Os Códigos Romênicos - A Descoberta Do Poder
4 Capítulo 3
Rio de Janeiro, Brasil, 2010
Novamente acordei assustado, engasgando e com falta de ar, como se tivesse acabado de vivenciar o sonho, minha cabeça a ponto de explodir e uma vontade enorme de vomitar. A cada dia o sonho parecia mais real e desta última vez eu podia sentir a fumaça densa entrar nos meus pulmões. A sensação desesperadora de parecer estar afogando, com a diferença que não era água que inspirava.
Minha cabeça latejava. Estava difícil de pensar. Mas eu queria saber o porquê eu estava tendo aqueles sonhos. Qual era a explicação para aquilo tudo. Uma explicação plausível de preferência. Meus pensamentos rodopiavam dentro da cabeça, e em meio à confusa, me lembrei de uma conversa que tive com Cesar assim que os sonhos começaram.
— Já pensou que talvez estes sonhos possam ser na verdade lembranças? — ele me disse na época.
— Lembranças? Não pode ser. — respondi cético. — Nunca vivenciei nenhum acontecimento desse tipo.
— Talvez possam ser lembranças suprimidas pela mente. Não lembro onde foi, mas já li que quando alguém passa por um fato traumático, o cérebro pode bloquear as lembranças em prol da saúde.
— Acho difícil algo dessa magnitude ter acontecido e eu não ter qualquer lembrança.
Enquanto me lembrava da conversa, agora ela parecia fazer sentido, mas ainda assim era absurda demais para ser verdade. Liguei a televisão, com o intuito de me distrair. O canal passava um jornal que reprisava as notícias da noite passada. A repórter começou a relatar uma noticia que comecei a me interessar.
O presidente brasileiro Raul Cardoso fechou nesta manhã uma negociação com o presidente russo Yvan Petróviski para o que esta sendo entendido como um acordo de guerra contra a China. A negociação também confirma a troca de armamento militar entre os exércitos brasileiro e russo. Os especialistas se mostraram preocupados e afirmaram que tal negociação se mostra totalmente absurda claramente perigosa, uma vez que a China, até então parceira do Brasil, pode não ver esta situação com bons olhos, podendo até resultar em um confronto entre os países levando-se em consideração o histórico do país. Os especialistas afirmam ainda que em caso de uma guerra assolar, o Brasil estaria em clara desvantagem, frente ao poderio do país asiático. A população brasileira e russa repudiou as ações dos dois governos. Massas de pessoas alarmadas se concentram nas respectivas sedes dos dois governos, em protesto a aliança perigosa feita.
Este não é o primeiro acontecimento estranho envolvendo o presidente russo, o que acabou gerando suspeitas e questões entre a população russa sobre o porquê do comportamento diferente do governante. Fanáticos russos levantaram diversas teorias conspiratórias, e entre as mais comentadas estão a de que o presidente russo está sendo controlado por uma organização. E essa organização seria o mesmo grupo terrorista que já aterrorizou o país, mas foi tida como extinta. E não é a primeira vez que este grupo esta entre as conversas no país. Há quem diga que o grupo foi também o responsável pela dizimação da Dinastia Romanov e o término do reinado dos czares, na fatídica noite em que o palácio Romanov foi bombardeado por mísseis matando a todos, fato que entrou para a história do país e do mundo e que é famoso principalmente pela crença de que houve um sobrevivente da Dinastia. O corpo do filho mais novo do Czar nunca foi encontrado. O que alimenta as crenças do povo russo de que a Dinastia não tenha acabado e que um dia o descendente da família irá aparecer e libertará o país dos Avalons.
Resta a todos nós brasileiros ficarmos na espera que este acordo não desencadeie conflitos contra a China, que sabemos detém de grande conhecimento e armamento nuclear.
A repórter terminou o relato e a apresentadora do telejornal apareceu comentando a notícia, mas eu não sabia o que ela falava, porque já não prestava mais atenção à televisão. Minha mente pensava apenas em uma coisa: na mulher dos sonhos me escondendo, ao som de explosões ao fundo, e no que a repórter havia dito sobre o príncipe desaparecido em um bombardeio e a ideia foi se formando em minha cabeça antes mesmo que eu percebesse.
Comecei a andar de um lado a outro do quarto ainda remoendo a notícia e totalmente perplexo da possibilidade que havia se formado em minha cabeça. Toda hora a imagem da repórter falando sobre a tal família real russa, sobre o tal bombardeio que matou a todos e as especulações sobre o suposto príncipe desaparecido.
Não podia continuar no quarto sem fazer nada, sem saber de nada. Eu estava aflito com o que minha mente insistia em afirmar. E por mais absurda que a situação fosse não me contive e comecei a percorrer os corredores do meu andar, primeiramente sem rumo. Até que vi uma camareira.
— Com licença. — Abordei a camareira e ela se assustou. Provavelmente meu estado diante da situação não era dos melhores. — Eu gostaria de saber se existe um local no hotel onde eu poderia ter acesso a um computador. — emendei as palavras com a voz ofegante.
— Há uma sala de computação no segundo andar. — ela respondeu.
Corri e apertei o botão do elevador, mas o meu desespero era maior que a espera então fui em direção as escadas e desci com rapidez, pulando de dois em dois degraus, correndo cada lance e vencendo os sete andares velozmente. Assim que cheguei ao respectivo andar, minhas pernas tremiam e eu estava sem fôlego, mas eu não podia parar. Precisava achar a tal sala. Percorri todo o segundo andar até chegar a duas portas abertas que levavam a uma sala grande com cabines que separavam cada computador. Uma mulher mascava chicletes enquanto lia um livro no balcão que havia na frente da sala. Quando perguntei se poderia usar um computador, ela respondeu sem me dar atenção.
— Fique a vontade.
Caminhei apressadamente até a máquina mais próxima e cliquei no ícone do site de buscas. Comecei pesquisando por: Dinastia Romanov.
Cliquei no primeiro site e fui levado ao texto:
A Dinastia Romanov ou Casa Romanov (em russo: Poмaнoв) era uma família nobre russa, tendo sido a segunda e última dinastia imperial e, portanto, a Família Imperial que governou a Moscóvia e o Império Russo por dezoito gerações entre 1613 e 1918 quando a dinastia foi extinta. O primeiro Czar Romanov que a Rússia teve foi Mikhail I. O último foi Nicolau II, assassinado junto com a esposa e os cinco filhos no ataque ao Castelo Romanov, em São Petersburgo provocado segundo fontes oficiais pelos Bolcheviques, mas alimentado pelas teorias conspiratórias que os verdadeiros autores do ataque foram soldados do grupo terrorista denominado Avalons. Ainda segundo as teorias o Grão-Duque, príncipe-maior, Alexei Nikolaevna Romanov, filho mais novo do último soberano da Rússia, o Czar Nicolau II, sobrevivera ao ataque e estaria vivo, mas após várias investigações, essa teoria se provou falsa.
Procurei por outras versões, mas encontrava sempre o mesmo texto por vezes apenas com algumas modificações. Acabei clicando na página de fotos e tamanha foi minha surpresa que quase caí da cadeira. Aumentei o tamanho da foto para ter certeza de que não era uma alucinação que eu estava tendo. A mulher que aparecia nos meus sonhos, a mesma mulher que havia me escondido dentro do armário estava na minha frente, com um longo vestido azul e cabelos presos em coque, representada por uma pintura que mais parecia uma foto tamanha era a perfeição. Ainda estava em choque quando li o que havia escrito debaixo da foto. Segundo a legenda, aquela mulher era Czarina Alexandra Feodorovna Romanov.
Sai da sala e fiquei parado no corredor, tentando ligar os fatos, mas minha mente era uma confusão de ideias. Os sonhos voltaram com força total e em meio à fumaça eu via a repórter relatando as notícias. Balancei a cabeça a fim de espantar os pensamentos, mas em vão. Tudo ainda estava lá. Conclui que eram muitas informações para guardar só para mim. Precisava falar, contar para alguém. Então me lembrei de Cesar, meu melhor amigo. Eu poderia confiar nele e lhe contar tudo que estava acontecendo.
Corri na direção dos elevadores, pedindo a Deus que algum estivesse parado no andar. Assim que apertei o botão, as portas se abriram com um clique. Fiz um agradecimento mental e entrei no espaço revestido de vidros, vendo meu reflexo me encarar sobre profundas olheiras. Meus cabelos estavam arrepiados, mas algumas mechas caíam sobre minha testa, lançando sombras nos meus olhos, dando a impressão de que eles estavam mais fundos. Foi então que tive noção do meu estado. Eu não poderia estar pior.
— Cesar, você está ai? — Batia na porta desesperado, dando vários murros na madeira branca. — Cara, abre a porta. Preciso falar com você.
— Calma. Já vou. — O ouvi dizer através da porta.
Quando a porta se abriu, um rosto inchado que mesclava sono e irritação se materializou no espaço aberto.
— O que foi? — ele perguntou irritado e abriu a porta completamente. — Já viu as horas? Ainda está longe do meu horário de acordar.
— Desculpa. Mas eu precisava falar com você. — Entrei no quarto seguindo Cesar, que se sentou na cama e esfregava a testa com as mãos.
— Então diga. Assim eu posso voltar para meu sono.
Foi quando percebi a garrafa de vidro repousada no criado-mudo. O líquido estava pela metade, mas do outro lado do quarto eu ainda conseguia sentir o cheiro forte e alcoólico.
— Cara, você bebeu? — perguntei surpreso.
— Bebi. E se você não tivesse atrapalhado, eu poderia estar me recuperando dessa dor de cabeça neste exato momento. Vamos. Fala logo o que você quer dizer.
Por mais estranho que fosse Cesar ter bebido — por causa de Milena ele tinha entrado em uma nova abordagem toda natural, e bebida alcoólica não estava inclusa — resolvi não entrar mais no assunto.
Relatei a ele quase que vomitando as palavras, sem pausa para buscar fôlego, todas as informações tudo que rodopiavam na minha mente. Desde mais uma vez os sonhos, até a pesquisa na internet. Cesar ouvia tudo calado e mantinha o rosto inexpressivo.
Terminei de falar e respirando fundo aguardei, esperando o que ele iria dizer. Ele me olhou com uma expressão que beirava o ceticismo e respondeu:
— Você tem dormido ultimamente?
— O que você quer dizer com isso?
— Apenas que isso tudo e loucura. Você anda com muitas coisas na cabeça nesses últimos dias. Isso tudo e coisa da sua cabeça.
— Mas tudo se encaixa. O que a repórter disse...
— São só teorias que pessoas desocupadas inventam. Nada mais que isso.
Eu estava em choque diante da reação dele. Depois de todo o meu desespero e após contar tudo, mostrando como os fatos se encaixavam; a forma como Cesar permanecia me surpreendeu.
— Mas isso não pode ser loucura. São coincidências demais. E os meus sonhos estranhos? Como você explica isso?
— Como eu já disse; tudo coisa da sua cabeça. Imaginação. E uma imaginação muito fértil; tenho que dizer. Agora me deixa dormir vai. Minha cabeça parece que vai explodir.
Minha cabeça pulsava. Todo meu corpo doía. Pontos vermelhos dançavam na frente dos meus olhos. Mas nada importava diante da indiferença de Cesar. Senti uma vontade perturbadora de socar sua cara, mas apenas respirei fundo e dando a volta sai do quarto.
O despertador me acordou horas depois, o que para mim pareceram minutos. Não me lembrava de ter voltado ao meu quarto, mas estava debaixo dos cobertores quando o despertador tocou. Por mais que eu quisesse ficar o resto do dia, — o resto da vida, na verdade — trancado no quarto, fiz um grande esforço para me levantar. Tomei um banho propositalmente demorado e a muito custo, desci até o restaurante para o café da manhã.
Peguei uma xícara de café e procurei por uma mesa vazia, ao que não achei. Em uma mesa mais a frente, duas garotas idênticas estavam sentadas e uma delas acenava para mim. Segui até elas.
— Bom dia! Tudo bem? — Diana me cumprimentou alegremente. Apesar de estranhar seu comportamento, bem diferente do dia anterior, cumprimentei-a me sentando a mesa. Olívia pareceu nem notar minha presença, e permaneceu como estava direcionando sua atenção ao croissant que girava com o garfo no prato.
— Bem, e vocês? — respondi me dirigindo a Olívia, que continuou a olhar para o prato. Diana pigarreou e respondeu:
— Estamos bem, obrigada.
Iniciei uma conversa com Diana. Surpreendi com a rapidez e perspicácia de Diana. Ela era muito inteligente, de todas as formas possíveis; e bem informada culturalmente. Era espetacular seu conhecimento em qualquer assunto e sua abordagem sobre qualquer que fosse o tema. A conversa se prolongou animada e interessante até que uma voz falou atrás de mim.
— E aê gente, tudo bem por aqui? — Me virei e Cesar estava de pé ao lado da mesa. — Posso me juntar a vocês? — ele perguntou e sem esperar a resposta se sentou na cadeira vaga.
— E então, sobre o que vocês tanto conversam animadamente? — Cesar prosseguiu. — Contando a ela sobre sua descoberta André?
Meu coração deu um pulo. Ele não tinha dito aquilo. Ele não poderia ter dito aquilo. Disfarcei e me ajeitei desconfortavelmente na cadeira e rezei para que Diana não tivesse escutado ou que pelo menos tivesse ignorado, mas não foi o que ela fez. Antes que eu tivesse a chance de contornar a situação e mudar de assunto ela perguntou:
— Descoberta? — ela fitou Cesar.
Rezei novamente, mas era para que Cesar não desse com a língua nos dentes. Era um costume seu revelar segredos alheios. Lancei um olhar significativo para Cesar, mas em vão. Ele se virou para Diana.
— Bem, achei que seria a primeira coisa que diria a ela André.
Soltei uma gargalhada forçada a fim de reverter à situação.
— Não é nada. Ele está brincando. Não é mesmo Cesar? — Poderia não ser nada mesmo, mas ainda assim sentia que não era bom espalhar aquela teoria.
— Claro que é alguma coisa. Você tinha total certeza quando me disse. E estava tão determinado a descobrir. Talvez ela possa te ajudar. — ele se virou para Diana e emendou. — É o seguinte, meu amigo aqui pode ser o descendente de uma linhagem real russa. Ele acha que um tal príncipe supostamente morto que dizem ter escapado, continuou sua descendência e ele aqui pode fazer parte.
E ele tinha feito. Cesar tinha contado em alto e bom som. Uma raiva descontrolável se propagou dentro de mim misturada a um desejo súbito de esmurrá-lo. Eu estava prestes a me levantar e partir para cima de Cesar quando uma voz me paralisou.
— Você fala de Alexei Romanov? — Olívia perguntou para Cesar.
Cesar, eu e Diana olhamos os três em sua direção ao mesmo tempo. Seu inesperado interesse chegou a me assustar. Todos nós ficamos sem reação, até que ela respondeu:
— Desculpe a intromissão. E que o assunto me interessou. Faz parte de um trabalho da faculdade.
— Você está fazendo um trabalho sobre isso Olívia? — Diana perguntou incrédula, mas seu rosto logo se iluminou. — Realmente interessante. Porque não me contou?
— Não contei? Desculpe. Devo ter esquecido. — Olívia respondeu rápido para a irmã, gaguejando.
Ainda estava surpreso com a reação de Olívia quando comecei a ficar preocupado com toda a atenção que estava sendo voltada para aquele assunto. Senti o gosto metálico de sangue na bola quando percebi que tinha mordido o lábio inferior, tamanho era meu desconforto com a conversa.
— Bem, seu trabalho está completo. André pode te ajudar a completar as lacunas.
Ele tinha passado dos limites. A raiva instantaneamente se transformou em fúria. Eu tinha de sair dali ou acabaria voando aos murros para cima dele. Levantei-me da mesa e saí o mais rápido possível do restaurante, ainda em tempo de ouvir Cesar.
— Eu fiz alguma coisa?
Alguém disse alguma coisa para ele e gritou meu nome, mas eu não queria ninguém por perto. Saí do restaurante e virei em direção ao saguão. Andei o mais rápido que pude ao atravessar o saguão e alcançando as portas, segui para a saída do hotel.
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