Os Cuecas e as Chiquititas
65 Aniversários e surpresas
Notas iniciais
Sandy não queria comemorar seu aniversário, já que todos a odiavam. Ela provavelmente ia receber mensagens e comentários negativos o dia todo, assim como em todos os outros dias, então pra que comemorar?
Mas suas irmãs estavam dispostas a não deixarem nenhum hater estragar o aniversário dela. Mas como?... Janete teve uma ideia, não sabia se ia dar certo, mas talvez a mágica dos aniversários desse uma ajudinha nisso: convencer Sandy a ficar desconectada no dia de seu aniversário. Ela era muito viciada, ficava o tempo todo na Internet, mas se elas conseguissem fazê-la pensar em outras coisas, talvez ela percebesse como isso estava lhe fazendo mal. Eleanora gostou da ideia e também pensou em outra coisa: Sandy podia não querer uma festa grande com pessoas com quem não tinha intimidade, mas ela com certeza ia gostar de ter por perto as pessoas que ela sabia que a amavam, ou seja, elas, tia Flora, os meninos, Davi e Clarinha.
— Eu acho que se tudo der certo — disse a mais nova — ela vai perceber que os haters não fazem a menor diferença na vida dela se ela não se importar com eles. E, quem sabe, ela também não desiste de terminar com o Joaquim depois disso, né? Eu acho muito nada a ver ela não ficar com ele só por causa da opinião dos outros...
Janete concordou e elas foram falar com a irmã para propor a festa de aniversário low profile. Sem tirar os olhos do celular, Sandy repetiu que não queria comemorar, que não ia aguentar ficar sem Internet e que não queria ver Joaquim, já que depois teria terminar com ele.
— Não tem jeito, o meu aniversário vai ser um dia horrível, assim como todos os outros tão sendo.
— Tá bom. — Disse Eleanora. — Se você já aceitou que vai ser um dia horrível, tenta fazer uma coisa diferente, aí ele vai ser horrível mas pelo menos não vai ser igual aos outros.
— Pois é, Sandy, você não tem nada a perder. — Concordou Janete. — E é só um dia, se você não aguentar, tem todos os outros pra continuar lendo esse monte de comentários que você odeia... E sobre o Joaquim... tenta esquecer que vai terminar com ele, pelo menos por um momento. Eles não vão ficar aqui o dia inteiro, só na hora da festa.
— É, além disso — Eleanora continuou —, você vai ter que fazer a mesma coisa no aniversário dele e do Samuca.
Sandy pensou um pouco, olhou pra chuva que caía do lado de fora da janela, e disse:
— Considerando que eu concorde com isso, como eu vou conseguir não morrer de tédio se eu não sair de casa, porque eu sei que vai continuar chovendo desse jeito amanhã, e não usar a Internet?
— Uhn... Acho melhor eu te dar o seu presente antes da hora — Disse Janete, e foi buscar o presente que havia comprado para a irmã.
Era um livro da série A Seleção. Sandy não gostava muito de ler, mas acabou se interessando pelo livro. Aos poucos ela foi deixando de sentir necessidade de olhar o celular a cada 5 segundos.
No dia seguinte, Eleanora e Flora prepararam bolo, docinhos e salgadinhos e as meninas enfeitaram a casa toda de rosa. Assim como Janete, Eleanora também resolveu dar seu presente pra Sandy antes da festa porque sabia que a irmã ficaria com vergonha se abrisse na frente dos meninos. Sandy estranhou e ficou até com um pouco de medo do que poderia ser o tal presente, mas ficou com os olhos brilhando, deu um gritinho e um abraço forte na irmã quando abriu: era mais uma Barbie pra coleção "secreta" de Sandy, que dizia já estar muito velha para bonecas.
A aniversariante não tinha parado de ler o livro que Janete deu até o momento, mas o presente de Eleanora acabou lhe dando uma outra ideia de como passar o tempo sem Internet: maratona de filmes da Barbie (mas só enquanto os convidados não chegassem, claro!).
Sandy e Janete foram assistir juntas e Eleanora, mesmo preparando a comida, também cantava as músicas e dizia as falas junto com os personagens, assim como as irmãs. Quando Sandy foi se arrumar pra festa foi a vez de Flora dar seu presente: um vestido cor de rosa muito lindo. Mas Sandy gostou tanto dele, que achou melhor guardar pra usar no evento que a banda ia participar e colocou outra roupa. Era uma roupa repetida, mas e daí? Ela não ia postar na Internet mesmo, ninguém ia saber.
Depois que Davi, Clarinha e os meninos chegaram, tudo ficou ainda mais divertido, eles fizeram várias brincadeiras. As meninas tinham tido que interromper sua maratona de filmes, mas Joaquim, do jeito que é curioso, percebeu que tinha um DVD no aparelho e foi ver qual era. Sandy ficou morrendo de vergonha, mas não era novidade nenhuma pros meninos que ela gostava de Barbie. No final, todos acabaram assistindo Barbie e a Magia de Aladus juntos e os meninos ficaram contando quantas falas dos personagens as meninas sabiam de cor. Eleanora foi a que ficou com mais pontos.
Nisso, Sandy já tinha esquecido completamente que "teria" que terminar com Joaquim. Só se lembrou depois, quando ele foi entregar seu presente. Quando ele escolheu, os irmãos tinham achado que era um presente meio estranho, que talvez Sandy não gostasse, mas ele tinha certeza de que ela ia gostar. Pensando no futuro término, Sandy pegou o presente com o coração apertado. Tinha uma expressão tão triste e melancólica, que Joaquim teve novamente a sensação de que ela estava estranha, mas agora, achava que talvez isso tivesse alguma coisa a ver com ele.
Mas foi só a menina abrir o presente, que sua expressão mudou totalmente: ela começou a gritar e dar pulinhos de alegria. Era uma tiara de princesa, que ela colocou na cabeça imediatamente.
— EU SOU UMA PRINCESA! — Gritou.
Em seguida, deu um beijo e um abraço muito forte em Joaquim e disse "obrigada" umas 300.000 vezes. Depois, quis tirar uma foto com todos pra guardar de recordação esse dia tão especial.
No final, o plano de Janete e Eleanora deu certo. Sandy não se importou com os haters e, no dia seguinte, resolveu que ia ignorar aqueles comentários horríveis e não ia mais terminar com Joaquim. Ele era uma das pessoas mais importantes da vida dela e a conhecia como ninguém. Não fazia sentido magoá-lo por causa de pessoas aleatórias que ela nem conhecia e que não se importavam com ela.
Ela decidiu postar a foto do aniversário, mesmo que ele tivesse sido simples, que ela estivesse usando roupas repetidas e a decoração estivesse meio infantil. Também respondeu a todas as mensagens legais de fãs que desejaram feliz aniversário pra ela, afinal, ainda tinha muita gente que a admirava. No mais, resolveu que queria ler todos os livros d'A Seleção e também que queria aprender a tocar violão naquele ano. Os haters podia ser chatos, mas algumas das críticas até que eram construtivas. Se Sandy queria ser uma artista completa, tinha que fazer outras coisas além de cantar.
***
Aparentemente, o problema de Sandy, seja lá qual tenha sido, estava resolvido, já que ela tinha parado de agir de forma estranha com Joaquim. Sendo assim, ele passou a se concentrar mais em seu pai. Samuca dizia que ele só devia estar estranho por alguma coisa do trabalho, talvez por estar ansioso pelo evento de premiação, mas Joaquim sabia que tinha algo além disso e passou a observar com muita atenção o que o pai fazia. E quanto mais observava, mais estranho ele parecia. Joaquim tinha uma teoria, que formulou depois de flagrar Davi guardando fios de cabelo das escovas dos meninos. Obviamente, o homem achava que não tinha ninguém olhando e que os meninos não suspeitavam de nada.
Porém, Joaquim tinha uma teoria um tanto equivocada a respeito dessa coleta de DNA: ele achava que o pai queria fazer clones dele e dos irmãos. Téo ficou muito assustado com a ideia, mas chegou à conclusão de que Davi nunca faria isso; já Samuca, achou engraçado Joaquim estar prestes a fazer 13 anos e pensar nessas besteiras.
— Besteira?! — Perguntou Joaquim, indignado. — Você não acredita no progresso da ciência? Não teve aquela ovelha que foi clonada? Por que a gente não pode ser também?
— É claro que eu acredito! Mas acontece, Joaquim, que a clonagem humana é proibida no Brasil.
— O Davi nunca faria uma coisa proibida! — Disse Téo.
— Ele faria se fosse necessário. — Respondeu Joaquim.
Samuca revirou os olhos e o irmão gêmeo explicou o motivo pelo qual Davi faria clones deles: ele sempre tinha medo que a fama fizesse mal aos meninos e queria que eles tivessem uma vida normal apesar da carreira, mas e se tivesse percebido que não tinha como isso ser possível? Sendo assim, ele poderia usar os clones pra trabalharem na Dó Ré Music enquanto as versões originais dos meninos iam pra escola e viviam como crianças normais.
Téo achou que fazia muito sentido, mas essa história toda lhe dava arrepios. Samuca, por outro lado, argumentou que esse tipo de clonagem, além de nunca ter sido feita na história da humanidade, teria que ser feita por cientistas renomados, em laboratórios, não por qualquer pessoa.
— Pra quem se acha um gênio você é muito burro, Samuca! — Disse Joaquim. — É claro que o Davi tem contato com esses caras, né? São eles que vão fazer a clonagem, não ele.
— Nesse caso, eu tenho um argumento melhor — disse Samuca. — O Davi nunca ia querer dois de você, ele quase não aguenta um!
Então Samuca e Joaquim começaram a se insultar e Téo ficou mal, como sempre ficava quando eles brigavam. Quer dizer, ele já estava mal pela história dos clones, agora estava se sentindo ainda pior.
— PAREM! — Gritou. — O aniversário de vocês tá chegando, vocês não podem brigar assim!
— Eu não escolhi nascer no mesmo dia que esse bobão, preferia ter um aniversário só meu pra variar...
— Para, Joaquim! — Repreendeu Samuca. — Você não tá vendo que o Téo tá mal?
— E a culpa é minha? Você que começou a briga...
— Já chega! — Exclamou o mais novo. — A gente tem que se unir pra impedir o Davi de criar os clones, eu não quero ser substituído, e vocês?
— Já era, eles já tão sendo criados. — Respondeu Joaquim.
Samuca viu que não adiantava dizer que aquela história não era real, Joaquim estava muito convencido e, como sempre, conseguindo convencer Téo. Então ele resolveu não participar da conversa, assim não teria mais risco de brigar com o irmão gêmeo. Às vezes ele também preferia ter nascido outro dia e ter um aniversário só seu...
Enfim, Joaquim achava que Davi queria manter os clones em segredo de todo mundo, pelo menos até ter certeza de que eles podiam mesmo substituir os meninos. Ele achava que o aniversário deles seria o primeiro teste, seria perfeito porque haveria muita gente, então ninguém ia perceber que havia uma cópia de cada um dos Cuecas. Mas Joaquim e Téo ficariam atentos para encontrar os clones e confrontar Davi.
— Mas e se eles forem perigosos? — Pergutou Téo, assustado.
— Você tem que ser corajoso. Eu nem tinha pensado nisso, mas é mais um motivo pra gente encontrar eles, aí não vai ter nenhum risco pras outras crianças da festa. Eu sei que as intenções do Davi são boas, mas a gente não sabe o que se passa na cabeça dos cientistas malucos...
— Já chega, Joaquim! — Samuca interveio. — Para de assustar o Téo! É pra isso que você tá inventando essa história toda, né? Só pra zoar com ele. Você nem deve acreditar nisso de verdade...
Mas Joaquim acreditava. E ele falava de tudo com tanta certeza, que até o próprio Samuca, bem no fundo, começou a ficar com um pouco de medo de que ele estivesse certo. Mas depois ele percebeu que, por mais que Joaquim estivesse viajando, uma parte dessa história podia ser verdade, podia ser que Davi realmente tivesse coletado o DNA deles. Mas pra quê? Samuca começou a ficar muito intrigado, mas não conseguiu criar coragem pra perguntar ao pai. Apesar da curiosidade, sabia que, independente do que fosse, Davi contaria a eles, mais cedo ou mais tarde.
***
Clipe musical: "Carrossel" por Joaquim, Samuca, Téo, Sandy, Janete e Eleanora.
***
O aniversário dos gêmeos foi num parque de diversões. Os dias andavam muito chuvosos na cidade, mas, justo no aniversário deles, fez sol. Havia muitos convidados: crianças da escola, do Cantinho da Harmonia e do Vilarejo dos Sonhos. Porém, não eram só convidados que estavam no parque, havia mais famílias com crianças lá, a maioria fã dos Cuecas e das Chiquititas, ou seja, Samuca e Joaquim acabaram não sendo a única "atração" da festa, os 6 artistas ficavam o tempo todo dando autógrafos e tirando fotos. Quer dizer, Sandy estava evitando ao máximo falar com desconhecidos por achar que poderiam ser haters, então fazia o possível pra estar perto de pessoas que ela conhecia durante a festa toda. Na verdade, o que ela queria era ficar perto de Joaquim, mas estava um pouco difícil.
Davi, como sempre, interessado no bem-estar das crianças, falou que elas podiam dar um tempo dos autógrafos e se divertir nos brinquedos. Ao ouvir isso, Joaquim e Téo se entreolharam, pensando na história dos clones. Sabiam que era a hora de agir. Então chamaram as Chiquititas e as crianças do Vilarejo, precisavam de reforços para essa missão. Samuca, porém, não estava com eles, achava tudo isso muito absurdo. Janete ficou intrigada e foi atrás dele.
Sandy e Eleanora riram muito dessa teoria dos meninos. A primeira percebeu que tinha sido muito boba em ficar com medo de parecer infantil por sua festinha da Barbie... Dóris e Sabrina, porém, assim como Téo, ficaram morrendo de medo. Os meninos do Vilarejo não sabiam se acreditavam ou não, mas vai que, né? Tinha tanta coisa doida na cidade... De qualquer forma, ia ser legal participar dessa busca com eles. Mateus disse que Romãozinho seria ótimo em identificar os clones, pois a falta de visão desenvolvia melhor seus outros sentidos e ele conseguia reconhecer diferenças que as outras pessoas não conseguiam. Ótimo, então Joaquim falou que ele devia andar pela multidão no parque, pois os clones deviam estar bem misturados.
— Tudo bem. — Ele concordou. — Alguém vem comigo?
Sabrina se prontificou. Estava morrendo de medo? Estava, mas tinha uma quedinha pelo garoto. Ela devia ficar com ele pra guiá-lo e protegê-lo, mas ia acabar acontecendo o contrário, de tanto medo que ela sentia. Mateus foi procurar os clones com Dóris e tentar fazê-la perder o medo e se divertir com a brincadeira. Joaquim ficou com Sandy, que começou a ficar animada com essa história por finalmente conseguir o que queria. E Téo ficou com Eleanora, que ficava tentando convencê-lo de que essa teoria dos clones era maluca, assim como Samuca havia tentado fazer com Joaquim. O lado bom é que Téo tinha muita fome quando estava nervoso, então ele e a menina foram direto pro carrinho de pipoca ao invés de procurar os clones.
Enquanto comiam e conversavam, um homem apareceu e falou com Téo. Ele demorou um pouco pra reconhecer, mas era o "jornalista" que havia ido na casa deles. Isso, mesmo, era Henrique. Ele parecia emocionado, começou a perguntar como Téo estava e depois perguntou onde estava o pai dele.
— Ali, perto do carrossel — o menino apontou.
— Obrigado. Posso te dar um abraço?
Téo concordou, pois gosta a de abraços e aquele jornalista parecia legal. Quando ele foi atrás de Davi, Eleanora olhava com uma cara de indignação pro menino.
— Que foi? — Ele perguntou, confuso.
— Ao invés de ficar com medo de clones inventados, você devia ter medo de falar com estranhos!
— Ele não é estranho, é o jornalista.
— Ai, Téo... Olha, você sabe que eu te amo, mas eu tenho que dizer isso: às vezes você é muito sem noção. O que foi?
Téo tinha um sorrisinho bobo no rosto e Eleanora nem percebeu que isso era porque ela tinha dito que amava ele. Ele estava sem palavras, então a menina disse:
— Eu hein...
Enfim, essa conversa o fez esquecer totalmente a história dos clones.
Enquanto isso, Davi era confrontado por um Henrique muito chateado por ter passado tanto tempo sem poder comprovar que os meninos eram seus filhos. "Coindidentemente", os seus gêmeos também faziam aniversário naquele dia, por isso ele foi atrás dos meninos, não podia deixar esse dia passar sem vê-los. Havia muitos posts nas redes sociais sobre o aniversário no parque, por isso sabia onde era.
Davi ficou atônito. Ele já tinha coletado os materiais para os testes, só ia esperar o aniversário e o evento da banda passarem, mas nem tinha parado pra pensar que, claro, um pai ia querer ver os filhos no dia do aniversário. Talvez nem precisasse dos testes para comprovar que os meninos eram mesmo filhos de Henrique, as coincidências eram muitas... Davi não devia ter adiado tanto, estava muito arrependido. Nem sabia o que responder. Depois de pedir desculpas, falou que ia conversar com os meninos logo depois que chegassem em casa.
— Mas, por favor, não fala nada com eles sobre isso! — Disse. — Eles ainda não sabem que você tá vivo, ia seria muito confuso pra eles...
— Tudo bem, eu respeito a sua decisão. — Disse Henrique, ainda com raiva. — Eu vou dar parabéns aos meus filhos sem dizer nada. Acho que é mais prudente eu agir assim, porque as suas atitudes vão pesar pra você mais tarde no tribunal quando eu tentar conseguir a guarda dos meninos de volta.
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