Os Corvos
1 Os Corvos
Os corvos
Lá descansavam dois corvos, no umbral de uma casa desocupada. Os batentes da porta e as beiradas das janelas eram marcados com tinta vermelha como sangue naquela casa condenada. Os pássaros ali parados às vezes sobrevoavam o bairro condenado: casas e casas e mais casas com os batentes pintados. A pestilência não estava isolada e escorria pelos quarteirões como o rio lodoso que cortava a cidade. A marca era o símbolo dos desolados: nada a fazer, nada a fazer, olhe, pobre, já definha. E os corvos ali parados esperavam. Não comiam a carne enegrecida ou os restos de pão mofado. Mas gostavam de pegar os ratinhos desavisados, que quando saíam das casas pareciam um tapetinho cinza vivo cobrindo as ruas de paralelepípedo. Os corvos ficavam entediados do seu posto no umbral da casa condenada, às vezes, e voavam batendo as asas negras sobre a cidade de odor acre de antiguidade e de óleo de bergamota.
Pairavam em uma estátua atrás de uma catedral, ouvindo o burburinho das vozes dentro e fora em oração. Certa vez pousaram sua atenção em um homem que falava mais alto que os outros, um que pedia alto por mais vinho! mais vinho! e os corvos acharam aquilo peculiar e interessante e seguiram-no por algum tempo, deixando o umbral da casa condenada para seguir o homenzinho malcheiroso e maltrapilho enquanto este cambaleava pelas ruas malcheirosas e imundas em um eterno estado de embriaguez. O homem os percebera um dia, abanando um farrapo que usava na cabeça na direção deles, gritando “xô! xô!”. Em outro dia estavam os corvos se divertindo com os ratos, trazendo-os até o homem que contorcia o beiço e chutava os corpinhos para longe. Na outra vez o homem riu-se e pegou um dos ratos mortos, espetou o bicho com uma faca e acendeu um fogo para cozinhar.
Dia a dia os corvos se divertiam com seu homenzinho maltrapilho comedor de ratos. Ele às vezes lhes jogava os ossinhos e eles os seguravam nos bicos ou nas patas, jogavam longe e grasnavam de graça quando o homem se engasgava de tanto rir. Ele cambaleava pelas ruas imundas pedindo vinho, mais vinho!, e os corvos dia a dia o seguiam. Já quase esqueciam da casa condenada e de seu umbral de pintura descascada; preferiam rir-se do homem que mal conseguia dar dois passos sem segurar na parede ou nos transeuntes que o enxotavam e que ele xingava quando caía de costas no chão e balançava os membros para todo lado. Não era só o fedor e suas roupas acabadas; o homem tinha corvos e eles traziam má sorte, diziam os passantes. Os corvos achavam divertido e grasnavam de graça com os sustinhos das mulheres e dos pequenos que o bêbado assustava na saída da igreja. Ele às vezes jogava pedra em quem olhasse os seus corvos daquele jeito torto de quem acredita em azar e xingava alto os transeuntes. Seus corvos eram seus companheiros, e riam de graça dessa decadência junto com ele.
O homem um dia se encheu de vinho e de uma bebida de malte que ele roubou de uma caixa perto do rio. Ele bebera tudinho, mas não conhecia o efeito daquela bebida e gemia agora encostado na parede da igreja reclamando baixinho da garrafa vazia. Os corvos grasnavam de graça e até o homem dava umas risadinhas. Dormira ali, roncando de boca aberta junto à parede atrás da catedral, ignorando as moscas que às vezes pousavam em um de seus dois dentinhos amarelos, podres, caindo, como a pintura do umbral da casa condenada. Os corvos sentiram então falta de seu ninho, e dos ratinhos que fugiam como tapetinhos na parte condenada da cidade. Pensaram em deixar o homenzinho, mas gostavam de sua risadinha e de como cambaleava para andar. Ele acordou depois de algum tempo, e riu de seus corvos, que continuavam parados na estátua e ruflaram as asas de indignação. Já não havia ratinhos por ali e eles estavam famintos e cansados do homenzinho, mas ele tinha lá sua graça e os corvos se divertiam com ele.
Passou ali a procissão de gente de cabeça baixa que saía da igreja depois do fim da missa da vigília, bem quando o nevoeiro estava mais denso, e o bêbado começou a xingar os pequenos e as mulheres que o chutavam sem querer. Ele tentou pegar o calcanhar de duas mocinhas lindas que passaram, mas ele era lento e elas correram soltando gritinhos. O pai delas deu um chutão no homem que jogou a garrafa no senhorzinho, que fugiu ainda maldizendo o bêbado vadio atrás da igreja. Ele riu-se e os corvos não grasnaram, pois estavam cansados e com muita fome. Passou então um coroinha, a roupa preta com veste branca e o cabelo cortado bem curtinho, segurando uma garrafa de vinho inacabada. O menino parecia com pressa e por isso não viu os pedaços da garrafa que o bêbado atirara no pai das mocinhas, escorregou e caiu no paralelepípedo sujo da rua e manchou a veste branca que usava. O bêbado riu de se dobrar e rastejou até a garrafa de vinho que o coroinha derrubara. O menino se levantou depressa, e tentou tomar a garrafa do bêbado, que o xingou e tentou acertá-lo. Na luta por um gole de vinho o homem recuperou as forças e até levantou-se para puxar a garrafa das mãos do menino, que tinha os olhos molhados e a voz alta em gritinhos desesperados de solte! solte! não pode! não pode! Cristo! por favor, solte!, e os corvos acharam muita, muita graça daquilo e grasnaram bem alto.
Mas então o homem, que não acreditava em nada além do álcool, puxou a faca enferrujada que tinha e que usava para espetar ratos e ameaçou o menino, que berrou assustado. O homenzinho riu-se do cagote do coroinha e avançou cambaleante sobre ele, que ficou com mais medo ainda. Mas os homens tem aquele instinto de sobrevivência desesperado que move o seu braço num impulso quando estão com muito, muito medo, e foi isso que aconteceu com o coroinha, que golpeou a cabeça do bêbado com a garrafa. A garrafa espatifou na cabeça do homem com a força do golpe, quebrando o pescoço e cravando cacos no rosto e no pescoço do homenzinho. Os corvos silenciaram seus grasnos, e o coroinha olhou para o chão e viu o corpo do homem, e depois para os lados, procurando testemunhas no meio do nevoeiro denso em que não se podia ver nada. Ele então soltou o gargalho que ficara em sua mão e correu, para onde não se sabe. Os corvos balançavam as cabeças, olhando o corpo fétido e maltrapilho do seu comedor de ratos. Os corvos são pacientes, e esperaram. Quando o homem não se moveu e seu sangue tornou-se bem escuro e o nevoeiro era ainda mais denso, eles desceram sobre seu corpo inerte, bem pertinho do seu rosto, e viraram as cabeças para contemplaram seus olhos vidrados. Era só mais um bêbado maltrapilho morto em uma briga de bar, diriam os transeuntes no dia seguinte, aqueles mesmos que ele xingava quando passavam. Mas os corvos não ligavam para as notícias dos homens, assim como não ligavam para a peste que enegrecia a pele deles e muito menos para o vinho que corrompia suas almas. Eles grasnaram de fome e de cansaço e fincaram os bicos vorazes na carne do homenzinho comedor de ratos. Um deles quis primeiro os olhos. O olho começou pelo lábio.
Depois, de barriga cheia, os corvos bateram as asas negras sobre a cidade e voltaram para seu umbral descascado na casa condenada. Tiravam a sujeira das penas um do outro e trocavam bicadinhas carinhosas e ficavam juntos ali vendo o mundo mudar. Muitos dizem diferente, mas diferentemente dos homens, os corvos são muito leais.
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