Muitos dias atrás.

No auge da madrugada grega, Shiryu estava sentada e muito ansiosa diante de um computador portátil. Era o laptop que Saori geralmente usava para manter-se atualizada com as notícias do mundo, bem como as últimas informações de sua antiga Fundação Graad. Mesmo à distância, ela sentia que era necessário acompanhar alguns desdobramentos antes de se desligar completamente da vida civil.

Mas, naquela madrugada, quem faria uma chamada importante era Shiryu. E ela estava bastante ansiosa. Colocou os fones de ouvido na orelha, arrumou o enorme cabelo negro para trás e ajustou o melhor que podia a bata branca que usava.

No andar de cima, Shun cuidava de Aldebarã, que fez questão de ficar acordado pelo menos durante aquela madrugada, para que seus roncos de trovão não atrapalhassem a jovem Cavaleira de Bronze em sua ligação. O amigo ajudou Shiryu a se instalar e fazer a ligação pelos aplicativos certos. Ela escutou o tom de chamada soar cinco vezes, em que cada uma delas parecia acelerar seu coração um pouco mais.

Até que enfim alguém atendeu do outro lado.

— Alô? Shiryu, é você é? Pode me ouvir? — falou de uma vez a voz aflita do outro lado.

— Shunrei? Sim, sou eu. Consegue me ouvir também? — confirmou Shiryu, com a voz um pouco vacilante.

Seguiu-se alguns segundos em que ambas procuravam confirmar que podiam ser ouvidas, uma forma de afastar um pouco da ansiedade em começar uma conversa sem saber por onde. Para Shiryu, seria especial ouvir a voz de Shunrei de qualquer maneira, mas graças àqueles fones de ouvido, que sequer eram dos mais caros ou modernos, ela podia ouví-la como se estivesse mesmo ao seu lado. E por essa emoção ela não esperava.

— Shunrei. Está tudo bem com você?

— Eu estou bem, Shiryu. — respondeu a amiga depois de uma longa respiração de alívio ao encontrar o lugar certo de casa para a melhor conexão. — Estou morrendo de saudades de você.

Shiryu ruborizou levemente.

— Infelizmente tivemos que cancelar a viagem. O Shun ficou bastante desapontado, pois ele estava com vontade de conhecer Rozan, o lugar em que crescemos, bem como conhecer você também, Shunrei.

— Ai, Shiryu, você está toda machucada. O que aconteceu?

Shiryu imediatamente levou a mão no rosto e, num instante, lembrou-se de todos os curativos que tinha e mortificou-se por não ter se lembrado de escondê-los o melhor que podia, pois sabia que Shunrei sofria em vê-los. Tarde demais.

— Não se preocupe tanto, Shunrei. É apenas o treinamento que todos nós temos nos submetido por nossa missão.

Shunrei não respondeu, pois Shiryu sempre sabia o que ela pensava sobre o assunto.

— Posso te garantir que o treinamento não chega nem perto do que o Mestre Ancião me fazia passar.

De repente, uma voz rouca se fez ouvir do outro lado da chamada, de maneira surpresa.

— Ora, então eu vou ter que pedir ao jovem leão que seja mais rigoroso.

— Ai, cala a boca, Mestre! — explodiu Shunrei, mas Shiryu experimentou sorrir do seu lado, o que fez derreter o coração de Shunrei ao vê-la pela câmera tendo um momento de alegria.

— Mestre. Você também está aí? — perguntou Shiryu, feliz.

— Ele não sai desse celular, Shiryu. O Dohko trouxe da cidade pra gente poder falar com você e esse Velho fica o dia inteiro com ele lá embaixo da cachoeira assistindo vídeo da Guerra Galática, você acredita nisso?

— Da Guerra Galática? — perguntou Shiryu, um pouco confusa.

— Sim, parece que a Fundação Graad vai promover um novo torneio, então eles ficam passando os melhores momentos da primeira temporada. E ele adora ficar vendo. Venha aqui falar com a Shiryu um pouco, Mestre.

— Shiryu sabe muito bem onde me encontrar.

— Ai, que velho teimoso, Shiryu. Não é justo eu ficar aqui sozinha cuidando dele. Olha lá, não quis nem te dar 'oi'. Já foi embora.

Shiryu não deixou de sorrir.

— Ele sabe que eu posso sentí-lo no Universo onde quer que eu esteja, Shunrei. O Mestre está sempre ao meu lado.

— Eu entendo muito pouco dessa conversa de vocês. — comentou Shunrei, pensativa, do outro lado da ligação. — Tenho certeza que seria melhor se você viesse visitá-lo pessoalmente, já que ele nunca vai sair daqui, você sabe.

— Eu sei. — respondeu Shiryu, com o peito leve. — Eu também morro de saudade de casa, Shunrei. E de você também.

Shunrei não respondeu, mas Shiryu adivinhou que sorria, como sempre sabia.

— Então Dohko está aí com vocês também? Eu fico mais aliviada.

— Está com ciúmes, Shiryu? — perguntou Shunrei com graça e Shiryu gaguejou.

— Não, eu… claro que não, Shunrei. Não é isso.

Shunrei riu.

— Você faz isso de propósito. — comentou Shiryu, um pouco desconcertada.

— Sempre. Mas Dohko apenas visita de vez em quando, ele e Shinadekuro parecem bem próximos. — comentou ela, com certo mistério na voz.

— Lembro do Mestre ter comentado que eles viraram justiceiros na cidade, é verdade?

— Dohko jura que não, mas ele não engana mais a gente. Com esse celular, eu posso ver as notícias da cidade e toda hora eles estão no telejornal. E sim, é o Dohko e o Shina. Eu tenho certeza absoluta de que são eles. Não sei por que escondem.

— Eles devem ter um bom motivo. — respondeu Shiryu, com graça.

— Mas e quanto a você, Shiryu? Como são seus dias na Grécia?

Shiryu respirou fundo antes de responder.

— Os dias têm sido quentes. Mas nós passamos todos os dias em treinamento com os Cavaleiros de Ouro.

— Todos os dias?

— Sim. A Mestre Mayura acredita que precisamos nos esforçar para manter o Santuário em segurança.

— Já não tem Cavaleiro suficiente nesse lugar?

— Muito pelo contrário. — comentou Shiryu, pesarosa. — Eu suspeito que a Mestre Mayura está exigindo muito de todos nós, pois acredita que possamos nos tornar Cavaleiros de Ouro.

— Como o Mestre Ancião? — perguntou Shunrei, curiosa. — Eu ainda não acredito que um velho preguiçoso como ele foi um Cavaleiro de Ouro. Ainda custo a acreditar.

— O Mestre nunca nos contou sobre sua infância e juventude. Quando nos adotou ele já era muito velhinho.

— Te obrigava a carregar toda aquela água nas costas pela montanha inteira, você lembra disso?

— Nunca vou me esquecer. — respondeu Shiryu, lembrando-se de seu árduo treinamento quando ainda era uma criança. — Mas eu queria ser treinada. Queria ser forte.

— Você e o Dohko. Dois idiotas.

— Lembra quando você quis treinar com a gente?

Shunrei riu como há tempos não ria.

— Eu acertei um soco no Dohko! — lembrou-se ela com graça.

— Ninguém esperava aquilo. Acho que o Mestre Ancião nunca deu tanta risada em toda sua vida.

— Bom, de tanto ficar vendo vocês pra lá e pra cá treinando, eu acabei aprendendo uma coisa ou outra.

— O Dohko ficou muito bravo.

— Eram bons tempos. — comentou Shunrei, nostálgica. — Mas sabe que o Mestre Ancião não era nem um pouco menos rigoroso na cozinha e nos jardins. Ele levava a culinária e os pun-sais tão a sério quanto seu treinamento. E me fazia repetir mil vezes as receitas, os cuidados nos potes.

— Eu tenho certeza disso.

— Um folgado.

Shiryu deixou escapar um sorriso.

— O Mestre Ancião é um Cavaleiro de Ouro, Shunrei. O que nos difere deles é que eles têm a mais plena compreensão de algo que chamam de Sétimo Sentido. Um Sentido de plenitude em que você é uma única coisa com tudo que há. Então, para o Mestre é tão importante o treinamento de Cavaleiro como o preparo de um refogado. E ele leva com muita seriedade e rigor as duas coisas.

— Então eu posso me considerar uma Cavaleira também.

— O amor que você coloca em tudo que faz sem dúvidas é também resultado do cuidado e atenção do Mestre Ancião.

— Ai, Shiryu. Você sempre diz as coisas certas, né. — Shiryu deixou escapar um sorriso do outro lado da chamada e Shunrei achou estranho. — O que foi?

— Está me paquerando, Shunrei?

— Shiryu!

As duas riram.

E conversaram ainda por horas sobre a vida de antes e de agora, das saudades e dos cheiros de Rozan. Shunrei contou as histórias que Dohko trazia da cidade, os contos que o povo das montanhas falava sobre as chuvas, as peripécias do Mestre Ancião, cada vez mais teimoso. Do outro lado, Shiryu atualizou a amiga sobre Shun, Hyoga e Seiya, bem como Ikki, as crianças e outras coisas que talvez sequer fossem de sua alçada cobrir com ela. Mas ela era a pessoa mais importante de sua vida, com quem cresceu desde que era uma criança abandonada nos rios de Rozan.

E avisou também que, no dia seguinte, ela partiria para Asgard.

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Quando Seiya foi arremessado para a superfície pelos Ventos de Tempestade do General Bian, Shiryu de Dragão chegou ao pátio de outro enorme Pilar. Ela trajava sua Sagrada Armadura, que àquela altura estava muito despedaçada; o famoso Escudo do Dragão não passava de cacos de Bronze no seu braço esquerdo, enquanto a proteção de seu peitoral também tinha um rombo enorme, fruto de sua batalha terrível contra Siegfried.

Nada impediria que ela seguisse adiante junto de seus amigos para resgatar Saori, a Deusa Atena. E diante daquele colossal Pilar, ela não titubeou e logo saltou pelas escadarias que levavam até o pé daquele monumento, mas precisou recalcular seus passos e voltar, pois adivinhou no ar um relâmpago dourado na sua direção. Quando pousou de volta no pátio, notou que havia um corte fino no seu rosto.

— Impossível, eu tenho certeza que desviei do ataque. — comentou para si mesma, limpando o sangue do rosto.

E no ponto de onde ela havia saltado para escapar daquele raio de luz, viu que havia uma espada dourada fincada na pedra. Olhou ao redor e à princípio não viu ninguém, embora tivesse certeza de que alguém havia atacado ela à distância.

— Tenho certeza que ela não me tocou. — falou baixo. — Será que apenas o deslocamento de ar foi capaz de ferir o meu rosto?

— Exatamente!

Uma voz se fez ouvir naquele pátio e uma silhueta surgiu detrás do colossal Pilar Oceânico; uma pessoa alta, trajando essa armadura fabulosa e furta-cor que caracterizava os Generais Marinas de Poseidon. Tinha um diadema ornamentando o bonito rosto negro enquanto seu cabelo branco se desprendia da cabeça em um moicano enorme que caía para trás na altura de sua cintura. E enquanto descia as escadas até o nível em que Shiryu estava, contou sobre os mistérios daquela espada.

— Não pense que essa é uma espada comum. Essa espada dourada é a Espada Khanda, cultuada pelo Povo Giravaaru e também por todo Dharma. E aqui ela também é a Espada de Crisaor.

— Crisaor?

— Sim. Desde os tempos mitológicos, Crisaor, um dos filhos de Poseidon, é conhecido por ser o Portador da Espada de Ouro. Pois nessa Era, Crisaor é o Portador de Khanda. Uma espada capaz de deter todo o mal e cortar o mais profundo véu da ignorância. Nada pode parar seu ataque.

— Uma espada sagrada. Então você representa o Filho de Poseidon, Crisaor.

— Sou Celmira Krishna de Crisaor. A General Marina responsável pelo Pilar do Oceano Índico.

— Escute Crisaor, meu nome é…

— Não me importa o seu nome. — interrompeu ela estendendo o braço para a frente na direção da espada. — Não me importa saber quem você é. Essa Espada de Ouro irá lhe cortar em pedaços.

A Espada de Ouro vibrou no chão em que estava fincada e retornou para a mão da General. Era uma espada reta de dois gumes com o fio comprido e terrivelmente afiado; realmente um trabalho único. Krishna a lançou de volta na direção de Shiryu como se fosse uma lança menor e a Cavaleira de Dragão precisou saltar para não ser varada pela ponta afiada. Mas sua coxa direita foi novamente ferida pelo deslocamento do ar.

— Seres malignos que invadem o Reino de Poseidon e voltam-se contra o Deus dos Mares, que retornou a este plano para purificar a Vida. Essa Espada rasgará o tecido de estupidez que obscurece sua sabedoria.

— Malignos? Isso é um absurdo. São vocês que estão fazendo sofrer milhares de vidas inocentes, Krishna.

Mas novamente a General Marina conjurou a Espada de Ouro de volta para sua mão e adiantou-se para retalhar Shiryu como pudesse; mas a Cavaleira de Dragão era ágil e escapou de todas as suas investidas, apenas para se ver ferida pelo ar cortante daquela espada incrível.

— É inútil tentar fugir. Não há como escapar de Khanda.

— Droga…

Shiryu sabia que era plenamente capaz de esquivar daqueles ataques de Krishna, mas pouco adiantava escapar, pois o ar cortante gerado pelas investidas da espada ainda assim retalhavam sua carne. Era preciso que ela fosse ao ataque. Colocasse Krishna contra as cordas para que não tivesse chance de usar sua Espada.

E foi o que ela fez. Partiu com seu Punho do Dragão em chamas, mas Krishna também era uma exímia lutadora, e todas as tentativas de Shiryu ela apartava com sua espada para um lado ou para o outro. E ao usar sua Espada para a defesa, Krishna deixava para trás um rastro de ar cortante que ainda assim feria Shiryu em alguns pontos, de modo que Shiryu sentia-se atacada quando Krishna usava sua espada tanto no ataque como na defesa. Sua Armadura de Bronze, como é o caso com todas as Armaduras de Bronze, não eram de total proteção corporal, de modo que sua pele ficava muito vulnerável àquela consequência letal de ataque e defesa da Espada Khanda.

— Já deve ter percebido que não tem chance alguma.

Mas Shiryu ergueu o braço direito e produziu um espetáculo de luzes que tomou Krishna de surpresa. Ela brandiu sua espada com desespero e muita rapidez ao tentar se defender. Em seu rosto produziu-se um filete de sangue e seus olhos tornaram-se atentos pela primeira vez.

— Também tenho meus truques, Krishna.

— Fabuloso. — comentou a General, olhando nos olhos de Shiryu. — Mas veja o estado de seus braços.

— O quê!?

A defesa desesperada de Krishna com o ataque secreto de Shiryu a feriu pela primeira vez, mas também produziu fendas cortantes de ar que pela primeira vez produziram feridas profundas nos dois braços de Shiryu, bem como arranharam de maneira decisiva sua Armadura de Dragão.

— Por Atena, não fosse essa nova Armadura de Dragão revivida com o sangue dos Cavaleiros de Ouro, eu… eu estaria morta.

— Dragão. Agora compreendo. — concluiu Krishna muito calmamente, apoiando-se no cabo daquela bonita espada repousada ao seu lado com o fio fincado no chão. — Sua Armadura não é uma simples Armadura de Bronze ou já teria sido retalhada há muito tempo. É impressionante que consiga se esquivar de meus ataques diretos, mas nada pode escapar da fome de Khanda. Ela pode sentir a sua confusão. Ela se alimentará de sua ignorância e irá lhe trazer à Iluminação nem que seja através de seu próprio sangue.

— Está querendo dizer que nossa batalha é estúpida e ignorante, Krishna? Lutamos pelas pessoas na Terra. — Shiryu notou o olhar duro de Krishane e completou, lembrando-se de que Saori já havia cuidado daquilo. — E também para evitar que mais pessoas inocentes sejam mortas. É isso que você considera uma batalha estúpida?

Krishna sorriu com graça ao perceber como Shiryu rapidamente justificou-se.

— O futuro está nos oceanos. Suas ações podem impedir uma segunda chance à humanidade, Dragão.

— Está errada. Nenhum futuro pode ser construído em cima de vidas inocentes. Seja uma ou um milhão.

— Não há qualquer inocência neste Mundo. — retrucou Krishna, com amargura na voz.

— Eu não vou aceitar isso. — respondeu Shiryu, queimando seu enorme cosmo esmeralda.

— Já sabe que o resultado dessa luta não será outro que não seu corpo em pedaços.

— Cólera do Dragão!

A voz de Shiryu bradou pelo Oceano Índico e seus cabelos esvoaçaram quando a própria água do oceano acima desceu na forma de um maravilhoso Dragão Chinês que engoliu a General Krishna em um espetáculo terrível. Surpreendida, a General levantou-se quando a água se dissipou de onde havia sido atingida; Shiryu percebeu como sua Escama de General estava muito avariada, embora ainda se mantivesse de alguma maneira intacta.

— Você é impressionante, Dragão. — comentou ela, já sem o diadema que escondia alguns detalhes de seu bonito rosto. — Sua força rivaliza com aquela dos Generais Marinas. Mas não me subestime. Alguns Generais podem não estar preparados para esta batalha, mas eu treinei minha vida inteira para esse momento.

Krishna ardeu seu Cosmo Oceânico e avançou em Shiryu com sua Espada de Ouro em mãos; rompeu a carne de Shiryu na altura da cintura e a perfurou até o outro lado. Até mesmo a General pareceu surpresa.

— O que é isso? Você não se esquivou? — perguntou ela olhando para o rosto sofrido de Shiryu. — Não me diga que tentou parar a espada com suas mãos?

De fato, Shiryu tinha as duas palmas de sua mão no gume da espada, como se houvesse tentado parar o ataque de Krishna no momento exato. Não podia ser diferente, pois além de treinar com o temível Cavaleiro de Leão, Aioria, Shiryu também passava tempo demais na clínica de Rodório. Fosse para tratar de seus próprios ferimentos ou para fazer suas longas chamadas com Rozan, que tanto adorava. E não raro, o enorme Aldebarã lhe ensinava os segredos do iai, arte marcial que ele pessoalmente havia passado a Marin e ela treinado Seiya para que lhe vencesse em combate anos mais tarde. Mas Shiryu não foi capaz de acertar o momento certo e agora tinha uma espada fincada próximo ao fígado. Ela estava ofegante.

— Se eu quiser te vencer, derrubar esse Pilar e salvar Atena e a humanidade, eu preciso destruir sua espada de ouro primeiro, Krishna.

— Mas que estupidez, essa é a Espada Khanda! Ela não será destruída nunca.

— É o que vamos ver!

O Cosmo de Shiryu ardeu em chamas e seus cabelos enormes esvoaçavam para acima de sua cabeça com a intensidade de sua energia. Ela ergueu o braço direito do Punho do Dragão e Krishna assombrou-se com um lampejo dourado que tomou conta daquele pátio; não havia dúvidas, o Punho do Dragão de Shiryu havia perdido a coloração escura e esverdeada para luzir dourado.

— Mas será possível? A Armadura de Dragão transformou-se em ouro!

Ela gritou um urro visceral e desceu com força o Punho do Dragão Dourado na forma de uma navalha para cortar o fio da Espada Khanda. Mas tudo que encontrou foi a dor e o sangue de sua própria mão que apenas não se partiu ao meio graças àquela transformação de sua Armadura de Bronze. Krishna apressou-se e retirou a lâmina de dentro de Shiryu, ainda com um ar de surpresa por aquele instante.

— Ainda não percebeu que a Espada Khanda é invencível? — perguntou Krishna, tentando disfarçar a sua própria apreensão.

O sangue escuro da Cavaleira de Dragão tingiu o chão e ela caiu de joelhos pela primeira vez. Seu Punho do Dragão havia retornado à cor original. Ofegante, ela notou que sua calça e Armadura estavam muito sujas do sangue que vertia dela.

— Mas que fibra imensa, Dragão. Agora eu me arrependo de não ter escutado seu nome antes. Mas se tenho algum apreço por seu esforço, apenas posso lhe dizer que o melhor será que você fique no chão esperando que o sangue se esvaia de seu corpo em uma morte lenta e tranquila.

— Eu não vou morrer aqui. Eu vou destruir sua Espada de Ouro, Krishna.

A General surpreendeu-se com aquela força na voz. Engoliu em seco, deixando que o tempo tirasse o sangue de sua oponente. Até que ela respirou fundo e falou com calma.

— Me diga, Dragão. Qual seu nome?

Ela levantou-se aos poucos, altiva.

— Eu sou Shiryu de Dragão. — bradou com orgulho.

— Shiryu. — repetiu Krishna, preparando sua espada.

Ela então estendeu seu braço esquerdo, protegido por sua Escama, e estalou os dedos gerando um lampejo de luz que cegou Shiryu por um instante. E no momento seguinte, quando abriu os olhos, a Cavaleira de Dragão percebeu que Krishna não estava mais à sua frente, mas agora às suas costas.

— O quê? Não é possível. A… a minha Armadura. Krishna, você…

A Armadura de Dragão simplesmente despedaçou-se inteira de seu corpo completamente retalhada em pedaços, caindo no chão à sua frente e deixando seu corpo todo desprotegido.

— Não posso dar a chance de um milagre como aquele acontecer novamente. — falou Krishna às costas de Shiryu.

Shiryu virou-se para a General e o rosto de Krishna tornou-se surpreso ao vê-la sem sua armadura.

— Uma menina? — perguntou-se Krishna, um pouco confusa e, ao mesmo tempo, deixando um breve sorriso se desenhar no rosto. — Shiryu, eu estou realmente surpresa.

A Cavaleira de Dragão estava desnorteada e ofegante. Mas colocou-se em guarda novamente.

— Não faça isso, Shiryu de Dragão. Eu destruí sua Sagrada Armadura, mas poupei sua vida, pois reconheço sua imensa fibra diante de mim. Reconheço também de onde vem a fome voraz que você despertava em Khanda. Mas agora, sem sua Armadura, talvez você possa voltar para sua vida livre daquilo que tanto te traz angústia.

— Arrancar minha Armadura não me faz menos Cavaleira de Atena. Eu vou continuar lutando, Krishna. Enquanto minha vida puder arder, eu vou me levantar e vou tentar derrubar esse Pilar para que Atena tenha uma chance. Eu fiz uma promessa aos meus amigos e vou cumpri-la!

— Está completamente perdida, Shiryu de Dragão. Talvez a morte seja mesmo a melhor saída para você, já que não poderá cumprir essa promessa.

O ferimento de Shiryu sangrava. Escorria-lhe o sangue do baço, principalmente devido ao esforço que fazia para manter a chama de seu Cosmo acesa. Ela avançou com seu Cólera do Dragão na direção de Krishna, as águas tornaram-se turbulentas no céu, mas a Espada Khanda partiu o Dragão de Água em dois e finalmente levou Shiryu ao chão, com muitos ferimentos no corpo todo.

Krishna abandonou o pátio de volta ao pilar, pois agora tinha certeza de que a batalha havia terminado; o corpo de uma Cavaleira, como de um General ou até mesmo de um Guerreiro Deus, era o corpo de uma pessoa normal. É sua conexão com o Universo ou com seu mais profundo âmago que produz a força de um deus nesses guerreiros. Mas, sem suas proteções divinas, os corpos são tão frágeis quanto os de uma garota qualquer.

Shiryu estava vencida.

Notas finais
SOBRE O CAPÍTULO: Esse e o próximo capítulo são importantíssimos para a Shiryu. Eu ainda não sei se consigo escrever bem essa Shiryu; a decisão de mudar seu gênero ainda lá no começo da história foi baseada num equilíbrio de personagens, que agora eu já me questiono se eu fiz a escolha certa. Mas a história tem que continuar. Eu gosto muito da relação entre Shiryu e Shunrei, e tem sido divertido dar um pouco mais de calor na Shunrei para contrastar um pouco mais com Shiryu sempre tão séria. Também me apropriei um pouco de Krishna criando essa persona chamada Celmira e achei importante mudar a lança de Krishna para uma Espada, uma vez que, no original, Crisaor realmente tenha mais a ver com uma espada, além de me dar a oportunidade de usar a espada Khanda. PRÓXIMO CAPÍTULO: As Cores do Amor O final apoteótico da batalha de Shiryu.