Os Cavaleiros do Zodíaco - Le Roi-Soleil

2 Atlas - Sozinho na escuridão


O relógio já apontava dez da manhã quando o Grande Mestre Atlas voltou para a sua sala. Estava rezando para Atena na estátua que fica atrás do templo, a gigantesca estátua da deusa que abençoava e vigiava todo o santuário. Todas as vezes que os pesadelos assombravam sua noite apenas rezar acalmava o seu coração. Ele já não era o mesmo homem, tinha perdido a autoconfiança e vontade de viver, logo ele que antes era conhecido como a pessoa mais animada do santuário. Criado com a deusa Atena e desde os quatorze anos cavaleiro de ouro, Atlas era um líder nato admirado por todos, mas nove anos após a guerra era outra pessoa. O Atlas que os inimigos consideravam uma montanha humana já não existia mais, perdeu pouco dos seus músculos e nenhum pouco da sua incrível altura de dois metros e dez, mas perdeu toda sua presença, a presença que assustava inimigos e inspirava companheiros, seus gritos de batalha anunciavam sempre o ataque. O cabelo negro solto desarrumado, a barba grande por fazer, o andar cabisbaixo sem encarar ninguém nos olhos só mostrava que o santo vivia por viver, sem nenhum objetivo. Era um Grande Mestre esquecido, muitos nem lembravam que estava ali e ele não fazia questão de lembrá-los.

Levante essa cabeça homem! Quebrará o pescoço assim.

Ele conhecia bem essa voz estridente — a amazona de Leão — Scarlet, andando com passos firmes no enorme templo que Atlas agora morava. O cabelo vermelho vivo da amazona estava preso em uma trança que voava pelo vento que entrava pelas janelas, enquanto sua armadura dourada brilhava com a luz do sol, dificultando a visão de Atlas em alguns momentos. Scarlet era alta e com sua armadura dourada denotava tal poder que assustaria qualquer inimigo. Tinha perdido com o passar dos anos um pouco da beleza, e a perca do olho direito na guerra santa anterior influenciava nesse sentido, porém, continuava uma mulher que chamaria a atenção de qualquer homem. Sua beleza e ferocidade em batalha eram conhecidas por todos, criando um misto de admiração e medo. Atlas tinha sido apaixonado por ela na adolescência, mas Scarlet nunca olhou para ele com esses olhos.

— Acordou agora touro? Sabe que tem um santuário para governar, não é? — Perguntou Scarlet olhando com certo desdém.

— Bom dia, Scarlet. — Atlas estava acostumado com os ataques de Scarlet, mas sabia que ela o respeitava assim como ele a respeitava profundamente. — Já escolhi você e Santino como regentes para isso, todas as decisões que vocês tomarem tem meu consentimento.

— Ainda precisamos de você Atlas. É também não quero ver você morrendo aos poucos. Nove anos trancado neste salão, indo no máximo a estátua de Atena! Venha comigo Atlas, vamos conhecer os novos aspirantes que começaram seu treinamento, meu discípulo vai disputar a armadura de bronze de Leão Menor hoje e precisamos do Grande Mestre para realizar a cerimônia.

— Não precisamos de cavaleiros novos, a guerra já acabou. — Respondeu o Grande Mestre olhando para o chão.

— A guerra nunca acabará Atlas! — Esbravejou Scarlet batendo o pé contra o chão. — Nós não sabemos quando um novo Deus pode querer brincar de destruir a terra, temos que estar preparados para tudo. Também precisamos de cavaleiros para viajar pelo mundo ajudando na reconstrução e cuidando da segurança das pessoas.

Aquilo mexeu com Atlas. Ele sabia que boa parte do mundo foi destruído na guerra santa, a sociedade estava aos poucos se recuperando e se reorganizando. Mesmo sem guerra eles precisavam de proteção e nem todos os países ainda tinham organizado suas defesas, muitos roubos e saques aconteciam. Cavaleiros de prata e bronze tinham sido enviados para ajudar esses países, mas ainda eram poucos.

— Tudo bem. — Suspirou Atlas. — Pode ir, vou me preparar e logo te encontrarei.

— Obrigado Grande Mestre, estarei te esperando. Scarlet se ajoelha perante o Grande Mestre e se levantou caminhando em direção à porta do salão, ao chegar lá parou e se virou olhando com carinho para Atlas — Não demore, se não mandarei Santino te visitar. — E com uma gargalhada doce saiu em direção à casa de peixes.

Isso tirou um pequeno sorriso de Atlas. Scarlet já era difícil de aturar, mas Santino ultrapassava todos os níveis. Um dia atacou Atlas na tentativa de forçá-lo a sair do trono e depois de uma noite nada agradável não queria Santino o importunando. Ficou sentado por um tempo após a saída de Scarlet, já arrependido de ter concordado em ir, mas não poderia voltar atrás da promessa e seria interessante ver a evolução do discípulo da sua amiga.

Já fazia muito tempo que ele não usava suas roupas de Grande Mestre e se sentia extremamente desconfortável com os trajes, mas cumpriria o que prometeu a Scarlet, Espero que acabem logo esses treinamentos. Ao sair do salão Atlas pode ver logo a baixo a casa de peixes, e após elas as outras casas do zodíaco. Ele lembrava quando morava em uma delas. A segunda casa, a casa do touro dourado.

Já tinha se passando muito tempo que tinha abandonado a sua casa. Outras várias estavam abandonas depois de perderem seus guardiões, o santuário que antes era cheio de cavaleiros hoje em dia parecia morto. Estava muito quente na Grécia nessa época, era final de Julho e no santuário fazia mais de trinta graus. Atlas se sentia cozinhando dentro daquela roupa. Ao começar sua descida notou o encontro de pequenos cosmos com um cosmo maior e bem familiar para ele. Santino! Que Atena me ajude.