Os Cuecas e as Chiquititas
55 Da água pro vinho
Notas iniciais
Se estivesse sonhando, Sandy não queria acordar. Os lábios de Joaquim finalmente tocaram os seus. Foi só um selinho, mas a menina sentiu como se estivesse flutuando. Foi totalmente diferente daquele dia da brincadeira de salada mista na escola, em que todo mundo estava olhando e eles ficaram morrendo de vergonha... Agora, eles estavam um pouco envergonhados, sim, mas de um jeito diferente... Sorriram novamente um pro outro, os dois com as bochechas vermelhas. Então Sandy disse que era melhor eles irem, ela precisava avisar aos outros que o menino perdido havia sido encontrado.
As outras crianças, Davi, Clarinha e dona Nina ficaram muito felizes ao ver Joaquim. Seu Zé não sabia o que estava acontecendo, estava dentro de casa há um tempo. Davi, então, tomou uma decisão muito difícil. Desde que havia chegado no Vilarejo, tomava muito cuidado com tudo o que dizia a seu pai, pra não correr o risco de acabar se desentendendo com ele. Mas estava começando a achar que essa não havia sido a melhor decisão, principalmente porque toda a preocupação que Davi tinha estava caindo sobre seus filhos. Joaquim estava se sentindo tão pressionado pelo pai de Davi quanto ele mesmo quando era adolescente, e Téo, que percebeu tudo, não teve coragem de contar nada ao pai por medo de estragar o fim de semana dele... Davi não queria que seus filhos se sentissem assim. Não queria que eles se fechassem e não tivessem mais coragem de lhe contar seus problemas... Essa era a relação que ele costumava ter com o seu pai, não a que os meninos tinham tinham com ele.
— Pai... — Disse Davi ao encontrar seu Zé. — Posso falar com o senhor?
— Claro.
Davi nem sabia como começar, estava muito nervoso. Mas tinha que dizer alguma coisa:
— Então... é... o Joaquim anda meio triste...
Seu Zé não esperava ouvir aquilo. Ficou com receio de que Davi dissesse que era por culpa dele, mas, no fundo, sentia que era essa a verdade. O senhor não havia chegado a dizer nada diretamente a Joaquim, não tinha brigado com ele, só não conseguia disfarçar que não havia gostado muito do garoto.
— E eu acho que... — Davi continuou. — Bom, na verdade a culpa é minha. Eu queria muito que o senhor me aceitasse de volta e, na minha cabeça, a música era a culpada pela nossa separação, então eu acabei dizendo pros meninos, no caminho pra cá, pra eles não cantarem na sua frente e... acho que o Joaquim acabou se sentindo mais ou menos como eu quando eu era adolescente... Ele acha que o senhor não gosta dele...
Doeu ouvir o que Davi disse. Ao que parecia, ele achava que o pai não gostava dele quando era adolescente...
— Eu sei que vocês trabalham com música. — Disse seu Zé, finalmente. — Eu nunca disse que eles não podiam cantar...
— Eu sei! A culpa não é sua... e também não é da música. O que causou todos esses problemas, na verdade, foi o jeito como eu fui embora aos 17 anos, sem avisar nem manter contato com ninguém... ao invés de conversar com os meus pais e resolver os problemas que eu tinha.
Era a primeira vez que Davi falava sobre o que tinha acontecido com todas as palavras para algum de seus pais. Até então, só havia falado diretamente sobre isso com Clarinha e com os meninos. A conversa havia começado sobre Joaquim, mas na verdade era sobre Davi e seu pai. Na verdade, seu Zé não tinha nada contra o garoto, seu único problema era enxergá-lo da mesma maneira como enxergava o próprio filho quando era adolescente. E percebeu que estava muito errado. Se arrependeu e acabou pedindo desculpa por ter feito Joaquim (e Davi) se sentir(em) daquela maneira.
Davi, então, falou que tinha uma ideia. Mas que, se seu pai não concordasse, não tinha problema, eles não precisavam fazer o que ele tinha em mente. Estava pensando em chamar os meninos pra Joaquim tocar e eles cantarem alguma música. Na casa onde Davi tinha crescido, na casa de seu pai. Talvez isso fizesse Joaquim se sentir melhor.
Por incrível que pareça, seu Zé concordou na mesma hora. Achou que seria um bom jeito de se redimir com seu neto e com seu filho.
***
Dona Nina fez sonhos caseiros (Flora, Eleanora e Téo se ofereceram para ajudá-la) e convidou muita gente para o lanche da tarde, já que, um pouco depois disso, os visitantes de São Paulo iriam embora. Além deles estavam a mãe de Clarinha, os novos amigos das crianças e as famílias deles.
Em determinado momento, Davi entregou seu violão a Joaquim e disse que ele podia escolher alguma música, qualquer uma. O menino ficou surpreso. Em seguida, olhou para o avô, que fez um sinal de aprovação com a cabeça. Todos estavam reunidos na sala nessa hora.
Antes de começar a tocar, Joaquim olhou pra Sandy. A menina ficou um pouco nervosa. Por um momento, achou que ele fosse cantar uma música de amor pra ela na frente de todo mundo... pensando bem, até que não seria tão ruim... Mesmo assim, ficou aliviada quando percebeu que não era isso. Joaquim começou a dedilhar a música "Da Água pro Vinho", que era uma das músicas que a menina cantava.
Todos ficaram surpresos por acharem que ele escolheria uma das músicas agitadas de que gostava, não esperavam aquela melodia. Sandy sorriu e começou a cantar, então todos que conheciam a letra a acompanharam.
***
Clipe musical: "Da Água pro Vinho" por todo mundo.
***
Seu Zé teve uma experiência incrível ao ouvir a música. Ficou muito emocionado. Até se segurou pra não chorar. Dona Nina também ficou emocionada, mas não se preocupou em conter as lágrimas. Perguntou se a música era composição de Davi.
— Claro que é! — Respondeu Joaquim, sorridente, e Davi ficou um pouco tímido com os elogios que recebeu em seguida.
Seu Zé, então, finalmente percebeu o quanto havia julgado mal o seu filho. O trabalho dele não era inútil se ele fazia tão bem para aquelas crianças e para todas as outras que se alegravam ouvindo as músicas que elas cantavam. Pela primeira vez, se sentiu muito orgulhoso do filho que tinha. Estava começando a enxergá-lo da mesma da mesma forma que dona Nina.
Além dos pais de Davi, havia outra pessoa que se sentia muito orgulhosa dele: Clarinha. Ela estava muito feliz por ele finalmente ter se entendido com seus pais e resolvido todas as suas diferenças com eles. E pensar que uns meses atrás só a ideia de voltar ao Vilarejo o apavorava... Ela também admirava muito a maneira como ele se importava com seus filhos. Ele simplesmente deixou tudo para ir atrás de Joaquim quando soube que ele não estava bem e conseguiu concertar as coisas.
Clara não ficou chateada pelo acontecido ter interrompido o seu encontro com Davi. Na verdade, ela achou que tudo o que aconteceu só provou para ela uma coisa (que, no fundo, ela já sabia): ela queria se casar com aquele homem. É certo que ficou surpresa com o pedido, não imaginava que fosse acontecer naquele momento, achou que talvez depois de uns meses, por isso não respondeu logo. Mas ela nunca diria "não"! E também não o deixaria sem resposta (não mais, né?).
Por isso, aproveitou que já estava todo mundo lá reunido e feliz, e falou a Davi que tinha uma resposta para a pergunta que ele havia feito no piquenique. Clarinha, sempre muito sensível e empática, sabia da timidez de Davi, por isso, em outra ocasião, não falaria esse tipo de coisa assim, na frente de todo mundo. Mas ela estava tão empolgada para dizer "sim", que esse detalhe acabou escapando de sua mente no momento.
Todos ouviram o que ela disse e se voltaram para ela e Davi. Ele ficou nervoso, mas não por causa de sua timidez, já que, naquele momento, até esqueceu das pessoas ao seu redor; estava apavorado porque achava que a resposta seria "não".
— Não precisa responder — disse o homem. — Na verdade, se for melhor pra você, a gente finge que nem aconteceu...
Os outros estavam muito curiosos, querendo saber a fofoca.
— Mas você nem sabe o que eu ia responder... — Disse Clarinha.
— Eu posso imaginar...
— Nesse caso, você imaginou que eu ia dizer "sim", né?
Davi ficou surpreso.
— Isso é sério??? — Perguntou, incrédulo.
— Sim! Claro que sim! Que outra resposta você acha que eu daria?
Davi ficou com um sorriso bobo na cara e Clarinha ficou ainda mais sorridente do que já estava.
— DO QUE VOCÊS TÃO FALANDO??? — Perguntou Dóris, desesperada. E os outros ficaram aliviados, já que queriam perguntar a mesma coisa, mas não tinham coragem de interromper a conversa dos dois.
De repente, Téo se lembrou de ter visto Davi guardando uma caixinha no bolso quando interrompeu o piquenique deles. Não reparou na hora porque estava muito preocupado com Joaquim, mas é claro, só podia ser isso:
— ELES VÃO CASAR! — Disse Téo, radiante.
Quando Davi e Clarinha confirmaram, todos começaram a comemorar. As crianças ficaram gritando "BEIJA! BEIJA! BEIJA!", então eles realmente se beijaram e todos aplaudiram e em seguida fizeram um brinde aos noivos.
Depois de um tempo, os visitantes tiveram que ir embora. Tiveram muitos abraços e promessas de volta. Seu Zé ganhou abraço de todos os netos dessa vez e Joaquim não estava mais com medo dele. Foi um fim de semana e tanto!
***
Quando voltaram da viagem, as Chiquititas só conseguiam falar sobre o Vilarejo dos Sonhos. Falavam das pessoas, da banda, dos animais, da comida, do noivado de Davi e Clarinha etc. Janete disse uma coisa muito interessante: que o nome "Vilarejo dos Sonhos" combinava muito com o lugar, porque ele realmente parecia um sonho, de tão mágico que era. Eleanora riu e disse:
— Que viagem!
— Ah, eu acho que a Janete tá certa... — Disse Sandy, com uma expressão sonhadora, o que fez as irmãs se perguntarem no que exatamente ela estaria pensando.
Sandy estava pensando no Joaquim, é claro. E logo contou às irmãs o que havia acontecido entre eles. Antes ela não se sentia tão à vontade falando sobre essas coisas com elas, mas agora não tinha mais esse problema. Talvez por ter parado de vez de tentar negar seus sentimentos...
— Finalmente vocês se resolveram! — Disse Janete.
— Finalmente o Joaquim tomou uma atitude você quis dizer, né? — Respondeu Sandy.
— Eu nunca entendi por que você mesma não podia tomar a atitude, mas... — Eleanora falou. — Tô muito feliz por vocês!
— Eu também! — Janete concordou. — Acho que vocês foram feitos um pro outro!
Sandy pensou "tomara!...". E então se lembrou de perguntar uma coisa à irmã:
— Ah, é. E como tão indo as coisas entre você e o Samuca? Já conseguiu descobrir se gosta dele?
— Ah... — disse Janete, com uma expressão triste. — Acho que isso não faz diferença agora, ele não gosta mais de mim...
— De onde você tirou isso?
Janete ficou com vergonha de falar que achava que Samuca gostava de Bel. Achou que as irmãs poderiam pensar que ela estava sendo ciumenta sem motivos, então preferiu usar outro argumento:
— Ele ficou me evitando a viagem toda!
— Também, né? — Disse Eleanora. — Você ficou dando mole pros meninos do Vilarejo...
— O quê?! Eu não fiz isso! Vocês sabem que eu não sou assim!
Sandy e Eleanora começaram a rir e a mais velha falou:
— A gente sabe que você só fez amizade com eles, a Lelê tá brincando — explicou Sandy. — Mas, sinceramente, o que você acha que o Samuca deve ter pensado? Primeiro ele levou um fora, depois você ficou ignorando ele, aí quando a gente passa o fim de semana todo com os meninos você fica andando pra cima e pra baixo com o Romãozinho...
Janete pensou um pouco no que a irmã falou e ficou uma dúvida:
— Peraí... Você tá dizendo que eu fiquei ignorando o Samuca antes da gente ir pro Vilarejo?
— É verdade, eu não vi você falando com ele a semana toda. — Quem respondeu foi Eleanora. — Até pensei que você tinha decidido que não gostava dele... Aliás, eu ainda não entendi, você gosta ou não gosta dele?
— Eu gosto... — Respondeu Janete. — E eu não tava ignorando ele, eu só tava... tentando entender o que eu tava sentindo e... Ai, não! Ele deve achar que eu não gosto dele! Por isso ele ficou me evitando, não por causa da... de outra coisa...
— Eu já sei qual é o problema de você e do Samuca. O do Joaquim e da Sandy era óbvio, eles ficavam brigando por besteira o tempo todo... Mas você e o Samuca... os dois pensam demais!
— Pois é, vocês precisam entender que tem coisa que não dá pra estudar, né? — Concordou Sandy. — Mas eu acho que vocês também são muito tímidos e isso não ajuda! Sabe o que pode mudar isso? Teatro.
— Tive uma ideia! — Disse Eleanora. — A gente podia pedir pro professor de teatro colocar vocês dois pra contracenar e aí...
— Não! — Janete exclamou, desesperada. — Não precisa de nada disso, eu... vou falar com o Samuca amanhã... talvez depois de amanhã... ou quando der... — Vendo o olhar de reprovação das irmãs, ela disse: — Tá, eu vou tentar falar com ele amanhã... e dizer... dizer que...
— Que você gosta dele. Que tal?
— É, eu vou dizer isso...
As meninas, que estavam no quarto nessa hora, ouviram a tia batendo na porta e a deixaram entrar. Ela estava com o celular na mão e não tinha uma cara muito boa. As três ficaram preocupadas. Acontece que, enquanto estavam no Vilarejo, uma assistente social havia ido até o apartamento para ver como estavam indo as coisas e não ficou muito feliz em saber que Flora estava viajando com as meninas em pleno período de experiência.
— Que mal educada essa mulher! — Exclamou Eleanora. — Ela vem na nossa casa sem avisar e depois ainda fica bravinha porque a gente não tá?
Flora explicou que havia sido avisada de que essas visitas surpresa poderiam acontecer e que esse imprevisto podia diminuir a chance de que ficasse com a guarda das meninas. Elas ficaram preocupadas (até mesmo Sandy) e Janete perguntou:
— Ela vai fazer outra visita no lugar dessa?
— Sim. Ela não avisou o dia, mas vai. Num horário em que vocês não estejam na escola ou na gravadora e eu trabalhando.
— Ah, então tudo bem — disse Eleanora. — A gente explica pra ela que a viagem foi muito legal e que você tá cuidando bem da gente, vai dar tudo certo!
As irmãs concordaram e Flora ficou muito feliz. Até aquele momento, não tinha certeza de que suas sobrinhas realmente queriam ficar com ela. Mas estava cada vez tendo mais esperança de que elas pudessem ser uma família de verdade.
Janete e Eleanora realmente acreditavam que ela havia mudado. Já Sandy, às vezes achava que sim, às vezes desconfiava que, depois que o período de experiência passasse, a tia voltasse a ser como antes. Mas naquele dia em especial, depois de tudo o que aconteceu com Joaquim, o avô dele e Davi, ela estava achando que as pessoas podiam mesmo mudar.
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