Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda de Seiya
126 Sangue Siberiano
Hyoga colocou a mão na Urna de Libra e a sentiu ressoar com o Cosmo de Cavaleiro que ainda queimava dentro dele. Colocou a mão no pescoço e percebeu que seu ferimento havia sido estancado por Shun com um pedaço de sua própria roupa, assim como havia tratado o profundo ferimento de Seiya, que ainda jazia desacordado no chão. Um pouco mais adiante, Hyoga percebeu o corpo vencido da General Marina que havia enganado a ele e ao Cavaleiro de Pégaso com suas lembranças mais queridas. Hyoga colocou a Urna de Libra nas costas e caminhou até o corpo desacordado da mulher, onde notou que ela sofria de certas deformações no corpo, que agora estava desprotegido pelas Escamas de Poseidon. Não sentiu nada por ela.

Escutou Seiya gemer de dor por alguns instantes e, por instinto, Hyoga virou-se na sua direção para ajudá-lo, mas então hesitou de seguir adiante. Ikki havia pedido que Shun o deixasse ali à sua própria sorte; Hyoga refletiu sobre aquelas palavras duras e compreendeu que, na verdade, ela havia respeitado seus sentimentos de Cavaleiro. Não era fácil ver Seiya daquela maneira. Ele ainda lembrava-se das primeiras vezes que o encontrou na cidade, da profunda desconfiança que o garoto tinha contra ele e como suportou feito um poste teimoso o frio da Sibéria ao acompanhá-lo até seu vilarejo.
Lembrou-se sobretudo de como Seiya não desistiar ou era impossível de derrubar. Viu tantas vezes aquele garoto cair e se levantar, que aquela dificuldade enorme que ele experimentava era estranha de se ver. Hyoga olhou outra vez para a General Marina, refletindo sobre qual face aquele corpo deformado havia tomado para deixar Seiya tão vulnerável a ponto de ser atingido daquela maneira tão decisiva.
Hyoga sabia quem era.
Todos sabiam quem era a única pessoa capaz de desarmar o Cavaleiro de Pégaso daquela maneira. Lamentou pelo amigo, mas ainda assim não o ajudou. Ele próprio não gostaria de ser carregado nas costas como um perdedor. E sabia que Seiya também não aceitaria. Se ao menos tivessem lutado com todas as suas forças, mas não havia sido o caso. Haviam sido vencidos feito crianças. Respirou fundo e decidiu confiar na força de Pégaso.
— Nos encontramos no Templo de Poseidon, Seiya.
Viu no horizonte que havia um pilar distante que se erguia em perfeita oposição daquele que havia acabado de cair, porém do outro lado do Reino de Poseidon. Hyoga correu o mais rápido que pôde atravessando o centro de Atlântida até ele; nunca sozinho, pois o fantasma da aparição de seu mestre Camus ainda o acompanhava na mente conforme corria por aquelas vielas. Não havia sido apenas um truque-baixo daquela General Marina; para ele, era como se seu próprio Mestre Camus realmente o houvesse visitado de forma macabra para lembrá-lo de seu ensinamento mais duro: a superação dos sentimentos em um campo de batalha. E Camus naquele corpo o lembrou de que Hyoga havia falhado de novo.
Hyoga parou por um instante, pois percebeu que havia sido tomado pelas mesmas dúvidas que haviam pairado sobre sua mente depois da morte de Camus. Sentia no coração que talvez não devesse mesmo ser considerado um Cavaleiro, já que era tão incapaz de colocar seus sentimentos de lado durante uma batalha. Chacoalhou a cabeça, como quem afasta à força um pensamento indesejado. Afinal, aquele sofrimento ele já havia tido por muitos dias e acreditava já ter superado aquela dúvida.
Mas lá estava ela novamente.
Um calafrio subiu à sua espinha, pois refletiu que havia tido muita sorte de que aquela General Marina não havia encontrado outro rosto mais doloroso para ele suportar. O de sua mãe.
Os lampejos de uma batalha estouraram ao longe e à direita de Hyoga, lembrando-o de seu dever como Cavaleiro naquele momento. Ele aprumou a Urna de Ouro e finalmente venceu os últimos metros até o pátio aberto e maravilhoso de um novo Pilar Atlante que deveriam derrubar. Outra vez havia no ar certo ar frio muito familiar, exatamente a sensação que havia experimentado na Ponte Bifrost e no lugar onde a assombração de Camus havia aparecido; ele ficou em guarda, atento e ansioso para qualquer novo truque.
Não houve qualquer demora até que surgisse ao lado do pilar, descendo pelas escadas, a silhueta de um General Marina queimando seu Cosmo Profundo e gélido.
— Estou surpreso que ainda esteja vivo, Hyoga. — falou uma voz dura e jovem. — Mas chegou até mim vestido em farrapos. Diga-me, onde foi parar a Sagrada Armadura de Cisne?
O coração de Hyoga pareceu mesmo congelar apenas com aquelas palavras. E com aquela voz.
— Quem é você?
— Ora, Hyoga, por acaso já se esqueceu do rosto que salvou sua vida?
A figura deixou seu Cosmo apagar-se no corpo, revelando os contornos de uma Escama maravilhosa e aterradora. Espalhados por aquela proteção furta-cor metálica Hyoga imediatamente notou diversos motivos que faziam alusão a um polvo oceânico. O General aos poucos retirou o elmo que lhe cobria o rosto e prendia seus cabelos. E o rosto que olhou de volta para Hyoga era outra assombração de seu passado. Embora o fôlego de Hyoga tenha faltado naquele instante, ele ainda se manteve duro na posição de guarda.
— Primeiro Camus e agora você?
Era mesmo como se aquele Reino do Fundo do Mar fosse uma viagem à sua infância.
— Não sou uma assombração de seu passado, Hyoga.
Hyoga olhava para aquele General com a mesma incredulidade com que havia feito com seu Mestre Camus, há poucas horas antes. Pois ambos deveriam estar mortos. E os dois surgiram das profundezas daquele Reino mágico para assombrá-lo outra vez.
— Eu não vou cair duas vezes no mesmo truque. Ande, diga quem é você que se esconde nas minhas memórias?
O General exibiu um sorriso breve e Hyoga percebeu que aquele rosto carregava uma cicatriz impressionante no olho esquerdo. A voz daquele homem, tão familiar, lhe falou novamente.
— Eu sei que esteve perto de morrer nas mãos de Cassandra, a Caçadora de Corações do Reino de Poseidon. Ela realmente é capaz de se transformar nas pessoas mais queridas para atrair e matar suas vítimas. — disse ele, com bastante frieza na voz.
O Cavaleiro de Cisne, ainda com a Urna de Libra nas costas, tornou-se um pouco confuso e buscava olhar através daquela ilusão de qualquer jeito. O General Marina deixou escapar uma risada.
— Não sou obra de seu coração frágil ou uma artimanha de Cassandra. Esse olho ferido deve ser prova o suficiente de que não sou um sonho. Ou pesadelo.
A cicatriz cortava feito um raio o rosto do General, descendo da sobrancelha até metade do rosto. Sem dúvidas ele era cego de um olho. Seu porte era altivo e seu outro olho lhe davam uma expressão dura, emoldurada por cabelos maiores do que Hyoga se lembrava.
— Já fui enganado uma vez neste Reino. — balbuciou Hyoga consigo próprio. — Mas dessa vez há algo diferente.
— Existe sempre algo diferente naquilo que é real, Hyoga.
A realidade aos poucos pesava nos ombros do garoto, ao mesmo tempo que ter reencontrado dois rostos queridos de duas mortes sofridas em sua vida era algo que ele tinha muita dificuldade em acreditar. Principalmente quando havia acabado de ser vítima de uma atroz enganação. Não era possível tamanha coincidência, refletia ele.
Talvez não fosse mesmo uma coincidência.
— Então esses são os Generais Marinas de Poseidon? — disse ele, olhando para o céu de oceano daquele Reino. — Guerreiros capazes de atrair suas vítimas com rostos queridos do passado para as profundezas de seu covil? É isso que está fazendo, Marina?
— Não, pois esse rosto não é um do qual você gosta de se lembrar, não é, Hyoga?
— Cale-se! — ordenou Hyoga. — Este é o rosto do meu irmão.
O General Marina calou-se por um instante, olhando de maneira severa para Hyoga. Aquele era mesmo o rosto de seu querido irmão, com quem havia treinado na Sibéria e a quem ele havia perdido em um terrível acidente. Ele manteve-se calado, para que Hyoga fosse tomado pelas dúvidas.
— Será possível? — desarmou-se Hyoga pela primeira vez.
— Este ferimento em meu olho é a prova de quem eu sou.
Hyoga olhou novamente para aquela terrível cicatriz e engoliu em seco.
— É daquele dia, não é?
— Uma eterna lembrança. — respondeu o General Marina, aproximando-se de Hyoga.
— Isaac. — finalmente convenceu-se Hyoga, incrédulo. — Meu irmão, Isaac. Mas…
Próximos demais, Hyoga foi pego de surpresa por um ataque à queima-roupa do General Marina, que o atingiu com um soco forte no estômago, de forma que foi arremessado para trás, caindo de joelhos, enquanto a Urna de Ouro pendeu para o lado e caiu às suas costas.
— Não sou e nunca fui seu irmão, Hyoga. Eu sou o General Marina de Kraken. Seu inimigo no Reino de Poseidon.
— Kraken? — repetiu Hyoga, lembrando-se de sua infância e das histórias que Isaac contava. A do Kraken era um dos contos que o pequeno Isaac mais gostava.
Hyoga levantou-se com certa dificuldade, recolocando o pano no pescoço para que o sangue não voltasse a verter.
— Não é possível. Está mesmo vivo, Isaac? Eu não posso acreditar nisso. Não consigo acreditar. Camus apareceu para mim como uma assombração em um truque covarde. Mas… — Hyoga gaguejou de confusão, com sua mente rodando em um delírio que ele parecia preso. — Mas aqui diante de mim. Esse soco. Essa força. Realmente é você, não é? Mas… Como isso é possível? Nós procuramos por você em toda parte. Quebramos o rio congelado inteiro atrás de você e não te encontramos. Muito menos o seu corpo.
Isaac novamente o atingiu com um chute, jogando Hyoga para outro lado.
— Não estou aqui para contar histórias.
Mas Hyoga outra vez colocou-se de pé.
— Eu conheço essa força. A força dos homens da Sibéria. Não tenho mais dúvidas de que seja mesmo você, Isaac. — levantou-se finalmente. — O destino parece me pregar uma peça. Desde que saí do Santuário em uma missão de Atena, parece que eu fui colocado em um caminho sem volta para o meu passado. As cartas de Camus. Os seus ensinamentos. E agora você. Isso não pode ser obra do acaso.
— Cale a boca, Hyoga.
Rolou pelo chão outra vez, precisando se levantar de novo; e no breve momento em que sentiu a dor do corpo lhe veio à mente a imagem de Seiya. Será que ele também já havia se levantado?
— Você continua forte. Sempre foi mais forte do que eu. Mas me lembro que também era uma pessoa pura e justa, Isaac. Nós dois treinávamos para nos tornarmos Cavaleiros de Atena. A Armadura de Cisne era para ser sua por direito.
— Isso não importa mais.
— Importa pra mim.
— Pois então importa menos ainda.
Isaac atacou Hyoga mas, pela primeira vez, Hyoga conseguiu esquivar-se do golpe, colocando-se às costas do irmão. O garoto engoliu em seco, pois sabia o significado daquelas palavras; sabia o quanto Isaac o desprezou quando descobriu os verdadeiros motivos pelos quais Hyoga se sujeitava ao treinamento árduo na Sibéria. Os dois olharam-se novamente, e cada qual sabia o que o outro estava pensando.
— Há tanta coisa para falar.
— Não há nada a ser dito. — cortou Isaac, imediatamente.
— Vejo que ainda leva os ensinamentos de nosso Mestre Camus para o campo de batalha. Fico feliz por isso.
O Marina nada respondeu.
— Ser frio e inabalável diante de qualquer pessoa. — continuou Hyoga com confiança na voz, enquanto encarava o único olho duro de Isaac.
O General estava impaciente e outra vez atacou Hyoga com uma rajada de gelo à distância que, para sua surpresa, acabou retornando contra seu próprio corpo, fazendo com que ele precisasse se esquivar pela primeira vez. E, ao olhar melhor para Hyoga, percebeu que sua imagem parecia refratada, quando um esquife de gelo explodiu, fazendo com que ele se afastasse.
— Quando foi que você…
Hyoga colocou-se com certa altivez diante de seu irmão.
— Eu já entendi tudo. — começou o garoto, quase aliviado. — Por mais que aquela General fosse capaz de transformar-se em qualquer pessoa com perfeição, ela jamais poderia saber de tudo que ela me falou. Era preciso outra pessoa. Alguém que conhecesse os caminhos do Santuário. Um aspirante como eu. Foi você quem disse a ela para se transformar em meu Mestre, não é verdade, Isaac?
— E o que vai fazer, Hyoga? Sentar e chorar, como sempre? Vai encher-se de ódio contra mim e ser derrotado outra vez?
— Não, Isaac. — falou Hyoga com um sorriso no rosto. — Vou lhe agradecer, pois mais uma vez você demonstrou compaixão. Mesmo se esforçando tanto para ser como nosso Mestre Camus, eu posso ver através do gelo que você acredita ter ao redor do seu coração. Como no dia que ganhou essa cicatriz.
Isaac deixou escapar uma gargalhada.
— Compaixão? Você deve ter congelado seu cérebro em Asgard, Hyoga.
— Eu nunca me esqueci daquele dia, Isaac. O dia que você me salvou daquela correnteza. Eu tenho certeza que sua cicatriz também nunca mais o deixou esquecer, Isaac.
Ele não respondeu e Hyoga caminhou em sua direção, relembrando a história.
— Foi a primeira vez que eu consegui chegar até o navio naufragado de minha mãe no fundo do mar da Sibéria. Que eu consegui realizar meu sonho de ver seu rosto mais uma vez. Mas uma forte correnteza me arrastou para longe do navio e tudo que eu pude fazer foi me amarrar às cordas do mastro partido. Só assim eu não seria arrastado para sempre pelo oceano. Eu morreria ali, mas não soltaria jamais aquelas cordas.
— Idiota…
— E então você veio. Não sei quanto tempo depois, mas a correnteza já havia passado. Veio me salvar. Me tirou das cordas e nadou comigo até a superfície. — continuou Hyoga, trazendo uma memória que Isaac parecia tentar afastar de si. — A correnteza pegou nós dois. Eu já não tinha forças, mas me lembro de você tentar se segurar nos blocos à deriva, tentando evitar que nós dois perdêssemos a vida naquele mar congelado. Lembro do barulho seco dos seus socos contra a parede de gelo acima de nossas cabeças enquanto nos afogávamos. Eu sei que tentava a todo custo abrir um buraco pelo qual pudéssemos escapar. Eu estava acordado, Isaac. E vi o sangue vermelho escorrer feito tinta no oceano, deixando marcado o gelo que nos prendia. E mesmo assim você não desistia. Não desistiu. Até conseguir arder seu cosmo e abrir uma cratera acima de nossas cabeças, pela qual jogou meu corpo para fora. A salvo.
Isaac adiantou-se com rapidez e conseguiu acertar Hyoga novamente. Aos poucos, seu semblante controlado parecia ganhar contornos de indignação. Hyoga seguiu falando enquanto se levantava.
— Eu fiquei ali ao lado do buraco, esperando que você aparecesse. Eu e a Mestre Cristal quebramos o gelo inteiro para tentar te encontrar. Mas não conseguimos. E para além da tristeza de ter perdido você, precisei suportar também a culpa de ser o causador da sua morte. Por minha culpa, o verdadeiro discípulo de Camus, o Cavaleiro de Cisne de Atena havia morrido.
Isaac fechou seu único olho e finalmente pareceu controlar-se.
— Mas não morreu. E agora está diante de mim. Eu lhe devo minha vida, Isaac.
O General Marina voltou a encarar Hyoga, aparentemente sem paciência para aquela novela, e nada disse, mas seu rosto transformou-se em surpresa quando viu que Hyoga queimava seu Cosmo de maneira brilhante.
— Eu lhe devo minha vida, mas estou lutando por algo maior do que ela. Eu irei lutar contra você se for preciso, Isaac.
Isaac estava surpreso e Hyoga apontou na sua direção com o dedo em riste.
— Mas se vamos mesmo lutar, eu quero que seja uma batalha justa como você costumava me dizer. Quero que seja em pé de igualdade. Vamos, quero que arranque meu olho esquerdo como minha vida o fez perder o seu.
O General Marina de Kraken não lhe respondeu com palavras, mas ardeu seu Cosmo gélido e oceânico e conjurou uma pequena estaca de gelo afiada na mão, que ele lançou para atravessar o campo de batalha e rasgar o olho de Hyoga, levando-o ao chão com muito sangue escorrendo por seu rosto. A dor ele segurou na garganta, o sangue ele limpou com as vestes de Asgard que havia trazido.
O sangue pingava do olho esquerdo de Hyoga, escorrendo por seu rosto e espalhando-se por sua roupa. Não podia mais ver com um de seus olhos. Exatamente como seu irmão.
— Você apenas feriu meu olho superficialmente. — comentou ele, confiante. — Está deixando-se levar por seus sentimentos, Isaac. Assim como fez naquele dia.
— Não fale bobagens, Hyoga. Eu pulei naquele rio congelado, como pulei outras tantas vezes para salvar as crianças desavisadas daquele vilarejo. Aquilo não era uma batalha.
Hyoga cambaleou para ficar novamente de pé.
— Tem razão, Isaac. Mas não é disso que estou falando.
Isaac fez uma expressão de confusão.
— Naquele mesmo dia, antes que tudo acontecesse. Será que você não se lembra de como veio me confrontar sobre meus motivos para me tornar um Cavaleiro? E o que você ouviu das pessoas do vilarejo era a mais pura verdade. Eu queria adquirir a força dos Defensores de Atena apenas para poder buscar o corpo congelado de minha mãe que estava no fundo do oceano e então dar à ela um enterro digno. Em um lugar que eu e as pessoas que a amavam pudessem visitá-la em sua memória.
Isaac cerrou o punho.
— E isso você não podia aceitar. Sentiu-se traído, pois você acreditava que havia um único motivo digno para se tornar um Cavaleiro.
— Eu sinto como se você tivesse perdido noites demais pensando sobre isso, Hyoga. Mas a verdade é que nada disso importa. Será possível que você não aprendeu nada?
— Então diga-me por que me mostrou o caminho para quebrar o mar congelado, Isaac?
O General Marina parecia pego de surpresa.
— Entre tantos golpes que me deu naquela tarde, dos quais nunca mais esqueci, você usou seu Cosmo de uma maneira que eu nunca havia visto e com ele abriu uma cratera na parede de Gelo Eterno em que treinávamos. Ao invés de me acertar, você abriu um buraco enorme na montanha de gelo atrás de mim. E então se despediu, fingindo profundo desgosto, mas a verdade é que você quis me mostrar o que eu deveria fazer com meu cosmo se eu quisesse ter alguma chance de abrir uma cratera naquela camada de gelo que cobria o mar. O que eu deveria fazer se quisesse ter uma chance de reencontrar minha mãe.
— Cale a boca, Hyoga, você já está me envergonhando.
— Você acredita ser tão frio quanto o gelo, mas a verdade é que você pulou naquele rio e me salvou por se sentir culpado, não é mesmo, Isaac? — acusou Hyoga, apontando para o antigo amigo. — Pois eu te alivio dessa culpa, meu irmão, pois se não tivesse me mostrado o caminho do Cosmo, eu teria socado aquele gelo até que meus ossos todos se quebrassem. Não tenha dúvida disso, eu romperia aquele gelo de qualquer jeito!
— Eu já estou cansado de suas histórias, Hyoga!
Isaac jogou uma rajada de gelo na direção de Hyoga que era muito mais veloz que seus ataques anteriores; Hyoga não foi capaz de se esquivar totalmente e viu-se soprado contra os paredões de corais do corredor de onde tinha vindo.
— Vá embora daqui. Esse não é um lugar para alguém como você.
Isaac deu as costas para Hyoga, dando por acabada aquela novela, uma vez que o garoto não tinha uma Armadura, estava em estado lamentável e parecia não ter qualquer condição de fazer frente a ele.
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No centro de Atlântida ficava uma maravilhosa fonte de água cristalina esculpida toda em mármore na figura de cavalos alados e outras criaturas dos mares. Ao redor da fonte ficava um espaço largo onde, em tempos mitológicos, os súditos de Poseidon festejavam as diferentes estações do fundo-do-mar. Mas aqueles não eram tempos festivos, pois sequer era o Tempo de Poseidon. A cidadela estava completamente deserta e todos os tritões e sereias que passavam seu tempo cuidando do Reino haviam sido dispensados há semanas pelo principal Conselheiro de Poseidon: o General Dragão-do-Mar.

E era ele que estava no centro da fonte naquela tarde de batalhas. Dali era possível ver todos os Pilares do Mar e até ali chegavam os clangores de todas as batalhas e o lamento grave de todos os Pilares que desabavam à distância. O General estava sentado em uma espécie de trono esculpido no formato de uma concha maravilhosa e perolada bem ao centro da fonte. Tinha o semblante sério, os olhos fechados e seu Cosmo Profundo calmo ao redor de seu corpo.
No entanto, como uma corda que se rompe,, Dragão-do-Mar despertou de seu aparente transe, apagando o Cosmo ao redor do corpo e imediatamente levantando-se daquele bonito trono para procurar no horizonte o causador de seu desconforto repentino. Respirou fundo, como se estivesse contrariado, e caminhou para fora da fonte. E, ao colocar os pés para fora da água cristalina, o General escutou à sua esquerda uma bonita melodia soprada por uma flauta grave e reconfortante. Ali havia outro General Marina encostado contra uma bonita escultura que margeava a praça.
— Sirene? — perguntou Dragão-do-Mar ao reconhecer o dono daquela música.
O homem deixou de lado a flauta transversal dourada que tocava e interrompeu sua bonita melodia. Sua voz era muito grave, algo desconcertante para sua figura delicada e jovem.
— Dragão-do-Mar, o que está fazendo aqui? Deveria estar vigiando o Pilar do Oceano Atlântico Norte.
O olhar do rapaz era penetrante, mas Dragão-do-Mar era um General experiente e mais velho do que ele. Sua voz era decidida.
— Vim garantir a vitória do Imperador Poseidon. — respondeu ele apenas, com certa impaciência na voz. — Os Cavaleiros de Atena foram todos vencidos.
Sirene pesou as palavras de Dragão-do-Mar antes de responder, procurando dentro daquele General alguma espécie de compaixão. Não encontrou nada.
— Quatro Generais perderam suas vidas nesta batalha. Quatro Pilares caíram no Reino de Poseidon.
— A batalha está terminada. — assegurou ele, com força na voz.
— Eles não estavam prontos. — tornou Sirene, controlando a indignação. — Esse não é o Tempo de Poseidon.
— Lamentarei suas mortes ao seu lado quando a vida de Atena se esvair no Pilar Fundamental e tirarmos daqui os cadáveres dos Cavaleiros de Bronze.
Sirene olhou por sobre os ombros para o Pilar Fundamental onde o corpo jovem de Atena recebia toda a fúria das águas sobre a cabeça.
— Isso parece errado, Dragão-do-Mar. O que foi que aconteceu em Asgard, afinal de contas? Todas as Relíquias de Poseidon ao redor do Mundo Terreno foram seladas de acordo com o plano inicial que você mesmo colocou para todos nós. Para que Poseidon pudesse retornar apenas quando fosse o Tempo de seu despertar. — Sirene então voltou a encarar Dragão-do-Mar, procurando por suas respostas. — Nada disso teria acontecido se Asgard tivesse seguido com o plano. O que foi que aconteceu naquela Terra?
O General mais velho recolocou seu elmo na cabeça e dedicou a Sirene um olhar penetrante antes de responder com certo agouro.
— A cobiça do homem, Sirene.
— Pois a cobiça deste homem causou a morte de quatro guerreiros valorosos. Que juntos de todos nós se reuniram sob a Vontade do nobre Imperador Poseidon acreditando na missão digna de dar uma Nova Era para a vida neste planeta sem futuro. Soprando esperança nas águas do mar para limpar a corrupção do mundo e restabelecer a utopia como nos tempos mitológicos.
Sirene olhava para o mar que se quebrava no céu enquanto lembrava-se de seus companheiros de batalha.
— E com esse objetivo, Bian, Ío, Krishna e Cassandra travaram batalhas contra os Cavaleiros de Atena acreditando na missão de Poseidon. E por ela eles acabaram mortos em batalha e os Pilares que protegiam sucumbiram diante da força milagrosa dos Cavaleiros do Santuário. — e nesse ponto Sirene fechou os olhos, refletindo as palavras que ecoavam em sua mente. — E agora eu me pergunto se a batalha era mesmo a vontade de nosso Imperador Poseidon.
Dragão-do-Mar olhou para Sirene, esperando sua explicação.
— Suponha que Poseidon enfrente Atena e os dois acabem desaparecendo do Mito. Isso seria ótimo para alguém que conspira para dominar a Terra e o Mar. Esse alguém tiraria de cena dois enormes Deuses de uma só vez. A cobiça deste homem poderia ter colocado em risco a vida do próprio planeta. E isso nós não podemos permitir.
— Você tem razão que o tamanho dessa cobiça seria imenso. E eu posso lhe garantir que aquele que causou a Crise em Asgard agora já está morto. Sua ambição o engoliu em sua própria trama.
— Eu não tenho tanta certeza disso.
O General Dragão-do-Mar notou como Sirene tinha os olhos pregados nos seus, enquanto ele parecia escondê-los debaixo de seu bonito elmo.
— Sorento de Sirene. — falou calmamente Dragão-do-Mar, chamando o General pelo seu nome. — O que está em sua mente? Escolha bem suas palavras.
— Diga-me, Dragão-do-Mar, quem é você? — perguntou finalmente Sorento, com coragem, ecoando uma pergunta que o General-Maior já havia escutado de outra pessoa. — Você que tem comandado os Marinas no lugar de Poseidon, enquanto esperávamos seu Retorno. E nós obedecemos a tudo sem indagar. Mas mesmo entre todos nós, há uma enorme dúvida sobre quem você é. Seu Cosmo é distante de Poseidon e você foi o único que surgiu muito antes que o Chamado-ao-Mar soasse pelos Oceanos. Me pergunto se não foi você quem tramou toda essa batalha. Incluindo a ressurreição de Poseidon antes de seu Tempo.
A acusação pairou no ar como as gotas de oceano que aos poucos desciam do firmamento, mas o impasse entre os dois Generais foi interrompido por um canto maravilhoso no horizonte. Era a Voz de Atena, que soava outra vez no Reino de Poseidon dando forças e esperança aos seus Cavaleiros. Era um melisma curto e belíssimo que todos ouviram naquele Reino.
Poseidon levantou-se de seu trono e olhou para o Pilar Fundamental.
Sirene e Dragão-do-Mar sentiram com clareza como dois Cosmos arrebentaram no firmamento, enchendo o Reino com sua força profunda.
— Mas o que diabos é isso? — reagiu o General àquela estranha energia, enquanto Sorento falou-lhe de perto.
— Qualquer que seja o feitiço que tenha feito enquanto estava aqui, ele parece ter perdido o efeito.
— Estão indo na direção do Pilar do Atlântico Norte.
O General Dragão-do-Mar sequer se despediu e correu pela viela que levava daquela praça até o Pilar que ele deveria proteger. Sorento de Sirene observou o enorme homem se perder na distância, ainda refletindo sobre as dúvidas que pairavam em sua cabeça. Deu as costas e retornou para o Pilar que ele deveria proteger.
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O Canto de Atena fez Hyoga respirar com mais tranquilidade. Era a primeira vez que ele a ouvia. E era o que Hyoga tinha: seu Cosmo de Cavaleiro. Ele queimou o universo que existia dentro dele, ressoando com a ancestralidade de Odin que havia habitado seu coração, bem como o poder enorme do Gelo Eterno da Sibéria que habitava seu corpo. Isaac olhou para trás finalmente ao ver Hyoga se colocar na postura do cisne.
— Você me mostrou o caminho para chegar até minha mãe, me salvou da morte certa e ainda carrega no coração a força inabalável da justiça. Você também não consegue ser tão frio quanto gostaria de ser. Ninguém consegue. — acusou Hyoga com a voz forte. — Nem mesmo Camus.
Isaac virou-se para encará-lo, pois reconheceu o enorme Cosmo de Hyoga. O garoto seguiu falando com dureza.
— Mas Camus tinha razão quando nos disse que era preciso ser inabalável como o gelo se quiséssemos proteger a justiça. — seus cabelos esvoaçavam com seu poder. — Eu preciso derrubar este Pilar e, se ficar no meu caminho, vou ser obrigado a vencê-lo, Isaac.
O General Marina estava surpreso e deixou escapar um sorriso.
— Acha que é capaz de colocar os ensinamentos de Camus diante de mim, Hyoga? Você sequer está usando a sua Armadura.
— Eu não preciso dela. — bradou ele, confiante. — Sinta o poder do meu ar frio, Isaac. Pó de Diamante!
O raio de gelo poderoso parou na mão de Isaac, que o voltou contra Hyoga, obrigando o garoto a saltar de onde estava para não ser congelado.
— Sua missão está fadada ao fracasso, Hyoga. Cassandra o feriu muito mais profundamente do que você imagina. Pégaso também está caído, assim como a Cavaleira de Dragão. Fênix e Andrômeda acreditam ser capazes de enfrentar Poseidon, mas nenhum de vocês tem a mais pequena ideia da extensão da força que tem o nosso Imperador Poseidon. Diga-me, Hyoga, por acaso já esteve próximo a um Deus?
Hyoga pensou em Saori e no quão frágil ela sempre lhe pareceu, embora confiante e aguerrida. O garoto também refletiu brevemente sobre como Isaac parecia conhecer seus companheiros de batalha. Achou curioso.
— Deixe-me explicar, Hyoga. Poseidon é um dos grandes Deuses do Olimpo e um dos maiores inimigos de Atena na Terra. Sim, é verdade que eu treinava para ser um Cavaleiro do Santuário como você, mas quem me salvou da morte e demonstrou profunda bondade com minha vida foi justamente Poseidon. Esse tal inimigo mortal da Terra. — Hyoga escutava seu irmão, enquanto Isaac se aproximava dele. — E isso não foi fácil para alguém como eu, um aspirante a Cavaleiro. Eu ainda me lembro de quando éramos mais jovens e nosso Mestre Camus era convocado ao Santuário para lutar pela justiça na terra, pela justiça contra os Deuses e seus lacaios que ameaçavam o equilíbrio da paz. E tudo que eu mais queria era me juntar àquela batalha.
— Ainda há tempo, Isaac.
— Mas quando me vi sem esperança no aguardo da minha morte lenta no fundo do oceano, foi Poseidon e a profundidade de seu poder que eu senti. E que me guiou até este Templo.
— Poseidon salvou sua vida.
— E eu devo minha vida a Poseidon. O Imperador dos Mares sequer estava desperto naquela época e tudo que eu podia fazer para retribuir sua bondade era cuidar de seu Templo para quando fosse chegada a sua hora. E quando o Reino do Mar ofereceu a mim a Escama de Kraken, eu fugi. Corri daqui, pois meu Cosmo ainda era o Cosmo de um Cavaleiro de Atena. Não sentia que aquele presente era meu por direito. Não sou como você. Eu não podia envenenar o Reino do Mar com meu Cosmo de Cavaleiro de Atena. Então eu fugi e voltei para a superfície.
— O quê!? Está dizendo que voltou?
— Voltei e o que vi na Terra de Atena foi a mais profunda discórdia. Fiquei sabendo que você, Hyoga, havia tomado a Armadura de Cisne do Gelo Eterno. Camus sequer estava na Sibéria. Você a roubou. Fiquei sabendo também pelas pessoas do vilarejo que você ainda havia assassinado a Mestre Cristal.
— Não, isso não é verdade…
— E então invadiu o Santuário de Atena, onde acabou por matar o seu próprio Mestre. O Cavaleiro de Aquário, Camus.
— Não, não foi assim que as coisas aconteceram, Isaac.
— E para além dos seus erros, não somente você, mas os demais Cavaleiros de Bronze que agora invadem esse Templo Sagrado, aqueles que deveriam manter a paz e a justiça da Terra, simplesmente pareciam matar feito loucos à torto e à direito. Aí eu tive certeza de que meu lugar era mesmo aqui. Pois a maldade não estava espalhada somente entre os homens, mas também enraizada no Santuário de Atena. Então eu voltei. E quando eu voltei, meu Cosmo ressoou com o canto do Kraken, que me aceitou como seu representante. E se Kraken tinha me aceitado, então meu Cosmo não estava envenenado. Era a Terra que estava perdida.
— Essa não é toda a verdade, Isaac. O Santuário estava sendo manipulado por uma força maligna que culminou em uma batalha terrível, é verdade, mas…
— Eu não me importo mais, Hyoga. O que eu precisava ter visto na superfície foi o suficiente para eu ter certeza de minha missão. E assim aceitei a honra de ser um General Marina de Poseidon. E jurei lutar pelo Imperador dos Mares para purificar a humanidade.
Isaac havia realizado seu sonho. Hyoga lembrava-se do fascínio com que seu irmão contava sobre as histórias do Kraken do Norte; o monstro que deixava atravessar seus domínios aqueles que fossem puros de coração, mas que estraçalhava todos aqueles que fossem terríveis, arrastando galeões inteiros para as profundezas do oceano. Uma criatura impiedosa contra o mal. Era assim que Isaac acreditava que um Cavaleiro deveria ser.
— Parece que no final você realmente conseguiu se tornar aquilo que tanto queria ser quando era um garoto. — falou Hyoga, dividido entre a felicidade por seu irmão e a tristeza de ter de enfrentá-lo. — Cristal e Camus devem estar orgulhosos de você.
— Eu não me importo mais, Hyoga. Não tenho qualquer sentimento por aqueles que morreram.
— Pois eu tenho. E, para mim, você estava morto, Isaac. Mas não está. Está vivo e na minha frente. A vontade do mar o salvou, Isaac.
— E chegou a hora da Vontade do Mar prevalecer nessa Terra. Ela deve ser protegida pela força inabalável dos oceanos. Mas, para isso, tudo que existe precisará ser purificado para que uma nova era possa ser construída no lugar. Assim como foi na época em que os Deuses caminhavam na Terra.
— Não, nós não iremos permitir que isso aconteça.
O Cosmo de Hyoga outra vez preenchia aquele lugar.
— De nada adianta mostrar coragem, Hyoga. Não está sequer usando a Armadura de Cisne, que chance você acha que tem contra mim?
— Trovão Aurora!
Isaac esquivou-se do turbilhão de gelo.
— Eu estou realmente surpreso com a sua força, Hyoga. Jamais imaginaria que um garoto que apenas queria despertar o Cosmo para chegar até sua mãe no fundo do oceano fosse capaz de chegar aonde você chegou. Você poderia ter sido um grande Cavaleiro, se houvesse dedicado essa força e teimosia em prol da justiça.
Hyoga olhou para seu irmão com saudades.
— Ainda me lembro das palavras de nossa Mestre Cristal antes de morrer. — começou ele, limpando o sangue do rosto. — Ela disse que eu deveria usar o amor que sinto por minha mãe, por meus mestres e até mesmo por você, Isaac. Pelo bem da humanidade.
— Não foi isso que Camus nos ensinou. Não me admira que ele nunca o tenha reconhecido como um verdadeiro Cavaleiro. Que nunca tenha entregue para você a Armadura de Cisne.
Aquelas palavras entraram no coração de Hyoga e o congelaram; seu rosto deixou escapar uma expressão de pavor, como quem é visto totalmente nu em público. Mais do que isso, percebeu certa maldade em Isaac, como quem gira a faca para causar dor em um animal indefeso. Hyoga sabia que Isaac tinha a exata dimensão de como a aceitação de Camus era algo que lhe machucava desde criança. Tantas noites ele passou em claro tentando equilibrar seus sentimentos com a aplicação máxima nos treinamentos em busca de uma palavra de apoio de seu Mestre.
— Volte a ser um guarda em Asgard, que é o máximo que você poderá ser, Hyoga.
Podia ser o golpe fatal entre os irmãos, mas dentro de sua tristeza Hyoga notou que Isaac havia deixado escapar algo mais do que sua pretensa frieza. Se não era compassivo naquele momento, tampouco aquela raiva lhe parecia característica. Isaac sentia algo. Hyoga não estava longe de seu coração.
— Está enganado, Isaac. Eu vou te vencer nesse combate e vou derrubar o Pilar que protege.
Seu Cosmo aflorou outra vez; Isaac também rivalizou com o brilho de sua energia e o pó de diamante que se precipitava naquele pátio gélido valsou como uma dança entre os dois até ser atirado feito um raio cortante de gelo do punho de cada um. A energia congelante chocou-se no centro, aos poucos cedendo de um lado e do outro, conforme o Cosmo de seus feiticeiros de gelo. Duas forças monumentais da Sibéria em pé de igualdade. Mas de um lado havia um General Marina com sua maravilhosa Escama de Kraken, enquanto do outro estava um guarda de Asgard com suas vestes de frio.
O gelo acumulado no meio entre os dois guerreiros explodiu, arrastando Isaac para trás, mas lançando Hyoga para longe e rasgando o curativo que ele tinha no pescoço, fazendo com que seu ferimento se abrisse outra vez, vertendo sangue no pátio branco. Ainda assim, tossindo sangue e com dificuldades, ele tentava desesperadamente se levantar. Quase como se devesse ao Cavaleiro de Pégaso sempre tentar se manter de pé. E era mesmo uma dívida: se ele o havia deixado naquele pilar à sua própria sorte, manter-se de pé era o mínimo que Hyoga podia fazer pelo amigo.
— Eu não entendo essa insistência, Hyoga. Essa sua eterna teimosia. Será possível que você esteja mesmo querendo morrer, é isso? Veio até aqui para se ferir por todos os erros que acha que cometeu?
— Não, Isaac. Eu vim para salvar a vida de Atena.
Ao longe, os clangores de batalha se espalhavam por Atlântida e Isaac olhou para o horizonte, sabendo que algo a mais se passava naquele Reino.
— Não irei mais poupar minha força, Hyoga. Se não irá voltar, eu lamento, mas irei te sepultar aqui mesmo.
Isaac afastou os pés e fez arder seu Cosmo Oceânico, que reverberava com a saudade que Hyoga sentia dele. De quando eram crianças. Com seus braços, o General Marina parecia comandar as ondas que se quebravam no céu-de-mar daquele Reino; com delicadeza, ele bailava os braços à sua frente e, conforme ele os movimentava, Hyoga percebeu que um brilho dourado pareceu se precipitar do céu para chegar até os dois, envolvendo seus corpos com uma energia congelante e ao mesmo tempo belíssima.
Sob seus pés, Hyoga percebeu que o pátio de pedra branca que ele pisava havia dado lugar a um tapete cósmico por onde aquelas ondas solares pareciam dançar; ele reconhecia aquele lindo espetáculo de suas noites na Sibéria ao lado de Isaac. Era uma aurora polar. O Cosmo de Kraken aumentava gradativamente e Hyoga tinha a mais absoluta certeza de que não poderia escapar daquela técnica maravilhosa, pois as ondas solares que bailavam no tapete cósmico também serviam para mantê-lo fixo e congelado onde estava.
— Espero que encontre paz onde você for, Hyoga. — falou Isaac, conjurando aquelas luzes fantásticas para perto de seu braço.
Hyoga tinha apenas uma única alternativa se quisesse seguir lutando. Com os pés afastados, ele ergueu os dois braços acima de sua cabeça e uniu as duas mãos, deixando que seu Cosmo também se alimentasse daquele espetáculo congelante. Olhou para cima e viu se quebrarem no céu as ondas do Oceano Antártico, pedindo um milagre de Atena.
— O que pensa que está fazendo? — perguntou Isaac, enquanto manipulava as ondas douradas à sua frente. — Eu conheço essa postura. Essa é a postura da Execução Aurora de Camus de Aquário. Não seja tolo, Hyoga. Eu lembro muito bem que Camus nunca o ensinou a usar a técnica máxima de um Cavaleiro de Gelo. Nem mesmo eu fui capaz de controlá-la enquanto estive treinando na Sibéria. Sem a sua Armadura de Cisne, você irá acabar se desintegrando em pó de diamante.
— Está enganado, Isaac. Camus morreu para me ensinar essa técnica. E eu vou te vencer com ela.
Ambos encararam-se, o gelo descrevendo lufadas fortes à frente dos dois, trazendo uma neblina fina e fria, iluminada por vezes pelas luzes douradas da Aurora que Isaac controlava com as mãos.
— Execução! Aurora! Boreal!
Os dois arderam seus Cosmos e gritaram por todo aquele Oceano suas palavras mágicas. Dois raios congelantes e poderosos foram conjurados e chocaram-se no meio, congelando o próprio oceano e suas ondas que quebravam no céu. Durante alguns bons segundos, as duas técnicas congelantes permaneceram igualmente equiparadas entre os dois; a Escama de Kraken foi tomada por um pó de diamante terrivelmente gélido que congelou algumas partes da proteção, enquanto do outro lado a roupa de Hyoga se desfez completamente e o curativo em seu pescoço se desintegrou, deixando-o desprotegido.
A energia avançou lentamente na direção de Hyoga para obliterá-lo, mas Isaac percebeu algo acima da cabeça de Hyoga quando sua visão foi desobstruída pela orbe de gelo que se equilibrava entre os dois: havia um brilho dourado sobre a cabeça do garoto. Um jarro dourado maravilhoso que, aos poucos, movia-se por alguma força cósmica; era como se o jarro derramasse um líquido dourado sobre as mãos de Hyoga, que fez seu Cosmo expandir ao infinito.
A esfera de luz e gelo que aos poucos avançava para engolir Hyoga tomou matizes douradas e agora atraía Isaac para dentro dela, causando rachaduras em sua Escama. Cego pela orbe de gelo que aos poucos aumentava para engolir seu corpo, Isaac percebeu dentro da nevasca mortal a silhueta de alguém trajando uma Sagrada Armadura de Ouro. Os pés afastados, os braços à frente do corpo com as mãos unidas.
— Camus?! — confundiu-se Isaac ao notar que se tratava do Cavaleiro de Aquário usando sua sagrada Execução Aurora.
E foi então engolido e derrotado pela técnica de seu Mestre.
Seu corpo foi arremessado contra o Pilar Antártico; sua Escama de Kraken despedaçou-se em lascas de gelo e seus cabelos queimados da Sibéria tinham as pontas trincadas. Não conseguiu se levantar, pois era como se todos seus ossos tivessem sido congelados e então destroçados. A força daquelas duas técnicas o havia vencido. Tudo que pôde fazer foi rastejar até a borda da escadaria que dava ao pátio branco, onde pôde ver caminhando até ele o Cavaleiro de Aquário.
E o que seus olhos viram ele não pode acreditar. Era Hyoga quem vestia a Sagrada Armadura de Aquário.
— A Armadura de Aquário… Não me diga que … — falou Isaac, balbuciando com dificuldade. — Mas o que significa isso? Não pode ser que… Camus o reconheceu como um Cavaleiro de Ouro?
Hyoga ajoelhou-se ao lado do irmão segurando sua mão e deixou cair uma lágrima quente em seu rosto.
— Que poder incrível. Parabéns, Hyoga. Você foi capaz de vencer seu inimigo usando todas as suas forças. Ainda que essa pessoa fosse alguém importante para você. Você foi capaz de superar seus sentimentos dentro do campo de batalha pelo que acredita, Hyoga. É por isso que nosso Mestre o reconheceu como seu legítimo sucessor. Um Cavaleiro de Aquário. Um verdadeiro discípulo de Camus.
— Isaac…
— Eu estou feliz, Hyoga. Feliz porque sinto que posso te chamar de irmão uma vez mais. Ainda que seja a última vez. Meu irmão.
Hyoga apertou a mão de Isaac e sorriu.
— Você fala como se estivesse se despedindo, meu irmão Isaac.
Isaac olhou confuso para o irmão.
— Eu treinei dia e noite no Santuário para ficar forte, meu irmão. Tão forte que eu nunca mais precise colocar meus sentimentos de lado. Eu não te venci porque apaguei meus sentimentos. Eu poupei a sua vida, porque eu te amo demais. E fiquei forte o suficiente para usar esse amor em prol da justiça. Eu cansei de perder as pessoas que eu amo, Isaac. Você vai viver.
Isaac estava confuso, mas então sentiu invadir seu corpo uma sensação reconfortante, como um banho quente em noite fria. O Cosmo de Hyoga era dourado e o salvava do fim; não porque o recuperava de feridas impossíveis, mas porque Isaac percebeu finalmente que Hyoga foi capaz de atingi-lo apenas onde era necessário para que sua Escama fosse destruída e seu senso de batalha fosse atrasado. Mas sua vida ainda assim seria poupada.
Hyoga sorriu para seu irmão e levantou-se olhando para o pátio. Hyoga fez arder seu Sétimo Sentido e estendeu o braço na direção da Urna de Libra, que jazia tombada ao lado de uma coluna. Respondendo ao seu Chamado de Ouro, a Urna abriu-se revelando a linda balança de Libra e o cosmo de Hyoga conjurou uma barra-dupla de ouro que lentamente chegou até sua mão. Hyoga de Aquário a lançou na direção do Pilar do Oceano, destruindo-o completamente.
O Oceano desceu seu nível ainda mais e Hyoga tomou seu irmão Isaac para um abraço quente e cheio de saudade.
— Eu senti tanto sua falta, Isaac. — e então olhou para o único olho de seu irmão, que estava um tanto confuso. — Obrigado por tudo, Isaac. Obrigado por tudo que fez por mim.
Isaac continuou calado, mas Hyoga não se conteve.
— Por ter me ensinado a usar o Cosmo e a chegar até minha mãe. Por ter me salvado naquele dia. Por ter trazido a Armadura de Aquário.
— Está enganado, Hyoga. Não fui eu quem a trouxe do Santuário. Mais do que isso, não há nada pelo qual você deva me agradecer. Cassandra foi capaz de te vencer usando a imagem de Camus, porque fui eu quem compartilhou suas dores com ela para que fosse derrotado. Não sou digno de sua compaixão, Hyoga.
— Está errado, irmão. Você ainda acredita que pode esconder suas verdadeiras intenções de mim. Mas de mim não poderá jamais. Eu sei o que fez. Eu sei, Isaac.
A expressão de Isaac se desanuviou aos poucos, como alguém que finalmente é compreendido, ou ao menos descoberto em seus planos mais íntimos. Hyoga sabia o motivo pelo qual Isaac fez questão de contar à General Marina sobre seu Mestre Camus. Sabia, pois Seiya só poderia estar naquele estado por culpa de sua irmã, de modo que Cassandra era perfeitamente capaz de encontrar quem realmente estava escondido em seu coração. Isaac deixou escapar um sorriso dolorido.
— Eu não queria que fosse morto por sua própria mãe, Hyoga. — justificou Isaac, limpando as lágrimas de seu irmão. — Parece uma loucura, mas talvez você tenha sido salvo justamente por amar demais, Hyoga.
O garoto deixou escapar um sorriso e os dois se abraçaram enquanto o Oceano ruía ao redor deles.
— Você é igual ao seu mestre, Isaac.
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