Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda de Seiya
125 Aqueles Que Se Reúnem
A ponte pela qual Hyoga corria apressado era de um piso brilhante e sem qualquer cor definida. Talhada em pedras mágicas que pareciam se interconectar de maneira impossível. Ondas multicolores se arrastavam por todo o chão, como se tempestades de areia coloridas tivessem sido represadas naquelas pedras translúcidas. Ainda que estivesse com pressa, Hyoga não pôde fugir da sensação sufocante de confusão ao correr por aquela larga ponte, que parecia fazer uma parábola leve sobre um abismo.

Era como se afundar dentro de um sonho angustiante. Acreditava-se em Asgard que aquele lugar fosse a travessia do Mundo dos Homens para a Terra dos Deuses e, sabendo que o Reino de Poseidon ficava no ponto mais profundo do mar, Hyoga esperava que aquela travessia o levasse cada vez mais para baixo na caverna. Mas, para sua surpresa, para além da leve parábola que fazia, a Ponte Bifrost não parecia levar a nenhum lugar mais fundo e apenas parecia conectar uma margem do abismo à outra.
No que julgou ser a metade do caminho, Hyoga olhou para trás e já não reconheceu as pedras da caverna em que havia se aventurado sozinho nas últimas horas, desde que havia deixado o casarão da Princesa Freia com o peito mortificado de raiva, disposto a destruir o planeta inteiro para evitar que Saori morresse por sua culpa. Uma culpa que já havia sentido por outras partidas e desaparecimentos em sua curta vida de Cavaleiro. Nunca mais, pensou sozinho, e partiu.
À frente dele um caminho desconhecido, mas acima de sua cabeça pairava algo tão mágico e brilhante quanto as pedras daquela ponte em que pisava. Ele ergueu as mãos estupefato e percebeu o toque de algo incrível: uma névoa prateada muito fina e suspensa, que bailava com graciosidade acima de sua cabeça, como se também fizesse aquela travessia junto dele.
— A neve que cai em forma de cristais. A neve cintilante feito jóias que brilham no ar. A beleza que representa o frio e a morte de tudo que é vivo.
Hyoga lembrou-se de seu Mestre Camus ao tocar com os dedos das mãos aquela névoa bonita que atravessava seu corpo e enregelava seus ossos. Aquela poeira invadiu seu coração com uma familiaridade imensa, como se fosse um chamado de sua infância.
— O povo do Ártico, com uma mistura de terror e orgulho, chamava esse fenômeno de… Mestre Camus, eu me lembro.
E com a lembrança de seu querido mestre no peito, ele sentiu seu Cosmo aflorar sozinho naquela Ponte Mágica, causando-lhe uma sensação diferente, pois havia uma certa ancestralidade familiar em seu corpo. Era o seidr, a força de Guerreiro Deus que ainda vivia dentro dele, ressoando com a Bifrost, afinal havia sido aquela força antiga que o havia guiado pelas profundezas da montanha até a rocha que guardava a entrada daquela travessia. Seu corpo ainda carregava as marcas de algumas queimaduras que ganhou no caminho, mas, assim que pisou dentro da Bifrost, tudo se acalmou e ele partiu para o Reino de Poseidon.
Deixou o pó de diamante flutuar e seguiu até a ponte se acabar em uma bonita passagem margeada por alguns cavalos talhados na pedra bruta da caverna diante de um portal aberto. Para além dele, Hyoga já podia ver a luz de uma claridade alcançar seus pés. Entrou com cuidado e, em pouco tempo, estava debaixo do domo oceânico que era o Reino de Poseidon.
Saiu deslumbrado, notando as formações rochosas ao longe, bem como o movimento impossível do mar que se quebrava acima de sua cabeça. Aquela visão estonteante o fez se afastar aos poucos, até perceber que havia saído de dentro do que parecia ser um pilar colossal que se perdia de vista no céu.
— Mas o que diabos é isso. Será que estou no Reino de Poseidon?
Olhou ao redor e não encontrou nada além do pilar e as formações ao longe. Chamou muito sua atenção o frio que fazia naquele lugar e, embora estivesse já há algum tempo em Asgard, notou que o frio que ali fazia era ainda mais castigante, posto que o ar era úmido e pairava sobre o local uma névoa parecida como aquela com a qual ele havia se encantado na travessia. Um certo cheiro de infância.
O garoto fez a volta no pilar e, no céu oceânico daquele lugar, adivinhou outros quatro pilares tão gigantes como aquele perto dele. Intrigado, retornou até a passagem por onde havia chegado e percebeu que, dali onde estava, desciam largas escadas até um pátio bonito e deserto. Com a exceção de uma única presença que o fez parar em meio a seus passos: uma urna de ouro. Hyoga olhou para todos os lados, mas não viu absolutamente ninguém.
Desceu temeroso os largos degraus até o imenso pátio diante do pilar e, quando chegou próximo à caixa, seu coração parou. Era a Urna de Ouro da Armadura de Aquário.
Hyoga hesitou e deu alguns passos para trás, sem acreditar muito bem no que aquela assombração de seu Mestre fazia ali. Outra vez. Fechou os olhos e respirou fundo, com medo de que aquilo fosse uma miragem, mas ao abrir novamente seus olhos percebeu que a Urna continuava ali. Dourada e brilhante. Viva.
— "Aqui é tão frio quanto a Sibéria." — repetiu ele as palavras decoradas de uma carta de seu mestre.
E ali realmente era tão frio quanto a Sibéria, refletiu ao notar que a névoa de diamante continuava pairando no ar. Ele finalmente tomou coragem e tocou a Armadura de Aquário, que ressoou com seu Cosmo imediatamente, aflorando dentro do garoto a aura de fogo branco que cobria seu corpo quando lutava com bravura.
— Finalmente chegou, Hyoga.
Ele olhou para trás, assustado, e aquela voz o congelou quase por completo. O dono daquele timbre era um homem sério, cujos cabelos e feição o garoto jamais esqueceria e pelo qual nutria uma enorme dor nos últimos meses. Era Camus, seu Mestre.
Vestia uma túnica escura com os braços nus e as calças cobertas por uma espécie de capa de pele quente, que Hyoga conhecia tão bem de quando era um garoto menor. Camus encarou seu discípulo do alto de onde estava, como fazia nas tardes siberianas olhando-o treinar. Era um homem de poucas palavras e deixou que o silêncio soterrasse Hyoga com aquela realidade confusa. Até que finalmente ele começou a descer os degraus até o pátio onde o garoto estava.
O menino olhou bem para aquele homem e não teve dúvida nenhuma: era mesmo Camus. Seu modo de olhar, seus trejeitos, sua seriedade, seu cenho franzido, a forma com que repousava para falar. Mais do que isso: o Cosmo que ele sentia era inconfundível.
— Quem é você?! — perguntou ele, contrariando absolutamente tudo que sentia.
Camus fechou os olhos de maneira paciente.
— Sei que passou por momentos difíceis, Hyoga.
— Pó de Diamante!
Hyoga adiantou-se e, gritando, fez seu Cosmo convergir em seu punho toda aquela névoa branca que pairava no ar, disparando feito uma rajada na direção de seu Mestre. Camus saltou de maneira ágil e surgiu atrás da Armadura de Ouro de Aquário sem ser atingido. Hyoga virou-se na sua direção, ainda em guarda. A Armadura de Ouro entre os dois.

— Vamos, impostor, diga-me quem é você!?
Camus não respondeu nada e Hyoga tinha a mais absoluta certeza de que era ele. Seu coração estava acelerado.
— Eu imaginei que fosse reagir assim, Hyoga. Eu não lhe culpo, mas também não temos muito tempo.
— Trovão Aurora! — anunciou Hyoga, evocando um turbilhão de gelo que, novamente, não pareceu fazer qualquer diferença para Camus.
Ele continuava atrás da Urna dourada da Armadura de Aquário. Hyoga estava estupefato e esbaforido, pois encontrava-se com o peito rasgado de emoção e a mente arrasada de confusão e medo. Medo de ser enganado novamente.
Hyoga queimou seu Cosmo novamente e deixou surgir de seu dedo indicador anéis de gelo que finalmente prenderam Camus para evitar que ele se movesse; claramente o Mestre de Hyoga havia se deixado prender de propósito e o garoto, em silêncio, rodeou seu corpo, observando cada detalhe do que enxergava. Hyoga chegou a estender a mão de forma hesitante para tocar o corpo de seu Mestre, como se ele pudesse ser uma espécie de miragem, mas Camus olhou de forma tão penetrante para ele que logo Hyoga recolheu o braço. E aquele olhar era inconfundível. Era impossível ele estar vivo, mas ao mesmo tempo ele estava ali.
— Sou eu, Hyoga. — falou com tranquilidade.
— Isso é impossível! Meu Mestre Camus… meu mestre morreu na minha frente. Eu vi com meus próprios olhos!
— Nem tudo é o que parece ser no Santuário, Hyoga. Você sabe bem disso.
Hyoga continuava hesitante, mas a sensação que experimentava era terrivelmente familiar. Ele balançou a cabeça, ainda muito incomodado.
— Não, eu não vou ser enganado. Meu Mestre Camus morreu. Você não pode ser ele!
— Eu lamento ter escondido isso de você, Hyoga, mas ninguém poderia saber. Nem mesmo você.
— Não, não, não é possível!
— A tumba em que você prestava seus sentimentos todos aqueles dias esteve sempre vazia.
Hyoga olhou desesperado para Camus, pois era como se houvesse sido descoberto.
— Você sabia? — perguntou o garoto. — Eu não posso acreditar nisso.
— Pois essa é a verdade.
Dentro de Hyoga queimava uma dor enorme de ter sido enganado por seu próprio Mestre, que o deixou acreditar por todo aquele tempo que ele havia sido o causador de sua morte. A culpa que lhe comeu por todo esse tempo, culminando nos erros todos cometidos em Asgard pelos quais ele se responsabilizava. Inclusive pelo sacrifício de Saori. Mas não foi capaz de colocar para fora aquela dor, pois compreendeu no seu silêncio desesperador de que era tolo demais cobrar de seu Mestre a responsabilidade por aquela dor em seu coração. Quando sabia muito bem que seu Mestre jamais o perdoaria por colocar-se tão fraco quanto se sentia.
— Assim é melhor. — voltou a falar Camus ao notar que Hyoga, pelo menos, parecia represar as palavras desesperadas dentro de si.
— Ainda não me convenceu! — falou Hyoga com dureza. — Os Cavaleiros de Ouro que caíram nas Doze Casas foram todos enterrados e velados por dias. Está me dizendo que enganou a todos os demais Cavaleiros de Ouro? Ao Santuário inteiro? Eu não posso acreditar nisso.
— Um dia vai compreender exatamente tudo que se passou, Hyoga, mas como eu lhe disse antes, não temos tempo para isso agora.
Hyoga então escutou ao longe um grito lancinante e o choque de Cosmos no horizonte. Ele se afastou por alguns metros e Camus lhe falou às costas.
— Os Cavaleiros de Bronze estão lutando para resgatar a Deusa Atena.
— O quê? O que está acontecendo neste lugar? Como isso é possível? Não faz tanto tempo assim que os deixei em Asgard.
— A Bifrost é uma travessia traiçoeira.
— Traiçoeira? — refletiu Hyoga, adivinhando que o tempo pudesse ter passado de forma diferente.
— Escute-me, Hyoga. Este é o Reino de Poseidon. A Deusa Atena sacrificou sua vida pela Terra e agora os Cavaleiros de Bronze estão lutando para lhe dar uma nova chance.
Hyoga voltou a encarar seu mestre, surpreso de que ele soubesse de tudo.
— E é por isso que fingi me sacrificar, Hyoga. Eu precisava me infiltrar no Reino de Poseidon para descobrir os seus segredos para ajudar o Santuário. — disse, apontando para o enorme pilar às costas de Hyoga. — Este é o Pilar do Oceano Ártico. Ele sustenta o próprio mar acima de nossas cabeças. A Deusa Atena foi presa naquele que é o maior de todos, o Pilar Fundamental, que dá sustento para esse Reino Todo. E toda a chuva que o Deus dos Mares faria cair sobre a Terra para limpar os homens da superfície, ele fez com que se derramasse sobre o corpo de Atena dentro daquele pilar. E ele só pode ser derrubado se todos os outros Sete Pilares dos Mares forem destruídos.
— Atena. — lamentou Hyoga, imaginando seu sofrimento. — Isso significa que Seiya e os outros estão lutando contra os Marinas.
— Os Generais Marinas. — corrigiu Camus, com seriedade. — Os maiores guardiões de Poseidon, cujo poder se equipara ao dos Cavaleiros de Ouro.
— Então tudo que precisamos fazer é derrubar esses pilares e salvar Atena. — concluiu Hyoga ao perceber no horizonte que haviam menos de seis pilares.
— Espere, Hyoga. — pediu Camus ao perceber que o garoto já se armava de seu Cosmo para atentar contra aquele enorme pilar. — Não fará nada contra este pilar usando seu punho. Como pode ter percebido, os Cavaleiros de Bronze já conseguiram derrubar ao menos três pilares. Mas fizeram isso com a ajuda da Armadura de Ouro.
— A Armadura de Ouro? — perguntou Hyoga, olhando agora para a urna de Aquário entre os dois.
— Exatamente.
Hyoga olhou da Armadura de Aquário para o pilar e de volta para Camus.
— Sabe como eu sei que você não é meu Mestre? — falou Hyoga, finalmente apontando para os anéis de gelo que ainda circundavam Camus. — Meu Mestre Camus era poderoso e jamais seria parado por algo tão simples.
Camus fechou os olhos.
— Tem razão, Hyoga. Isso não deveria significar nada para mim. Mas para conseguir chegar até aqui e descobrir tudo que sei agora, eu tive de sacrificar o meu próprio Cosmo.
— Seu Cosmo? — assustou-se o garoto.
— Exatamente.
Foi nesse momento que as Cartas do Norte e a figura de Alberich surgiram na sua memória: "A pedra funcionou".
— Alberich foi quem lhe ajudou a chegar aqui, não foi?
Camus apenas assentiu e então lamentou.
— Eu lamento que Alberich tenha finalmente sucumbido à sua voraz fome de poder.
— Ele usou essas cartas todas para me usar! — bradou Hyoga, sem saber se acusava seu Mestre de qualquer coisa. — Atena não precisaria se sacrificar se não fosse por aquela trama vil!
— Está no destino de Atena se sacrificar, Hyoga. As linhas da vida de Atena fatalmente a levariam para cá. De um jeito ou de outro.
Hyoga assombrou-se por um instante com aquela constatação tão determinista de seu Mestre. Seu peito ainda estava acelerado e ele precisou fechar os olhos para se concentrar. A voz de Camus acordou-o para a urgência da situação.
— Não temos muito tempo, Hyoga. Atena não vai resistir muito mais dentro daquele pilar.
O garoto fechou os olhos e, com seu cosmo, rompeu o Círculo de Gelo que mantinha Camus preso. O homem aproximou-se de forma cautelosa até seu discípulo, que ainda parecia sofrer por suas milhares de dúvidas, e percebeu que Hyoga tinha os olhos marejados. Seu discípulo chorava, mas tentava conter as lágrimas dentro de si; deu as costas a ele e caminhou alguns passos em direção do Pilar, como se tentasse evitar que seu Mestre o visse chorar.
— Mestre. — gaguejou ele, procurando por palavras suficientes para aquele momento.
— Hyoga, você é um Cavaleiro. Terá de ser forte. A Deusa Atena não tem muito tempo de vida. — falou Camus, interrompendo a tristeza do discípulo.
— O que eu preciso fazer? — perguntou o garoto, tentando se recompor.
— Use a Armadura de Aquário e derrube o Pilar. — ordenou Camus.
Hyoga olhou de volta para Camus, confuso, mas deixou suas dúvidas dentro do peito. Ele engoliu em seco e então aproximou-se de seu antigo mestre, que deu alguns passos para o lado para que Hyoga pudesse se aproximar da Urna de Ouro e tomar o que era seu por herança. O garoto olhou de maneira esperançosa para aquele brilho dourado maravilhoso que a Urna da Armadura de Aquário parecia emanar por si própria. Capaz de curar suas dúvidas e encher seu peito de coragem para corrigir um erro que lhe latejava o coração há dias. A voz de Camus às suas costas lhe ergueu o espírito novamente.
— Tome a Armadura de Aquário, Hyoga. Você é o meu legítimo sucessor. Você é o Cavaleiro de Aquário.
Hyoga olhou de volta para seu mestre e seus olhos estavam marejados. Ele colocou sua mão em cima da Urna e sentiu que seu Cosmo ressoava com ela de maneira maravilhosa, pulsante, devolvendo a ele a vida que ele achou que havia perdido em Asgard. Sentiu a mão de Camus sobre seus ombros e olhou para trás em choque, pois encontrou no rosto de seu mestre o menor sorriso do mundo. Mas ainda assim um sorriso.
— Essa será a última vez que nos veremos, Hyoga. — disse ele muito seriamente para seu discípulo. — Portanto, dessa vez eu gostaria de poder me despedir de você. Da maneira que você merece.
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Shun de Andrômeda corria pelas ruas sinuosas do Reino de Poseidon com os olhos fixos nos pilares do horizonte; ainda faltavam cair quatro deles para terem uma chance de salvar Saori no Pilar Fundamental. O céu oceânico daquele Reino lhe causava enorme estranheza, pois movia-se lentamente no alto, enquanto os Pilares pareciam confundir-se no horizonte. Aos poucos a temperatura passou a cair drasticamente enquanto ele corria e suas correntes passaram a mover-se nos seus braços, adivinhando a presença de alguma ameaça próxima.
Achou estranho, mas voltou a correr; a Armadura de Libra estava nas suas costas e ele havia se comprometido a derrubar todos os Pilares dali em diante para que os demais pudessem salvar Saori o quanto antes. Estava confiante, mas desconfiado daquele lugar desconhecido, pois afinal de contas haviam decidido invadir o Reino de um Antigo Deus sem exatamente saber a extensão de seu poder. O caminho à sua frente fez uma curva à esquerda por um monte formado de corais e então a rua desceu vertiginosa entre dois paredões ornamentados para se abrir em um pátio onde um maravilhoso Pilar se revelou.
Shun surpreendeu-se, pois não havia se dado conta da proximidade daquele colossal pilar que surgiu de repente. O local estava frio, muito mais frio do que ele imaginaria que poderia estar. Ele logo tirou a Urna de Ouro das costas para se aprontar e derrubar aquele pilar, quando percebeu que haviam dois corpos estirados diante dele. Logo os reconheceu: eram Hyoga e Seiya.
Seiya usava sua Armadura de Pégaso no corpo, mas tinha um ferimento terrível na parte lateral do estômago, desprotegida pelo metal, de onde escorria seu sangue manchando o pátio branco. Ao seu lado, Hyoga não usava sua Armadura de Cisne e vestia-se com as mesmas roupas de algumas horas atrás, quando estavam dentro do casebre da Princesa Freia. Seu pescoço estava ferido e manchando de sangue seus cabelos claros.
Shun chamava por seus nomes em desespero, enquanto tirava uma tira grande de pano de sua própria túnica para tentar conter o sangue em seu torso, pois era quem parecia ter acabado de ser atingido.
— Mas o que será que aconteceu aqui? — perguntou-se o garoto, desesperado com o estado de ambos. — Não há qualquer sinal de batalha nesse lugar. Eles parecem ter sido derrotados por um único golpe. Nada disso faz sentido.
Passou de Seiya ao pescoço de Hyoga, mas a Corrente de Andrômeda moveu-se sozinha nos braços de Shun, fazendo com que ele se mantivesse alerta. Finalizou o curativo com cuidado, já com a sensação de que havia alguém às suas costas, provavelmente o General causador daqueles ferimentos profundos. O garoto engoliu em seco e levantou-se rapidamente já em guarda para o vulto que sabia estar atrás dele. Era sua irmã usando a Armadura de Fênix no corpo.
— Ikki?
— Me desculpe pela demora, Shun. Vejo que sua Corrente continua te protegendo, como sempre.
Shun olhou para as correntes e elas pareceram se tranquilizar.
— Ah, Ikki. Que bom te ver aqui. Isso significa que finalmente encontraram a Ponte Bifrost.
— Hyoga a encontrou antes do que eu. — falou ela, apontando para o garoto. — Inferno, se eu tivesse chegado antes.
— Eles foram atacados de surpresa, ao que parece. — falou o garoto, ajoelhando-se ao lado de Seiya.
Ikki o ajudou a segurar o garoto para completar o curativo ao redor do torso, mas assim que Shun finalizou o nó para fazer o sangue parar de Seiya, percebeu que seus braços foram puxados com força pela Corrente, que parecia ter ganhado vida própria e, esticada, parou no ar um soco poderoso de Ikki, que tinha sua cabeça como alvo.
— O que foi isso, Ikki?
— Essas Correntes são mesmo impressionantes, Shun. — falou ela entre os dentes.
— O que está acontecendo?
Ikki tentou novamente acertá-lo, mas Shun com habilidade usou suas Correntes para segurar o punho de sua irmã e a jogar para o lado, o impedindo de ser atingido. As Correntes de Andrômeda estavam tensas e Shun refletiu se sua irmã não estava possuída por qualquer loucura que a fazia agir daquela maneira.
— Vamos, Ikki, me fale o que está acontecendo!
A voz da Cavaleira de Fênix, no entanto, mudou daquele tom que ele tão conhecia bem para ganhar contornos guturais e sibilantes, como se sua garganta tivesse sido golpeada com muita força. Ela deixou escapar uma risada entrecortada por muito catarro, até que sua forma pareceu se derreter aos poucos para revelar uma figura fantasmagórica. Uma silhueta coxa, em que um ombro parecia mais alto, o braço direito comprido ao largo do corpo enquanto uma perna parecia maior que a outra. A pele pálida e os dentes espaçados, feito os de um peixe abissal.
Seu corpo torto era todo protegido por uma Escama acobreada e dourada que oscilava tons alaranjados, exatamente como aquela que Io de Cíla usava. Ele não tinha dúvidas.
— Um Marina.
— Eu sou Limnádis, a General Marina das Águas do Sul.
— Limnádis!? — refletiu Shun, tentando buscar aquela referência. — Uma ninfa das águas capaz de se disfarçar em outros seres para atrair suas presas, não é isso?
Aquela figura diante de Shun era uma mulher horrorosa, que escondia um de seus olhos atrás da curvatura de seu elmo espinhoso e tinha um sorriso terrível em um rosto afilado como o de uma bruxa.
— Uma metamorfa. — concluiu Shun, horrorizado. — Tentou me enganar usando minha irmã como disfarce.
Seus olhos espremeram-se, enquanto Limnádis deixou escapar uma risada rouca, pois sabia que o garoto aos poucos compreendia tudo que havia acontecido.
— Eu não posso acreditar que tenha feito isso. Foi isso que aconteceu com eles, não foi? Meus amigos viram neste lugar alguém que era muito importante para eles e você os atacou covardemente.
— Um mestre e uma irmã. — falou Limnádis com deboche.
— Maldito! — revoltou-se Shun pela primeira vez. — Usou a imagem do Mestre de Hyoga para deixá-lo vulnerável. Será que você faz alguma ideia do quanto ele era importante para ele? O quanto Hyoga sofreu por conta de sua morte?
— Mas é claro que eu sei. — respondeu ela, sorrindo.
— Inferno! — tentou Shun jogar sua Corrente na direção de Limnádis, mas ela saltou com habilidade para escapar. — Camus era uma pessoa muito importante para Hyoga e Seiya… por Atena, você usou a memória mais querida de Seiya para atacá-lo. Eu não posso nem acreditar nisso.
Limnádis ria como se aquela revolta de Shun a alimentasse.
— Monstro insensível. Você não é uma General ou sequer uma mulher. Você é um monstro. Magoou os sentimentos mais profundos dos meus amigos. Eu não posso permitir que continue magoando as pessoas dessa forma. Vou lutar com você e vou te vencer! — jogou suas Correntes na direção da General. — Corrente de Andrômeda!
Mas aquela General Marina parecia se locomover feito raios de luz, de modo que não importava para onde aquelas Correntes se jogassem, ela escapava. Shun estava revoltado, seus ataques não eram precisos e ela era rápida demais, até mesmo para suas Correntes. Gargalhando feito um duende, aquela figura torta finalmente pareceu desaparecer atrás de um lampejo de luz; Shun olhou para todos os lados procurando a dona daquela risada, bem como a silhueta de seu corpo laranja.
— Não adianta se esconder. Minha Corrente vai encontrá-la não importa aonde esteja. Nem que se esconda em outra dimensão. Onda Relâmpago!
Suas Correntes quebraram no ar e finalmente envolveram algo em sólido que teve seu manto de invisibilidade removido, deixando surgir novamente sua silhueta terrível. A risada jocosa havia morrido, pois ela estava genuinamente surpresa de ter sido pega.
— Eu não queria lutar com mais nenhum General Marina, mas o que você fez com meus amigos é imperdoável.
— Não vai conseguir me vencer. — falou a figura, recuperando um pouco de seu deboche diante daquele momento. — Não poderá fazer nada, pois você é uma pessoa muito sentimental. Muito mais que seus amigos, eu posso sentir isso. Não é cruel o bastante com seus inimigos. Você jamais seria capaz de atacar uma pessoa que tanto ama.
Envolvida pelas Correntes de Andrômeda, Limnádis transformou-se em um piscar de olhos do garoto na Cavaleira de Fênix, Ikki, sua amada irmã. Seus olhos penetrantes estavam diante do garoto. E ainda que ele soubesse da ilusão, ainda que aquela feiticeira houvesse anunciado o truque à sua frente, mesmo assim para ele era difícil.
— É como se ela estivesse mesmo aqui. — refletiu o garoto, impressionado.
— Eu estou aqui, irmão.
— Eu sei que é uma ilusão. Não vou te deixar me enganar. Eu vou te derrotar assim mesmo!
— Por favor, não faça isso, irmão. — pediu Ikki, com a voz dolorosa. — Eu te amo.
O coração de Shun congelou; ele não parecia capaz de controlar seus sentimentos, e embora não fosse lógico tudo que lhe acontecia, aquele feitiço terrível de Limnádis parecia capaz de enganar não somente sua visão, bem como todos os demais sentidos. Fechou os olhos e a impressão de que estava prestes a matar a sua irmã não foi embora; pensou em Hyoga e em Seiya, que tiveram de experimentar aquela sensação reconfortante de estar próximo à alguém a quem amavam demais.
— Lembre-se de nossa infância, irmão. Por favor, não me mate.
Mas Shun queimou profundamente seu Cosmo e sentiu que precisava fazer algo por seus amigos, não podia deixar alguém como ela seguir enganando mais pessoas. Quantas outras vítimas ela faria? Era preciso atingir seu Cosmo de maneira decisiva, mas tudo que podia fazer era usar a ponta triangular de sua Corrente para feri-la de alguma maneira que a impedisse de fazer aquilo para sempre.
— Onda Relâmpago! — gritou Shun, decidido a vencê-la de forma determinante.
— Não, Shun, por favor, não!
Shun chorou e a Corrente estalou com violência no ar, mas parou a centímetros do peito de Ikki à sua frente. A mão direita de Shun vertia sangue, de tanta força que ele precisou fazer para conter seu golpe.
— Eu não consigo. — lamentou ele, com lágrimas na voz. — Não consigo atacar minha irmã.
— Salamandra Satânica. — balbuciou Ikki e seus olhos esbranquiçaram, enquanto seu corpo se metamorfoseou para uma luz branca que emitiu um choque absolutamente terrível e poderoso que percorreu toda a corrente que a prendia até o corpo de Shun.
A eletricidade paralisou o garoto e o levou ao chão com espasmos de dor. Limnádis caminhou até seu corpo trêmulo, confiante de que havia vencido o Cavaleiro de Andrômeda.
— Venci os três Cavaleiros de Bronze. A General de Crisaor deu cabo de outra, enquanto aquela menina sem Armadura não terá qualquer chance. Está tudo acabado. Essas crianças não poderiam jamais ter algum sucesso nesse lugar.
No entanto, uma sensação aterrorizante de pavor atravessou a General. Ela olhou para todos os lados debaixo daquele Pilar esbranquiçado pelo frio do Ártico. Não viu ninguém, mas continuou com aquela sensação nefasta. Um Cosmo como nunca havia sentido.
Sua atenção foi tomada por Shun, que ainda tentava retomar o controle de seu corpo de alguma forma.
— Ainda está lutando. Vou dar cabo de sua vida, para que se junte aos seus amigos no inferno. Farei usando a memória de sua irmã.
Ela sorriu e transformou-se novamente em Ikki para dar o último golpe em Shun; foi quando um sopro quente a atingiu, jogando-a para longe dali. Ao se levantar, procurou quem estava escondido e percebeu aos pés do pilar formar-se uma fogueira poderosa de onde emanava uma Cosmo-energia impressionante. A mesma que havia sentido antes.
— Tire esse disfarce, que você não é digna de usar o meu rosto, maldita.
— Quem é você? Vamos, me responda!
A figura que surgiu no meio do fogo caminhou com imponência descendo as escadarias do pilar, enquanto se apresentava com sua voz grave e seu corpo envolto de fogo.
— Eu não tenho nenhuma obrigação de lhe dizer o meu nome, mas se eu não disser, você irá para o inferno sem saber quem destruiu a sua vida desprezível. E isso não seria justo. Eis o meu nome e eu espero que nunca se esqueça dele enquanto estiver sendo torturada no fogo do inferno. Eu sou Ikki de Fênix!
Ao final do discurso, ela estava diante da General Marina e Limnádis estava boquiaberta com aquela milagrosa aparição.
— Fênix. — refletiu Limnádis ao ver aquela figura misteriosa.
— A única. — completou Ikki com os olhos chamuscantes. — E você é uma miserável que se esconde atrás de disfarces para acabar com seus inimigos covardemente.
Disse ela apontando de maneira acusatória para Limnádis; de seu dedo indicador, um tiro de fogo atravessou a mente da General Marina e a fez dar alguns passos para trás. Ikki percebeu que ela tornou-se esbaforida por um instante e então caminhou na direção da Cavaleira de Fênix absolutamente possessa.
— Não! — berrava ela. — Eu sou eu!
E tirou o elmo que cobria seu rosto deformado, os cabelos ralos na cabeça exposta. Seu corpo se transformava sem que ela tivesse algum controle, ao que parecia. Ora surgia uma garota linda usando um vestido delicado para retornar à sua forma coxa e desesperada, para então derreter-se em uma criança de olhos penetrantes e rosácea nas bochechas.
— Não sou isso! Nunca serei. Nunca serei! — gritava a criancinha.
Como um casulo que se quebra, outra vez Limnádis surgiu daquela criança, como se ela fosse feita de argila e mudasse quando quisesse. Seu Cosmo oceânico surgiu ao redor de seu corpo e Ikki percebeu que talvez precisasse se proteger, pois parecia claro que aquela mulher a enxergava como alguém diferente, talvez alguém de seu passado traumático, experimentando de sua própria técnica. Quem poderia ser aquela figura que mexia tanto com aquele coração deformado?
— Não posso. — balbuciou Limnádis, indo ao chão como se delirasse falando consigo mesma. — Não posso matar a mim mesma. Não posso matar aquilo que eu gostaria de ser. O que eles queriam que eu fosse. A Pequena Cassandra. Minha pequena… Cassandra.
Quando abriu os olhos, outra vez viu a Cavaleira de Fênix.
— O que foi isso? — perguntou ela, sibilante, buscando o ar.
— Um pouco do seu próprio veneno.
— Não vou te perdoar!
— Ótimo, pois eu também não irei!
Ikki saltou no ar abrindo suas penas de Fênix e caiu com violência no peito de Limnádis, atingindo-a com uma voadora poderosa.
— Isso é por ter mexido com o coração do Hyoga!
Levantou Limnádis pelo pescoço e socou o estômago da Marina com fúria, jogando-a contra o pátio.
— E isso é por ter tocado no que era mais sagrado para Seiya.
A General Marina mal conseguia respirar, quando percebeu que a figura imponente da Cavaleira de Fênix novamente caminhava em sua direção.
— E isso é por meu irmão. Você ousou se aproveitar de seu coração puro e vai pagar por isso!
Ikki estava furiosa e ao levantar Limnádis pelo braço, a jogou no ar e manifestou um turbilhão de fogo que engoliu a General Marina, arremessando-a contra uma pedra rígida ao final do pátio que partiu-se no meio. As lascas da Escama daquela General Marina se espalharam pelo pátio, pois ela havia sido completamente dizimada pela Cavaleira de Fênix.
— Maldita. — falou Ikki entre os dentes.
Do outro lado do pátio, a Cavaleira de Fênix enxergou seu irmão se movendo no chão, ainda atacado por espasmos terríveis. Ela correu até ele e o ajudou da melhor maneira que podia a se sentar; olhou para o lado e viu os corpos desacordados de Hyoga e Seiya. Percebeu que tanto um como o outro tinham tecidos embebidos em sangue em suas feridas, que ela logo reconheceu como duas metades da túnica clara que Shun usava e que agora não tinha mais. Seu peito estava nu, com parte da sua Armadura espalhada no chão.
— Ikki. — balbuciou Shun, alertando ela de algo às suas costas.
Fênix ouviu os passos trôpegos da General Marina e lhe falou sem olhar para ela.
— Ainda não se deu por vencida, Cassandra?
— Irmã?
A voz chamou a atenção de Ikki, que olhou na direção daquela figura deformada, para encontrar o rosto doce de seu irmão Shun. Era ele. Era ele ali nos seus braços, como também era ele ali adiante, com os olhos marejados.
— Você se lembra de nossa infância, minha irmã? Das dificuldades.
Ikki ficou calada.
— Perdoe-me, minha irmã. Talvez o nosso destino seja mesmo o de morrermos juntos. Me desculpe.
Shun então arremessou sua Corrente da maneira mais displicente possível, mas Ikki sentiu seu rosto ser ferido por algo cortante no ar. O sangue escorreu de seu rosto e ela limpou com sua mão.
— Agora eu entendo. Além de assumir a fisionomia da pessoa que a gente ama, você também reproduz o interior dela. Por isso, Seiya, Hyoga e até mesmo o meu irmão caíram tão facilmente em seu disfarce. Você é capaz de enganar não somente a nossa visão, mas todos os demais sentidos. A sensação de que eu estou diante de meu irmão. Seu cheiro, sua voz, o modo como ele caminha. Tudo isso nos dá a mais verdadeira impressão de que estamos diante de quem amamos. E isso nos traz de volta sentimentos dentro de nossos corações que são alegres e tranquilos, deixando-nos completamente vulneráveis. Para nós que conhecemos apenas as lutas e a guerra, esses poucos momentos de nossas vidas são muito valiosos. Eu realmente não posso imaginar a felicidade e a dor que Seiya e Hyoga devem ter sentido para se deixarem ser atacados dessa forma. É realmente um truque impressionante e terrivelmente covarde.
— Não há como rejeitar as pessoas que amamos. — falou o Shun que estava de pé e sua voz doce continuou falando, embora seu rosto parecesse sofrer. — Agora vá para o inferno pelas mãos de seu próprio irmão amado.
Shun correu na direção de Ikki, mas uma rajada de fogo atravessou seu corpo e o Cavaleiro de Andrômeda parou no punho erguido da Cavaleira de Fênix em seu peito esquerdo. Shun deixou escapar um grito de dor, mas sua figura derreteu-se para dar lugar à figura deformada de Limnádis, com apenas metade de sua Escama no corpo.
— Você… atingiu o coração de seu próprio irmão. Matou quem mais amava. Você… é uma pessoa sem qualquer alma. Desgraçada pela vida.
— Verme. O meu verdadeiro irmão jaz ferido aos meus pés. Foi muito ingênuo da sua parte acreditar que eu seria enganada por esse truque tão facilmente.
— Ainda assim. Era seu irmão. Eu sei que viu, que ouviu, que sentiu golpear seu próprio irmão. Ninguém nunca rejeitou nenhum de meus disfarces. Mesmo que soubessem se tratar de uma ilusão. Você não apenas rejeitou seu irmão, mas também foi capaz de matá-lo a sangue frio. É a primeira vez que eu vejo isso acontecer.
— E a última. Você não enganará mais ninguém.
— Não hesitou nem por um instante. Será possível que você não tem coração?
Ikki permaneceu calada, pois não era a primeira vez que alguém a acusava daquele crime. Limnádis finalmente caiu vencida aos pés de Ikki.
— Como pode falar de coração e de sentimentos, quando suas entranhas estão apodrecidas de veneno?
— Miserável. — balbuciou ela, ainda viva.
— Mas você também não está errada. Eu sou uma mulher que abandonou a bondade e a sensibilidade do coração há muito tempo. Há muito tempo. — refletiu Ikki sobre seu passado dolorido.
E ao notar aquele momento, a General Marina percebeu uma oscilação no Cosmo de Fogo da Cavaleira de Fênix que chamou sua atenção. Sozinha, ela balbuciou em sua língua sibilante, falando com seus próprios demônios enquanto Ikki atendia às dores de seu irmão.
— Ela também vive. É humana como todos. Tem de ter algo escondido. Não posso morrer sem saber. Deve existir alguma memória, alguma lembrança, um pensamento que ela guarde escondido no mais profundo de sua mente.
A Cavaleira de Fênix ajudava Shun com seus espasmos, tranquilizando suas dores, quando escutou Limnádis se levantar uma última vez. Não somente isso. O coração de Ikki paralisou e sua visão nublou-se por um instante com uma impressão terrivelmente familiar às suas costas. Ela não teve coragem de se virar e, para sua sorte, ouviu novamente Limnádis cair de volta ao chão, completamente sem forças. Ikki soltou o ar que prendia há alguns segundos e percebeu uma lágrima escorrer por seu rosto, que ela rapidamente limpou.
— Que prazer enorme ter descoberto o que há em seu coração, Fênix. Essa fraqueza escondida. — falou Limnádis, olhando para o céu-de-mar. — Fui imprudente. Eu deveria ter confiado em meu próprio coração, como fiz com o Cavaleiro de Pégaso, mas decidi acreditar que você amava seu irmão tanto quanto ele te amava. E esse foi um erro fatal.
Ikki sentiu como se um punho de gelo houvesse apertado suas entranhas. Era culpa. Mas a verdade era que se Limnádis houvesse usado a memória de Esmeralda escondida em seu coração, ela talvez não fosse mesmo capaz de se defender. E também poderia estar ali esparramada no chão como seus amigos. Shun era um guerreiro. Esmeralda era uma flor.
— Você fala que abandonou a bondade e a sensibilidade, mas isso não é verdade. — falou Limnádis, regozijando-se dos sentimentos que agora afloravam no peito de Ikki e que ela podia sentir como se fosse uma fonte de água cristalina para ela. — Você não sabe nada sobre o que é ter de viver sem nenhum sentimento. Sem qualquer bondade.
— Tem razão, Limnádis. — confessou Ikki sem olhar. — Talvez eu ainda seja fraca. Ainda tenha dentro de mim algum sentimento. Graças ao meu irmão e meus amigos. Graças a uma garota teimosa que escolheu dar a vida por toda a humanidade. Eles me ensinaram o que é amar. E Esmeralda não é uma fraqueza escondida em meu coração. É o que mais me deu forças quando estive no Inferno.
— Você fala de amor, Fênix? — balbuciou a General em seu último suspiro. — Eu também sei o que é amor. Eu também vivo do amor. Vivo do amor que está no coração dos outros.
E sua risada rouca foi aos poucos morrendo conforme a vida abandonava seu corpo rejeitado. Ikki finalmente teve coragem de olhar para trás e viu no chão o corpo imóvel de Limnádis, com o peito amedrontado de ter visto o vestido de flores da sua querida Esmeralda.
Ikki havia vencido. Shun finalmente parecia estabilizar seus espasmos. Por um momento, atravessou o coração do garoto que sua irmã jamais poderia ser enganada por aquelas ilusões, mas ao encontrar os olhos de Ikki, percebeu que havia ali dentro uma dor muito maior do que sua postura furiosa deixava transparecer. Ela sofreu tanto quanto eles. Muito mais ainda pois, ao contrário de todos eles, ela foi capaz de desferir um golpe mortal em quem amava.
— Levante-se daí, Shun. — ordenou ela, com sua voz característica, escondendo toda a culpa e a dor que queimavam suas entranhas.
O garoto obedeceu, pois sabia que ela não aceitaria jamais ser consolada. Não naquela situação em que estavam.
— Fico feliz que esteja aqui, Ikki.
— Hyoga encontrou o Caminho da Bifrost primeiro. — justificou ela o corpo estendido do garoto no chão. — O que está acontecendo neste lugar, afinal de contas?
Shun contou toda a missão que os Cavaleiros tinham adiante para poderem salvar Atena enquanto recolocava sua Armadura de Andrômeda. Ikki abriu a Urna de Libra e com o Tridente de Ouro avançou contra o Pilar do Oceano Ártico, derrubando-o no horizonte, fazendo descer com ainda mais força o oceano gélido do Norte, aumentando a intensidade do pó de diamante que se espalhava por aquele pátio. O tridente retornou à balança de ouro e a Urna se fechou outra vez.
O Cavaleiro de Andrômeda já havia recolocado sua Armadura quando notou que Ikki se aproximou com algo em mãos para lhe entregar: um pingente de prata, que ele imediatamente reconheceu e se surpreendeu.
— O pingente de nossos pais.
— Sim. Aquela menina-loba quis que eu lhe devolvesse quando te reencontrasse. — disse ela, colocando-o ao redor do pescoço do irmão.
— Fenrir. — lembrou-se Shun com um breve sorriso no rosto, escondendo o pingente dentro da Armadura.
Aquilo significava que seu abraço realmente havia mudado uma parte daquela garota selvagem. Era reconfortante saber que ele fora capaz de fazer isso sem precisar lutar. Respirou fundo e dirigiu-se à Urna de Ouro da Armadura de Libra, quando percebeu que Hyoga aos poucos parecia despertar.
— Deixe ele aí, Shun. — ordenou Ikki com a voz grave, e seu irmão olhou para trás um pouco consternado.
— Mas Ikki…
— Deixe que ele se levante sozinho.
Shun apenas olhou enquanto Hyoga aos poucos parecia recobrar a consciência.
— Nós precisamos de todos. Ainda temos três Pilares para derrubar. A Mii deve estar lutando nesse momento. Não podemos perder tempo.
— Se eles quiserem se redimir como Cavaleiros de Atena... Se eles são mesmo Cavaleiros de Atena, vão precisar se levantar daí sozinhos e então derrubar os Pilares.
— Ikki! Não fale assim.
— Vamos, Shun. Eu e você iremos direto até onde Poseidon está. E juntos vamos obrigá-lo a salvar Saori. E para isso você irá lutar com todas as suas forças. — disse ela com veemência. — Todas as suas forças, Shun.
Shun olhou para a irmã e refletiu sobre aquela enorme confiança que ela tinha em seu Cosmo.
— Ikki tem razão. — falou finalmente Hyoga, com a voz embargada. — Vão até Atena, que eu e Seiya cuidaremos do resto dos Pilares.
— Já está sabendo, Hyoga?
— Sim, mas antes de partirem, escutem o que eu tenho pra dizer. — alertou o garoto com dificuldades. — Esta Marina que nos enganou sabia coisas demais sobre o Santuário e os Cavaleiros de Bronze.
— Ela era capaz de descobrir as pessoas mais queridas para nós.
— Não duvido disso, Shun, mas havia algo mais. Ela sabia muito mais. Muito mais do que deveria.
— O que quer dizer com isso? — perguntou Ikki.
— Eu suspeito que ela ou alguém neste lugar conheça o Santuário como poucos. Talvez até mais do que todos nós.
— O Santuário? — refletiu Shun.
— Lembrem-se disso. E tomem cuidado. — finalizou o garoto.
Shun e Ikki assentiram e partiram correndo dali, desejando sorte ao Cavaleiro de Cisne que, com muita dificuldade, colocou-se novamente de pé e viu outra vez a Urna da Armadura de Ouro brilhando no centro daquele pátio. Exatamente como da primeira vez que havia aparecido ali. Mais perto, no entanto, percebeu que se tratava da Armadura de Libra, não a de Aquário.
Talvez tenha sido outro truque.
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