Notas iniciais
O despertar de Poseidon traz muitas calamidades ao redor do Mundo. Saori Kido decide que algo precisa ser feito.

Existem poucas coisas na natureza que sejam tão furiosas e destruidoras como a força das águas.

Elas podem ser violentas, capazes de arrastar vilas inteiras que ousarem represar seus braços largos, ou mesmo se levantarem em ondas tão grandes que seriam capazes de ceder as mais bem-construídas pontes humanas. Seus vórtices marítimos podem engolir embarcações em questão de minutos e a mais leve maré pode levar para sempre um nadador desatento.

Mas as águas também podem ser pacientes e resilientes, erodindo paredões antigos grão a grão através dos séculos, dando forma às maiores formações rochosas da face da terra de acordo com os humores do mar, ou dos rios, ou das cataratas nas montanhas.

Se a própria natureza não podia fazer frente à fúria das águas, como poderiam resistir os mortais?

Em uma cidade litorânea, um grupo de crianças desesperadas gritavam os nomes dos adultos pelos corredores enquanto corriam em pânico dentro de um orfanato. Algumas delas sequer estavam vestidas, arrepiadas da cama por uma sirene alta e ardida que ainda soava por toda a cidade, anunciando a calamidade para quem ainda estava nos arredores, alertando-os para que deixassem aquele local de alto risco.

Aquele era o Orfanato das Estrelas.

Erguido à beira do mar para que ao menos a magia da praia acalmasse a tristeza das crianças abandonadas, o orfanato agora recebia o mais puro desespero de quem via seu jardim invadido pela maré enfurecida; os balanços voando sozinhos de acordo com o vento do litoral, anunciando um tufão destruidor. As folhas das macieiras invadindo os corredores, enquanto Miho corria para levantar e ajudar todos os pequenos que ainda choravam de medo.

Ela não estava sozinha, pois um destacamento de resgate da Fundação Graad foi enviado para aquele lugar de modo que pudessem evacuar todas as crianças para o local mais alto que houvesse naquela região. Um dos meninos, no entanto, não tinha aparecido nas filas de crianças chorando que subiam o camburão de carros blindados. Miho corria pelo orfanato, entrando de quarto em quarto procurando por ele, gritando seu nome.

— Makoto! Makoto! — ela tinha uma expressão assustada, enquanto o vento zunia do lado de fora e cadeiras já eram arremessadas pelos corredores graças à força do tufão que se aproximava. — Fala comigo, Makoto!

— Miho! — respondeu a voz do menino, em meio ao uivo dos ventos que torcia as árvores mais próximas.

Ela correu de um dos quartos recém abandonado pelas crianças, ainda com suas cobertas, brinquedos e pertences espalhados nas prateleiras, para subir as escadas até o segundo andar, em que a voz do menino podia ser ouvida. No segundo lance de escadas, ouviu no primeiro andar uma das janelas se estilhaçar com uma pedra que havia sido arremessada pelo vento, fazendo-a se encolher de medo enquanto continuava gritando pelo garoto.

Sua coragem a fez chegar até uma espécie de sótão onde o garoto quicava de um lado ao outro procurando por alguma coisa.

— Eu não tô achando, Miho. — reclamou ele. — Cadê o cartão, cadê o meu cartão?

— Esquece isso, Makoto, vamos embora! A gente precisa ir embora agora!

— Não, é o cartão do Seiya. Droga, ele tava comigo, vocês pediram pra eu guardar aqui. Eu num posso ir embora sem ele!

— Vamos, Makoto, por favor. — chorava Miho, enquanto o vento zunia do lado de fora.

— Achei!

Ele achou, botou o cartão no bolso da calça mal amarrada e tomou a mão de Miho para descerem os lances de escadas e serem arremessados no último camburão que deixava aquela parte da cidade cantando pneus.

A chuva caía com muita força por toda aquela região; o comboio de carros partiu daquela avenida cruzando uma rua de carros abandonados, enquanto muitas pessoas ainda corriam pelas calçadas para fugir da fúria dos mares. A Fundação Graad fez o que estava em seu alcance para auxiliar o governo a evacuar o máximo de pessoas daquela bonita cidade litorânea, bem como acolheu um sem-número de desabrigados em seu Coliseu, ao redor do qual se levantou placas enormes de concreto, para evitar que a água invadisse suas instalações.

Quem fugia dali, fugia para a cidade mais próxima que ficava acima das montanhas onde o mar não poderia alcançar, embora também estivesse sendo açoitada pela chuva intermitente que arrasava o país inteiro. Por lá as pessoas também escondiam-se em suas casas, rezando para que as chuvas passassem logo; entre eles, Shoko e Kyoko ficavam de mãos dadas no quarto, suportando o medo das chuvas, embora a irmã mais velha sentisse algo no ar que ela não compreendia muito bem, enquanto seu pai orava no quarto ao lado para que os deuses poupassem suas filhas.

Mas no escuro da falta de luz, Shoko e Kyoko não sabiam da triste realidade: era o mundo inteiro que sofria as consequências daquela fúria das águas, fosse por chuva, pelo mar ou pelos rios. No coração da Europa, os rios tornaram-se tão violentos quanto os mares, mas Palaestra era uma fortificação bem construída, de modo que os terríveis humores das águas do lado de fora não podiam invadir a fortaleza criada para Atena e que havia sido varrida por Máscara da Morte de Câncer. Tau e Miri estavam juntos com todas as crianças resgatadas do Mar Egeu no alto da construção mais alta da fortaleza, olhando a chuva escorrer pelo lado de fora, enquanto eram observados pelos funcionários dispensados da Fundação Graad e recrutados pelo Santuário para cuidar daquela fortaleza para o futuro.

A Ilha Cânon, no Mar Mediterrâneo, também chacoalhava, enquanto sentinelas do Santuário evacuavam Helena e seu avô para terem alguma chance de se manterem vivos, pois o mar parecia atacar a Ilha de um lado e o vulcão, outrora inativo, também cuspia fumaça para os ares do outro. E do outro lado do Mundo, Jacó e seu avô não saíam de casa, observando a neve que caía com mais intensidade naquela curiosa noite siberiana.

Megalópoles inteiras eram arrasadas pela chuva, que encalhava em seus terríveis sistemas de drenagem levando à miséria e destruição em centenas de ruas alagadas. Casas eram invadidas, estacionamentos alagados, ônibus carregados em rios criados nas ruas, pessoas subiam em telhados para terem alguma chance, cordas eram esticadas de margem à margem de uma rua para ajudar em travessias.

Em uma dessas enormes cidades de milhares de habitantes na China, a eletricidade cedeu aos curto-circuitos que a água causava contra o sistema elétrico, derrubando a cidade inteira a um breu enorme dentro de uma noite arrasada pela chuva.

— Alguém aí!? — se ouvia uma voz caminhando com dificuldades em uma água empoçada à altura de seus joelhos. — Falem comigo!

A voz era cheia de sotaque e desespero, e de longe o rapaz escutou baterem seco no metal de um cano; o sinal de que havia mais pessoas ali.

— Dohko! — chamou o rapaz. — Tem mais gente aqui.

— Vamos, Shina. Mostre o caminho.

Os dois caminhavam com dificuldades por aquele estacionamento alagado, auxiliando quem quer que ainda estivesse ilhado pelas águas que haviam invadido aquela cidade, carregando-os nas costas e ajudando-os a chegar em um lugar de melhor segurança. Shinadekuro respirava com dificuldades, mas era ele quem ajudava Dohko a se guiar por aquela terrível escuridão. O enorme tigre colocou a mão no ombro do amigo e olhou ao longe para os picos antigos de seu lar.

Lá também chovia aos cântaros, dando uma violência ainda maior às quedas dos nove rios; mas mais do que isso, tornando ainda mais tristes as lágrimas que Shunrei derramava abraçada ao Mestre Ancião de frente à cachoeira.

— Volte pra casa, Shunrei. — pedia o Mestre, preocupado, mas ela chorava ao lado dele.

— Essa chuva não é normal, não é, Mestre? São os Deuses castigando a todos nós.

— Por que os Deuses nos castigariam, pequena Shunrei?

— Porque somos maus.

— É nisso que acredita?

— Muito sangue é derramado nesse mundo, Mestre. Se os Deuses realmente existem, então devemos mesmo ser castigados dessa maneira.

O Mestre Ancião ficou calado pensando nas palavras de sua filha quando olhou fundo naquela cachoeira, enquanto seu chapéu de bambu lhe protegia da chuva intensa.

— Não está chorando por toda a humanidade. — adivinhou o Mestre Ancião.

— Ela vai ter que lutar de novo, não é? — perguntou chorosa a garota.

— Esse é o destino de Shiryu.

Como parecia ser o de todos os Cavaleiros de Bronze, assim como o de Jabu e de Ichi, que estavam ao sopé das Doze Casas imaginando o paradeiro de Jack e dos demais enquanto se preparavam para o que parecia ser mais uma Guerra Divina, cujos papéis destinados a eles talvez fossem menos honrosos do que se achavam merecedores.

"A lista de cidades arrasadas pela chuva só aumenta"

Imagens da Costa Azul da França, Nova Iorque, Rio de Janeiro, Colônia e um sem número de cidades sendo invadidas por águas violentas, a população correndo, pessoas amontoadas em ginásios, casas destruídas, crianças chorando no alto de telhados, helicópteros fazendo resgates distantes, morros soterrando habitantes ribeirinhos. Os números já contavam falecimento de pelo menos duzentas mil pessoas espalhadas pelos quatro cantos do mundo e nenhum sinal das nuvens se apartarem; as águas fazendo de vítimas principalmente os mais desassistidos, mas também arrasando mansões nos Estados Unidos, bem como na China. Nada escapava daquele terceiro dia de chuvas tempestuosas.

Saori fechou o laptop à sua frente, enquanto chorava copiosamente pelas terríveis notícias que havia recebido do exterior. Ela olhou ao seu lado, derrotada, e encontrou Alice na escuridão daquela clínica improvisada; ela também em certo destempero, embora tentasse se manter dura feito a pedra que acreditava ter de ser para a amiga.

— É horrível, Mii. — desabou ela, com o choro represado. — O mundo inteiro está sendo arrasado por essas chuvas.

Ela limpou o nariz, enquanto ainda chorava.

— Perdemos muita gente na Fundação. — voltou a falar ela, quase sem voz. — A capital foi inteira invadida pelo mar.

— E as crianças? — perguntou Alice, preocupada.

Saori não foi capaz de responder e apenas chorou. As duas se abraçaram chorando, enquanto do lado de fora a chuva que caía era muito menos violenta do que aquela que arrasava o mundo todo.

Enquanto estavam coladas, dividindo aquela imensa tristeza, Saori viu por sobre os ombros da amiga os olhos cintilantes de Mayura na escuridão; já imaginando que a Camerlenga em pessoa havia descido a montanha em busca da Atena, que havia fugido pelo Caminho dos Gigantes. Ela quebrou o abraço com Alice e limpou as lágrimas do rosto.

— Mestra. — assustou-se Alice ao vê-la tão longe de seu templo.

Mayura não tinha as vendas nos olhos, como se fizesse questão que Atena pudesse olhar dentro de sua alma e encontrar lá os reais motivos de estar ali; pois estava na condição de Coruja e não como Camerlenga. Saori imediatamente reconheceu os olhos de uma mãe e deixou-se cair nos braços da Mestra, sempre tão reservada.

— Essa chuva é um sinal de Poseidon, não é mesmo? — perguntou Saori, aos prantos.

A Coruja escutou seus lamentos em silêncio e, enquanto Saori soluçava em seu peito, Mayura olhou de maneira profunda na alma de Alice, que a observava também com o coração pesado; era aquele o dever de uma Saintia, o qual Alice deveria trilhar. Mas além da lição que havia naquele olhar, havia também uma tristeza escondida nas pálpebras de Mayura, que a fez desviar os olhos de Alice para quebrar o abraço com Saori e limpar suas lágrimas.

— Eu deveria cuidar de seu coração, Atena. — começou Mayura. — Mas nisso eu falhei miseravelmente.

— Não diga isso nunca, Mestra.

— Me escute. — pediu Mayura, tomando as duas mãos de Saori, que já tinha os olhos aos poucos se torcendo de tristeza, antecipando o enorme sofrimento.

Mayura tomou um tempo para respirar até que finalmente revelou o motivo de tanta dor.

— Nicol está morto.

Alice levou a mão à boca, Saori sentiu o peito esvaziar de maneira gélida e seus olhos perderam-se nos cantos escuros daquele casebre sem que sua boca pudesse falar qualquer coisa. Ela deixou-se apoiar na mesa onde estava olhando as terríveis notícias e Alice abraçou-a ao seu lado.

— Como? — perguntou Alice.

— Não sabemos. — confessou Mayura. — Foi atacado na Colina das Estrelas. Seu corpo desapareceu, mas Shaka e os Cavaleiros de Ouro não têm dúvida.

Saori lembrava-se daquele Templo, pois foi ali que Mayura lhe deu a mão em sonhos para que ela se levantasse como a Deusa Atena que era. Mas naquele casebre ela estava nos braços de Alice, como a garota Saori que sempre foi; que escondia-se para que ninguém visse sua enorme tristeza. E quando percebeu, naquele instante, que era muito mais garota do que Deusa, sentiu bater em seu peito o sangue quente que lhe corria nas veias, pois afinal de contas ela não era apenas a garota Saori. Ela também era a Deusa Atena.

Endireitou-se, olhando profundamente para Alice; e então fechou os olhos, respirando fundo e limpando as lágrimas de seu rosto.

— As chuvas não podem continuar. — falou ela, decidida limpando as lágrimas do próprio rosto. — Se isso for obra de Poseidon, eu irei pessoalmente até ele e vou acabar com isso.

— Saori, não. — pediu Alice, tomando suas mãos.

— Eu sou a Deusa Atena. — disse ela para a amiga. — Eu estive no Templo de Poseidon e fui capaz de afastar as nuvens daquela vez.

— Não sabe se dará certo agora.

— Se Seiya e os outros… — começou Saori, com dificuldades em admitir que eles poderiam ter caído como Nicol. — Não. Seiya está vivo. A missão ao redor dos mares deve ter acelerado o ressurgimento de Poseidon. Devem ter irritado o Deus dos Mares, mas isso pouco importa. O que importa é que ele está de volta.

— Tudo indica que sim, Atena.

Saori olhou para Mayura e então para Alice, respirou fundo e anunciou, como quem toma uma importante decisão.

— Eu vou até o Cabo Súnion.

Mayura não pareceu se mover por aquela decisão, pois talvez estivesse ali exatamente adivinhando que se operaria nela qualquer reação daquela maneira. Mas Alice, já muito preocupada, colocou-se diante de Saori.

— Não faça isso, Saori. Lembre-se do que aconteceu da última vez que partimos dessa maneira.

— Não, Mii, está enganada. — respondeu Saori, mordendo forte seu destino. — Daquela vez eu vim para o Santuário como uma garota cheia de raiva no coração.

E então Saori olhou para Mayura.

— Agora eu irei como a Deusa Atena. Pois é o que Atena deve fazer para proteger a Terra de Poseidon.

Alice ainda estava de certo modo inconformada e olhou para Mayura como quem buscasse ajuda contra aquela loucura.

— Mestra, isso não está certo. — tentou ela, desesperada.

— Se a Deusa Atena escolhe marchar, devemos estar ao seu lado. — respondeu a Mestra com sabedoria. — Como você esteve da outra vez.

— Mas da última vez ela foi atingida por uma flecha de ouro e ficou entre a vida e a morte. — protestou Alice, socando a mesa.

— E voltou… graças ao coração dela. E a você, Coruja de Atena.

Alice lembrou-se do legado das Saintias e da longa noite de conversa com a Mestra Mayura e compreendeu que Atena jamais morreria. Se ela estivesse ao seu lado, como sempre esteve. A garota olhou para Saori e encontrou em seus olhos ainda a tristeza de tantas mortes pelo Mundo que ela deveria defender, bem como a memória de Xiaoling trazida à superfície pela notícia da morte de Nicol. Mais uma pessoa querida que ela havia perdido.

Estava decidido.

Atena iria ao Cabo Súnion.

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Distante no gélido planalto da Antártida, a Terra de Santo havia recuperado seu esplendor paradisíaco, com os náufragos todos vivendo pacificamente uma vez mais em sua comunidade eternamente radiante. Do alto de um vale, o Marina de Poseidon observava aquela repentina alegria em sua Terra; Santo tinha olhos carinhosos para aquele povo e sentia-se feliz com aquele retorno ao Éden, mas sabia que a Relíquia do Mar, que dormia na caverna onde era guardada, continuava selada pelo Cosmo de Atena. Seus olhos perderam-se no horizonte na direção do Oceano Antártico. Ele havia retornado.

Pois sua presença também era sentida nas ilhas do Pacífico, onde a velha Te-Maia e os irmãos de Meko Kaire olhavam para o mesmo horizonte do alto da montanha, desconfiados da tranquilidade que se espalhava por todos os lados, bem como da prosperidade que alcançava a pescaria dos ribeirinhos e o fato de que as ilhas mais populosas haviam parado de incomodar aquele paraíso com seus pedidos insistentes.

Calmaria que também tirava o sossego dos piratas de Tortuga, pois aquela tranquilidade era certamente prenúncio da Tormenta: o Grande Vórtice, como cantavam as antigas músicas dos ébrios que tocavam na Taverna. Kai de Diamante já não saía mais do Templo de Kalinago, amedrontado do que se avizinhava, enquanto Capellirossi e Barba-Negra olhavam para o atol de Tortuga recheado de barcos antigos e novos de navegantes apreensivos.

No Templo de Ouro, a enorme senhora se despia de suas vestes cerimoniais, enquanto ao lado dela, ainda trajando suas calças brancas e bufantes, Abdulmalik buscava dissuadi-la de sua decisão final.

— Não faça isso, Senhora. Escute o pedido de seu povo.

— Não há o que discutir, meu caro Abdulmalik.

— Mas Senhora Celmira, esse não é o Tempo de Poseidon. Todos nós sabemos disso e a senhora também.

— E no entanto, não há mais dúvidas de que ele está entre nós.

— Mas…

— É meu dever estar ao lado de Poseidon, Abdulmalik, e o farei com toda honra que nos cabe como um povo do mar. O chamado está próximo.

Ela tinha a voz grave e calma, a postura altiva, em contraste com aquele guardião ansioso e amedrontado.

— Abdulmalik. — começou ela, muito séria, tirando de si um colar de pequenas contas azuis e colocando no pescoço de seu guardião. — Cuidarás deste Templo até que eu retorne.

E então a enorme mulher de ébano com seu moicano branco desapareceu ao fundo do Templo de Ouro para juntar-se ao Deus dos Mares, enquanto seu guardião Abdulmalik não tinha certeza de que ela realmente voltaria.

-/-

Foi debaixo de chuva que Saori, Alice e Mayura surgiram no Templo de Poseidon no Cabo Súnion; o céu coberto das nuvens carregadas e as três muito molhadas pelo percurso. Mayura era a autoridade máxima do Santuário, além de ser a Coruja viva daquela Atena, de modo que nenhum Cavaleiro de Ouro teria sido uma melhor companhia do que ela. Seriam somente em sua ausência, mas naquele momento ela estava exatamente onde sabia que precisava, tanto como Coruja como Camerlenga.

As três atravessaram o Templo até o Pedestal do Tridente, agora vazio, como da última vez que Atena estivera ali. Logo que se aproximaram, perceberam que havia ali algo diferente; seis das sete gemas preciosas estavam apagadas, mas a última pulsava uma energia divina e inconfundível. O coração de Atena se enregelou, pois tinha certeza de que algo havia se passado em Asgard.

— Alguma coisa deve ter acontecido em Asgard. — decifrou Alice ao seu lado.

— Não temos certeza do que aconteceu lá. — corrigiu Saori. — Mas agora nós podemos ter certeza. Poseidon ressurgiu. É ele que carrega essa destruição pela Terra e faz cair essa chuva interminável. Matando todas as pessoas inocentes ao redor do Mundo.

— Atena…

Ela olhou para Mayura, e a Coruja, bem como a Camerlenga, viu nos olhos de Saori uma força enorme que não era outra senão a fibra da Deusa Atena.

— Fiquem aqui. — pediu ela, e seu pedido era uma ordem que Alice jamais acataria, mas Mayura a segurou para que não seguisse a amiga.

Pois Saori caminhou sozinha daquele pedestal, que ficava na saída do Templo, subindo até a ponta daquele rochedo que dava para uma queda abissal ao oceano que chacoalhava lá embaixo. Ali ela olhou para o horizonte, para as nuvens carregadas, para a chuva que caía, para as ondas que quebravam na encosta do rochedo, e gritou de modo que sua voz fosse ouvida por todos os cantos do mundo.

— Poseidon!

Arte comissionada de Heloísa Rodrigues Marques (@heloisarmarques)

Atena clamando por Poseidon foi um momento que Alice e Mayura se lembrariam para sempre, tamanha força que havia naquela garota. Mas se o temor da voz dos Deuses ecoando havia deixado Alice acuada por um instante, logo ela se lembrou que sua melhor amiga chamava sozinha por um Deus antigo no alto daquele rochedo. Finalmente desvencilhou-se de Mayura, mas percebeu no instante seguinte que não podia seguir adiante, pois a força de Atena pulsava impedindo-a de seguir.

— O que está fazendo, Saori?!

— Poseidon! Apareça, Poseidon! — bradava Saori aos quatro ventos, fincando seu báculo dourado no chão.

E seus pedidos realmente pareciam mexer com os humores do mar, pois quanto mais ela gritava por aquele nome antigo, mais o oceano parecia chacoalhar e tornar-se tempestuoso.

— Poseidon!

Finalmente o mar retrocedeu de maneira tão impossível que, do fundo daquele abismo, levantou-se uma onda gigantesca, da altura de prédios; Mayura e Alice se desesperaram no Templo quando perceberam que aquela onda iria varrer Saori daquele pontilhão, mas nada podiam fazer, impedidas pela força da Deusa Atena.

A onda gigante realmente bateu contra o rochedo levando todas ao chão, mas quando Alice se levantou desesperada para ir até Saori, notou que ela continuava de pé, altiva feito a Deusa que era, olhando para o horizonte. Às suas costas, no entanto, havia alguém que o mar parecia ter cuspido naquela altura.

— Saori!

A Deusa Atena virou-se lentamente e encarou quem havia respondido seu chamado.

Era uma jovem garota ajoelhada usando uma bonita Armadura avermelhada e os cabelos longos e ondulados enfeitados por um bonito diadema de corais. Não havia uma gota sequer em seu cabelo ou em seu corpo. Atena julgou que poderia ser uma enviada de Poseidon e instigou-a para que se apresentasse. Mas a garota parecia incomodada com os olhos de Atena, buscando desviar de sua encarada.

— Deve saber quem sou. — apresentou-se Saori, dispensando sua própria apresentação divina.

Pois ela sabia muito bem quem era, já que conhecia tanto a Deusa como a garota.

— Sou Tétis, a Sereia de Poseidon. — respondeu ela, com a voz muito baixa.

Saori não a reconheceu, como não reconheceria nenhum capataz ou serviçal que a tenha servido por todos esses anos, mas a Deusa Atena reconheceu que aquela era uma emissária de Poseidon.

— E onde está Poseidon?

— Está em seu Reino.

— Leve-me até ele. — ordenou Atena, e a Sereia experimentou olhar em seus olhos glaucos, mas desviou-se novamente de medo.

— O Reino de Poseidon fica além deste Mundo. — pareceu alertar a sereia.

Alice e Mayura podiam ouvir toda a conversa e ali se desesperaram, pois ainda não podiam se mover graças ao repentino poder de Atena; apenas os olhos de Alice imploravam que Saori não levasse adiante aquela loucura. Saori olhou de volta para a amiga e viu que uma lágrima escorria de seu rosto paralisado; uma lágrima salgada como a água daquele oceano ao redor, ou como suas lágrimas de criança, ou como os rios que invadiam as cidades pelo mundo ou como as gotas daquela chuva infinita. A água que parecia conectar o mundo todo, bem como suas alegrias e tristezas. E naquele instante, conectavam também os corações das duas amigas.

Um último olhar. Saori ainda ergueu o punho e desenhou um sorriso no rosto mostrando à amiga o presente que ela havia deixado para ela: um guizo de ouro. Era uma despedida.

— Leve-me. — ordenou Saori para a sereia.

O oceano roncou e outra onda gigantesca do mar se levantou e bateu contra o rochedo, levando Mayura e Alice ao chão, tamanha fúria das águas; e quando se levantaram, Saori e a estranha Sereia Tétis já não estavam mais lá. E por muitos anos, falou-se naquela região do grito visceral que cruzou os céus de chuva naquela tarde. Era Alice gritando por sua amiga.

— Saori!

Notas finais
SOBRE O CAPÍTULO: Eu adoro o capítulo inicial de Poseidon, em que vemos como os maremotos de Poseidon atingem toda a humanidade em lugares conhecidos pelo mundo. Aqui eu quis trazer isso novamente, mas também ilustrar todos os personagens que já apareceram na fanfic, até aqueles que haviam desaparecido, para entender como cada um deles está experimentando esses problemas. É uma maneira de aproximar os problemas do mundo causados por Poseidon aos personagens da fanfic, assim como lembrar de alguns que já estavam esquecidos. Foi divertido. =) Do outro lado, era importante colocar para Saori Kido o quanto tudo isso a fazia sofrer nessa jornada de se encontrar como Atena. E ela finalmente decide marchar, mas nem todo mundo vai concordar com isso. PRÓXIMO CAPÍTULO: REGRESSOS DO ALÉM Shaina e Lunara chegam de Asgard no Santuário. E há muito o que conversar entre os guerreiros de Atena.