Os Cuecas e as Chiquititas
36 Crescer
Notas iniciais
Clipe musical: "Crescer" por Sandy.
***
Eleanora acordou na manhã de segunda-feira e deparou-se com Sandy, já vestida com o uniforme da escola, lavando roupa. Acontece que a irmã mais velha estava com piriri. Bom, pelo menos era o que achava. Sandy havia acordado meia hora antes do despertador e, como achava perda de tempo tentar voltar a dormir, pois sabia que não conseguiria, foi logo tomar banho. Foi então que percebeu que sua roupa de baixo estava manchada. Apesar de serem suas irmãs, Sandy tinha vergonha de que Janete e Eleanora descobrissem que ela estava com piriri, então, assim que terminou de tomar banho, resolveu lavar não só sua roupa de baixo como outras roupas suas e das irmãs, para que não desconfiassem de nada.
Quando Eleanora perguntou por que Sandy lavava roupa àquela hora, esta deu um sorriso amarelo e disse que era porque havia acordado muito cedo e queria fazer algo útil. Foi meio estranho, mas Eleanora acreditou e ainda ficou feliz porque sua irmã parecia mais tranquila do que nos últimos dias e também porque ela e Janete nunca queriam lavar a roupa, então sempre sobrava para Eleanora. Ela estava começando a achar que o dia seria bom, apesar da prova de Ciências que teriam.
Na Escola Estadual Dom João do Nascimento, não havia uma semana só para as provas, cada professor marcava as provas para o dia que achava melhor e as outras aulas aconteciam normalmente. Sendo assim, no final do bimestre, era comum haver dias com apenas uma prova, com duas provas, com três ou até sem nenhuma; e as aulas de Educação Física aconteciam normalmente, nos mesmos horários de sempre. Por isso, naquela segunda-feira, a turma 702, da qual os Cuecas e as Chiquititas faziam parte naquele ano, estava tendo sua aula de Educacão Física antes do recreio, assim como em todas as outras segundas desde o início daquele ano letivo.
Faltavam apenas alguns minutos para a aula acabar e Sandy foi ao banheiro. A princípio, achou que era o piriri, o que era estranho, já que não tinha comido nada esquisito, não tinha sentido nada... mas depois caiu a ficha. Não era piriri, era outra coisa... O sinal do recreio tocou logo que Sandy saiu do banheiro, o que tornou um pouco difícil com que chegasse até suas irmãs devido ao grande número de alunos saindo de suas respectivas salas. Quando conseguiu chegar perto do ginásio, viu as duas saindo de lá e as abordou:
— Eu preciso contar uma coisa pra vocês!
Janete e Eleanora ficaram curiosas, principalmente por conta da expressão de pavor no rosto da irmã e por estar falando um pouco baixo. Ela continuou, ainda mais baixo:
— Eu fiquei mocinha!
Janete ficou com uma expressão confusa, mas Eleanora começou a rir e disse:
— Que mentira!
— É sério!
— Assim? Do nada? E na escola?
— Por que você acha que eu ia inventar uma coisa dessas, Eleanora?
Quando percebeu que a irmã falava sério, Eleanora disse:
— Você trouxe absorvente, né?
— Claro que não, eu nem tenho absorvente!
— Mas você tem 12 anos, devia ter!
— Como eu ia saber que isso ia acontecer agora???
— Como? Várias meninas da nossa sala ficaram mocinhas no ano passado, em algum momento isso ia acontecer com você, né? — Eleanora, então, voltou-se para Janete: — E você? Tem?
— Absorvente? Claro que não, essas coisas poluem demais o meio ambiente! Eu só pretendo ter quando precisar mesmo!
— Mas você tem 11 anos, pode precisar a qualquer momento! Tá, se vocês não têm, a gente pede pra alguma outra menina da sala.
— Não, não precisa! — Exclamou Sandy.
— Claro que precisa! Ficou maluca???
— Eu acho que ela tá com vergonha — disse Janete. — Sinceramente, eu também estaria...
— Tudo bem, então eu peço.
E Eleanora foi andando em direção à sala. Sandy implorou para ela não ir, mas a pequena não deu ouvidos. Como a aula anterior havia sido de Educação Física, não tinha muita gente na sala e, para a sorte de Sandy, eram só meninas.
— Gente, a Sandy acabou de ficar mocinha, alguém aí tem absorvente? — Eleanora perguntou, enquanto Sandy queria cavar um buraco no chão, de tanta vergonha.
Ao ouvir respostas negativas das meninas, Eleanora disse:
— Sério?! Que tipo de alunas do 7° ano vocês são???
Porém Laura, uma das meninas, conseguiu achar um absorvente em sua mochila e emprestou para Sandy. Ela e Eleanora agradeceram e, juntamente com Janete, foram ao banheiro. O problema é que nenhuma delas sabia usar aquele troço. Então Janu, uma menina mais velha da turma delas que não estava na sala na hora em que Laura emprestou o absorvente, apareceu no banheiro e Eleanora e Janete lhe contaram que Sandy havia ficado mocinha.
— Parabéns! — Ela disse. — Na verdade, eu não sei porque dizem isso, acho que o mais apropriado seria... Bem-vinda ao inferno!
Aquela frase deixou Sandy apavorada! Não foi uma coisa muito legal pra se dizer a uma menina desesperada, mas, em compensação, Janu explicou como se usava o absorvente, o que ajudou muito.
Depois que saíram do banheiro, Sandy, Janete e Eleanora passaram o recreio com Janu, Laura e Bel e o assunto sobre um qual conversaram foi apenas um: menstruação. Mas Sandy estava odiando toda aquela conversa sobre sangue, cólica, experiências das outras meninas como mocinhas etc.
De repente, a Chiquitita começou a sentir muito calor. Depois ficou meio tonta, sua visão foi ficando turva... e ela desmaiou. As outras meninas ficaram desesperadas! Suas irmãs conseguiram segurá-la antes que caísse e Laura e Janu ajudaram-nas a levá-la para a sala das orientadoras, já que não tinha enfermaria na escola. Enquanto isso, Bel foi correndo atrás de Joaquim, Samuca e Téo.
***
Depois de se dar tão mal na prova de Matemática, Joaquim não estava mais tão obsecado por Bel, e Davi até tinha conseguido convencê-lo a estudar, pelo menos um pouquinho, para a prova de segunda-feira. Mas, mesmo assim, o menino ainda achava que gostava de Bel e tentava, ainda que com menos esforço, achar um jeito de conquistá-la. Quando avistou a menina correndo desesperadamente em sua direção, achou que não precisava mais se esforçar pois isso já estava acontecendo naturalmente.
— Oi, meninos... — Ela disse, ofegante, quando chegou perto deles.
Joaquim não ficou muito contente ao perceber que ela falava com todos os meninos, não diretamente com ele.
— Vocês precisam vir rápido! — Bel continuou. — A Sandy desmaiou!
— O QUÊ?! — Os três ficaram chocados, mas Joaquim, um pouco mais do que os irmãos.
— Onde ela tá??? — Ele perguntou.
— As meninas tão levando ela pra sala da Orientação! Vêm!
Os quatro foram correndo. Quando chegaram, viram que Sandy estava numa cadeira em frente à sala e Janete, Eleanora, Laura e Janu a abanavam e falavam com ela para ver se acordava. Era tão estranho! Sandy sempre parecia tão forte e confiante, mas naquele momento parecia tão pequena e fraca... Mas não era a primeira vez que Joaquim via ela daquela maneira: na mesma hora, o menino lembrou-se do dia em que perguntou a ela como era ser uma órfã e ela chorou em seus braços...
Mas, voltando ao presente, onde estavam as orientadoras??? As meninas não sabiam, disseram que elas deviam estar andando pela escola, como costumavam fazer em certos recreios. Joaquim achou aquilo um absurdo e saiu na mesma hora para procurá-las. Enquanto isso, Téo e Samuca perguntavam às meninas como e por que Sandy havia desmaiado. Elas disseram que não sabiam, que tinha sido do nada.
— Quer dizer, ela ficou meio chocada com algumas coisas, talvez tenha a ver... — Eleanora acrescentou.
Os meninos iam perguntar que coisas eram aquelas, mas Joaquim voltou com o professor de Educação Física, o encontrou antes das orientadoras.
Àquela altura, vários alunos de várias turmas haviam parado no corredor da sala da orientação, curiosos e alguns até preocupados com a Chiquitita desmaiada. O professor pediu que se afastassem, então Sandy começou a acordar. Ela não via as pessoas nitidamente, não conseguia distinguir os alunos que estavam lá. O professor a ajudou a entrar na sala, então uma das orientadoras finalmente apareceu e foi ajudar a menina também.
O sinal tocou e os alunos precisavam ir para a sala.
— Você tá bem, Joaquim? — Perguntou Téo.
— Acho que eu não vou tirar uma nota boa na prova... — O menino respondeu, mas teve que ir para a sala, de qualquer forma.
O professor e a orientadora colocaram Sandy em uma poltrona e, quando viram que estava mais acordada, tentaram entender o porquê do desmaio. Perguntaram a ela, mas a menina não respondeu. A orientadora chegou até a dizer:
— Será que ela ficou mocinha?
Mas Sandy não teve coragem de confirmar devido à presença do professor, que, em seguida, falou:
— Talvez seja algum problema de alimentação... O que você comeu no lanche?
— Nada... Eu esqueci de trazer, mas não tive fome no recreio...
— Mas você tomou café da manhã? — Perguntou a orientadora.
— Eu tomei uma caneca de café com leite...
— E comeu o quê? — Indagou o professor.
— Nada...
— Então é isso, ela está fraca... — Disse o professor, voltando-se para a orientadora.
— Você pode ir buscar uma vitamina pra ela com as merendeiras, por favor?
O professor foi e Sandy quase entrou em desespero. Já estava acostumada com a escola pública e tal, mas ainda não tinha coragem de comer a merenda de lá... Além disso, nem sabia se a falta de comida naquele único dia tinha a ver com seu desmaio, podia ser só o papo sobre sangue, mesmo... Então a menina tentou escapar da vitamina, dizendo para a orientadora:
— O sinal já tocou, né? Eu tenho prova de Ciências agora, não posso faltar!
Mal sabia ela que Joaquim estava, naquele momento, tentando fazer a professora adiar a prova por causa dela... Porém, nenhum dos dois conseguiria o que queria, já que a falta de Sandy seria justificada pela orientadora e pelo professor de Educação Física e ela poderia fazer a prova outro dia.
Sandy tomou a vitamina e se arrependeu muito por não ter dito que havia ficado mocinha. Sabia que a comida da escola era nutritiva, mas, ainda assim, achou tão ruim quanto imaginava que seria... Outros arrependimentos: ter esquecido o lanche e não ter tomado um café da manhã decente.
***
Davi não parava de pensar no jantar que havia tido no sábado. Todos os detalhes de todas as conversas que havia tido com Clarinha ficavam ressoando em sua mente. Mas, mesmo assim, continuava dando atenção para os filhos e estava preocupado, principalmente com Joaquim, por conta das provas bimestrais.
Quando perguntou aos meninos como havia sido a prova daquele dia, Joaquim disse, com muito desânimo:
— Péssima.
Davi não entendeu, sabia que os irmãos haviam estudado com ele... Porém Téo explicou que a prova não havia sido tão difícil, mas que tinha acontecido uma coisa muito ruim no recreio, o que impediu o irmão de se concentrar.
Em outra época, Davi poderia até ter ficado com raiva pela possibilidade de Joaquim tirar outra nota baixa e poderia nem ter perguntado que "coisa ruim" havia acontecido, achando que aquilo seria apenas uma desculpa esfarrapada para a falta de interesse do menino na prova. Mas Davi lembrou-se de que Clarinha havia dito que inteligência não era só tirar notas boas. Se Joaquim tirasse uma nota baixa por conta de algum fator externo, isso diminuiria o esforço que ele havia feito para estudar para aquela prova? Afinal, às vezes o próprio Davi não conseguia compor uma música quando acontecia algo inesperadamente ruim...
Sendo assim, ao invés de reclamar, Davi procurou saber qual havia sido a "coisa ruim" para só então concluir se aquilo era ou não motivo para tirar nota baixa. Os meninos, então, contaram a história de Sandy, e Davi ficou muito preocupado! Sabia o quanto Joaquim gostava de Sandy e como aquilo podia ter abalado o garoto. Perguntou por que a menina havia desmaiado, mas eles disseram que não sabiam e que ela e as irmãs tinham ido embora muito rápido depois que aula acabou, então não conseguiram falar com elas direito.
Davi perguntou se os meninos queriam visitá-las, mas Joaquim achou que, se elas haviam ido embora tão rápido, provavelmente não queriam companhia. Podia até ser, mas o pai achou melhor que eles, pelo menos, entrassem em contato com elas pra saber se Sandy já estava bem.
Mais tarde, Téo mandou uma mensagem no grupo dos Cuecas e das Chiquititas no Whatsapp. Disse que todos os Civil estavam preocupados e queriam saber se Sandy estava melhor. Elas responderam que sim, agradeceram e disseram que não precisavam se preocupar.
— A gente pergunta se elas já descobriram por que ela desmaiou? — Téo indagou aos irmãos.
— Não sei... — Disse Joaquim, com receio de que a resposta tivesse alguma coisa a ver com o segredo que as meninas guardavam desde o mês anterior e Sandy chorasse novamente.
Samuca prestava atenção na expressão do irmão, sabia que aquele "não sei" era fruto de uma enorme preocupação.
— A gente pode perguntar, mas com cautela — disse Samuca. — Deixa que eu escrevo...
As meninas, então, responderam que era porque ela não tinha tomado café da manhã direito. Fazia sentido... Mas Joaquim, e até Samuca, achavam que tinha algo a mais nessa história, só não sabiam se deviam perguntar às meninas...
***
À noite, quando Sandy já estava menos atordoada com tudo o que havia acontecido, as Chiquititas tiveram uma longa conversa sobre aquele dia.
— Esse foi o dia mais humilhante da minha vida! Não acredito que eu chamei a atenção da escola inteira!
— Que milagre você se sentir mal por ser o centro das atenções! — Exclamou Eleanora, o que fez Sandy olhar pra ela com cara feia. — Tô brincando! — A menina disse logo. — Eu sei que foi um dia difícil, mas não foi totalmente ruim: sabia que um monte de gente tentou te ajudar quando você desmaiou?
— Verdade! — Concordou Janete. — E adivinha quem mais ajudou?
— O Joaqui-im! — Eleanora cantarolou.
— Ah, tá! —Sandy ergueu as sobrancelhas, incrédula.
Então as irmãs contaram tudo o que ele havia feito e a menina ficou surpresa, mas achou que a parte dele pedir pra professora adiar a prova havia sido só porque ele não tinha estudado, mesmo.
— Mas além de tudo isso — Janete voltou ao assunto anterior —, as meninas também foram bem legais quando você descobriu que tinha ficado mocinha. Quer dizer... talvez algumas conversas do recreio não tenham sido tão legais, mas...
— É, e eu acho que a Janu também exagerou um pouco com aquele papo de inferno... — Complementou Eleanora.
— Não, eu acho que foi tudo muito necessário! — Disse Sandy. — Elas só tavam me preparando pros próximos anos horríveis da minha vida. O que me incomoda mesmo, é que eu tive que virar mulher justo agora! Eu ainda quero ser criança, eu gosto de brincar...
— Ai, Sandy! Você não virou mulher de uma hora pra outra... — disse Eleanora.
— É, e a sua vida não vai ser horrível só porque você ficou mocinha... — concordou Janete.
— Como não? Vocês tão entendendo que o meu corpo acha que já posso ser mãe??? Eu é que devia ter uma mãe!
Agora Janete e Eleanora não sabiam bem o que dizer. Sandy devia estar conversando sobre essas coisas com sua mãe, ou pelo menos com outra mulher. Se ao menos Tia Flora ainda estivesse lá... Mas então Janete pensou numa coisa:
— Sandy... agora a gente sabe que você devia tá estressada na semana passada por causa da TPM, mas... eu acho que você anda se cobrando demais. Por acaso você acha que, por ser a irmã mais velha, você tem que agir como se fosse a nossa mãe? Porque você não precisa fazer isso, você não é nem dois anos mais velha que a gente...
Sandy já estava chorando. Nunca tinha parado pra pensar dessa forma, mas era verdade. Depois que Tia Flora havia ido embora, ela sempre tentava parecer forte e cuidar das irmãs (exceto na semana passada e com as tarefas domésticas).
— A Janete tá certa — disse Eleanora. — Eu não sei se você desmaiou por causa da menstruação, por não ter comido direito, por estresse... Só sei que você não tá bem e eu e a Janete vamos fazer você ficar!
— Ah, então... eu sou a irmã mais velha, mas vocês é que vão cuidar de mim?
As duas balançaram a cabeça, dizendo que sim.
— Menos de dois anos, lembra? — Disse Janete, o que fez a irmã sorrir.
— É o seguinte: eu vou balancear a sua alimentação pra você não ficar comendo que nem uma doida, mas também não ficar sem comer nada. — Disse Eleanora. — Ah, e foi muito feio você reclamar da comida da escola, viu, mocinha? Mesmo que tenha sido só na nossa frente...
— Verdade! A merenda é muito saudável e você devia agradecer por mais uma ajuda que recebeu hoje! Bom, e eu vou tentar explicar que não foi horrível você ter ficado mocinha, que isso é normal e quer dizer que você tá com saúde.
Sandy ficou feliz com o esforço das irmãs para deixá-la bem. E foi assim que a noite, ao contrário do resto do dia, acabou sendo tranquila para as Chiquititas.
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