Os Cuecas e as Chiquititas
49 Arrependimentos
Notas iniciais
No final da tarde de domingo, os Cuecas e as Chiquititas estavam no quarto de Davi ensaiando a letra da nova música de Janete enquanto ele tocava no teclado. Na verdade eles pretendiam ensaiar na gravadora depois de mostrarem a musica lá, mas Sandy insistiu pra que começassem logo e chegassem na Dó Ré Music com a performance perfeita. A menina estava inventando qualquer motivo pra não ter que pensar na volta de Clarinha com possíveis notícias da Tia Flora.
Joaquim ficava o tempo todo fazendo piadas e zoando com a música e ninguém estava muito concentrado, o que estava deixando Sandy particularmente irritada. Mas assim que ouviu a campainha tocar, não conseguiu mais pensar em música nem em quanto Joaquim era irritante, tudo o que sentia era ansiedade. E suas irmãs também.
Era Clarinha mesmo quem estava lá. Davi foi atendê-la, perguntando logo se ela tinha encontrado a Flora, e recebeu uma resposta afirmativa.
— Você não acredita na coincidência! Ela tava trabalhando na fazenda dos seus pais!
Davi ficou confuso e surpreso. Clarinha disse que ela estava morando no Vilarejo e tinha conseguido esse emprego de cozinheira há pouco tempo, por isso nas férias de julho ela não estava na fazenda. Mas o mais importante a saber agora é que ela queria tentar conseguir a guarda das meninas de volta.
— Ah, e tem mais uma coisa... Ela tá ali no carro.
Flora havia vindo de carona com Clarinha, mas não queria que as meninas soubessem ainda. Preferia que, antes de tudo, elas ficassem sabendo de todos os motivos pelos quais havia abandonado elas e, principalmente, que estava muito arrependida. Porém, a mulher percebeu que não podia ficar escondida por muito tempo quando viu a cabecinha de Eleanora espiando tudo da janela da sala. A menina usava um boné cor-de-rosa cheio de bottons ao invés da maria chiquinha de antigamente. Quanto será que as meninas podiam ter mudado nos últimos seis meses? Flora ficou em pânico quando viu que a menina também a tinha visto.
Não dava pra perceber do carro, mas Eleanora tinha lágrimas nos olhos. Logo depois, outras cabeças apareceram na janela: de Janete, Samuca e Téo. Sandy só ficou lá, parada no meio da sala, quando ouviu os outros dizerem que Tia Flora estava lá fora. Não teve coragem de ir ver. E Joaquim estava morrendo de curiosidade, mas ficou preocupado quando viu a expressão da amiga e preferiu ficar ao lado dela. Até segurou a mão de Sandy pra dar força.
Enquanto Clarinha entrou pra falar com as meninas, Davi foi tirar satisfação, ou melhor, conversar com Flora. Ela contaria a ele as mesmas coisas que havia contado a Clarinha no Vilarejo. Assim que esta entrou pela porta da casa, já recebeu perguntas de Eleanora e Janete sobre a tia. Ela pediu que as meninas se acalmassem e disse que tinha muito o que contar a elas.
— Será que é melhor a gente deixar vocês a sós? — Perguntou Samuca. — Isso é um assunto muito particular...
— Claro que não, Samuca! — Sandy finalmente falou alguma coisa desde que a campainha tocou. — Quanto mais gente ouvir sobre o que essa mulher fez, melhor! Além disso, vocês moram aqui, não faz sentido terem que sair pra gente conversar...
Houve um momento de silêncio. A raiva que Sandy sentia da tia era nítida e isso deixava o clima um pouco tenso. Depois, as meninas se sentaram no sofá e Clarinha contou tudo sobre o namorado de Flora, o estresse com o antigo emprego, enfim, todos os motivos pelos quais ela deixou as meninas. Mas depois que foi morar com o namorado, Flora percebeu que ele era ainda pior do que ela pensava. Ele não tinha parado com as agressões e ainda começou a explorá-la financeiramente. Assim que conseguiu, a mulher fugiu dele, mas tinha tanto medo do cara que nunca havia tido coragem de denunciá-lo para a polícia. Ao invés disso, foi se esconder no Vilarejo dos Sonhos, um lugar aonde ele provavelmente nunca iria. Ela também contou que, sempre que conseguia, ia até o apartamento onde havia deixado as meninas para ver como estavam. Por isso, quando descobriu que a namorada de Davi estava no Vilarejo, perguntou a ela sobre as Chiquititas, mas depois de ouvir que ela não as conhecia, foi uma última vez ao apartamento e deu de cara com a síndica, que contou que sabia que as garotas estavam morando sozinhas e que "só escaparam de ir para um orfanato por causa daqueles três pestinhas impertinentes" (os Cuecas). Depois disso, Flora foi até à gravadora, mas estava fechada (todos estavam de férias), então foi até a casa de Davi. Não chegou nem a tocar a campainha, pois viu o homem com as seis crianças, provavelmente voltando de um passeio, todos sorrindo contentes. Então achou que as meninas estavam melhor do que quando moravam com ela e que talvez Davi já soubesse de tudo e quisesse entregá-la para a polícia. Então voltou para o Vilarejo. Mas mesmo num lugar tão improvável, a mulher começou a receber ameaças por cartas do ex-namorado, que a encontrou sabe-se lá como e a estava observando sem que ela soubesse.
Enfim, apesar de tudo o que fez, não houve um dia em que Flora não se arrependesse por ter abandonado as sobrinhas, só achava que agora não tinha mais como voltar atrás. Porém, depois que Clarinha a encontrou no Vilarejo, a tia das Chiquititas decidiu que enfrentaria seus medos, queria denunciar Fausto para a polícia, pedir perdão às meninas e, se fosse possível, cuidar delas novamente.
Janete e Eleanora choravam, mas Sandy não. Ao ouvir a história, Eleanora decidiu que Janete e Clarinha estavam certas, elas deviam perdoar a tia e voltar a morar com ela. Sandy não sabia direito o que pensar. Mesmo que Flora tivesse passado por muita coisa difícil, o que ela fez foi muito ruim. Apesar disso, quando Clarinha perguntou se podia chamar a mulher, as três irmãs concordaram.
***
Depois de Flora contar tudo o que aconteceu para Davi, ele não estava mais achando que ela era uma pessoa tão horrível, mas tinha receio de que ela fizesse mal às garotas de novo.
— Os seus pais também já sabem de tudo — ela disse. — Foi na casa deles que a Clara apareceu pra falar comigo. Eu contei tudo a eles e tava só esperando eles me despedirem pra eu pegar as minhas coisas e ir embora, mas o seu pai disse que eu podia continuar trabalhando lá até conseguir resolver as coisas aqui. Ele é um homem muito bom!
De todas as coisas que ouviu de Flora naquela tarde, essa com certeza foi uma das que mais surpreendeu Davi. Ele até poderia esperar uma atitude dessas de sua mãe, mas do pai?! Ele, que sempre ficava julgando as pessoas (principalmente o próprio filho), deixou que uma mulher que abandonou as sobrinhas continuasse trabalhando pra ele?
Enquanto Davi tentava processar essa informação, Clarinha apareceu no portão falando que as meninas queriam ver a Flora. O coração desta acelerou. Ela estava apavorada e com muita vergonha pelo que tinha feito, mas entrou na casa com Clara e Davi.
Como as meninas tinham crescido! Mas o que mais chamava atenção era a expressão de cada uma. Sandy estava pálida, como se estivesse vendo um fantasma. As outras duas, mesmo chorando de emoção, também pareciam espantadas, como se não acreditassem no que estavam vendo.
Téo estava emocionado pelas meninas, e esperançoso, pois achava que ia dar tudo certo no final. Já Samuca e Joaquim, que eram mais racionais do que sentimentais, estavam preocupados.
— É verdade que você quer ficar com a gente?
Quando ouviu a pergunta de Eleanora, foi a vez de Flora começar a chorar. Ela balançou a cabeça afirmativamente e pediu perdão por tudo o que fez. Em seguida, recebeu um abraço da Chiquitita mais nova. Janete, apesar de sempre ter sido a que mais queria perdoar a tia, por um segundo, logo que a mulher apareceu pela porta, ficou em dúvida. Ela se lembrou de como Flora havia sido legal com elas por um tempo e depois pensou no dia carta de despedida, o de dia seu aniversário. Mas depois achou que dessa vez seria diferente. Que ela estava arrependida de verdade e que merecia mais uma chance. Então a irmã do meio juntou-se a Eleanora no abraço.
— Você acha é que assim? — Perguntou Sandy, depois de se recuperar do choque. — Você volta depois de 6 meses e tá tudo bem? A gente finge que nada aconteceu? Você tem noção de tudo que a gente teve que passar nesse período? — Ela também começou a chorar enquanto falava. — Por meses o que eu mais queria era que você voltasse, mas depois eu vi que o melhor era a gente se virar sozinha mesmo, como a gente sempre fez desde que os nossos pais morreram, porque você nunca ligou pra gente! Você sabe que dia você fugiu? Era o aniversário da Janete, mas você não sabia, né? A gente tinha acabado de voltar da festa dela, felizes da vida, e aí demos de cara com a sua carta de despedida!
Os outros estavam muito tensos, principalmente Flora, que se sentia ainda pior e mais arrependida do que antes. Era verdade, ela não sabia que era o aniversário de Janete. Só sabia o de Eleanora e o de Sandy, porque haviam passado na época em que ainda moravam com elas, mesmo assim, só descobriu cada um no próprio dia.
— Me desculpa, Janete, eu realmente não sabia! — Disse Flora.
— Tudo bem, já passou... — respondeu a menina.
— E, Sandy, eu entendo que você fique assim, eu também ficaria no seu lugar, mas eu prometo... não, eu juro pra vocês que se eu conseguir a guarda de vocês de novo vai ser diferente! Por favor, vocês têm que confiar em mim!
***
Era impossível saber se a justiça ficaria do lado de Flora e deixaria que ela ficasse com a guarda das meninas. Também era impossível saber se a mulher realmente havia mudado. Mas à medida que o tempo passava, Clarinha ia conversando com as meninas e convencendo-as (principalmente Sandy) a dar uma chance à tia. Até porque, antes de qualquer coisa, elas passariam por um tempo de experiência com ela e se realmente não quisessem continuar morando com a mulher, elas não precisavam.
Então as coisas começaram a ficar mais tranquilas. Não só para Clarinha e as Chiquititas, mas também para Davi e os Cuecas, pois o dono da casa onde moravam finalmente concordou em vendê-la para eles. Ciro Gonzales, por sua vez, foi morar num lugar sem nenhuma árvore e com muito espaço. Basicamente, todo o dinheiro que ele ia gastar em reformas, serviu pra que ele arranjasse uma casa do jeito que ele queria, mesmo.
Davi finalmente conseguiu ligar para a mãe novamente e contou sobre toda a história da casa, mas também falou sobre Flora e as Chiquititas. Disse que queria agradecer ao pai pela atitude dele. Dona Nina disse que ficou surpresa na hora, mas depois percebeu que o marido havia feito aquilo por causa do filho. Demorou um pouco, mas seu Zé percebeu que, mesmo não concordando com as escolhas de Davi, o que ele fazia pelas crianças era muito bonito. Parece que o coração de seu pai estava amolecendo aos poucos...
Depois disso, Dona Nina perguntou a Davi como eram os filhos dele, e ele passou um bom tempo falando de cada um, o que fez a senhora morrer de vontade de conhecer os netos. Ele também falou das meninas e Dona Nina disse que quando eles fossem ao Vilarejo, elas deviam ir junto.
Essa viagem parecia cada vez menos assustadora para Davi. E, pela primeira vez, ele estava achando que realmente iria conseguir fazer as pazes com o pai algum dia. Parece que as ideias de Clarinha não eram tão malucas como poderiam parecer a princípio... E Davi tinha cada vez mais certeza do quanto a amava e de que não podia ficar longe dela nunca mais!
Pensando nisso, o homem ficou inspirado e compôs uma música para sua amada. A primeira desde que se reencontraram.
***
Clipe musical: "Tomorrow" por Davi.
Fale com o autor