Os Contos de Mira
4 Caridade
SÉCULO VIII
“As sociedades da Alta Idade Média tiveram de enfrentar uma série de crises alimentares. Alguns cronistas carolíngios, aliás, desenham um quadro bastante sombrio dessas crises. Talvez porque as crises famélicas tenham atingido maior amplitude, o poder real quis “inventar” soluções ao problema; tais soluções mostrariam o desespero dos governantes carolíngios diante de problemas que eles não conseguiam resolver: prescrições dadas ao clero para a celebração de missas, de súplicas a Deus, incentivo à caridade, ordem dada a clérigos e laicos para a prática do jejum e das esmolas.” – Marcelo Cândido da Silva
Lotário foi o terceiro órfão resgatado pelo carpinteiro Luís. Havia mais quatro: Aalis, a mais velha, em seguida Carlos, depois o próprio Lotário, e por fim, a pequena Jehanne. O carpinteiro era um homem velho, gordo e careca; vestia-se com roupas velhas – muitas vezes dadas como esmola por pessoas que apreciavam seu bom coração por cuidar daquelas crianças que nem suas eram. Não tinha esposa e muito menos um filho biológico, sua família eram as crianças que ele salvara da fome – não que estivessem em uma melhor situação ao seu lado, mas se tinha um teto sobre suas cabeças. Isso já era alguma coisa, visto a crise que estava começando a assolar as terras do Império novamente.
O velho Luís trabalhava manhã e tarde em sua carpintaria, mas com os tempos assombrosos chegando não estava conseguindo nem se sustentar e tampouco as crianças; por isso, as mandava pedir esmolas na rua. Muitos olhavam para suas caras sujas e vestimentas velhas e pensavam na missa onde o bispo proclamava a caridade para uma chegada mais rápida aos céus, assim davam algumas moedas, roupas de segunda mão ou até mesmo alimento. No entanto, outras não acreditavam muito em suas conversas e tratavam de despistá-las. Nesse segundo caso, eles pediam uma segunda chance e os levavam para seu pequeno casebre caindo os pedaços. Depois das crianças mostrarem a situação e do velho carpinteiro contar suas histórias, muitas repensavam e mostravam compaixão.
E assim, a história de Luís e das crianças órfãs se popularizou pelos arredores. A popularidade foi tanta que um dia receberam a visita do próprio bispo: Gregório de Apolinário.
— Me enche o coração ao ver como você é bom para essas crianças, senhor Luís. – o bispo falou, enquanto olhava pelos cantos da casa.
— Ah, bispo... na verdade, eles que são bons pra mim. – o homem gordo sorria, mostrando seus dentes amarelos. — Porém, me entristece muito saber o quão precário é a situação que nos encontramos. E que não posso fazer muito para mudar a conjuntura de suas extremas magrezas ou de lhe oferecer um melhor lugar para ficar.
— Entendo – Gregório de Apolinário assentiu. — Mas, creio que no final Deus te compensará com bons frutos.
— Isso eu não tenho dúvida, bispo. – então, um silêncio se instaurou pelo ambiente, mas que foi logo sendo expulso pelo arranhar da garganta do carpinteiro. — Então... o senhor nos trouxe alguma coisa?
O bispo arqueou uma de suas sobrancelhas loiras.
— Desculpe-me, mas não lhes trouxe nada. – disse, desviando o olhar para as crianças que se encontravam atrás do homem velho. – A sua casa não é a primeira que visito hoje e nem será a ultima. Sabe, estamos enfrentando tempos difíceis. Há muitas pessoas passando fome e morrendo nas ruas. Mas não se preocupe, o Imperador está pensando na melhor solução para resolver a situação.
— Claro, claro, mas... o senhor sabe, não temos muita comida hoje, apenas uma galinha...
— Eu realmente sinto muito, mas não posso fazer muita coisa. Pelo menos, não por hoje. Mas venham amanhã para missa, posso pedir algumas doações.
— Nós ficaríamos muito agradecidos, bispo. – Luís abaixou a cabeça, em reverência e lhe deu um singelo sorriso quando se despediu de Apolinário.
A porta bateu demonstrando a saída do homem e o semblante de Luís mudou drasticamente.
— Aquele idiota não tem nada para nos oferecer. – ele riu alto — Logo ele, que possui todas as refeições, roupas limpas e um teto luxuoso sobre a cabeça. Que hipócrita!
— Eu estou com fome. – Jehanne murmurou.
— Ah! Então a pirralha está com fome. – o velho virou seus olhos para a garotinha. Aalis apertou sua mão mais forte. — Quer saber de uma coisa, eu também estou! – disse, dirigindo-se a mesa velha no qual em cima estava uma galinha assada, fria, mas pelo menos cozida. Sentou-se na cadeira e começou a devorar o frango.
— Nós também queremos comer. – foi a vez de Lotário falar.
O velho ignorou.
— Nós também temos direito a esse frango. – Carlos rosnou. – Fomos nós que o conseguimos mais cedo com...
Ele não terminou a frase. Em poucos segundos Luís estava com as mãos no colarinho de sua camisa, gritando:
— Vocês não têm direito a porcaria nenhuma nessa casa! Deveriam estar agradecidos por eu deixar dormir no meu chão, embaixo de um teto que os cubra das tempestades!
— Desculpe-me, senhor. – Carlos abaixou o olhar.
— Ótimo. Agora vão embora! – o homem mais velho proferiu, voltando para a mesa. — Se me deixarem em paz, posso pensar em deixar alguns ossos para vocês roerem. – sorriu em completa zombaria.
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