um copo d’água para que o gosto ruim na minha boca fosse lavado assim tão fácil também.
Com o chão limpo, continuamos nossa viagem o mais rápido e apressadamente que Calon e Percy conseguia nos levar. O barco pulava pelas ondas raivosas, que ainda não eram tão especificamente raivosas com a gente, mas assim que o deus japonês aí, Susanoo, percebeu que não tinha afogado a gente, o caos ficou específico de novo.
Nos sacudimos para todos os lados possíveis imaginados enquanto Percy e Susanoo travavam aquele cabo de guerra de poderes. Calon tentava ajudar como dava no controle do barco, incluindo nos segurar onde estávamos com videiras novamente que tentavam até proteger a área atrás de nossa cabeça para ao menos batermos a cabeça nas videiras fofinhas.
O barco virou em ângulos perigosos e absurdos, e nós só olhávamos tensos para Hazel torcendo para que ela não vomitasse de novo, pois a chance de o vômito voar pra cima de alguém era muito alta. A cara dela não era muito promissora. Pior parte? Hazel estava na minha frente. Tinha espaço suficiente entre nós duas, mas, com o barco mexendo tanto, eu não confiava na física para me deixar limpa.
Meu coração palpitava cada vez mais rápido conforme a cara de Hazel ficava pior. Meu próprio embrulho no estômago e tontura pareciam irrelevantes. Eu já estava implorando pela praia, quando, com um baque forte que teria nos derrubado e machucado se não fossem as videiras de Calon, chegamos na praia. Com o barco torto, mas chegamos.
E logo em seguida Hazel vomitou, mas eu fiquei felizmente a salvo das gotas de vômitos dela.
Ficamos esparramados, tontos, exaustos, de estômago embrulhado, ali mesmo enquanto Calon e Percy confirmavam que estávamos de fato vivos.
— Não acho que é seguro ficarmos aqui na praia… — disse Percy, preocupado com nossa cara de quem com certeza ainda tinha mais para vomitar.
— Concordo… — disse Annabeth, a primeira de nós a se levantar — Sem falar que estamos com certa pressa.
— Vai voltar para Bali, Calon? — perguntei.
— Vou certificar que não morram. — disse ela — Prometi à Finn.
— Grata… — disse Hazel, com a voz embargada claramente ainda tentando se recuperar.
Notando que ela não parecia muito pronta para continuar a viagem, Calon pegou Hazel nos braços imediatamente enquanto Percy ao menos deixava o barco livre de vômito. Afinal, era emprestado. Saímos praticamente nos arrastando, mas com o máximo de pressa que conseguíamos.
Nos arrastamos pela areia e entramos numa área cercada por plantações. Mas estava tudo silencioso demais. Calon colocou Hazel no chão quando ela se sentiu melhor, e continuamos andando, tentando entender o que acontecia. O ar estava pesado e úmido, com um leve cheiro de sal e algo mais… algo estranho. Olhei para Percy, que franziu a testa.
— Isso não está certo — ele murmurou, apertando o cabo da espada.
— Ali parece ter alguma construção. — disse Annabeth, apontando para o horizonte onde umas luzes solitárias marcavam a noite.
— É na direção que temos que ir também. — notou Hazel.
— Porquê tenho a sensação de que parece fogo? — perguntou Grover.
— Também tive essa impressão. — concordou Annabeth.
Da direção das luzes, começou a vir uma névoa nem um pouco animadora. Outro sinal de que algo não estava certo. Calon, que caminhava à frente, parou de repente. Seus olhos se estreitaram, como se pudesse ver além da névoa que começava a nos alcançar.
Nosso coração ficou tenso, mas continuamos andando ainda assim. A luz… ou fogo, mais a frente começou a se aproximar. Confirmamos que era fogo mesmo. Um carro pegando fogo com chamas bem altas e um apartamento do quinto andar queimando, ambos numa pequena cidade que logo alcançamos. Apesar do fogo, um frio incômodo me arrepiava toda.
Mas não era só o frio que me arrepiava, era também o completo caos da cidade. Bicicletas, carros e motos estavam largados no chão de qualquer jeito, pegando fogo, quebradas, batidas… deixados para trás de um jeito óbvio de uma cidade que ficou vazia por causa da fuga de seus cidadãos. Infelizmente, não só de fuga, mas também de tentativa de fuga. Vários corpos, de diferentes idades, estavam largados das mais diversas formas, das mais grotescas.
A dor tomou conta de nossos corações. Uma pontada doeu no meu peito com a confirmação de que tínhamos chegado tarde demais. Calon, por outro lado, era a pura imagem do ódio.
Com aquele ar pesado, podre e fedendo a um mar carregado de morte forçando entrada nos nossos narizes, cada um de nós apontamos mais as armas em nossas mãos, os nós dos meus dedos chega ficaram brancos. Tínhamos que nos vingar por aquelas pessoas e impedir que outras tivessem o mesmo destino.
— Temos que chegar no templo o mais rápido possível. — disse Piper, já correndo para um carro abandonado — De carro é mais rápido né? Pode nos guiar, Calon?
— Melhor, posso dirigir pra vocês. — ofereceu Calon.
Calon assumiu o volante com pressa e evidente sede de vingança por seus conterrâneos. Tentamos nos acomodar do melhor jeito possível nos assentos que sobraram… não havia muitos jeitos confortáveis de fazer isso. Havia mais pessoas do que bancos. Quando fechamos a porta já com todos dentro, sem nem confirmar se estávamos todos ok, uma luz brilhou no volante e, mesmo sem chave, Calon rapidamente ligou o carro e saiu em disparada a caminho do Templo de Borobudur.
Eu estava numa lata de sardinha no banco de trás com a porta de um lado e Lavínia do outro. Depois dela vinha Grover e Piper se espremendo com Hazel no seu colo. No banco ao lado de Calon, Annabeth ia no colo de Percy. Menor ideia de quantas regras de trânsito já tínhamos burlado nessa viagem, mas claramente ainda estávamos aumentando a lista delas.
Calon corria, passando por sinais, curvas e lojas e casas abandonadas em completo desespero. Pouco mais de meia hora depois de cruzar plantações e vilas, vimos o primeiro grupo de pessoas sobreviventes, e monstros também. Muitos tipos de monstros que eu não conheço e dos mais diversos tamanhos. Todos atacando as pessoas no meio de o que parecia um bairro tranquilo numa pequena cidade com muitas árvores e com casas fofas e confortáveis… que agora estavam em chamas no meio da noite…
As pessoas gritavam, sei lá se realmente vendo monstros de fato, só sei que a reação delas era precisamente de um ataque de monstros. Eles corriam pra todo lado, brigavam por motos que saíam correndo para longe o mais rápido possível tentando fugir do caos que foi instaurado ali.
Um monstro grande, como um ogro vermelho de cara feia, pequenos chifres e kimono ia para cima de uma mãe agarrada ao filho pequeno. A mãe e o filho estavam no chão, chorando, gritando. A perna da mãe estava sangrando e ela tentava convencer o filho a sair correndo, mas ele só chorava, com catarro e tudo, e continuava a se agarrar nela.
Calon acelerou na direção dele, e meu coração se apertou quando vi o que ela queria fazer.
— CALMA! CALMA! CALMA! — gritei, me segurando onde dava.
— TEM JEITOS MELHORES DE SALVAR O DIA! — gritou Piper ao mesmo tempo.
Grover gritou, Lavínia se segurou e fechou os olhos, Annabeth e Hazel se seguraram desesperadamente e foram seguradas com igual desespero. Ainda assim, o baque foi grande quando atropelamos o monstrengo, salvando a mãe e o filho, mas fazendo nosso cérebro sacudir dentro do crânio de novo.
O carro sacudiu mais ainda quando passamos por cima do ogro feios. Mesmo tonta e agradecida por não ter machucado o pescoço, eu olhei para trás em busca da mulher, da criança e do ogro. Eu brevemente vi a mulher se arrastar pra longe, dolorosamente, junto com a criança, mas também vi o ogro. Só que agora ele achava que a gente era um alvo bem mais interessante.
— Ah, legal… — resmunguei com sarcasmo enquanto o ogro começou a correr na nossa direção.
— Tinha como ficar pior? — perguntou Lavínia.
— NÃO DIGA ISSO! DÁ AZAR! — gritou Grover.
— Que besteira. Nada a ver. — respondeu Lavínia.
Mas claro que não era só besteira brincar com a sorte assim. O carro começou a engasgar, pedindo por socorro depois de termos tão bruscamente o batido contra o ogro. E então, desistindo de vez de nós, o carro morreu. E o ogro raivoso continuava a vir na nossa direção da mesma forma que pessoas fugiam e outros monstros tocavam o terror.
Pulamos apressadamente para fora do carro, o ogro gritou alguma coisa num idioma que eu não entendi e outros monstros começaram a focar na gente também. Eram outros ogros como ele, mas de outras cores e tamanhos. Os outros monstros como o pássaro humanoide gigante e as mulheres de vestido branco continuaram aterrorizando a população.
— Já lutaram contra um Oni? — perguntou Calon enquanto lentamente se formava um círculo ao nosso redor.
— Não… — respondeu Annabeth.
— Isso tudo são Onis então ? — perguntou Percy.
— Sim. — respondeu Calon — Eu também nunca lutei.
— Sempre tem uma primeira vez, né? — perguntei, com a flecha em minhas mãos já bem mirada entre as sobrancelhas do ogro, não, Oni, mais perto.
— Quão longe estamos do templo? — perguntou Annabeth, sem tirar os olhos dos Oni.
— Só mais alguns minutos naquela direção. — disse Calon, indicando com a cabeça a direção.
O Oni que irritamos primeiro gritou alguma coisa nesse idioma que eles se comunicavam e os outros começaram a correr na nossa direção, balançando grandes bastões cheios de pretos presos. No menor sinal de movimento do que eu estava mirando, minha flecha saiu do arco e o atingiu em cheio no meio da testa.
Obviamente os demais gritaram com raiva do acontecimento quando meu alvo caiu, com uma flecha no meio da cara. O caos que já estava grande, só aumentou quando também meus amigos e Calon se juntaram no caos. Percy rapidamente notou que o meio fio da rua que estávamos tinha um pequenino córrego passando escondido e ele logo o usou de arma, já que não havia mais água por perto do que isso. Annabeth, Hazel e Lavínia atacavam agilmente com suas armas e se aproveitando das flechas que eu atirava.
Calon se transformou num tigre e invocou seus tigres de ilusões que bem conhecíamos e depois que seus tigres de mentira “cortavam” algum Oni, ele parecia entrar em transe. Piper tentou usar seu charme ao mesmo tempo que atacava, dizia coisas como:
— Vocês não deveriam estar brigando com a gente. Na verdade, deviam voltar de onde vieram
Contudo, os Onis não pareciam ter ligado para o charme dela.
— Meu charme não tá dando certo! — gritou Piper no meio de todo o caos, se juntando na batalha mesmo.
— Eles sequer estão te entendendo? — perguntou Annabeth — Nenhum deu a entender que fala inglês até agora.
— Boa pergunta… — resmungou Piper enquanto outros tipos de monstro se juntavam à bagunça.
— Acho que deveríamos tentar avançar um pouco em direção ao templo! — exclamou Hazel — Não vamos conseguir salvar todo mundo aqui.
— Mas vamos tentar… — disse Percy — Nem que seja no caminho do templo.
Eu acabava com os Onis que Calon prendia no transe. Homens pássaros, com rostos vermelhos, narizes que pareciam… outra coisa… e com roupas de samurai nos atacavam por todos os lados e por cima, um frio de gelar a espinha começava quando tentamos avançar lentamente na direção do templo com Calon nos guiando.
Tentamos como dava. Corríamos, salvamos pessoas que gritavam palavras num idioma que nenhum de nós além de provavelmente Calon falava. O frio ainda assim, com a adrenalina e tudo, só aumentava. Ainda tentava entender o frio que me arrepiava até a nuca quando repentinamente o chão embaixo dos pés de Calon, Piper e Lavínia congelou. Lavínia escorregou e caiu de bunda no chão, Piper quase caiu também, mas esbarrou num Oni preso em alguma ilusão de Calon. Calon, por outro lado, se reestruturou com sucesso e facilidade.
Uma mulher com kimono branco e uma espada de gelo foi na direção de Lavínia, que ainda estava estirada no chão. A mulher estava pronta para fincar a espada dela no peito de Lavínia. Eu e Hazel nos preparamos para salvar Lavínia caso ela não conseguisse se levantar a tempo, mas foi nesse momento que um homem pássaro me agarrou com suas patas de galinha gigantes pelos meus ombros e saiu voando comigo para longe.
Eu gritei e ouvi meu nome ser gritado. Segurei meu arco-e-flecha com firmeza, com medo de ele cair e eu nunca mais achar. Tentei atirar no monstro que acertava Lavínia, mas dada as condições e a dor das garras fincadas nos meus ombros, eu errei. Torcendo para Hazel e os demais conseguirem lidar com a situação (e talvez me resgatar).
— ME SOLTA SUA GALINHA FEIOSA! — gritei tentando mirar meu arco e flecha nele, mas falhando miseravelmente dada a condição que estava.
Ele me xingou… ou assim imaginei… não entendia bulhufas do idioma que ele falava. Mas o tom de voz indicava um xingamento.
— VOCÊ ME XINGANDO AÍ MAS TEM UM PAU COMO NARIZ! ME SOLTA! — gritei, tentando espetáculo nas horrorosas patas de galinha com uma de minhas flechas como se ela fosse uma adaga com a ponta minúscula — SEU PINÓQUIO TARADO!
Eu nem conseguia ver o resto do pessoal lá embaixo, meu coração entrava em desespero ao ver o tamanho da queda que me esperava se eu conseguisse sair dali. Seja lá onde eu estava, repentinamente um esqueleto gigante com globos oculares gigantescos, deixando-o meio cômico ao invés de assustador, se formou. Osso atrás de osso e me encarando intensamente, pronto para me atacar, percebi.
Repentinamente, no entanto, uma lança surgiu do nada, cortando o ar e uma das patas do homem pássaro que me carregava. O homem pássaro gritou, a pata que ainda me agarrava se soltou e eu caí no vazio com a segunda pata, decepada, ainda presa no meu ombro. Sei lá pra onde a lança misteriosa foi mas, tão misteriosamente quanto a lança, repentinamente um pássaro enorme surgiu. Não qualquer pássaro, UMA FÊNIX! Posso não ser uma profissional em outras mitologias, mas UMA FÊNIX acho que consigo identificar. (Ignorar isso se eu errar e na verdade ser outro bicho).
A fênix me segurou no ar. Mais delicada que o homem pássaro anterior, mas ainda dolorosamente. Me sentindo resgatada pela Fênix misteriosa, fiquei mais calma apesar do meu sangue encharcar cada vez mais minha camiseta. O som de gritos e rugidos ecoava ao meu redor, misturando-se com o cheiro de fumaça e a sensação de desespero no ar. No horizonte, o sol começava a dar seus primeiros e tímidos sinais, pronto para transformar aquela noite de caos num dia de caos.
Para melhorar a minha situação, a Fênix me colocou no chão, onde a visão de caos se espalhava diante de mim. Eu estava no meio de quatro pessoas diferentes que, tal como a gente, pareciam tentar salvar aquela vila. Todos eles eram asiáticos, e logo notei que eles tinham poderes. Antes de prestar atenção neles, contudo, dei atenção ao meu ombro que ainda tinha uma garra de homem-pássaro presa. Dolorosamente a arranquei com cuidado e logo comecei novamente a cantar Elastic Heart, numa tentativa de curar os meus dois ombros.
Eu ainda resmungava minha musiquinha curadora quando, para me deixar mais confusa quanto ao que estava acontecendo, a fênix se tornou um cara lindo. Chega gaguejei na música e acabei parando de cantar. Ao menos o pior dos machucados tinha passado, e a dor também.
Agora com menos dor e preocupações, olhei para o pessoal que me rodeava. Todos eles eram claramente asiáticos. Dois homens e três mulheres. O cara-fênix era o único que não lutava, pois estava me encarando com seu olho… sim, só um, o outro estava escondido embaixo de um tapa-olho preto. Ele parecia ter um pouco mais de 18 anos talvez, e tinha cabelos negros e lisos longos amarrados num rabo de cavalo.
— Quem é você? — perguntou ele num inglês super carregado de sotaque chinês.
— Kayla… filha de Apolo. — respondi — E vocês?
— Sou Chéng, filho de Erlang Shen. — respondeu o bonitão.
— Vieram salvar o Templo de Borobudur também? — perguntei e um sorriso apareceu no rosto dele — São os chineses que ouvimos falar!
— Sabia que não estávamos só! — comemorou Chéng — Ouvimos falar de um grupo grande de americanos.
— Sou canadense… — respondi dando de ombros — Mas acho que está falando de nós… apesar de não sermos todos americanos. Acho que uma mistureba de semi-deuses gregos, romanos, nórdicos e magos egípcios é uma descrição muito grande.
Neste momento, um grito estridente cortou o ar. Uma das mulheres, com cabelos longos e um brilho intenso em suas mãos, foi lançada para trás por um ataque de um monstro que mais me lembrava um fantasma. O caos se intensificou ao redor, com monstros atacando sem parar enquanto a garota voltava ao combate com ferocidade.
— Não temos tempo para conversas! — exclamou num inglês melhor uma das meninas que lutavam e impedia os monstros de chegarem até nós, ela atirava fogo pelas mãos na direção do mesmo homem-pássaro que havia me sequestrado e agora voltava por um pedaço meu — Aliás, Yǔ xī, prazer.
— Prazer. Meus amigos estão em algum lugar tentando chegar no templo também. — falei, preparando meu arco e flecha para me juntar aos chineses, que nem sabia todos os nomes ainda.
— Temos mais amigos também. — disse o outro cara que eu não aprendi o nome enquanto as três garotas partiram para cima do esqueleto gigante de antes — Estamos tentando rastrear esse grupo de monstros e Susanoo desde do Vietnã.
— Sabiam desde tão longe assim que iriam atacar aqui e o outro templo na Índia que eu esqueci o nome? — perguntei enquanto atirava nos olhos gigantes e cômicos do esqueletão.
— Não. — disse Chéng, lutando contra Onis com uma lança que reconheci como sendo a lança que me salvou no começo.
— Vamos continuar abrindo caminho para o templo. Podemos encontrar seus amigos lá. — falou o cara sem nome enquanto jatos d’água, controlados por uma das meninas que eu não sabia o nome ainda, atacavam o esqueleto gigante com tanta potência que seus ossos se descolavam e caiam no chão ou em cima das casinhas ao nosso redor.
Com ambos os olhos feridos graças a mim, o esqueleto tinha extrema dificuldade em se defender. Assim, os jatos d’água que aparentemente duas meninas estavam jogando contra ele usando os pequenos córregos no meio da rua tal como Percy antes. Pedaços de madeira e telhas voavam pela força do impacto e tive a impressão que o tanto de gritos de mortais parecia diminuir.
Queria torcer que era por terem conseguido fugir… não pela triste alternativa.
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