Os Desastres de Mike
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Qualquer um que tivesse sido seu trabalho ele o abandonara, mudara de profissão e passara a ensinar na rede pública, no primário: era tudo que até então sabíamos dele.
O professor era grande, magro e silencioso de ombros retraídos, usava paletó curto demais, óculos sem aro e sim ele usava óculos daqueles quadrados, da época de vovó, tinha um nariz grosso. E eu era atraído por ele, não por amor, mas pelo seu silêncio e pela paciência controlada que ele tinha de nos ensinar, e que eu ofendido, adivinhei. Passei a comportar-me mal na sala, falava muito alto, cutucava com os colegas, interrompia a aula com piadinhas, até que ele vermelho se levantava e dizia:
– Cale-se ou expulso o senhor da sala!
Ferido, orgulhoso, com raiva, respondia com desafio: pode mandar! Ele não mandava se não estaria me obedecendo. Mas eu o exasperava tanto que tornava ser doloroso pra mim ser o objeto doloroso daquele homem que de certo modo eu amava. Não amava como um homem que eu seria um dia, amava-o como uma criança que tentava desastradamente tentava proteger aquele adulto. Ele me irritava. De noite antes de dormir ele me irritava. Eu tinha 11 anos e pouco, dura idade como uma berinjela. De manhã ao atravessar os portões da escola, puro como eu ia com meu café com leite e com a cara lavada, era um choque deparar em carne e osso como o homem que me fazia devanear por um abismal minuto antes de dormir. Foi um minuto apenas, mas em profundidade parecia ser um século de doçura. De manhã – como se eu não tivesse contado com a existência real daquele que me desencadeara meus negros e obscuros sonhos de amor – de manhã diante dele, com seu paletó curto, em choque eu era jogado na vergonha, e na assustadora esperança. A esperança era meu pecado e meu medo maior.
Cada dia renovava-me com a mesquinha esperança e a grande luta que eu fazia pela salvação daquele homem. Eu queria/quero o seu bem, e em resposta ele me odiava, brigava comigo. Contudo eu me tornara seu tormento e ao mesmo tempo um demônio, símbolo do inferno que devia ser para ele ensinar aquela turma de preguiçosos e desinteressados. Pra mim tornara um prazer já terrível ao ponto de não deixá-lo mais em paz. O jogo como sempre, como sempre, me fascinava. Sem saber
que eu obedecia a velhas tradições, mas com uma sabedoria com que os ruins já nascem – sabe aqueles ruins que roem as unha de espanto –, sem saber que obedecia a uma das coisas que mais acontecem no mundo, eu estava sendo a prostituta e ele o santo. Não, talvez não seja isso. As palavras me antecedem e me ultrapassam, elas tentam me modificar, e se não tomo cuidado será tarde demais: menos, não era apenas isso. Minha mãe disse que tapete é feito de tantos fios que não não posso me resignar a escolher ou seguir um fio só; meu enredo vem de uma história que é feita de muitas histórias. E nem todas posso-lhes contar – uma palavra mais verdadeira poderia ser ecoada de eco para eco, como se pudesse desabar montanhas, ou tirar o gelo lá do alto delas. Assim, pois, não vos falarei no sorvedouro que havia em mim enquanto eu devaneava antes de adormecer. Se não eu mesmo terminarei pensando que era apenas macia voragem o que me impelia para ele, esquecendo minha desesperada abnegação. Eu me tornei o seu sedutor, dever esse que me impusera. Era de se lamentar que tivesse caído em minhas mãos erradas a tarefa de salvá-lo pela tentação, pois de todos os adultos e crianças daquele tempo eu era provavelmente o menos indiciado. “Ele não é flor que se cheire”, como dizia nossa empregada. Mas era como se, sozinho com um alpinista paralisado pelo terror do precipício, eu, por mais inábil que fosse não poderia ajudá-lo a descer. Por mais arriscado que fosse o meu lado, eu era obrigado a arrastá-lo para o meu lado pois o dele era mortal. Era o que eu fazia, como uma criança importuna puxa um grandalhão pelo aba do paletó curto. Ele não olhava pra trás, não perguntava o que queria, e livrava-se de mim. Eu continuava a puxá-lo pelo paletó, meu único instrumento era a insistência. E disso tudo ele só percebia que eu lhe rasgava os bolsos. É verdade que nem mesmo eu sabia ao certo o que fazia, minha vida com o professor era invisível. Mas eu sentia que meu papel era ruim e perigoso: impelia-me a voracidade por uma vida real que tardava e, pior que inábil, eu também tinha gosto em lhe rasgar os bolsos. Só Deus perdoaria o que eu era porque só Ele sabia do que me fizera e para o quê. Eu me deixava, pois ser matéria dele, mas pela vida crua e cheia de prazeres: eu era um adorador. Aceitava a vastidão do que eu não conhecia eu confiava em mim. Seria para as escuridões da ignorância que eu seduzia o professor? E com o ardor de um Padre na cela. Padre alegre e monstruoso, ai de mim. E nem disso eu poderia me vangloriar: na classe todos nós éramos igualmente monstruosos e suaves, ávida matéria de Deus, ou não?
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