Os Cinco Sentidos
12 Capítulo 12 - Uma garçonete me dá conselhos
Notas iniciais
Eu não deveria ter vindo,não deveria ter me dado o trabalho de tentar consola-la. Arhm , essa mulher achava o que da vida? Que só porque tinha dinheiro e apartamento era melhor do que os outros.
Eu deveria tê-la deixado regurgitar depois de chorar por noites.
Deveria tomar vergonha na minha cara e me dar valor. Deveria simplesmente voltar a minha antiga vida com minhas clientes normais. E foi isto que eu fiz,ou melhor, tentei fazer.
Desci os andares pela escada, não estava com muita paciência de esperar o elevador, alem de que, eu poderia encontrar alguem conhecido dentro dele e este não era um momento bom para dar explicações. A chuva havia piorado, as gotas me atingiam rudemente , o vento gelado cortava meu rosto e aos invés de correr eu apenas diminui o ritmo dos passos.
Toda aquela agua no fundo estava me fazendo bem. Tudo o que eu mais queria era deitar na minha cama e descansar mentalmente.
Essa mulher bagunçou meus pensamentos em menos de uma semana,seria ótimo mesmo me manter longe e nada melhor do que relaxar . Mas nem tudo é como a gente quer.
Um Vectra vinho parou ao meu lado bruscamente. Seus vidros se abaixaram vagarosamente me mostrando a face de uma velha conhecida.
Vivianne.
Uma mulher esguia, de cabelos loiros e compridos, que lhe chegavam as nádegas. Olhos verdes faiscantes e lábios claros.
Minha antiga namorada e incentivadora da minha atual profissão.
Fizemos faculdade juntos, pelo menos até o 2° ano, antes de eu abandonar tudo.
– Derek ? O que você está fazendo nesta chuva? E nesta cidade ? Eu não sabia que tinha voltado. — Oh sim, ela também não sabia da viajem falsa que eu havia inventado para tentar recomeçar do zero.
Vejam, mesmo ela me dando apoio para começar na profissão não sabia que eu havia seguido o rumo, entendem ? Eu havia levado a sério seus comentários do tipo ''Você é bom nisto, daria até para ganhar dinheiro '' .
– Vivianne, nossa, que coincidência te encontrar por aqui — Passei as mãos nos cabelos ensopados que voltaram a se encharcar com a agua da chuva.
– Entra. Você está indo pra casa ?
– Na verdade estou saindo de lá. Vou tomar um café no Cotte's . — Eu não podia deixa-la ver minha moradia. Ela saberia no que estou trabalhando e bateria com os dentes na língua contando para minha mãe.
Não que eu tivesse medo de levar algumas palmadas de Dona Cassia, mas decepciona-la não era uma das coisas que eu queria fazer.Entrei sem titubear no carro de Vivianne que me olhou por um momento antes de dar partida.
– Você está bonito Derek. — falou — se eu soubesse que ficaria assim talvez não te deixasse partir.
– Tem males que vem para o bem — Sorri desconsiderando a indireta — e então, o que faz da vida ?
– Me formei e trabalho em uma das maiores empresas do país — trocou de marcha — você está trabalhando em que ?
– Bom, em um projeto próprio — menti, eu estava me sentindo um completo derrotado — nossa,que temporal, não ?
– Pois é, ha dias não chovia, isto não estava constando na previsão do tempo para hoje. — balançou a cabeça negativamente — até parece que a tempestade veio coroar a dor de alguem ,como dizia meu avô.
Dor, Meredith naquele momento estava sentindo dor. Era estúpido da minha parte tomar café enquanto ela estava lá,jogada na sala chorando.
Mas não foi eu que escolhi ser assim, fiz tudo o que podia ter feito, deveria respeitar sua opinião, por mais que isto soasse estranho, eu deveria deixa-la em paz. E eu na verdade nem sei por que estou me lembrando de Meredith agora.
POV Meredith
Chorei por algum tempo sozinha depois de expulsar Preston, logo após de Derek. No fundo eu me sentia mal em afastar todos que estavam a minha volta e queriam meu bem – até mesmo um garoto de programa — , mas era melhor colocar tudo para fora e deixar as lágrimas tocarem o chão sem ter ninguém as secando. Era melhor lidar apenas com minha dor do que com ela somada a dor dor meus amigos , pretendentes e homens estúpidos como no caso de Shepherd.
Meus olhos inchados e vermelhos demonstravam minha situação.
Com suspiros sôfregos fui para o quarto onde me tranquei e me joguei de baixo das cobertas onde fiquei por poucos minutos até me sentar na cama e decidir encarar Alex de uma vez por todas.
Se eu tive a capacidade de tirar a visão de Ísis, então teria capacidade para escutar as criticas.
Vesti uma roupa qualquer, cabelos soltos e uma sandália aleatória. Passei rápido na cozinha e vi a venda caída no chão, a mesma que eu havia retirado nas pressas para atender Preston. Isto me trouxe subitamente a imagem de Derek na minha mente,ele tinha saído bem chateado de lá, não que isto me importasse,claro.
xX
Saí no meu carro pelas ruas da cidade e foi então que me lembrei que não havia comido nada a não ser a pipoca mais cedo. Resolvi parar para comprar um salgado em uma lanchonete muito conhecida por ali.
Estacionei o carro e desci levando comigo um pacotinho de lenços para enxugar mais algumas lágrimas que teimavam em descer.
Quando ultrapassei a porta de vidro e procurei alguma mesa vazia para me sentar dei de cara com uma cena nada agradável. Derek e uma loira mil vezes melhor do que eu ,sentados conversando.
Atravessei o salão de cabeça baixa e me sentei em uma das poucas mesas disponíveis um pouco afastada do casal. Certamente ela era alguma cliente. Oh céus, isto inexplicavelmente me deixou ainda pior do que eu já estava.
E ali eu permaneci calada, os olhando conversarem até uma simpatica garçonete aparecer com um cardapio plastificado nas mãos e se por bem na minha linha de visão.
– Senhorita, vai querer alguma coisa ?
– Derek — falei distraida espichando a cabeça para tentar ver a cena atrás dela.
– Derek ? — falou sem entender.
– Oh não — balancei a cabeça — aquele é Derek — cochichei com as mãos na frente da boca tornando o som mais abafado. A moça virou o pescoço, os olhou por um momento depois virou-se novamente para mim e colocou um sorissinho no canto dos lábios.
– Ele toda semana vem com uma diferente.
– Hhm, imagino — tomei o cardapio de suas mãos.
– Me desculpe a intromissão mas — fez uma pausa — a senhora gosta dele ?
– Não — respondi pigarreando na tentativa de deixar minha voz mais clara — Claro que não, por que perguntou isto ?
– Bom, está o observando e com os olhos cheios de lagrima — falou com pena.
– Oh não, não estava chorando por causa desse idiota — funguei — é que..
E foi então que me lembrei o real motivo das minhas lagrimas, pensei se seria bom deixar mais alguem saber da minha incapacidade amorosa e profissional. Senti que precisava desabafar com alguem, mas no pequeno circulo de pessoas que eu me sentiria a vontade existiam alguns impencilhos ; Minhas amigas estavam trabalhando e se ocupariam mais em me consolar do que me ouvir, Preston interromperia-me para dizer bobagens e Derek estava a poucos metros de mim com outra mulher.
– A senhorita estava chorando porque..- me incentivou a continuar a frase imcompleta.
– Qual o seu nome ? — falei subtamente.
– Jassy, senhorita.
– Jassy, se sente ai, vamos conversar.
– Mas eu tenho que trabalhar.
– Fique sossegada, eu pago o valor do seu dia aqui. — Sorri amigavelmente e ela puxou a cadeira me olhando desconfiada.- Eu não namoro o Derek, mas a gente já..- estalei os dedos tentando encontrar a palavra certa — ficou, sabe ? — ela assentiu. — Só que ele não é bem o que eu quero, está longe de chegar ao que eu idealizei para mim.
– Mas ele te tratou mal ? — perguntou curiosa prestando atenção — já te bateu, humilhou ou algo do tipo ?
Parei olhando fixamente nos olhos da garçonete, tentando encontrar nos meus arquivos mentais algum momento em que Derek havia faltado com respeito a minha pessoa. Sim, ele já havia me dito algumas dificeis verdades, e já havia me deixado bem estressada, mas nada que eu pudesse classificar como ''Tratar mal'' . Olhei para a mesa onde ele estava e o vi beijando a mão da loira. Por um instante imaginei Derek vestido de branco, com um óculos de grau e cabelos bem penteados, carregando uma porção de livros com a mão, hhm, como certeza seria o homem que tanto sonhei.
Mas ele era apenas..apenas um..garoto de programa.
– Não, nunca! Já nos desentendemos, mas nunca passa disso, ele sempre pede desculpas — sorri de canto.
– Que cavalheiro, e a quanto tempo vocês se conhecem ? Dois anos ?
– Uma semana — falei me sentindo uma boba — Mas — tratei de complementar — é tudo muito intenso, já brigamos, fizemos as pases, passamos por momentos constrangedores e tristes. Acho que têm muito casal por ai que não viveu metade do que vivemos nessa semana.
– Casal ? — a garota perguntou desconfiada. Oras, casal do tipo 'homem e mulher' não necessariamente um CASAL , entendem ?
– Uhum , um casal de colegas — Mais uma vez olhei em seus olhos e abaixei a vista para o cardapio em cima da mesa me sentindo levemente desconfortavel, achei melhor ir embora antes que a conversa tomasse outro rumo. — Já preciso ir Jassy, quanto é o seu dia ?
– Não se preocupe, não conversamos nem por 3 minutos.
Peguei a bolsa e tirei uma carteira de couro vermelho de dentro, a abri e dedilhei algumas notas.
– Cinquenta paga ? — A mulher ficou calada e então eu estendi a nota em sua direção . — Tome.
– Senhorita, existem coisas que o dinheiro não pode comprar. Não deixe que estas notas impressas dominem sua mente — apontou para a testa — seu coração — colocou as mãos sobre o peito — e seus sentidos– apontou com a cabeça em direção a Derek..como se soubesse das nossas teorias.
Me levantei desorientada colocando a carteira dentro da bolsa e soltando a nota em cima da mesa, meu braço bateu em um enfeite que tambem estava por ali, fazendo-o cair .
Meu olhar acompanhou a queda do objeto e como se tudo em volta ficasse totalmente silêncioso, subi a vista e me deparei com Derek virando a cabeça em minha direção.
Merda!
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