Os Contos de A Promessa
9 Sebastian
A situação estava saindo do controle. Tínhamos um jogo idiota, que era nossa única pista de quem poderia ser o próximo alvo e do que poderia acontecer, tínhamos as mensagens que Maxon e Aaron recebiam – e que estavam passando de todos os limites – e havia esse tal A.
A principio, confesso ter encarado tudo como uma brincadeira de mal gosto. Lembro de ter gargalhado na cara dos meus irmãos quando os dois vieram me pedir ajuda. Lembro como Aaron estava assustado e como Maxon estava nervoso, lembro de ter certeza que estavam aprontando algo porque estavam fazendo a mesma cara quando crianças, quando quebravam algo ou brigavam na escola e quando falaram sobre receberem algumas mensagens, lembro de ter caído na gargalhada. Fui tão estúpido. Porque não acreditei neles antes? Eu poderia ter feito algo para evitar a tragédia que foi a morte da Lethicia. Poderia ter pensado em algo para ajudá-los naquele mesmo momento. “Tem alguém que sabe muita coisa sobre nós e está praticamente nos chantageando.” Foi o que Aaron disse e eu – ainda rindo – perguntei o que ele tinha feito de tão errado e Maxon respondeu “não fizemos nada. Só que essa pessoa sabe da nossa vida.” E quem não sabe, Maxon? Foi o que perguntei a ele. Fui tão idiota. E só quando ouvi Robert contar o que havia acontecido com Lethicia, foi só quando percebi a morte estranha, o fato misterioso que me dei conta e foi ali que eu resolvi agir.
“O que aconteceu com Lethicia tem algo a ver com aquelas mensagens?” Perguntei a Aaron e Maxon enquanto estávamos no restaurante do hospital naquela mesma noite. Os dois se entreolharam e eu já tinha minha resposta. Do mesmo modo que fui estúpido em não acreditar no começo, eles foram idiotas em se entregar com os olhos e eu conhecia bem cada expressão. “Achamos que sim” Maxon respondeu. Concordei com a cabeça e ouvi atentamente tudo o que me disseram, sobre Karlla ter se visto no jogo quando tudo começou – fazendo dela a primeira suspeita – contaram sobre ela mesma afirmar que a morte de Dylan era uma fase do jogo – mais um motivo para suspeitar. Contaram sobre as mensagens na festa a fantasia da família Maddox, sobre as que receberam quando estavam sozinhos e que Maxon fez questão de não contar a ninguém e por fim, falaram seus suspeitos. Adam e Conor.
Ok. Quem diabos era Adam e quem era Conor?
Chamar Thomas foi meu primeiro pensamento, foi a primeira coisa que fiz quando cheguei em casa depois do enterro da Lethicia e foi Louis quem ligou de volta. Ele também servia. E desde aquele dia, eu não conseguia pensar em outra coisa. Não conseguia fazer outra coisa senão descobrir quem estava fazendo tudo isso.
Ir a faculdade com Jamie tendo a certeza que Mylena poderia nos ajudar já seria um passo a frente e o plano era observar nossos maiores suspeitos até agora, no caso Adam, Conor e Aspen. Depois de estudar tanto os alunos da faculdade, consegui decorar nomes e rosto deixando tudo mais fácil – para mim.
Jamie nos levou até o refeitório, era horário de almoço e nos fez sentar na mesa que – provavelmente – eles sentavam e nos fez conversar sobre algo – que eu não ouvia – para manter as aparências. Quem conseguia manter as aparências numa situação dessas? Encolhi os ombros e me inclinei a mesa observando cada aluno que passava ali, cada sussurro suspeito, cada expressão e atitude. Podia arriscar que a maioria estava nervosa pelo baile que teriam no final de semana. Podia arriscar que as mulheres estavam apreensivas com convites e os homens ansiosos. E eu poderia jurar que a expressão no rosto de Adam Kent – que descobri ser o maior inimigo de um dos meus irmãos – era mais para diabólico do que qualquer vilão em filme de terror.
— Ele está nervoso. Dá para perceber pelos ombros retos e as mãos nos bolsos. Posso até dizer que estão suando. – ouvi Mylena dizer. Desviei meu olhar e foquei nos dois que conversavam baixo na mesa.
— De quem estão falando? – perguntei intrigado.
— Aspen. – Jamie disse com os lábios, sem pronunciar um único som. Instintivamente meus olhos voaram para o homem que conversava com um grupo de mauricinhos.
— Ele está tenso, você consegue notar? – Mylena sussurrou para mim, olhando para mim enquanto eu o encarava.
— Eu vou dá uma volta. – Jamie disse levantando da mesa. – Esperem um instante.
E ele saiu sem dizer mais nada, nos deixando sozinhos a mesa e com certeza, deixando Mylena sem jeito. Tomei a liberdade de me virar para ela e perguntar sobre o que fazia na faculdade, era um bom modo de deixá-la a vontade e eu tinha plena certeza que ela iria relaxar falando do teatro.
É claro que eu sabia qual curso ela fazia.
E é claro que eu estava certo. Mylena sorriu e comentou sobre sua paixão, sobre sua sensibilidade em notar nas pessoas quando é fingido – atuação – e quando é verdade. Como quando notou em Aspen. Tentei arriscar em alguém aleatório e – sendo muito educada – Mylena afirmou que eu estava indo muito bem. Bondade da parte dela.
Minutos depois Jamie voltou para a mesa, mais branco do que o normal, mais nervoso e assustado. Mylena foi a primeira a pedir calma, que ele respirasse antes de falar. Eu, por outro lado, queria que ele falasse de uma vez.
Um dois três quatro cinco segundos de curiosidade e tensão.
Um dois três quatro cinco segundos de angustia esperando que Jamie estivesse mais calmo.
Ele tomou fôlego e se inclinou para a mesa, fazendo Mylena e eu nos aproximarmos o suficiente para ouvir o sussurro.
— Ouvi umas meninas comentando sobre Maxon. – Jamie disse. Enrijeci os ombros e me inclinei com a dúvida se aquilo era realmente uma novidade. Jamie balançou a cabeça como se dissipando os pensamentos e suspirou. – Ele está na casa delas. Na fraternidade das Alfas.
— O que? Porque? – Mylena perguntou intrigada.
— Ele não estava em casa? – perguntei irritado, lembrando bem quando Maxon saiu do hospital afirmando que iria para casa, que iria apenas trocar de roupa e não demoraria para nos encontrar.
— Mas o que ele estaria fazendo lá? – Mylena perguntou, insistindo em saber o motivo dessa loucura.
Peguei o celular e disquei rapidamente o número que já sabia de cabeça, o número de Maxon. Desligado. Levantei da mesa e sai o mais rápido que pude do refeitório, não iria consegui manter as aparências se algo estiver acontecido com meu irmão. Jamie e Mylena vieram logo atrás um pouco apreensivos com o que poderia acontecer. Maxon? Maxon na fraternidade? Pensei em ligar para Karlla, mas lembrei que estavam separados. Pensei em ligar para Aaron, mas ele devia ainda está com Travis. Respirei fundo e liguei para Louis. “Maxon saiu com a Karlla e ainda não deram notícia” foi o que ele disse, me fazendo erguer as sobrancelhas em surpresa. “Eles foram ao Morgan” Louis disse e sem mais um minuto perdido desliguei o celular e corri até o dormitório feminino. Ouvi Jamie gritar por mim, ouvi Mylena pedir para esperar mas eu não poderia porque era do meu irmão que se tratava. E eu desejaria muito vê-lo no quarto dela, desejaria vê-los íntimos – não importava – com tanto que ele estivesse aonde disse que iria estar.
O corredor estava vazio – como sempre – e a porta do quarto da Karlla estava fechada. Bati, chamei por eles e ninguém atendeu. “Estão ai?” Mylena perguntou em minhas costas. Dei de ombros e continuei batendo e chamando e batendo mais forte até suspirar derrotado. “Vamos falar aos outros?” Jamie perguntou. Concordei com a cabeça tentando não ceder aos pensamentos, ceder as suposições de que algo estaria acontecendo a Maxon. “Vou ligar para Mari.” Mylena disse caminhando em direção a porta, sumindo de nossa vista.
— Pode ser que ele só tenha ido falar com Kriss. – Jamie disse colocando uma mão sob meu ombro. Neguei com a cabeça e suspirei.
— Kriss não está na fraternidade. – respondi, sabendo bem que ela havia se mudado depois que havia recebido a mensagem desconhecida. – Ele deve ter ido porque suspeitava de algo. Ou é burro o bastante para pensar em mulher.
— Mas e a Karlla? Ela também não está. – Jamie disse me deixando intrigado, cedendo aos pensamentos de porque os dois juntos? Porque irem até o Morgan juntos? Para quê? Porque não estão aqui? Se Maxon foi para a fraternidade, aonde está Karlla? Respirei fundo e me virei para a porta.
— É hora de ligar para Thomas. – falei apressando os passos, fazendo Jamie me seguir. Encontramos Mylena e não demoramos para voltar para casa.
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