Poseidon mantinha-se imóvel, sentado em seu trono com o maravilhoso Tridente na mão direita. Seu olhar era o de uma entidade distante de uma batalha emocionante e desesperada. Tétis estava de pé à sua frente, seu rosto aberto em um sorriso breve de felicidade. Alice, ao fundo da Câmara, lutava para se colocar de pé novamente. Ambas escutaram um som grave invadir o salão, enquanto o mural atrás de Julian lentamente erguia-se, revelando a parte externa do Templo.

O brilho do céu-de-mar do lado de fora invadiu o salão escuro e Tétis viu por sobre os ombros do amigo surgir o Corredor das Águas que se estendia até o enorme Pilar Fundamental ao fundo. Era nele que a vida de Atena lentamente se esvaía, pensou Alice.

— Saori. — balbuciou ela para si mesma, juntando forças para queimar seu cosmo.

Os olhos de Poseidon continuavam fixos nos de Tétis e, com um leve movimento de sua mão, a sereia sentiu seu corpo levitar contra sua vontade. Sua respiração parou por um instante, assustada. O dono do tridente falou com sua voz forte.

— Trouxe até o Trono do Mar uma Cavaleira de Ouro do Santuário de Atena. Este lugar é destinado apenas aos Marinas de Poseidon. Jamais deveria ter trazido alguém como ela até aqui, Sereia. — a garota sequer podia pedir desculpas, incapaz de falar.

Com outro movimento de sua mão divina, Tétis foi arremessada na direção do Corredor das Águas, com seu corpo caindo com violência no chão. Sua Escama carmesim rachou em muitos pontos e ela não se levantou mais, desmaiada com a força daquela figura que ela tanto adorava. Alice ficou chocada.

— Idiota. — protestou ela com força. — Ela se colocou na frente da Flecha de Ouro para proteger você e é assim que você a trata?

Ela abriu suas asas de ouro novamente e desatou a correr, furiosa, na direção de Poseidon, com o punho estalando relâmpagos menores. Todos eles explodiram à frente de Julian; o Deus não moveu um dedo sequer, enquanto ela socava o ar paralisado. Toda a ira de Sagitário parava à frente dele como se houvesse se chocado à uma parede invisível e impenetrável. Alice rangia os dentes, tentando realizar algum milagre que a permitisse seguir adiante, por cima daquele oponente intransponível.

— Por que não me deixa passar? — falou ela com dificuldades.

Em um lampejo de luz, ela novamente foi jogada contra uma pilastra. E assim que caiu no chão, a garota levantou brevemente o tronco e sentiu o templo inteiro chacoalhar por alguns instantes. Por detrás do trono de Poseidon, ela enxergou o céu-de-mar ainda mais perto no horizonte, enquanto uma chuva fina passou a cair de maneira intermitente do lado de fora. Ela calculou que o último pilar havia caído. Ela precisava fazer a parte dela.

— Droga. — reagiu ela, socando levemente o chão. — Me escute, Poseidon!

Levantou-se para falar ao Deus e sua voz tinha ódio.

— Poseidon, Senhor dos Mares. — forçou ela algum decoro diante daquele soberano que ela achava ridículo. — O seu Reino Sagrado está sendo destruído. Todos os Pilares do Mar foram derrubados. Mas se a força que os levou ao chão foi a dos Cavaleiros de Atena, a mente maligna por trás de tudo isso, aquela que causou a destruição do seu Reino, na verdade foi a de um General Marina! O General Dragão-do-Mar é o verdadeiro responsável por manipular a sua própria ressurreição e colocar Atena para lutar contra o Deus dos Mares. Um plano diabólico para que ele pudesse surgir vitorioso no meio dos escombros da guerra.

Alice percebeu que Poseidon pareceu se atentar para o que ela falava.

— Irá falar qualquer coisa para isentar a sua culpa.

— Eu estou falando a verdade! — retrucou ela, imediatamente, com coragem. — Mesmo entre seus seguidores, até mesmo entre os Generais Marinas que o protegem, havia suspeitas sobre quem ele era!

Poseidon ficou em silêncio novamente enquanto ouvia o relato desesperado.

— Sorento de Sirene era um deles. — e ela percebeu que o nome trouxe certa reação breve de Poseidon. — Sim. Ele também suspeitava de Dragão-do-Mar muito antes de Atena aparecer neste lugar. Ou de qualquer um de nós. Eu estou certa, não estou? Posso ver nos seus olhos. Ele te falou muito antes de isso tudo começar, não é verdade?

Mas Julian, que parecia oscilar entre um deus e um homem, voltou a fechar os olhos lentamente, como quem apaga a mortalidade num piscar.

— Continuar com essa batalha é fazer exatamente aquilo que ele quer. Sacrificar Atena apenas cumprirá com seus desejos, será que não percebe isso? Não vê que está sendo manipulado!?

— Está dizendo que um General Marina seria capaz de manipular o Deus dos Mares?

— Pois é exatamente o que está acontecendo, não é? — bradou ela, incapaz de separar o rapaz do divino.

— Que tolice. — reagiu ele, muito mais como Julian do que como Poseidon.

— Você é quem será o tolo, no final das contas. Um Deus antigo como Poseidon cair nos truques de um mortal, de alguém que inclusive deveria servi-lo neste Reino, mas está tramando para derrubá-lo junto com Atena para ter o Mundo aos seus pés.

— Está delirando, garota.

— Mas que inferno. — ralhou ela de volta. — Eu não sei que tipo de brincadeira os Deuses querem aprontar com a humanidade colocando alguém como você para cuidar dos Mares. Será que não consegue ouvir a razão? Aquele homem tramou tudo isso, o General Sorento nos contou que ele era suspeito até mesmo para eles! Até mesmo a Tétis, que você tratou como um inseto, nos contou que este não deveria ser o Tempo de Poseidon. Não percebe que você sequer deveria estar desperto!? Que tudo não passa de uma trama? Não está me ouvindo, Poseidon?

Mas o homem no trono voltou a ficar impassível e calado. Aquilo encheu Alice de revolta e ela sacou outra vez o Arco Dourado e aprontou a Flecha de Sagitário na direção dele.

— Eu já cansei de perder tempo com você, se você não quer me ouvir, eu vou ser obrigada a te fazer enxergar de outro jeito. A vida da Saori está em perigo e eu quero que você se dane. — seu cosmo aflorou forte ao redor da Armadua de Ouro. — Essa Flecha foi capaz de derrubar um de seus poderosos Pilares, levantados por sua própria Vontade Divina. Olhe para o oceano e verá que todos eles caíram graças aos milagres produzidos pelos Cavaleiros de Atena. Eu vou chegar até ela, custe o que custar, portanto liberte Atena ou essa Flecha vai atravessar o seu peito. É o meu último aviso!

A ameaça de uma garota contra o Deus dos Mares pairou suspensa naquela câmara silenciosa, tamanho peso que qualquer palavra diante de Poseidon carregava. O Cosmo de Alice brilhava em puro ouro ao redor de seu corpo. Poseidon respondeu, agora com sua voz calma, o que era ainda mais enervante para ela.

— É tarde demais. O Pilar Fundamental já está cheio de água. A voz de Atena foi ouvida cantando há pouco tempo, mas também já se calou. Talvez tenha sido a última prece de Atena. Você já não tem mais ninguém para proteger.

Alice apertou os dentes de tristeza enquanto falava.

— A Deusa Atena, a Saori, superou a provação da Batalha das Doze Casas, enfrentou o espírito de Éris e uma vida inteira atrás do que esperavam dela. Eu tenho certeza de que ela ainda está viva dentro daquele Pilar, lutando por sua vida. Eu posso senti-la em meu cosmo. E eu vou salvá-la!

Poseidon pesou as fortes palavras que sairiam de sua boca e que machucariam terrivelmente o coração de Alice.

— Ela escolheu morrer.

Faltou-lhe o ar, sobrou-lhe a ira. E, com lágrimas nos olhos, ela finalmente soltou a corda de ouro e atirou a seta em Poseidon.

A Flecha zuniu e não havia mais o corpo de Tétis para proteger o Deus dos Mares, que tampouco moveu-se de seu trono, esperando ser acertado tranquilamente. O lampejo dourado do brilho que a Flecha produziu na sua trajetória iluminou todo o salão, até estalar em um espetáculo de luzes quando atingiu Poseidon em seu trono. Assim que a luz arrefeceu no lugar, Alice percebeu com assombro que a seta de ouro estava parada no ar a alguns centímetros do peito do Deus dos Mares.

Poseidon tinha um breve sorriso no rosto e, boquiaberta, Alice percebeu que a flecha aos poucos rotacionou em seu eixo e então disparou de volta na sua própria direção. Ela mal teve tempo de respirar, quando viu o enorme lampejo de luz outra vez iluminar toda a câmara, enquanto ela esperava por sua morte iminente. Ela tentou se proteger instintivamente e a Armadura de Sagitário fechou suas asas em um casulo e recebeu o impacto, jogando-a contra uma pilastra próxima. Ela caiu ao chão e, ao seu redor, dezenas de penas douradas estavam espalhadas.

-/-

A chuva que caía no Reino de Poseidon aos poucos criava uma fina camada de água nos pátios e ruas; os clangores da batalha no Templo principal ecoavam por toda aquela cidadela vazia. Ao lado do Pilar do Atlântico-Norte destruído, Kanon estava ajoelhado na água empoçada, enquanto Sorento olhava para o horizonte com uma dor imensa no peito.

— Tem alguém lutando dentro do Templo de Poseidon. — comentou ele ao vento. — A batalha finalmente chegou até o Deus dos Mares. Nós, Generais Marinas, falhamos em nossa missão.

— Eles não terão chance contra Poseidon. — respondeu Kanon, com os olhos perdidos no horizonte vazio.

— Poseidon não está totalmente desperto. Se os Cavaleiros de Atena foram capazes de realizar os milagres que realizaram para derrubar os Pilares do Reino com as Armaduras de Ouro, então talvez eles sejam capazes de derrotar Poseidon nesta Era.

Fez-se um breve silêncio antes que Kanon falasse novamente.

— Então por que perde seu tempo de pé às minhas costas esperando que sua presença julgadora faça qualquer diferença para mim?

Sorento refletiu por um instante aquele arrastado ataque de uma víbora com as palavras. Kanon, que seguiu falando, respondeu por Sorento.

— Porque sabe que você seria incapaz de fazer qualquer coisa.

As palavras caíram duras no General Sirene.

— Aquela garota tem razão. Eu não sou um guerreiro. — respondeu, comiserado, olhando para um outro clarão que se produziu no Templo. — Mas isso caiu como uma luva em seus planos, não é mesmo? Eu jamais seria um guerreiro, Isaac e Krishna talvez fossem guerreiros dedicados, mas nem mesmo Ío, Bian ou Cassandra pareciam prontos para uma batalha como essa.

Kanon tomava seu tempo para falar, como se aos poucos voltasse de seu torpor após a batalha contra Fênix.

— Prontos? — falou ele, finalmente. — Foram todos derrotados por crianças muito mais jovens que todos eles.

— Pois elas tinham uma força imensa. Um Cosmo tão intenso quanto suas capacidades de realizar milagres. O modo com que lutavam, com que seguiam em frente, com que acreditavam em si próprias, no quanto queriam salvar aquela garota a todo custo... Lutavam para salvar uma amiga, muito mais do que por um dever com sua Deusa, como fazemos nós, os Generais Marinas. — Sorento falava com certa admiração. — Eles me fazem lembrar das crianças que frequentemente encontro quando viajo pelo Mundo. Aquelas que foram abandonadas em abrigos, em igrejas, em estradas e que são acolhidas minimamente e encontraram na vida e nos amigos os verdadeiros laços mais profundos para seguirem acreditando em algo melhor. Era contra essa força que lutávamos. E contra ela nunca teríamos qualquer chance.

Pairou um silêncio entre os dois e Sorento olhou para Kanon novamente.

— E eu tenho certeza que até isso você sabia. Sabia que mesmo aquelas crianças seriam capazes de nos derrotar um a um. Eu aposto que você calculou exatamente o que aconteceria. Assim todos os Generais sairiam do seu caminho e não haveria mais nenhuma dúvida sobre você no Reino de Poseidon. Você controlaria o Deus dos Mares como quisesse. Não, muito pior que isso, você acreditava ser capaz até mesmo de tomar seu lugar, não é? Não é essa a sede de poder que você e seu irmão do Santuário tinham?

— Não me compare com aquele idiota. — respondeu Kanon, ríspido, aparentando alguma vitalidade finalmente.

— Pois olhe para si mesmo agora, Kanon. Está de joelhos.

Ele nada respondeu.

— Valeu a pena jogar com a vida de tanta gente? — perguntou Sorento às suas costas, com coragem na voz. — Celmira. Cassandra. Bian e Ío. Sem contar os inúmeros marinas menores e Tenentes que você manipulou para marcharem em nome de Poseidon sem se darem conta de que cumpriam apenas a sua própria vontade. A sua própria sede por poder. Enganou um Deus antigo, arquitetou uma tragédia em Asgard e uma batalha em pleno Reino de Poseidon apenas para satisfazer sua ganância. E o que ganhou com isso? Nada. E por outro lado, custou a vida de muitas pessoas, Dragão-do-Mar.

Pousou outro silêncio entre os dois.

— Então veio até aqui para se vingar por eles? — perguntou Kanon, calmamente. — Não, você não é capaz disso. Então por que, Sirene? O que está realmente fazendo aqui?

Sorento ficou calado, refletindo sobre suas próximas palavras.

— Não é possível que não perceba seus erros. Que não sinta nem ao menos uma nota de arrependimento por tudo que aconteceu.

Kanon deixou de olhar para o horizonte, para enxergar-se no reflexo da água empoçada à sua frente. Aos poucos seu corpo passou a tremer com uma risada colérica que finalmente pareceu lhe devolver toda a força. Sorento deu alguns passos para trás e Kanon levantou-se, magnânimo.

— Eu não posso acreditar que veio até aqui para se certificar de que eu me arrependesse. De que eu escutasse o drama de todos os crimes que acha que eu cometi e então lhe pedisse desculpas. É isso que você quer, Sorento de Sirene? Isso é ridículo. Por outro lado, você tem toda razão. Você não estava mesmo pronto ou talvez jamais estará para ser um guerreiro santo. Suas preocupações estão completamente distantes da verdadeira necessidade de um General de Poseidon, ou de um defensor de qualquer divindade que paira sobre essa Terra. Você é um inútil, Sorento.

O Cosmo dourado de Kanon envolveu seu corpo e ele caminhou na direção de Sirene enquanto lhe acusava com aquele tom ameaçador. Sorento deu alguns passos para trás, pois a presença de Kanon debaixo de seu Cosmo ameaçador era mesmo imponente e violenta demais para um artista como ele. À sua frente, ele viu Kanon desenhar um Triângulo de Ouro, cujo vazio no ar servia como uma janela para um universo infinito.

— Saia da minha frente! — ordenou Kanon, e Sorento foi sugado violentamente para dentro do triângulo, que fechou-se empurrando a água ao redor.

O General Dragão-do-Mar olhou para o horizonte, onde os lampejos de luz revelavam a batalha no Templo. Levantou os olhos para a fina chuva que caía e falou ao oceano:

— Perdemos todos. Somos mesmo uma gota de um oceano que eu achava que conhecia.

-/-

Na Câmara de Poseidon, outra Flecha de Ouro se ajustou no Arco de Sagitário e Alice, emocionada, ardendo em chamas com suas asas depenadas ao redor, atirou-a novamente para destruir aquela barreira que a impedia de seguir atrás de quem amava. A Flecha outra vez estalou a alguns palmos do peito de Poseidon e voltou contra a Cavaleira de Sagitário, que agora já não tinha suas asas para protegê-la. Ela queimou seu Cosmo com bravura mesmo assim.

Do chão brotaram com violência, num piscar de olhos, sete enormes esquifes de gelo eterno que cobriram toda a distância do Deus dos Mares até a Cavaleira de Sagitário. A Flecha de Ouro, disparada por Poseidon, atravessou cada um dos esquifes até parar completamente a centímetros do peito da Coruja. A ponta da seta pairou para fora do último esquife, até tudo explodir em lascas de gelo. Ela olhou para trás e viu Hyoga com seu Cosmo dourado brilhante.

— Hyoga!

— Alice.

— Hyoga, onde estão os outros?

— Logo estarão entre nós. O último Pilar do Mar foi derrubado, o que significa que Sorento de Sirene manteve sua palavra.

— Sorento? — perguntou Alice, confusa e apavorada por Hyoga ter feito um trato àquela altura da batalha.

— Sim, o General Marina de Sirene me convenceu de que ajudaria quem quer que estivesse lutando no último pilar, pois ele precisava saber a verdade de quem realmente estava por trás de tudo isso. Precisava saber quem era o homem que se escondia debaixo da Escama de Dragão-do-Mar.

— Hyoga…

— Alice, eu corri daquele templo até aqui me perguntando se havia feito a coisa certa, mas agora que estou aqui, eu tenho certeza de que fiz. Se eu tivesse chegado alguns instantes mais tarde, aquela flecha poderia ter perfurado seu coração.

Ela assentiu, finalmente convencida.

— Logo Shun e Ikki estarão aqui com a Armadura de Libra, eu tenho certeza disso. — falou Hyoga, que realmente confiava nos amigos.

— Poseidon não nos deixa passar. — falou Alice.

— Mas…

— Não importa para ele quem tenha arquitetado ou quem Dragão-do-Mar realmente é. É um Deus caprichoso, não adianta tentar convencê-lo de nada.

— Deixe-nos passar, Poseidon. — tentou Hyoga mesmo assim, colocando-se à frente de Alice. — Eu sou Hyoga, um Cavaleiro de Atena e também um Guerreiro Deus de Asgard, que passou os últimos dias suportando o frio e a dor do povo do Norte. Todos agora choram a tragédia que abateu sua terra. E a culpa de tudo isso é de Dragão-do-Mar, não de Atena. Era contra ele que sua ira deveria se levantar.

— A minha ira é contra tudo que destrói a vida nas águas do mundo. — retrucou o rapaz no trono. — E a minha ira foi apartada, graças ao coração da Deusa Atena. Agora os homens estão livres da destruição e a vida nas águas revive graças ao Cosmo puro e bondoso de Atena.

— Nós não vamos permitir que ela seja sacrificada! — bradou Hyoga.

— Este foi um desejo de Atena.

Hyoga sentiu-se acuado, mas Alice não se deu por vencida.

— Não, não é justo. Essa batalha foi toda criada por um homem que queria ser mais poderoso que você e ela. Não é justo que ela tenha que morrer como consequência de uma trama como essa!

E outra Flecha de Ouro foi armada. À frente dela, Hyoga ardeu seu Cosmo também.

— Vamos, Alice, atire!

Ela atirou, e a Flecha de Ouro retornou na direção deles com ainda mais força. Hyoga colocou-se na frente da Cavaleira de Sagitário e, com o braço esquerdo estendido, envolveu a Flecha com seus Círculos de Gelo enquanto levantava um outro esquife poderoso à sua frente com o braço direito. A combinação gélida foi somente capaz de paralisar por pouco o ímpeto da seta dourada que rompeu os círculos e destruiu o esquife, assim mesmo arremessando Hyoga para longe. Alice correu na sua direção, preocupada, mas ele logo pediu que ela voltasse para a batalha.

— Não se importe comigo, você precisa tentar novamente. — falou ele, com dificuldades em se levantar. — Seu Cosmo está ficando cada vez mais forte, mas embora a Armadura de Ouro lhe conceda poderes incríveis, você ainda não foi capaz de tocar o seu Sétimo Sentido. Você precisa queimar o seu Cosmo o mais alto que puder para que essa Flecha torne-se parte de tudo. Então vai conseguir quebrar aquela barreira intransponível. Eu irei levantar quantos esquifes forem necessários para te proteger, Alice. Vamos!

Ele se levantou com bravura, cambaleando para o lado, mas seguindo adiante na direção de Poseidon, ardendo seu Cosmo quente e gélido ao mesmo tempo.

— Vamos, Alice. Atire essa flecha outra vez! — ordenou ele.

Alice, deslumbrada com a força do Cavaleiro de Atena, outra vez armou a Flecha de Sagitário. Fechou os olhos, concentrando-se em tudo que sentia ao redor, e novamente atirou-a na direção de Poseidon. Outro brilho fulgurante iluminou toda a Câmara, mas então ela logo escutou o som inconfundível do gelo eterno se estilhaçando conforme a seta de ouro retornava com ainda mais força.

Hyoga tentou se proteger do clarão que o envolveu, mas então percebeu que nada aconteceu. Ele seguia de pé e, às costas dos dois, a Flecha de Sagitário espatifou-se contra um pilar ao longe, iluminando toda a Câmara. Na entrada, ofegante, Shun de Andrômeda tinha os dois braços à frente do seu corpo, enquanto seu Cosmo brilhava ao redor de sua Armadura rachada. Alice ficou feliz de revê-lo e só então notou, ao redor de toda câmara, a correnteza de vento que pairava. Eles haviam sido salvos pelo Cosmo do amigo.

— Shun. — reagiram os dois, com alegria.

— Amigos. — sorriu o garoto doce. — O que está acontecendo aqui?

— Poseidon não nos deixa passar. — falou Alice, com dor no peito. — O Pilar Fundamental fica mais adiante, mas seu Cosmo nos impede de prosseguir. Tudo que fazemos volta contra a gente. Parece ser impossível atacar um Deus.

— Amigos, tem algo terrível que eu preciso contar para vocês. — começou Shun.

— Nós já sabemos, Shun. Dragão-do-Mar é o verdadeiro responsável por tudo isso, mas Poseidon não nos dá ouvidos. Ele está irredutível.

— Então já sabem quem é realmente o Dragão-do-Mar. — falou Shun, com o aspecto grave.

— Como assim? — perguntou Hyoga e Alice juntos.

O rosto de Shun tornou-se sombrio e amedrontado, pois viu a confusão nos olhos dos amigos. Eles ainda não sabiam.

— Hyoga, Alice, o homem por trás da Escama de Dragão-do-Mar é na verdade o Cavaleiro de Gêmeos, Saga.

— Saga? — surpreendeu-se Hyoga, dando alguns passos para trás, sem conceber a ideia de que aquele terrível homem estivesse de volta. — Mas então… Dragão-do-Mar é Saga? Mas como isso é possível?

O nome derreteu o rosto de Alice, que cambaleou para atrás. Saga havia sido o homem que atentou contra a vida de Saori quando ela ainda era um bebê, bem como havia enviado asseclas terríveis para caçá-la no oriente. Olhou para a Flecha de Ouro caída no chão e quase desmaiou: havia sido aquela Flecha que ele cravou no peito da querida amiga por longas doze horas. E em seu último momento, Saga foi quem levantou seu terrível Cosmo contra ela. Um homem dedicado a matá-la a todo custo. E ele novamente se levantava dos mortos para matar Saori. Alice ficou cega.

— Antes de entrar nesse Templo, eu vi o último Pilar sendo destruído. — falou Shun para o amigo. — O Pilar que ele protegia. Minha irmã deve tê-lo vencido, mas…

— Saga… — repetiu Hyoga, assombrado pela lembrança de quando lutou contra o terrível Cavaleiro de Gêmeos no Santuário. — Não, Shun. Se o que estiver dizendo for verdade, é possível que ele também quisesse que o Pilar fosse destruído. Não me espantaria se ele próprio não o tivesse derrubado.

— O que quer dizer com isso, Hyoga?

— Ele é quem está por trás dessa batalha. — falou Hyoga para o amigo. — Asgard, as Relíquias, tudo isso foi obra dele.

— Para colocar Atena contra Poseidon. — concluiu Shun finalmente e Hyoga assentiu; Alice continuava chocada.

Hyoga e Shun adiantaram-se até Poseidon, e o garoto doce começou a falar.

— Deus dos Mares, Poseidon, me escute, eu sou Shun de Andrômeda. Por favor liberte a Deusa Atena. O homem que se passa por seu General Marina Dragão-do-Mar na verdade é o Cavaleiro de Gêmeos do Santuário. Um homem que tentou matar a Deusa Atena há quinze anos, quando ela ainda era um bebê, para conquistar o Mundo sozinho. Ele está apenas te usando para conseguir finalmente cumprir seus desejos. Por favor, escute a razão e não se deixe ser usado por um homem assim. Liberte a Deusa Atena, liberte a Saori, eu lhe imploro!

Mas Poseidon permaneceu calado, enquanto Shun esperava uma resposta.

— Não adianta. Ele não vai nos ajudar, Shun.

Quando o garoto olhou para trás, viu Alice arder em chamas, lágrimas nos olhos e a Flecha de Ouro novamente na mão. Seu choque havia se tornado ira, finalmente. Ela não havia batalhado contra Saga e sentia que aquele era o momento de mostrar que, para além de uma Coruja de Atena, ela ainda era também uma Cavaleira. Armou a Flecha de Ouro no Arco e pisou à frente dos amigos.

— Por favor, nos ajude, Shun. — pediu Hyoga, sabendo que não haveria outro jeito.

-/-

Entre os escombros do Pilar Antártico, coberto de gelo e estalactites da Execução Aurora de Hyoga, Isaac estava encostado contra uma pilastra olhando para o Pilar Fundamental; ainda o único que estava de pé, embora os trovões e reboadas no Templo fossem um prenúncio de um final terrível para aquele lugar.

Aquela cidadela era maravilhosa e erguida pela Vontade Divina de Poseidon que, aos poucos, parecia ruir; os corais perdiam as cores, as construções rachavam-se, os pilares todos no chão e o céu-de-mar quase à altura de um pulo. A fina chuva salgada caindo por todo o Reino.

De onde estava, Isaac viu um curioso triângulo negro se desenhar na face do céu-de-mar que quebrava acima de sua cabeça e, de dentro dele, cair um corpo desacordado no chão: era um General Marina com sua Escama completamente destruída.

— Sirene!? — espantou-se o rapaz.

Com dificuldades, Isaac levantou-se para ir até ele e verificou se ainda havia algum pulso em seu corpo. Ele estava vivo e, aos poucos, Sorento voltou a si e olhou confuso para os lados, sem compreender muito bem onde estava. Assustou-se a princípio ao ver o General de Kraken sobre ele, mas logo pareceu reconhecê-lo.

— Isaac?

— O que está fazendo aqui, Sirene?

— Onde estou? — perguntou ele, com o olhar perdido e zonzo.

— Este é o Pilar do Oceano Antártico.

— Antártico. — repetiu ele, como se precisasse ancorar sua mente para que ela não se perdesse no infinito outra vez.

Isaac ajudou-o a levantar o tronco, o que imediatamente o fez perder o equilíbrio mesmo sentado e ele precisou se apoiar no chão para que não desmaiasse. Aos poucos, respirando com profundidade, ele se apoiou nos braços de Isaac e, juntos, caminharam até um mural destruído daquele templo, onde ele pôde se sentar com as costas apoiadas.

Finalmente Sorento sentiu confiança para abrir os olhos sem que a sua visão girasse como num redemoinho. Ele viu onde estava. Os destroços do Pilar ao redor de onde estavam.

— A batalha ainda está acontecendo. — adivinhou ele.

— Todos os Pilares foram derrubados. Os Cavaleiros de Atena parecem estar agora lutando contra Poseidon. — relatou Isaac para ele.

Sorento olhou para Isaac, a cicatriz enorme em seu olho esquerdo e a preocupação no olho direito, sua Escama inteira rachada e coberta de gelo em alguns pontos.

— Disse que este é o Pilar Antártico. — repetiu Sorento, atento. — Então era mesmo verdade…

O General de Kraken olhou para ele, com certo mistério nos olhos.

— Ouvi o relato do Cavaleiro de Cisne. — falou Sorento para Isaac, que olhou para o horizonte imaginando ser ele que lutava na distância.

Voltou-se a olhar para Sorento.

— E o que se passou com você? Seu corpo simplesmente caiu do oceano à minha frente, como se cuspido de um portal.

— Um portal? — perguntou novamente Sorento, ainda precisando se ancorar nas palavras para não voltar de onde viera. — Eu fui atacado por Dragão-do-Mar. O General Dragão-do-Mar me jogou para dentro de seu Cosmo para vagar por um infinito cósmico. Até que acordei aqui.

— O General Dragão-do-Mar fez isso com você?

— Suas suspeitas estavam certas, Isaac. O General Dragão-do-Mar, na verdade, é o Cavaleiro de Ouro de Gêmeos, Kanon. E o verdadeiro responsável por essa batalha.

— Kanon de Gêmeos? — Sorento assentiu para ele.

Isaac estava ajoelhado ao lado do corpo de Sorento, recostado contra a pedra; e, na mesma pedra, o punho de Isaac abriu um pequeno buraco com um soco seu de raiva. E então se levantou, mas cambaleou também e percebeu que os danos da Execução Aurora de seu irmão, embora tivesse poupado sua vida, o havia tirado completamente de batalha.

— Ele nos enganou a todos.

O General Kraken nada disse, silenciado por seus próprios pensamentos confusos. Sorento o olhava curioso; os Generais Marinas pouco sabiam uns dos outros, uma vez que haviam sido convocados às pressas para aquela batalha e logo posicionados no tabuleiro daquele Reino. Ele não era um guerreiro, mas um artista sensível.

— Cisne mencionou que você já suspeitava. — falou Sorento, finalmente, afinal de contas a sensação da energia vital que Isaac transbordava de seu corpo era de uma natureza muito semelhante àquele terror que ele experimentou diante de Dragão-do-Mar.

— Eu sabia que ele havia vindo do Santuário, mas não imaginava a extensão de sua ambição, muito menos sua capacidade ardilosa. Que inferno.

— Tudo que podemos fazer agora é torcer pelos Cavaleiros de Atena. Que eles sejam capazes de pará-lo.

Isaac olhou para o horizonte, pensando em Hyoga com a maravilhosa Armadura de Aquário de seu antigo Mestre Camus. Sorento pareceu finalmente recuperar todo seu equilíbrio e também levantou-se ao lado de Isaac para olhar para o Pilar Fundamental, o único que ainda permanecia de pé. A batalha parecia chegar em seus estágios finais. Olharam-se e Isaac perguntou–lhe algo sobre o qual Sorento também começava a refletir.

— Por que ele o mandou até aqui?

Sorento buscou a resposta em algum lugar e não encontrou nada. No céu-de-mar, no entanto, os dois viram um curioso espetáculo onde um conglomerado de sereias e tritões nadavam feito um cardume rápido na direção de um dos pilares derrubados. Olharam-se entre si e tiveram um calafrio.

-/-

Julian Solo, sentado em seu trono, parecia em paz, uma figura que Shun tinha dificuldades em acreditar que pudesse ser tão irredutível. O brilho do Cosmo dourado de Alice o alertou que o tempo urgia, de modo que ele se colocou ao lado de Alice e assentiu para Hyoga; era preciso lutar.

— Corrente Nebulosa!

Seus poderosos ventos concentraram-se apenas no trono em que Poseidon continuava sentado; sua expressão inamovível, sua mão esquerda repousada no braço do trono e o tridente seguro na mão direita. Seus cabelos cheios e compridos eram revolucionados pelo vento de Shun. Ele o paralisava como podia, de modo que a Flecha pudesse espatifar o que quer que os impedia de seguir, sem que o rapaz se machucasse.

— Vamos, Alice. Atire de novo! — pediu Hyoga com seu Cosmo inflamado, quando a amiga também tomou coragem, fechou os olhos e outra vez atirou.

Os ventos poderosos de Shun realmente pareciam dificultar a vida de Julian Solo, de modo que a Flecha atravessou a câmara com muito mais velocidade, graças aos ventos de Andrômeda, bem como ficaram por mais tempo forçando a invisível barreira que impedia a Flecha de chegar até o Deus. Sentindo uma inédita oportunidade, Hyoga queimou seu Cosmo de Aquário e uniu sua força à flecha:

— Execução Aurora! — bradou ele, vertendo uma poderosa rajada de gelo para impulsionar ainda mais o golpe de Alice.

A união da Flecha de Ouro, a Corrente Nebulosa e a Execução Aurora fizeram o corpo de Julian desaparecer de vista para os Cavaleiros de Atena, tamanha conversão de Cosmo que se manifestava à frente deles. A barreira não se desfez, e quando a energia de seus Cosmos se dissipou, Julian Solo continuava sentado, impávido com apenas sua mão esquerda erguida. A Flecha de Ouro continuava à sua frente e, delicadamente com a mão, ele a virou no seu eixo e, num estalar de dedos, a fez tomar a direção contrária outra vez.

Agora sem todo o espetáculo de luzes, mas guardando exatamente a mesma força com que havia sido atirada. Outra vez Alice foi salva por um milagre dourado. Carregando o Escudo de Libra com as duas mãos, Ikki foi arrastada até ser contida por Shun, caindo de joelhos quando a energia se dissipou.

— Irmã!

— Estou bem, Shun. — falou ela, se levantando. — Então esse é o poder do Deus dos Mares?

— Sim. Não importa o tanto de força que a gente coloque em nossos Cosmos, nossas técnicas sempre acabam voltando contra nós. Não nos deixa passar para ir até o Pilar Fundamental.

Ikki escutou as palavras de Hyoga e viu a face de Alice derretida de preocupação, enquanto percebeu, além dos ombros daquele homem sentado, a figura do último pilar a ser vencido. Olhou então para seu irmão Shun e, sem que precisassem trocar qualquer palavra, compreendeu tudo.

— Esse idiota não está nem aí se foi manipulado ou não, não é verdade?

— Para ele não importa que Saga seja o responsável por tudo isso. — adicionou Hyoga.

— Não, não foi Saga. — falou Ikki, para surpresa de todos. — Foi Kanon, seu irmão mais novo. Um irmão gêmeo e idêntico àquele miserável do Saga.

— Kanon? De Gêmeos? — assombraram-se Hyoga e Shun.

— Mas se isso não importa para ele, não deve importar para nós. Vamos nos levantar e usar as Armas de Libra contra ele. As Armaduras de Ouro estão aqui. As três Armaduras de Ouro. — falou ela, olhando para Alice e Hyoga. — Kanon temia que elas fossem reunidas diante de Poseidon, então se ele tinha medo de que elas atrapalhassem seus planos, eu sinto que seja a coisa certa a fazer.

Ikki não se explicava, mas falava com tanta força que seus amigos simplesmente acharam a coisa mais óbvia do mundo seguir seus conselhos. Haveria tempo para discutir o que quer que fosse para ser discutido depois, mas na falta de tempo deles era preciso que agissem depressa. Todos concordaram, mas o Escudo de Libra que estava no chão depois do impacto com a Flecha ressoou com a Balança de Ouro que estava aberta atrás deles e, num passe de mágica, retornou como um dos pratos da libra.

O totem passou a arder em um Cosmo incrível e aquilo trouxe certa esperança para eles. Shun, Hyoga e Ikki rodearam a Balança de Libra, e cada qual tentou puxar uma Arma para si, mas a Armadura de Libra repeliu seus cosmos de perto por duas vezes.

— Por que a Armadura de Libra está se negando a nos ajudar agora? — perguntou-se Shun, sem compreender o que se passava.

— Droga. — maldisse Ikki, também confusa, sendo repelida ainda uma terceira vez por sua teimosia. — Temos três armaduras de ouro, mas não temos como usá-las!

— Três Armaduras de Ouro. — repetiu Hyoga, olhando para aquela balança dourada, como se algo tivesse tocado em sua memória. — Não, não é isso. Ikki disse que o irmão de Saga temia que elas se unissem, mas agora eu entendi. — ele parecia renovado de esperança, enquanto Alice olhava para ele, curiosa. — Seu temor não era por causa das Armaduras em si, mas por causa do milagre que acontece quando três Cavaleiros de Ouro unem suas forças.

— O que quer dizer com isso, Hyoga? — perguntou Shun.

— Meu Mestre Camus uma vez me contou sobre uma enorme explosão sem precedentes capaz de pulverizar as estrelas. Foi o que devastou o coração da Sibéria há muitos e muitos anos. Um evento que até hoje as pessoas de lá não compreendem exatamente o que se passou.

Estavam todos surpresos com o relato do amigo.

— Mas agora a Armadura de Libra está se negando a nos ajudar. Por quê?!

A Armadura de Libra continuava a arder uma chama cósmica ao redor de sua estrutura absolutamente maravilhosa; um sino tilintou ao longe e a chama dourada ao redor da balança tornou-se mais forte. Da parte de trás da balança desprendeu-se o maravilhoso Tridente de Ouro, que flutuou à frente dos três Cavaleiros de Atena.

Óbvio.

A arma mais adequada para vencer Poseidon era exatamente aquela que o fazia tão poderoso. Ikki tentou tomar o Tridente para si, mas foi outra vez repelida pelo Cosmo de Libra. O Tridente de Ouro então voou para o fundo da Câmara e parou nas mãos de alguém que surgia para ajudá-los naquele momento derradeiro.

Era Shiryu de Dragão.

Todos olharam com admiração ao ver a amiga surgir sem sua Armadura, destruída na batalha contra Krishna, mas novamente de pé para ajudar seus amigos. A Armadura de Libra desprendeu-se em um grande espetáculo dourado ao redor de Shiryu e vestiu a garota com sua proteção maravilhosa: os escudos no braço, as armas espalhadas pelo corpo e o enorme Tridente de Ouro na mão direita. Shiryu ardeu seu Cosmo magnânimo diante de todos e todos ali perceberam que havia algo diferente no Cosmo da amiga.

Ikki logo compreendeu em seu íntimo que, enquanto Alice e Hyoga pareciam presenteados com as Armaduras de Ouro por seus antigos donos, ainda carregando as vontades de Camus e Aioros, a Armadura de Libra no corpo de Shiryu não era mais uma manifestação da vontade do Mestre Ancião. Era uma união perfeitamente completa entre a Armadura e a garota. Ela realmente era a Cavaleira de Libra.

Saltou sobre eles com o tridente em mãos e imediatamente atacou a figura sentada no trono; como todos esperavam, aquele primeiro ataque foi repelido e Shiryu foi arrastada para trás. Seu Cosmo ainda brilhava, ela parecia confiante.

— Vamos conseguir. — falou ela para os amigos, sem qualquer necessidade de uma explicação, pois aquela fibra que demonstraram só podia significar que era necessário lutar para salvar Saori, ainda presa. — Vamos, Mii, Hyoga. Vamos criar essa explosão capaz de pulverizar as estrelas.

— Eu e Shun iremos usar nossas técnicas para envolver Poseidon num inferno de fogo.

Shiryu, Hyoga e Alice assentiram aos irmãos.

— Prepare sua Flecha, Alice. — pediu Shiryu, maravilhada ao ver a amiga com aquela Armadura de Ouro.

Alice colocou-se na frente da tríade, com Hyoga e Shiryu ao seu lado; atrás dos três Cavaleiros de Ouro, Shun aproximou-se da irmã e segurou sua mão delicadamente e então se ajoelhou, ardendo seu Cosmo Dourado. Tanto a Corrente Nebulosa como os ventos flamejantes de Ikki envolveram o trono de Poseidon, permitindo que os três Cavaleiros de Ouro atacassem em uníssono.

Seus Cosmos brilharam e cada um usou sua técnica máxima, unindo seus Universos em um único ponto: a seta de Sagitário.

— Execução Aurora!

— Cólera do Dragão!

— Vá, Flecha de Ouro!

A tríade causou uma explosão de estrelas e escondeu Julian debaixo da luz, embora Alice pudesse sentir na sua mão esquerda, a que segurava o Arco, a energia que a Flecha fazia para atravessar a barreira intransponível. Quando tudo se dissipou, finalmente viram com clareza que a Flecha de Sagitário pairava a centímetros da testa de Julian. Alice urrou e queimou seu Cosmo, alcançando o Sétimo Sentido pela primeira vez, adiantando-se como se empurrasse o ar à sua frente. A seta finalmente atravessou a membrana que a separava de Poseidon.

A Flecha de Sagitário apenas tocou na máscara de cobre que Julian usava e nela fez uma pequena rachadura, o suficiente para que uma explosão se manifestasse, jogando a Flecha de volta aos pés de Alice e fazendo a cabeça de Poseidon solavancar para trás, como quem recebe um golpe forte na fronte.

Estava finalmente atingido.

E, dos dois lados do trono, caíram as duas partes da máscara de cobre que protegia o rosto de Julian. Um filete de sangue escorreu de sua testa e sua cabeça voltou a pender para frente, com os cabelos lhe escondendo os olhos. A presença de Poseidon, antes tão forte naquela Câmara, dissipou-se completamente.


Notas finais
SOBRE O CAPÍTULO: É muito duro para mim não ter o Seiya nessa cena, mas a partir do momento que eu decidi que Alice seria Sagitário lá na luta contra o Aioria no bosque, eu sabia que tudo seria diferente aqui. Eu quis manter a essência dessa cena igual à do Mangá, em que todos ajudam Sagitário a realizar um milagre e acho que consegui. Ao mesmo tempo que já introduzi o conceito da tríade dourada que voltará mais tarde. =) A cena entre Kanon e Sorento serviu também para que houvesse uma perspectiva dos próprios Marinas sobre toda aquela confusão, bem como também dar uma cena em que Kanon finalmente tomasse uma importante decisão. PRÓXIMO CAPÍTULO: A SOMBRA DE KANON Kanon decide ir ao Templo de Poseidon, enquanto os Cavaleiros de Atena tentam derrubar o Pilar Fundamental.