Os Deuses da Mitologia
158 HAZEL - Submersos na Ásia
Notas iniciais

HAZEL
Já tinha alguns dias que estávamos viajando no submarino que arrumaram para a gente em Nova Roma. Não era o mais espaçoso e confortável meio de transporte que já tínhamos usado nessas nossas aventuras de salvar o mundo, mas era bom o suficiente. Sem falar que estávamos sem muitas opções para cruzar o longo oceano que separava os Estados Unidos da Ásia. E ele era também rápido o suficiente.
No começo eu passava boa parte do tempo enjoada, enrolada como uma bola nas apertadas beliches do submarino, tão apertadas que eu era a única que conseguia ficar sentada sobre a minha cama. O que certamente era bom para mim, mas colocava em perspectiva a altura do teto e a saúde da coluna de todo mundo.
Como viajávamos por baixo da superfície da água, felizmente logo chegou num ponto que o submarino estava mais estável, então minha barriga conseguiu se recuperar melhor. Mas ainda era meio claustrofóbico, por mais que ao menos tivesse uma mesa no centro do submarino, a qual usávamos para jogar alguns jogos de cartas com um baralho que Piper trouxe. E foi exatamente isso que estávamos fazendo quando Will entrou em contato com a gente um dia… ou noite… já não sabia que horas eram sem conseguir ver o sol e ainda tendo os fusos diferentes para nos preocupar.
— Hey.. como estão as coisas por aí? — perguntou ele na mensagem de Íris.
— Felizmente, sob controle. — respondeu Percy — Sinceramente acho que meu pai tem algum dedo nisso… teve uma hora ontem que pareceu que um bicho não identificável tentou nos atacar, mas outro algo, talvez uma naiade, logo empurrou ele pra longe.
— É bom usar os contatos de vez em quando… — respondeu Nico, logo atrás de Will na mensagem — Falando nisso… temos novidades.
— Por favor diz que é alguma coisa que nos dê um destino específico para irmos além de só “Ásia”... — pediu Annabeth.
— “Ásia” é muita coisa. — lembrei.
— Pior que é. — disse Will — Conseguimos falar com um gênio hoje e pedir umas coisas bem úteis… dentre elas, conseguimos o endereço do tal Finn MacCool… e ele está em Bali, na Indonésia.
— Tanto lugar pra estar... O cara certamente não foi burro de escolher logo um lugar turístico. — disse Kayla.
— Traçando rota para Bali então… — disse Percy, abaixando as cartas dele sobre a mesa antes de deixar o jogo para trás — Não olhem minhas cartas!
Percy se levantou e Annabeth logo o seguiu para arrumar o piloto automático do submarino para Bali. Enquanto isso, Will passava para a gente o endereço mais detalhado e eu prontamente me incubia de anotar o endereço num pedaço de papel… não que fizesse muito sentido no momento saber em que rua de Bali Finn estava, mas certamente foi peculiar que ele estava num hotel.
— A gente aqui, sofrendo pra salvar o mundo, e o cara curtindo férias em Bali? — perguntou Piper.
— Dá pra julgar? — perguntou Grover — Adoraria passar uma temporada num lugar cheio de natureza… um pouco mais que Bali de preferência.
— Deve ter muito turista lá. — lembrou Piper.
— O que vamos perguntar pra ele? — perguntei.
— Meu pai ainda está vindo com… vocês sabem…o livro… — disse Will — Ele disse que tem tentado achar o que precisamos lá, mas não tem sido fácil, especialmente porque ele não sabe egípcio.
— Estávamos falando com Anúbis há pouco e ele disse que o livro é grande e complicado de se orientar, talvez perguntar pro Finn onde está o feitiço… — disse Nico — ou os feitiços… que precisamos, seja uma boa. E não podemos descartar a possibilidade de as coisas estarem magicamente protegidas de alguma forma no livro.
— Perguntar qual as próximas pirâmides que vão atacar é uma boa ideia também. — falei.
— De resto, tudo bem por aí? — perguntou Lavínia.
— Sim… eu acho… — disse Will, dando de ombros — Fomos atacados quando chegamos mas até agora não nos acharam. Amanhã de manhã vamos resolver o obelisco que tem por aqui e… testar umas coisas…
— Que coisas? — perguntou Grover.
Will olhou ao redor, como se para confirmar que ninguém estava ouvindo ele, e então sussurrou para gente.
— Anúbis virou mortal… sei lá como ele e a Sadie estão com isso tudo. — admitiu ele — Estão lá dentro da carruagem que viemos até aqui. Não sei bem como eles estão… Deve ser uma mudança grande né?
— Nossa… Anúbis mortal? — perguntou Grover enquanto eu estava meio surpresa também — Isso não é ruim pra gente?… sem querer ser meio egoísta.
— Sei lá. — admitiu Will — Por isso amanhã vai ser uma boa chance pra gente testar também.
— Ele não parece tão preocupado… — disse Nico, dando de ombros — E ele ainda me dá também uma sensação de morte… Acho que está tudo bem. Ou ao menos na medida do possível.
— De toda forma, talvez não seja uma boa sair espalhando essa novidade demais também. — disse Grover, com cara de preocupado — Podem querer se aproveitar disso.
— Mesmo se não se aproveitarem... era bom ter um deus do nosso lado. — disse Kayla, suspirando.
— Tem razão. — concordou Lavínia.
— Fica entre nós então… — disse Nico, que então parou e olhou para o lado por um momento, para algo fora da chamada de Íris — Ah, Sam está chamando para vermos quem vai ficar de vigia a cada momento da noite. Amanhã a gente conversa.
Com a mensagem de Íris terminada, esperamos Annabeth e Percy arrumarem o curso do submarino para podermos voltar ao nosso jogo de cartas. Eu não estava tão ansiosa para voltarmos, eu estava perdendo. Annabeth e Percy já estavam começando a se sentar quando o submarino sacudiu violentamente e soltou um barulho preocupante.
— O que é isso? — perguntou Grover com a voz subitamente ficando mais aguda.
— Não sei. Mas não parece bom. — respondeu Annabeth prontamente correndo de volta para o painel de controle do navio junto com Percy.
Preocupados, nós largamos as cartas para trás e fomos atrás deles. Tínhamos recebido algumas instruções sobre como o submarino funcionava, ainda assim Grover logo pegou o manual de instruções que estava largado ao lado enquanto as luzes começavam a piscar, alarmes soavam e números que pouco faziam sentido para mim rodavam no painel do submarino.
— Isso não era a profundidade? — perguntei apontando para um número que só aumentava — Era pra estarmos indo cada vez mais fundo?
— Não. — respondeu Annabeth prontamente.
— Eu não tô gostando disso. — choramingou Grover.
— Não acho que alguém aqui esteja. — completou Lavínia.
— SOBE ESSA PORCARIA! — gritou Piper.
— Porquê tinha que ser logo um sumarino? Não podia ser só um barco mesmo? — reclamou Kayla, pensando justamente a mesma coisa que eu.
Estávamos praticamente falando um por cima do outro tamanho era o desespero. Lembrar que estávamos cercados de água não ajudava em nada. Não havíamos descido demais no começo da viagem, mas agora o submarino estava claramente discordando de nossa decisão enquanto descia cada vez mais a ponto de eu sentir o chão se inclinando sob meus pés. O alarme soando explodia em meu ouvido e a luz vermelha piscando deixando tudo ao nosso redor avermelhado era desesperador. Minha cabeça latejava.
Percy começava a desesperadamente puxar o submarino para a superfície novamente quando um jato d’água explodiu da beirada de uma das poucas janelas que tínhamos. Desesperados, fomos tentar tapar o buraco como dava. Eu corri imediatamente para ele junto com Piper e Kayla, e tentamos usar nossas mãos mesmo para impedir que a água entrasse no submarino. Não era a solução mais inteligente, mas não havia soluções inteligentes.
— EU SUBO O SUBMARINO, VOCÊ DEIXA A GENTE SECO! — gritou Annabeth para Percy enquanto outro jato d’água explodia de outra beirada da janela logo ao lado da nossa.
Annabeth e Percy trocaram de lugar enquanto eu torcia para a janela aguentar o suficiente para chegarmos na superfície. Percy correu para o nosso lado e com uma ajuda muito mais inteligente para lidar com água, eu senti a água fazendo menos força em minha mão conforme Percy usava seus dons para fazer boa parte do trabalho. Lavínia e Grover chegaram tentando ajudar com a água entrando também colocando a mão onde água começava a pingar ameaçando o aparecimento de outro jato d’água em outra janela. Meu coração palpitava no mesmo ritmo dos alarmes irritantes, meu desespero fazia o volume deles parecer cada vez maior e tudo parecer mais vermelho.
Parecia estúpido depois de tanta coisa que passamos, morrer porque um submarino resolveu que não queria terminar a viagem. Eu sentia o submarino lentamente subindo, mas a água entrando ainda era uma preocupação muito grande. Primeiro que com água demais dentro o submarino não ia boiar de forma alguma. Segundo que nem todo mundo ali dentro conseguia respirar dentro da água.
— QUANTO FALTA? — gritei.
— TÁ QUASE! — gritou Annabeth de volta.
A janela então explodiu de vez na minha cara, fazendo cortes na minha bochecha e braços e deixando a água entrar com tanta força que me empurrou para trás. Piper e Kayla cairam junto comigo enquanto a água tentava nos afogar. Percy prontamente decidiu dar atenção total à nossa janela rebelde e usar seus poderes para deixar a água do lado de fora. Eu me sentei e tossi violentamente com a certeza de que tinha engolido água. Ao meu lado, Piper e Kayla se recuperavam da mesma forma.
Apesar dos esforços de Percy, a água continuava a entrar, mesmo que tivesse diminuído consideravelmente a quantidade que entrava.
— ANNABETH! — gritou Grover desesperado, tampando um jato d’água com a mão.
— TÁ QUASE! — gritou ela puxando o volante do submarino com o máximo de força que ela conseguia fornecer.
De repente, com a mesma rapidez que a água entrou, o sol chegou no submarino quando ele finalmente chegou na superfície da água. Percy suspirou aliviado diante da súbita necessidade de fazer menos força contra a água, mas o movimento das ondas do mar ainda ameaçava jogar um pouco de água para dentro do submarino.
Respiramos aliviados com o sol e o oxigênio entrando mesmo que a situação ainda não fosse a melhor de todas. O fato de estarmos na superfície nos deu tranquilidade o suficiente para lidar com a situação. Eu, Kayla e Piper cuidamos dos nossos ferimentos, Percy jogou o máximo de água possível pra fora e logo todos tentamos diminuir o tanto de água que entrava em decorrência do balanço do mar como podíamos. Nada que uma fita isolante largada na dispensa do submarino e os cacos de vidro grosso que um dia foram a janela não pudessem resolver.
— Então.. e agora? — perguntou Lavínia — Estamos no meio do mar.
— Nem tanto… — disse Annabeth — Se conseguirmos um jeito de irmos para sudoeste, vamos chegar na Indonésia ou em alguma das ilhas pequenas que ficam no meio do caminho.
— Felizmente conseguimos fazer boa parte do caminho até a Ásia então… — falei — Mas como vamos completar a parte que falta do caminho? Acha que o submarino aguenta levar a gente assim, pela superfície?
— Podemos tentar… — respondeu Annabeth.
— Só não deixe entrar água demais e não deixe ele afundar. — falou Piper.
— Eu cuido da primeira parte. — respondeu Percy — Se continuarmos na superfície, fica mais fácil fazer a primeira parte e a segunda também.
— O submarino tá insistindo pra ir pra baixo…tive que puxar mais do que o normal para ele querer ir pra cima. — disse Annabeth — Vai ser cansativo.
— Podemos revesar. — disse Grover — Deixa comigo dessa vez.
E assim, aos trancos e barrancos nossa viagem continuou pela superfície, já que era menos água para lidar. Mas também significou que eu logo comecei a ficar enjoada, já que ir pela superfície significava que o submarino estava balançando bastante. Logo me vi abraçada a um balde e sem a menor noção de quanto tempo estava se passando.
Podia ter se passado 15 minutos, mas pra mim pareceu uma eternidade. Já não via a hora de checar em terra firme quando o leve tremor do motor funcionando, parou. Eu ergui a cabeça e vi que estava tão focada no meu balde que nem tinha notado que agora era Piper quem tentava nos manter na superfície controlando o leme, ou volante, sei lá, do submarino.
— E… acho que o motor morreu… — disse Piper.
— Tenta ligar de novo… — sugeriu Lavínia, se agarrando a uma centelha de esperança.
— Falta muito? — perguntei enquanto elas tentavam fazer o motor ligar novamente.
— Estamos quase na Indonésia, mas não quase em Bali… — respondeu Annabeth, olhando para o nosso GPS.
— Ao menos uma boa notícia. — comemorou Kayla sem muita alegria na voz.
— Eu tenho uma ideia… — disse Percy — Se continuarmos reto, chegamos em terra firme pelo menos?
— Sim… — respondeu Grover — No que está pensando?
— Vou tentar ir empurrando o submarino até lá. — sugeriu Percy — Só fiquem de olho se tiver muita água entrando.
Certamente tinha suas utilidades de ter um filho de Poseidon numa viagem marítima. Percy saiu pela escotilha do submarino e ficou em pé sobre ele. Controlando um pouco as águas pra deixar o submarino levemente inclinado para poupar a janela destruída e remendada, de ameaças da água Percy se colocou como nosso motor. Grover ficava perto da escotilha aberta, lhe informando sobre a situação de água dentro do submarino e Piper constantemente atualizando a direção que Annabeth via no GPS. Movidos ao motor Percy Jackson 2000, recomeçamos a viagem com o submarino lentamente começando a andar. A velocidade foi aumentando conforme Percy ia pegando o jeito em não deixar a gente virar nem deixar entrar muita água nas falhas acumuladas que o submarino já exibia. Eu logo vomitei novamente no meu fiel amigo balde ao ver que a viagem ainda seria longa para mim.
O sol começava a se pôr quando bruscamente o submarino bateu na areia.
— Chegamos… Não sei bem onde, mas em algum lugar. — disse Percy, visivelmente cansado colocando a cabeça para dentro do submarino pela escotilha.
— Não me importa. Só quero terra firme. — resmunguei.
Pegamos as nossas coisas e fomos para a praia. Eu, no caso, me arrastei para a praia, ansiosa por terra firme. Praticamente me joguei na areia, tal como Percy, mas ele era por cansaço, eu era por ter passado horas colocando tudo o que tinha no estômago pra fora até não sobrar nada.
— Ok… onde estamos? — resmungou Percy, sentado na areia.
— O GPS estava falando que era Badjo Kima, na Indonésia. — respondeu Annabeth.
Olhei ao redor, e estávamos no que parecia ser uma parte esquecida e escondida de uma praia de areias escuras ao lado de uma pequena vila de aparência humilde.
— É muito longe de Bali? — perguntou Grover.
— Podemos ficar aqui um tempo descansando e continuar… — sugeriu Percy — Só um 5 minutos…
— Aceito todos os minutos que aceitarem. — falei.
— Não sei quanto tempo levaria no ritmo que estávamos… — disse Annabeth — Mas estamos quase, de certa forma. Essa ilha que estamos da Indonésia é meio grande. Na outra ponta dela ainda teríamos que cruzar o mar e então chegaríamos na ilha de Bali.
— Será que tem aeroporto? — perguntou-se Piper — Podemos tentar arrumar um avião se for realmente perto assim. Deve ser bem mais rápido… e menos cansativo. Bali com certeza tem aeroporto.
— Aí teríamos que deixar o submarino para trás. — lembrei.
— Ele já não está funcionando. — respondeu Lavínia.
— E não sei se gosto da ideia de usar nossa sorte do dia, que não está tão boa, pra andar de avião. — opinou Kayla.
— Podemos tentar arrumá-lo em algum lugar… — sugeri — Teoricamente Finn sabe de tudo se chupar o dedo né? Ele pode nos ajudar a consertar. Precisamos de algum meio de transporte para continuar ou ficaremos ilhados aqui.
— Certo, só vou comer alguma coisa e olhar o mapa pra entender então onde está Bali. — disse Percy — Eu consigo.
Tínhamos trazido conosco alguma comida de Nova Roma que, a essa altura, já não estava em grande quantidade, especialmente a água. Então, enquanto Percy descansava e meu estômago se preparava para o round 2, Piper, Kayla e Lavínia foram até a cidadezinha arrumar alguma comida extra.
Depois de nossa pequena pausa, na qual me recusei a comer, continuamos nossa viagem. Demos a volta na tal ilha numa velocidade que eu bem queria que fosse mais rápida. Estava com fome e ao mesmo tempo enjoada. Mas, felizmente, horas depois, eventualmente chegamos em Bali.
Batemos na areia tal como na primeira parada, mas dessa vez Percy teve que ser praticamente carregado para a praia de tão cansado que estava. O lugar que estávamos agora era totalmente diferente do de antes. Lentamente me permiti comer enquanto olhava o lugar. Era como se tivéssemos chegado numa ilha deserta envolta pela natureza… se não fosse a casinha que eu conseguia ver na mata mais além numa parte bem mais alta.
— Você foi muito bem. — disse Annabeth para Percy, se aproximando para lhe dar um beijo na testa enquanto ele estava largado na areia.
— Valeu. — respondeu ele.
Eu sentia saudade de Frank.
— Ok… chegamos em Bali… como chegamos no hotel do cara? — perguntou Grover — Saímos perguntando por aí?
— Podemos tentar arranjar uma carona… — sugeriu Piper.
Quando nossa energia se restaurou o suficiente, escondemos o submarino entre as matas e fomos deixando a praia para trás, o que significava subir uma trilha de terra bem inclinada. A mata se fechou ao nosso redor, nos dando a sensação de estar entrando numa floresta no meio da noite, e isso não era muito agradável. Não era sempre que se estava numa situação em que você tinha medo de que monstros e animais pulassem em cima de você do nada. Um dos dois já seria problema o suficiente.
Depois de tanto subir a grande ladeira, com as pernas já doendo pelo esforço, logo nos vimos finalmente perto de algumas casas. Algumas eram inclusive claramente casas de temporada para turistas. Afinal, as pessoas que vimos em algumas eram claramente turistas, ou no mínimo não eram da Indonésia. Fomos até uma casa com um amontoado de meia dúzia de motos paradas na frente da casa. Uma mulher e um cara conversavam do lado de fora da casa, cada um com uma latinha de bebida, quando nos aproximamos.
— Com licença… — disse Piper, se aproximando do casal, claramente torcendo para eles saberem inglês — Podem nos ajudar? Estamos perdidos procurando nosso hotel. Nossa internet não está funcionando hoje… Se puderem pesquisar por favor por nós.
— Bem… eu posso tentar… — respondeu a mulher com um sotaque australiano — Qual o nome dele?
— Recanto da Areia Esmeralda. — respondeu Annabeth mostrando o pedaço de papel que tínhamos anotado o endereço que Will nos passou — Temos aqui o endereço…
— Deixa comigo. — disse a mulher prontamente pegando o celular dela e logo tentando achar o hotel pelo nome e endereço — Parece esse daqui… é bem longe né? Acho que vocês erraram bastante o caminho pra estarem aqui andando perdidos.
— É bem no meio da ilha… — completou o cara, também australiano, se aproximando para ver a tela do celular da mulher.
— Mas é só seguir reto aqui até a terceira encruzilhada — disse a mulher apontando o caminho — Vai demorar pra chegar nessa encruzilhada mas, quando chegar, vocês pegam o caminho que vai estar à direita de vocês. Vai reto outra eternidade e uma hora vão chegar lá. Parece ser cheio de pousadas por lá.
— Vocês não se importariam de nos emprestar as suas motos para irmos até lá né? — perguntou Piper, imediatamente usando o charme na voz, como bem notei — É claramente longe demais para irmos andando… Depois te devolvemos…
— C-Claro.. — gaguejou o homem, claramente confuso colocando a mão no bolso e nos dando a chave de sua moto enquanto a mulher fazia o mesmo — É a azul…
— E a minha é a vermelha… — falou ela.
— Valeu. — respondeu Piper, imediatamente pegando as chaves dos dois e indo até as motos.
— Nós vamos mesmo devolver depois né? — perguntei, aos sussurros.
— Bem.. espero que sim… — respondeu ela de volta, jogando a chave da moto azul para Annabeth.
— E mais importante ainda, você sabe dirigir? — perguntou Lavínia.
— Eu me viro. — disse Piper, sentando na moto vermelha enquanto eu fazia as contas.
— Precisamos de mais uma moto ou vamos tentar enfiar quatro pessoas em cada moto. — falei.
— Eu vou devagar… — prometeu Piper — e vamos bem grudadas.
Eu, Kayla e Lavínia nos entreolhamos, e rapidamente corremos para a moto de Piper. Nenhuma de nós queria ficar no restinho de moto no final. Mas eu cheguei primeiro, Kayla em segundo, então o posto sobrou para Lavínia. Na outra moto, a escolha foi mais democrática e Percy, já exausto por servir de motor de submarino, acabou ficando no meio enquanto Annabeth dirigia e Grover ia no final da moto.
Piper cumpriu a promessa dela. Ela foi devagar. E Annabeth também. Na verdade, elas no começo foram extremamente devagar, enquanto pegavam o jeito em como se pilotava uma moto com tanta gente em cima. Conforme elas foram pegando o jeito, elas foram indo mais rápido enquanto o resto de nós se espremia no espaço disponível da moto. Eu sentia Kayla, logo atrás de mim, tentando não deixar meu cabelo entrar na boca dela, mas falhando miseravelmente.
Seguimos pela ilha, abrindo espaço pela mata, casas de habitantes e hotéis dos mais diversos níveis e quantidades de estrelas, mas todos com certo charme. Motos eram claramente o meio de transporte mais comum ali, afinal passamos pelo total de zero carros e pelo menos 5 motos mesmo no meio da calada da noite. Mais ou menos duas horas depois, com eu já cansada e com a bunda doendo, Piper e Annabeth pararam de frente a um pequeno hotel com um grande letreiro em cima com letras verdes sobre o fundo natural da madeira escrito “Retiro da Praia Esmeralda”.
— Deve ser aqui… — disse Annabeth — Pelo menos é bem óbvio.
Exaustos, com Kayla tirando fio de cabelo meu da boca, Lavínia aliviada pelo chão firme e minha barriga doida por uma noite bem dormida numa cama presa ao chão, olhamos o hotel diante de nós. Era um hotel pequeno e fofo. Basicamente uma casa grande no meio da mata com vários detalhes coloridos bem indonésios. Parecia como uma grande casa de aluguel de temporada para aproveitar a natureza e a arquitetura local.
Entramos timidamente no hotel e, bem como esperado, demos de cara com a recepção. Mesmo já sendo noite, uma mulher estava sentada no balcão de madeira da recepção. Pelas feições, chutaria que ela era indonésia mesmo, tinha o cabelo grisalho preso num coque e usava um terno lilás. Preso no terno, estava uma plaquinha com o nome dela, escrito “Calon”. Ela parecia ter cerca de 50 anos e não tinha um rosto muito simpático. Ainda assim, ela sorriu para gente quando entramos.
— Olá, bem vindos ao “Retiro da Praia Esmeralda”. — disse ela — Vocês tem uma reserva?
— Na verdade, estamos procurando por um cara chamado Finn MacCool. — falou Lavínia.
— Não temos ninguém aqui com esse nome. — respondeu ela, mas não deixei de notar como as sobrancelhas dela se mexeram levemente diante do nome.
— Tem certeza? — perguntou Grover, claramente decepcionado — Não pode confirmar entre os hóspedes?
— Eu saberia se tivesse alguém com esse nome. — respondeu ela novamente — Não temos muitos hóspedes no momento. É baixa temporada.
— Engraçado… — falei — Porque tive a impressão que você reconheceu o nome. Ao menos sua expressão pareceu mudar estranhamente.
Me arrependi de ter falado isso. Num piscar de olhos tudo ficou escuro e estranho, como se a lâmpada que iluminava a recepção tivesse sido apagada, e o mundo tivesse apagado, e o tempo tivesse congelado. A recepcionista sumiu, meu coração ficou tenso e imediatamente peguei a minha espada, a tempo de me defender de um enorme tigre que surgiu repentinamente na minha frente.
Na reação, coloquei minha espada na minha frente e ela entrou bem na boca do tigre,na horizontal. O canto da boca dele começou a cortar levemente, mas ele imediatamente usou suas garras para tentar me arranhar nas pernas. Me afastei como podia, a garra dele pegou de raspão, rasgando minha calça e arranhando um pouco a minha perna no momento que eu pulei para trás. Piper se aproximou pronta para fincar a adaga no tigre de cima para baixo, mas outros dois tigres apareceram do nada, literalmente como mágica.
Um dos tigres pulou em cima de Piper, forçando-a a rolar para longe. O segundo pulou em cima de Percy, que já estava indo também me resgatar. Kayla atirou uma flecha, mas ela simplesmente passou direto. Nem consegui entender se ela acertou ou não o bicho. Meus passos para longe do tigre que me atacavam e a tentativa de tirar a espada da boca dele, cortaram a boca dele um pouco. Ele reclamou de dor um pouco, mas logo pulou na minha direção novamente. Tentei desviar do tigre, mas um outro, um quarto tigre, apareceu do meu lado, pulando na minha direção. Outros apareceram e repentinamente cada um de nós tínhamos um tigre para lidar.
Meu novo adversário felino se ergueu nas duas patas traseiras, pulando na minha direção e exibindo toda sua altura e tamanho no processo. Eu rolei para longe. A luta de todos nós já ocupava todo o espaço da recepção. Pulei por cima da bancada da recepção quando me empenhei mais em fugir do tigre que me caçava. O que eu não esperava era que ele iria conseguir pular por cima da bancada com até mais facilidade do que eu.
Ele ficou novamente empenhado em me arranhar, mas não parecia tão interessado em me morder quanto o primeiro tigre. Me empenhei em desviar e parar as patas com minha espada e logo notei algo estranho… minha espada passava direto pelas patas dele assim como as patas dele passavam direto por mim. Com o coração palpitando e com medo de me arrepender de minha decisão de fazer um teste arriscado, eu parei de me defender e comprovei exatamente isso. O tigre simplesmente passava direto. Me agachei atrás do balcão da recepção, deixando o tigre intocável me atacar, enquanto confirmava na minha perna arranhada que sim, o primeiro tigre tinha de fato me arranhado mais cedo. Mas aquele segundo… aquele parecia ser só uma ilusão.
— Gente! Os tigres são.. — comecei a gritar, para alertar os outros, embora soubesse que logo eles notariam o mesmo, se é que não notaram já, especialmente Annabeth.
Contudo, não consegui terminar de dar meu aviso, pois o chão se abriu aos meus pés e caí no meio da mais completa escuridão.
Gritei. Não havia nada nem ninguém ao meu redor. Só a escuridão completa. Caí de mal jeito numa superfície igualmente negra com um palmo de água. Pela altura da queda, era para eu ter me machucado muito mais, mas nada necessariamente doía. Diante de mim, surgiu repentinamente a recepcionista. Só que agora ela estava diferente. Não estava mais arrumada como uma recepcionista, seu cabelo estava solto e ia para todos os lados e bem pra cima, pedindo desesperadamente por um tratamento capilar. Seu rosto estava bem menos simpático do que antes, com olhos esbugalhados e maquiagem branca e vermelha desenhando padrões pelo rosto e principalmente ao redor dos olhos. O terno lilás também não estava mais lá, agora ela vestia um vestido vermelho, branco e dourado.
— O que quer com Finn MacCool? — perguntou ela sem qualquer pingo de paciência.
— Só algumas perguntas… Não queremos fazer nada de mal a ele. — respondi, me erguendo e segundo a espada firme em minhas mãos.
Numa velocidade absurda, ela logo estava na minha frente, segurando meu queixo sem muita cerimônia e delicadeza, e me forçando a olhar para ela. Vinhas cresceram magicamente do chão e se agarraram aos meus membros, me impedindo de me mexer.
— Que perguntas? — perguntou ela.
— Não sabemos direito ao certo… — respondi — Precisamos de umas localizações de pirâmides sendo atacadas e mais coisas sobre magia… e talvez como consertar um submarino artesanal. Estamos tentando salvar o mundo…
Ela me olhou e eu senti que de alguma forma mais profunda ela estava avaliando se o que eu dizia era verdade ou não. A situação logo não me pareceu uma de lutar contra a recepcionista, mas sim de tentar convencê-la de que não tínhamos más intenções.
— Como descobriu esse lugar? — perguntou ela.
— Uns amigos nossos perguntaram para um gênio em Istambul. — respondi — Ele nos deu esse endereço.
Ela largou meu queixo dolorosamente, me arranhando com largas unhas no processo. A recepcionista então sumiu de lá, me deixando sozinha no meio da escuridão, presa por vinhas desconfortáveis, à espera de alguma mudança ou ideia milagrosa de como escapar.
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