Os Contos Do Prisioneiro Cego
9 Capitulo 8
Notas iniciais
Depois de passar o dia com Set-Tun, com ele me ensinando o básico sobre a cultura em Escaldrum, nós vamos para a casa aonde eu iria morar. É parte do procedimento de adaptação social a alma morar junto com seu guia até que esse a consagrasse como cidadão, mas, como eu não havia conhecido o meu, Set-Tun iria morar comigo até ele chegar na cidade do outro lado do oceano.
Era em um apartamento em cima de uma drogaria. Essa loja, além de vender medicamentos, vendia também narcóticos. Set-Tun havia me mostrado um pasta composta de ervas finas e chá de um musgo laranja, que comprara nessa drogaria. A pasta é colocada em um cachimbo, onde a ascende e pode fumar o vapor que ela libera. Seu efeito é o aumento incrível dos sentidos. Essa droga era chamada de chave. E é famosa por ser barata, de boa qualidade, e não causar danos graves a saúde. Mas isso não quer dizer que ela não cause. Ao longo de muitos anos de uso continuo, ela causa demência e letargia. Os jovens, como Set-Tun, a usam muito em festas, ou só para o aproveitamento máximo de uma música, de uma comida, ou de qualquer coisa que envolva os sentidos.
Após nós experimentarmos um pouco da chave, Set-Tun me ensina a preparar um prato, que era basicamente carne assada com vegetais. Mas devo admitir, a gastronomia de Excaldrum era fenomenal. Nós comemos em uma bancada que ficava na parede entre a sala e a cozinha e tomamos uma fermentação feita a partir de uma fruta verde amarelada.
Set-Tun era uma pessoa muito viva. Não consegue ficar sem falar por mais de 10 minutos. Ele me conta sobre a liberdade dos nativos, sobre como eles podem viver uma vida completamente livres, sem necessidade de se preocupar com problemas que não fossem pessoais, mas que todo mundo se sentia parte da sociedade. Isso, para mim, era tão absurdo quanto maravilhoso.
***
Os dias de Excaldrum eram muito quentes, e as noites muito frias. Ainda que eu possuísse características de repteis, o meu hospedeiro possuía temperatura e metabolismo constante. O que me permitia ter sensação térmica. Sensação essa que me fez acordar no meio da noite de frio.
Mesmo sobre cobertores e mais cobertores de peles de animais, ainda sentia um frio perverso. Isso me fez questionar se não era eu o problema, o que de fato era. Mesmo com frio eu suava, minha respiração era muito ofegante. O meu corpo estaria me rejeitando? Não seria incomum... Estou como um parasita nele.
Minha cabeça dói e minha nuca lateja, as memorias estão mais bagunçadas do que nunca... E existem algumas que nem sei se são minhas, ou do meu hospedeiro. É como se o fogo de Mhalthus ainda queimasse em minha mente... Tudo gira em um redemoinho de lembranças e pesadelos do passado.
Depois de um tempo acordado, simplesmente sentado em minha cama, consigo colocar algumas coisas em ordem. Eu tinha lampejos de memorias do meu hospedeiro, juntamente com lampejos de minha própria memoria. Me lembro de coisas triviais, porem que me fazem falta, como meu corpo, meu rosto, minha casa, a cidade aonde morava, o meu mundo q foi reduzido a cinzas... Prédios em chamas, pessoas gritando e se debatendo, enquanto a radiação da nossa estrela reduzia tudo a entulho. Agora as lembranças são mais nítidas, porem ainda confusas, como se faltassem partes deles, um quebra-cabeças incompleto.
Meus olhos lagrimejam e meus lábios se contorcem, tudo que eu conhecia e amava havia se perdido no vão do espaço, e eu só havia me tocado disso nesse momento. Foram tão poucos os salvos... Uma raça inteirava casa dos bilhões, dizimados em décimos disso. Hoje somos a sombra da civilização que éramos antes, vivendo de favores em um planeta estranho. Sinto como se toda a honra e o orgulho malthusiano tivessem morrido com nosso planeta.
Com muito esforço tento dormir novamente, ignoro por completo memorias que não fossem minhas. Pela manhã falarei novamente com o nº51, perguntar se isso era normal. E amanhã eu também conhecerei meu guia social... Se eu conseguir dormir essa noite, estarei no lucro...
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