Os Contos de Mira

1 Cortar O Mal Pela Raiz


Século VIII

“Para os cristãos, os deuses antigos existem, mas são demônios, que é preciso caçar. A expulsão dos demônios encontra-se, então, no centro de toda narrativa de propagação da fé cristã contra o paganismo. A primeira forma disso é o paganismo, há também o exorcismo, e outra modalidade decisiva é a destruição dos templos pagãs.”- Jerome Baschet

Há muito tempo, quando um campo florido havia sido palco de uma terrível luta corporal, se podiam avistar duas pessoas debaixo de uma das árvores. Um homem era mais velho – parecia estar na casa dos sessenta –, careca, mas possuía uma longa barba grisalha, suas vestes eram compostas por uma batina preta e um colar com uma cruz – grande o suficiente para que descansasse no peito. Este avistava tudo com seriedade, não aparentava ser a primeira vez em um campo de batalha.

No entanto, o outro parecia ser mais novo – um garoto de seis anos –, com seus cabelos encaracolados e vestes claras, possuindo, também, uma cruz no pescoço. Seu olhar era diferente, estava amedrontado; espiava com os olhos semicerrados por alguns segundos e voltava a se esconder por trás do homem mais velho.

— Tio... – sua voz falhou quando recebeu um olhar de desaprovação do homem. — Sinto muito, bispo.

O velho assentiu para que prosseguisse.

— O que aconteceu aqui? – perguntou.

O lugar estava completamente arruinado.

Corpos estavam espalhados pelo campo. O sangue dispunha de uma coloração negra e já parecia seca nas roupas daqueles guerreiros. A morte não havia escolhido um lado: os dois povos se encontravam estirados no que antes era um campo verde. Os homens de fé e os outros. Seu tio já havia lhe contado histórias sobre eles antes – sobre os bárbaros. Selvagens que cultuavam deuses antigos, ou melhor, demônios. Era por isso que estavam ali, para livrar aqueles pobres homens e mulheres do mal, para oferecerem a renúncia a Satã e conceder a conversão. Era uma batalha entre a fé cristã contra o paganismo.

Mas, eles não aceitaram muito bem.

— O mal, Marcus. Infelizmente, não se consegue salvar todos.

O bispo ofereceu a mão para o garoto e juntos se aproximaram. Passando pelo centro do campo, os corpos eram retirados pelos cavalheiros para facilitar a passagem dos dois. O garoto tentava não olhar para os lados, não queria que aquelas imagens o atormentassem na hora de dormir. Entretanto, não adiantou muito, posto que um dos corpos – que antes parecia não estar respirando – agarrou seu pequeno braço.

Era uma mulher. Suas roupas estavam rasgadas e seu corpo se encontrava com machucados profundos. Os cabelos estavam ensebados – fruto da terra e do sangue misturados. Ela começou a falar, mas ele não conseguia entender. Entretanto, não se estendeu muito nas palavras, pois um dos cavalheiros atravessou suas costas com sua espada. A mulher cuspiu um pouco de sangue e retornou ao chão.

— Sinto muito, bispo Adolfo de Kasnier. – o cavalheiro pediu, abaixando a cabeça em respeito.

O bispo pegou rapidamente o garoto no colo, murmurou um “obrigado” para o homem e continuou a caminhada. O garoto fechou os olhos, tentando afastar o súbito susto que acabara de presenciar e só abriu quando seu tio parou de se movimentar, o colocando no chão.

Eles estavam em frente há um enorme carvalho. O garoto olhava admirado para aquela árvore, parecendo capaz de esquecer toda a miséria que vira segundos antes: suas raízes sobressaltavam o solo, havia um caule enorme que se fragmentava em diversos ramos, originando diversas folhas em tons de verde escuro.

— Bispo? – Marcus perguntou, enquanto puxava sua batina para que este lhe desse um pouco de atenção — Que árvore é essa?

— Eles... – balançou sua cabeça em direção aos homens que haviam perdido a guerra contra Deus, horas atrás — o chamam de carvalho de Thor, filho.

O homem observou como Marcus encarava o grande carvalho. Ele o conhecia muito bem para dizer que aquele não era um simples olhar de curiosidade... era como se o garoto realmente estivesse contemplando aquela árvore. Franziu o cenho, estranhando toda aquela fascinação do jovem. Seu coração acelerou quando viu que o garoto não estava mais se contentando em apenas admirar o carvalho com os olhos, aparentava querer mais: lentamente, levantou sua mão, e começou a caminhar para que pudesse tocar o carvalho.

Entretanto, antes que o jovem concluísse tal ação, o bispo o puxou de volta.

“Era melhor cortar o mal pela raiz”, pensou.

— Eu sei o que deve estar passando pela sua mente, Marcus – disse, enquanto bagunçava seus cabelos dourados — Mas não se engane... o mal às vezes se apresenta como belo para confundir-nos. Só os bons cristãos os enxergam e os recusam. Por isso, temos os santos, Marcus. Para nos proteger e nos guiar para o caminho de Deus.

O garoto assentiu, pensativo.

— O que acontecerá com ela, então?

O homem suspirou pesadamente vendo a preocupação do garoto com a árvore dos bárbaros. Bom, pelo menos ele poderia utilizar isso ao seu favor, ensinando um pouco mais sobre teologia e os deveres de um monge.

— A árvore será destruída, assim como seu deus pagão, e de sua madeira será construída uma capela para São João. Sabe o que isso significa?

— Que estamos afastando os demônios pagãos para que Deus abençoe essa terra, e assim os que estão nela. Estamos propagando o bem. – respondeu prontamente.

— Exatamente. – pela primeira vez no dia o homem mais velho sorriu, vendo que seu sobrinho ainda prestava atenção em seus ensinamentos. – Venha, é melhor irmos embora.

— Hum... bispo?

— Sim?

— Será isso que irei aprender no monastério? – perguntou, enquanto fitava seus sapatos cheios de barro, e muito provavelmente de sangue.

— Irá aprender muito mais no monastério. Mas, por enquanto, me encarregarei de sua educação. Se me escutar, um dia também será com eu, certo? – respondeu, oferecendo a mão.

O garoto se voltou para o lado, como se quisesse guardar aquela imagem no fundo da memória. Os cavalheiros estavam tentando retirar os corpos, mas ainda havia muito trabalho pela frente. Homens, mulheres e crianças estavam deitados no chão sem suas almas. Marcus se perguntava o porquê resistiam tão fortemente contra a vontade de Deus. De qualquer maneira, não era mais importante. Eles já haviam pagado o preço.

— Claro, bispo. – disse, conforme pegava sua mão.

Notas finais
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA: BASCHET, Jerome. Conversão ao cristianismo e enraizamento da Igreja; O renascimento carolíngio VIII-IX. In. A civilizacao feudal. São Paulo Globo. 2006. Págs 57-75.