Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda de Seiya
123 A Queda dos Pilares
Um tufão de água sobe aos céus oceânicos carregando o corpo de Seiya, atingido pelo General do Atlântico Norte, para a superfície da Terra. Shun para um instante, observando aquele espetáculo no horizonte enquanto pensa no amigo que já sofre novamente uma batalha naquele Reino. Dali a pouco, o céu-de-mar repartia-se em dois, feito um milagre bíblico, até se fechar outra vez em um espetáculo terrível; era Shiryu, adivinhou Shun, sentindo seu Cosmo ressoar no tilintar do guizo de ouro que trazia no pulso.
— Seiya e Shiryu estão lutando. — refletiu o garoto, sozinho em uma das praças daquela cidadela abandonada. — Tenho certeza que a Mii também está. E eu vou precisar lutar também. Mas dessa vez será diferente.
O garoto estava confiante quando seguiu em frente pela viela até onde um pátio de pedra se estendia no que parecia ser um templo à céu-de-mar aberto, com pilastras menores ao redor de um chão de mosaicos bonitos antes de uma escadaria larga que levava aos pés do enorme Pilar daquele lugar.
Ele não estava sozinho, pois alguém parecia aguardá-lo.

Em uma espécie de balcão acima das escadas havia uma lindíssima mulher de cabelos curtos e rosados observando o garoto abaixo. Ela tinha uma expressão pacífica.
— Você deve ser a General Marina desse Pilar. Meu nome é Shun de Andrômeda.
Ela não respondeu e Shun percebeu que suas duas correntes ao lado do corpo estavam tensas; embora aquela mulher tivesse no rosto uma expressão tranquila e pacífica, as correntes pareciam estar diante de um demônio, tamanha tensão que sentiam e se debatiam nos braços de Shun como um touro enfurecido. Era tanto o senso de proteção da Corrente que a ponta Triangular simplesmente decidiu atacar aquela garota em paz com seu vestido branco acima das escadas.
— Espere, Corrente! Não ataque! — ele segurou a corrente como se fosse um cavalo bravo.
Ela retornou à contra-gosto e um momento de tensão instaurou-se entre ele e a garota, mas antes que Shun pudesse se desculpar, o entorno daquele templo apagou-se em um breu oceânico, como se uma enorme baleia houvesse jogado uma sombra naquele lugar. A única fonte de iluminação eram agora os reflexos de uma luz tênue que repartia-se na água para jogar formas no chão de pedra. E naquele espetáculo de formas, Shun teve certeza de ver como a garota no mezanino saltou, transformando-se em uma besta-fera com os cabelos em chamas para atacá-lo.
Shun reagiu rapidamente, protegendo-se com sua Corrente Circular, gerando uma matriz giratória ao redor de seu corpo para impedir que fosse atingido. E, com sucesso, surgiu vivo do outro lado do ataque quando a luz do templo voltou ao normal, revelando à frente dele quem era a dona daquelas ilusões. Uma garota pouco mais velha do que ele próprio, os cabelos rosados, quentes e cheios, mas também curtos. Um corte moderno em que apenas algumas mechas chegavam à altura do queixo. Uma Escama absolutamente maravilhosa no corpo e um diadema furta-cor emoldurando o bonito rosto.
— Não sei se deveria ter parado seu ataque, garoto.
— Achei que fosse uma ilusão. Mas você realmente me atacou com esse espetáculo de luzes, não é mesmo?
— E no entanto você segue de pé. Eu ouvi dizer que as Correntes de Andrômeda têm o instinto de defesa mais apurado entre todas as Armaduras do Santuário. Ainda assim, elas superaram as minhas expectativas.
— Quem é você?
— Sou a General Marina do Oceano Pacífico Sul e Guardiã desse Pilar do Mar. Sou Io de Cíla.
— Cíla? — perguntou-se procurando na memória onde havia escutado aquele nome.
Pois era o nome de um monstro marinho que diziam assombrar o estreito de Messina, na Itália, durante o período mitológico. Uma mulher transformada em um monstro cujo corpo assemelhava-se ao de uma bela donzela, mas que escondia debaixo de seu vestido seis feras divididas entre lobos e serpentes que sequestravam navegantes desavisados que atravessavam o estreito. Contava-se na história que seis dos marinheiros de Ulisses haviam sido devorados por ela.
— Me parece que já sabe quem sou. Posso ver o medo através de seus olhos. Saia daqui ou acabará como mais uma vítima das bestas de Cíla.
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O som de guizos à distância. Figuras de ouro. A voz de Shunrei. A voz de seu Mestre. A voz de Alice.
Shiryu abriu os olhos e percebeu que Alice estava sobre ela com o rosto preocupado e chamando seu nome; aos poucos ela acordava de seu torpor, procurando se recolocar no Mundo.
— Está me ouvindo? — escutou uma das muitas perguntas de Alice.
Olhou ao redor e finalmente percebeu onde havia caído: aos pés do Pilar do Oceano Índico. Alguns passos adiante dela estava o corpo negro de Celmira no chão. Morta por sua Excalibur. Shiryu aos poucos colocou-se de pé graças à ajuda de Alice, mas ela imediatamente estranhou a garota estar ali.
— Mii, você deveria ter ido para o próximo pilar. Eu consegui vencer a General Marina do Oceano Índico. Não havia necessidade de ter vindo.
— Eu tentei, Shiryu. — falou Alice, com o rosto confuso. — Eu tinha certeza de que estava indo até um Pilar que nenhum de vocês havia ido, mas então acabei aqui nesse lugar.
— Como isso é possível?
— Eu não sei ao certo. Mas senti um Cosmo estranho durante a minha travessia. A luz do mar parecia oscilar e havia uma presença ao redor de mim. Eu tenho certeza de que algo fez com que eu corresse em círculos, para longe de onde eu gostaria de ir.
Shiryu ficou pensativa por um momento e olhou para o corpo de Celmira, tentando imaginar se poderia ter sido ela a responsável por aquilo. Enquanto se recompunha, tanto ela como Alice foram surpreendidas por um brilho ressoando com seus Cosmos às suas costas e mais ao alto, perto do Pilar. Quando se viraram perceberam algo pulsar junto dos guizos que tinham nos punhos.
— O que será que a Saori quer nos falar?
— Não. — corrigiu Shiryu rapidamente, subindo alguns lances da enorme escadaria daquele pilar. — O guizo está ressoando com algo lá em cima.
As duas subiram as escadas e quando chegaram ao pátio do Pilar perceberam que havia uma maravilhosa balança de ouro montada no chão.

— A Armadura de Libra.
As duas estavam maravilhadas com aquela aparição, embora não soubessem o significado; a Armadura ainda estava sobre a base formada por sua própria urna de ouro. Shiryu então lembrou-se, como quem lembra-se de um sonho, das palavras de seu Mestre Ancião quando ela buscava forças em seu Cosmo. O brilho dourado que descia das águas daquele oceano dando forças à ela; afinal não era uma miragem, mas a própria Armadura de Libra.
— O Escudo de Ouro. — lembrou-se ela, finalmente. — Eu achei que minha Armadura houvesse se recuperado graças ao meu Cosmo, mas o Escudo que parou a Espada Khanda de Celmira e me deu a oportunidade de quebrá-la era o Escudo de Libra. Mestre, muito obrigada por esse presente.
— Shiryu, a Armadura de Libra está ressoando com seu Cosmo, eu nunca vi algo assim.
A Cavaleira de Dragão tinha ao redor de seu corpo nu um cosmo ardente e dourado que parecia ressoar na mesma frequência daquela Armadura de Ouro.
— Eu preciso destruir o Pilar. — falou Shiryu, resoluta, talvez compreendendo por um instante o chamado à sua missão.
Ela caminhou alguns passos adiante da Armadura de Libra e distanciou-se de Alice, que viu às suas costas o Cosmo Dourado de Shiryu tocando o Sétimo Sentido. Ela ficou boquiaberta com a força da Cavaleira de Dragão, que fechou os olhos e deixou que sua energia fizesse seus cabelos esvoaçarem pelo ar, revelando a figura do bonito dragão chinês tatuado em suas costas. Era o que acontecia quando seu cosmo estava no ápice.
— Cólera do Dragão!
O espetáculo de águas transformou-se em um Dragão que chocou-se contra o pilar, como as ondas do mar chocavam-se contra cabos rochosos. Mas nada aconteceu. Shiryu ergueu seu cosmo novamente ao máximo, com ainda mais afinco; atrás dela, a Armadura de Libra ressoou junto e apenas Alice observou aquele fenômeno. Shiryu ergueu o braço direito, repartindo o Oceano dos céus em dois e fazendo sua voz ecoar.
— Excalibur.
Nada.
— Mas o que está acontecendo? — perguntou-se Shiryu, muito confusa, ao ver que todo seu poder era incapaz de fazer qualquer arranhão no Pilar. — Vamos, Mii. Talvez nós tenhamos que juntar nossas forças para sermos capazes de derrubar este Pilar.
— Não acho que seja isso, Shiryu.
— Como assim, Mii? Não podemos desistir agora.
— Não falo em desistir. Veja. — falou ela com um sorriso apontando para a balança de ouro às costas de Shiryu. — A Armadura de Libra. Essa não é a primeira vez que ela ressoa com seu Cosmo, Shiryu. Shun me contou o que se passou na Casa de Libra quando lutaram contra os Cavaleiros de Ouro. Como salvou Hyoga do esquife de gelo usando uma das Armas de Libra.
— As Armas de Libra? — Shiryu olhava para a Balança, que representava não somente a Armadura que protegia o Cavaleiro de Libra, bem como as Doze Armas distribuídas nela.
Shiryu acariciou seu braço esquerdo muito machucado, mas que fora protegido por um misterioso Escudo de Ouro no meio da batalha; era o Escudo de Libra que havia escolhido protegê-la, da mesma forma que seu Escudo do Dragão um dia escolheu proteger Seiya em luta contra os Cavaleiros Negros.
Seu Cosmo queimou fortemente sem que ela houvesse comandado e, novamente, a Armadura de Libra ressoou com aquele brilho dourado e o Escudo de Libra, que servia como um dos pratos da balança, desprendeu-se das correntes e voou para vestir o braço esquerdo de Shiryu.
— O Escudo…
— Use ele, Shiryu. Tente. — pediu Alice, afastando-se dela.
Shiryu olhou para o braço protegido por aquele maravilhoso Escudo de Ouro; àquela altura seu corpo estava nu, pois sua Armadura de Bronze havia sido retalhada pela Espada Khanda de Celmira. Ela lembrou-se das palavras da General Marina ao queimar seu Cosmo ao máximo junto daquele presente de seu Mestre. Pensou também em Shunrei, que estava muito distante dali, e da saudade que sentia dela. Em seu Mestre, que estava ao seu lado. Em Atena, que estava presa, e nos amigos, que lutavam debaixo daquele oceano impossível.
Com a mão direita, Shiryu desacoplou o escudo de seu braço e com a mão esquerda ativou as correntes que haviam dentro dele. Feito uma lançadora de disco, arremessou o Escudo de Ouro em um espetáculo de luzes, pois o ar que o Escudo cortava na direção do pilar deixava para trás pequenas estrelas mágicas que piscavam de maneira incrível.
E, ao chocar-se contra o Pilar Índico, um enorme estrondo fez com que o chão daquele pátio tremesse, e então o barulho da pedra se rompendo se espalhasse da base ao topo do pilar, fazendo tremer o próprio céu-de-mar. Em um espetáculo de destruição, finalmente o Pilar cedeu às rachaduras e partiu-se em muitos pedaços, caindo ao redor daquele pátio. Shiryu e Alice protegeram-se de algumas pedras que cederam próximo a elas, mas logo levantaram-se, ilesas, embora Shiryu continuasse muito cansada.
O Escudo de Libra não retornou para sua mão, e quando se reagruparam novamente diante da Armadura de Libra viram que a Balança de Ouro estava outra vez inteira e, de forma fantástica, fechou-se em si mesma para retornar à forma da Urna de Ouro que um dia o jovem Mestre Ancião carregou pelas montanhas de Rozan. Shiryu desequilibrou-se, esbaforida, e foi acolhida por Alice.
— Meu deus, Shiryu. O que foi que aconteceu aqui, afinal?
— Não importa, Mii. Pegue a Armadura e leve até o Seiya.
— Ao Seiya?
— Sim, ele também teve de lutar contra alguém em seu Pilar e não tenho dúvidas de que deve ter vencido. Mas sem a Armadura de Libra ele não poderá fazer nada para derrubar o Pilar. E se eu conheço bem ele…
— É capaz dele se jogar de cabeça contra o pilar.
— Exatamente. Ande, leve de uma vez que eu em breve estarei junto de vocês.
Shiryu caiu, finalmente, de joelhos, e viu Alice partir dali com a Urna de Libra nas costas.
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— Defesa Circular!
A matriz giratória da Corrente de Andrômeda envolveu Shun dos pés à cabeça, mas a técnica da General Io parecia desestabilizá-lo em seu eixo, como se um tufão momentâneo criasse fendas dentro da sua defesa. E através dessas vacilações da Corrente, Shun sentiu seu estômago sendo mordido por uma fera e seu corpo ser arremessado contra uma pilastra.
— Eu já entendi como sua defesa funciona, Cavaleiro de Andrômeda. Mas sua formidável Corrente não pode contra minha Fúria do Lobo.
Shun, no entanto, também era um guerreiro de exímio controle do ar; aquele truque não funcionaria outra vez contra ele e ele sabia muito bem. Levantou-se, confiante, e viu que a General Marina ardeu seu Cosmo profundo e correu na sua direção para atingi-lo novamente. Mas se ele aguardava a lufada de vento que o havia desestabilizado, Shun foi surpreendido por uma vacilação na luz daquele templo ao céu-de-mar aberto e, tarde demais, viu-se surpreendido pela manifestação repentina de uma serpente gigantesca que avançou em um bote rápido contra o Cavaleiro de Andrômeda.
Sua própria Corrente foi quem recolheu-se no seu estado de defesa natural, mas a impossível serpente o envolveu em uma constrição terrível, apertando-o com corrente e tudo. A fera sofria os choques ocasionais que o Cosmo de Shun emitia, mas ainda assim era capaz de sufocar seu pulmão e fazer arder seus ossos, até ser largado no chão com muitas dores. A General Io novamente surgiu iluminada à sua frente.
— Poupei-o da morte certa, Andrômeda. Não há porquê essa batalha continuar. Sugiro pegar suas correntes, buscar seus amigos e voltar para sua Terra. Não há nada para vocês aqui a não ser o sofrimento.
— Não… eu não posso. — balbuciou Shun, levantando-se aos poucos.
— Já viu que sua corrente é inútil contra meus ataques.
Era verdade. Shun estava mesmo surpreso que aquela General Marina foi capaz de anular sua defesa tão facilmente. Era o início da batalha, de modo que Shun também sentia-se testando a força daquela mulher. Ela era feroz como as bestas que escondia debaixo do vestido, tal qual Cíla.
— Atena se sacrificou para que pudessem viver. Ela fez sua escolha. Uma escolha pela vida de vocês também. Por que continua lutando contra isso?
Shun talvez já houvesse desistido daquela pergunta.
— Eu também não gosto de batalhas desnecessárias, mas prometi a amigos queridos que faria tudo para resgatar Atena.
— Atena não quer ser resgatada, já parou para pensar nisso? — perguntou a General, um pouco surpresa com o garoto.
— Não estamos prontos para aceitar isso. Antes de ser a Deusa Atena, ela é a nossa amiga Saori e nós vamos impedir que ela sacrifique sua preciosa vida. Vamos fazer com que Poseidon pare com os desastres sem que ela precise morrer. Ela não merece esse fim.
A General chacoalhou a cabeça, sem acreditar.
— Crianças que agem por puro egoísmo. Não conseguirão jamais chegar perto de Atena que, à essa altura, já deve ter se sacrificado pelos Mares de Poseidon. Mas se continuarem com essa loucura, se realmente se levantarem contra Poseidon, talvez ele não seja tão misericordioso uma segunda vez e decida realmente destruir a população da Terra como punição ao que estão fazendo.
Shun engoliu a seco diante daquela possibilidade, mas seu coração já havia vacilado demais na batalha de Asgard, de modo que agora ele fechou os olhos e lembrou-se do semblante duro de sua irmã Ikki. Lembrou-se também dos dias e noites na casa de campo de Saori, quando precisou ficar ao lado dela e de Alice para protegê-la contra os enviados do Santuário. Sua doçura quando estava longe dos holofotes, sua preocupação para com todos eles. Sua enorme culpa pelo destino forçado naquelas crianças.
Não, ele realmente não estava pronto para aceitar que sua amiga partisse daquele mundo.
— Desculpe-me, Io. — o Cosmo de Shun ardeu diante do Pilar do Pacífico Sul.
Ele estendeu a mão esquerda e manifestou um furacão inacreditável que a General Io não imaginou que o doce garoto fosse capaz de conjurar. Ela foi tomada pelo tufão repentino e foi jogada contra uma das muitas pilastras que rodeavam aquele pátio, sendo imobilizada contra a rocha pela força dos ventos. Shun caminhou em sua direção com calma, o braço estendido, enquanto Io debatia-se pregada no pilar, incapaz sequer de falar. A Corrente Circular, que estava enrolada no braço estendido de Shun, lançou-se contra Io, amarrando-a ao redor da pilastra. E assim que ela foi finalmente presa, o Cosmo de Shun se acalmou e os ventos cessaram, permitindo que Io voltasse a ter condições de falar. Mas não de se soltar.
— O que significa isso?! Desde quando você é capaz de um poder como esse?
— Eu não irei machucá-la, Io. — começou a falar Shun, agora olhando para o pilar à frente dele. — Libertarei você assim que eu puder derrubar esse Pilar.
— Não sabe o que está falando. Esse pilar não cairá jamais!
Shun queimou seu Cosmo e arremessou a Corrente Triangular para o céu.
— Onda Relâmpago!
A corrente quebrou no ar com fúria e avançou feito um raio na direção do pilar, chocando-se em um enorme estrondo, mas sem resultar em absolutamente nada.
— Não há nada que você possa fazer. O seu Cosmo é magnífico, Andrômeda, mas suas Correntes quebrarão se elas se chocarem contra o pilar tantas vezes assim. — falou Io, enquanto Shun tentava novamente, sem sucesso. — Nem mesmo se todos vocês se juntassem para tentar algo, não, na verdade, nem mesmo se vocês e os famosos Cavaleiros de Ouro do Santuário se juntassem para um grande ataque, ainda assim não poderiam fazer um único arranhão neste e nos outros Pilares. São construções muito mais antigas do que podemos imaginar, levantadas pela vontade de Poseidon. São esses Pilares que sustentam os próprios Oceanos da Terra e sequer todo o peso das águas do mar são capazes de envergar sua fundação.
Shun já estava esbaforido de tanto tentar enquanto Io lhe relatava toda aquela história; sua Corrente Triangular realmente já parecia rachar-se em alguns pontos e Shun não podia acreditar que não pudesse fazer nada.
Mas então um milagre pareceu ocorrer. Todo o mar acima de suas cabeças pareceu tremer e, no horizonte, um dos pilares que erguia-se até o céu-de-mar começou a inclinar-se de maneira impossível. Shun e Io olharam para longe em assombro. Não havia dúvidas: um dos pilares pendia para o lado até finalmente cair em um som profundo que não deixou pedra sobre pedra. Um dos pilares havia sido derrubado. Io desesperou-se.
— Mas isso é um absurdo! Eu não posso acreditar. Não é possível que um dos Pilares de Poseidon foi derrubado! Mas o que será que está acontecendo?
— Eu tenho certeza de que um de meus amigos foi capaz de realizar um milagre. Isso significa que eu também posso alcançá-lo.
— Não, Andrômeda! Pare com isso! — pediu Io, em desespero, debatendo-se contra a corrente que a prendia. — Não vou permitir, por favor, não faça essa loucura!
Shun ardeu seu Cosmo novamente, mas não foi o único debaixo daquele pilar que juntou forças do mais profundo ser para fazer um milagre. Io de Cíla também queimou seu Cosmo Ocêanico em profundo desespero e finalmente destruiu as Correntes de Andrômeda que a prendiam, libertando-se do pilar e atingindo Shun diretamente no estômago com sua Fúria do Lobo. Io de Cíla estava esbaforida e com os olhos desesperados; Shun de Andrômeda estava distante do pilar, mas novamente se levantou.
— Não vou deixar, Andrômeda. Irei te matar se for preciso, não faça isso!
— Eu lutarei, Io.
E quando Shun queimou seu Cosmo novamente, algo havia mudado nele: ao redor de seu corpo aparentemente frágil ardeu uma aura dourada que Io reparou tratar-se de uma natureza diferente. Mas isso não impediu que ela o atacasse.
— Fúria do Lobo!
Shun saltou no ar e jogou sua Corrente Circular no chão, criando uma espécie de armadilha que prendeu a perna direita de Io e destruiu sua Escama. Shun apareceu do outro lado recolhendo sua Corrente e a General Io de Cíla surpreendeu-se ao ver nas mãos de Shun o resultado de algo surpreendente: as Correntes haviam se tornado douradas como um lampejo de luz.
— O que significa isso? Sua Corrente não era capaz de te defender contra minha Técnica e agora destruiu a minha Escama.
— Essas Correntes foram revividas graças ao sangue dos Cavaleiros de Ouro do Santuário. Depois de uma batalha terrível, nossas Armaduras de Bronze foram praticamente destruídas. E para se reviver uma Armadura de Atena, é preciso que o sangue de um cavaleiro seja sacrificado para que elas possam voltar à vida. Foi isso que os Cavaleiros de Ouro fizeram por nós. E quando eu toco o Sétimo Sentido, elas brilham como o coração deles. E eles estão ao nosso lado enquanto tentamos salvar Atena neste Reino, Io. Desista, você não pode contra essas correntes.
— Serpente Assassina! — tentou Io novamente, que parecia completamente sem controle.
O oceano se apagou e uma enorme serpente surgiu para apertá-lo até a morte, se fosse necessário para proteger o pilar. Mas a corrente dourada de Shun envolveu o corpo inteiro daquela cobra impossível e fez com que ela experimentasse do próprio veneno; a corrente dourada apertou o corpo cósmico daquela besta até que a rasgasse completamente, lançando Io contra um pilar com metade da sua Escama destruída pela Corrente Dourada de Andrômeda.
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No Templo do Oceano Atlântico Norte, os punhos de Seiya chocando-se contra o Pilar ecoavam por todo o pátio; o corpo de Bian ainda estava estirado e derrotado no chão, enquanto ele tentava com todas as suas forças fazer um arranhão que fosse naquela construção monstruosa. À distância, ele viu um dos Pilares do Horizonte ruir diante de algum milagre que seus amigos haviam operado.
— Tem que ter um jeito!
A proteção de bronze da sua Armadura já começava a se rachar nos punhos, mas ele ainda tentava. Até escutar o barulho distinto de guizos soando às suas costas; ele imediatamente olhou para a entrada daquele pátio e viu que Alice corria na sua direção com uma Urna de Ouro nas costas.
— O que está fazendo aqui, Mii?
Ela, logo que chegou, colocou a Urna de Libra entre os dois.
— Vim lhe trazer a Armadura de Ouro. É a Armadura de Libra. — e não demorou tempo algum para explicar ao garoto. — O Mestre de Shiryu enviou para ajuda-lá na batalha. Na verdade, para ajudar a todos nós. As Armas de Libra são capazes de derrubar os Pilares de Poseidon.
— As Armas? Então foi o Pilar de Shiryu que eu vi sendo destruído à distância?
— Exatamente. — respondeu ela, puxando a corrente de ouro revelando a maravilhosa balança de Libra. — Ela usou o Escudo de Ouro da balança e conseguiu derrubar o Pilar do Oceano Índico.
— Isso significa que ela venceu a batalha. A Shiryu é realmente incrível. — falou ele com um sorriso no rosto.
— Sim, mas a muito custo. — respondeu ela, com o semblante fechado. — A Armadura do Dragão foi inteira destruída e ela mal tinha forças pra ficar de pé.
— Como assim?! — surpreendeu-se Seiya, colocando-se diante dela. — O General Marina que enfrentei nesse Pilar não tinha tanta experiência de batalha e, embora falasse muito, no final das contas ele não era tão forte quanto imaginava.
— Aquela Sereia que nos recebeu também não tinha qualquer treinamento, mas me parece que Shiryu deu o azar de encontrar alguém realmente forte.
— Droga, Shiryu.
— E não é só isso. — complementou Alice, misteriosa. — Eu posso jurar que havia partido para uma direção contrária à de vocês, mas um Cosmo ameaçador fez com que eu me perdesse nessa cidadela.
— Um Cosmo ameaçador?
— Sim. A Marina que Shiryu enfrentou não deve ser a única preparada para esta batalha.
— Shun também deve estar lutando. — adivinhou Seiya olhando ao longe e sentindo o Cosmo forte do amigo. — Muito bem, nesse caso não vamos perder mais tempo. Vou pegar uma das Armas de Libra e derrubar este Pilar.
— Faça isso, Seiya. E então leve a Armadura para o Shun, que já deve ter vencido o guardião. Eu vou para o Pilar mais ao sul.
— Certo. Nos vemos no Templo de Poseidon!
— É uma promessa! — gritou ela de volta, já distante dele.
Alice partiu dali correndo, chacoalhando seu guizo de ouro para relembrá-lo da promessa que fizeram. Seiya respirou fundo e olhou de volta para a balança da Armadura, recolhendo a Espada que ficava dentro de um dos pratos da balança. Seu Cosmo ressoou dourado com aquela arma sagrada e Seiya avançou no pilar, lembrando-se das lições de Marin com o manejo da espada.
De um só corte viu que o brilho dourado fez rasgar uma fissura no concreto mágico, fazendo tombar para o lado toda a imensidão colossal daquela construção. Estava no chão o Pilar do Oceano Atlântico-Norte, e Seiya notou como o nível do mar naquele local pareceu baixar ainda mais em um espetáculo desconcertante. Ao ver a Armadura de Libra retornar à sua forma de Urna, ele colocou-a nas costas e partiu na direção de Shun.
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O Cavaleiro de Andrômeda tentava com suas Correntes, com seus punhos, suas pernas; absolutamente nada parecia fazer efeito. E, no entanto, um segundo Pilar tombou no horizonte. Algum milagre existia e seus amigos haviam encontrado uma forma de fazê-lo. Mas enquanto concentrava-se para encontrar algum ponto daquele Pilar colossal que pudesse desencadear uma reação e destruí-lo, Shun foi atingido pelos Lobos de Io.
Levantou-se olhando para a General, que estava esbaforida e desesperada, mas então deu-lhe as costas. Aquilo deixou a menina possessa; ela correu e agarrou Shun pelas costas e o jogou contra um pilar à esquerda deles, que o corpo do garoto destruiu pela violência do impacto.
— Nem sequer me considera uma adversária? Vai dar as costas para mim?
— Você já está vencida, Io. Eu não quero te machucar. Tudo que eu quero é derrubar este Pilar.
— Eu não vou permitir! — ela tinha sangue escorrendo do braço, cuja Escama havia sido destruída pela Corrente de Ouro do garoto.
— Você não está mais em condições de me enfrentar.
— Não me subestime! Se acha que usei tudo que sei, está muito enganado.
O Cosmo de Io era profundo como o Oceano Pacífico e, ao seu lado, levantaram-se dois tufões de água que se precipitaram daquele céu-mar; mas Shun esticou seus dois braços e pareceu controlar aqueles ventos que Io havia conjurado. Seu Cosmo era tão imenso e dourado que Shun reverteu a força daqueles tufões; Io viu-se tomada por sua própria técnica e arremessada contra três pilares antes de cair novamente no chão.
Shun então ordenou sua Corrente Circular de Ouro a envolver o corpo deitado de Io e a prender enquanto ele tentava operar seu milagre.
— O que pode destruir qualquer coisa é a separação dos átomos. Somos todos feitos da mesma matéria. Somos todos feitos do Cosmo. Da mesma explosão que criou o Universo há tantos bilhões de anos. Tudo pode ser destruído. Se eu queimar meu Cosmo ao Sétimo Sentido, talvez eu possa me lançar na direção desse pilar e então destruí-la de dentro para fora.
— Vai morrer. Vai acabar morrendo. — balbuciou Io, tentando se colocar de pé enquanto a Corrente de Ouro a prendia. — Vai se sacrificar por isso?
— Se eu não conseguir, ao menos eu terei feito uma fenda na rocha que meus amigos poderão usar depois para terminar de derrubar o Pilar.
— Está louco!
— Shun!
O garoto olhou para trás e viu o rosto cansado de Seiya. Os dois se encararam e o Cavaleiro de Pégaso imediatamente adivinhou a loucura que Shun pretendia; ele então correu até o amigo e deu-lhe um peteleco na cabeça.
— Se eu chego um minuto atrasado, você tinha se jogado de cabeça nesse pilar, não é mesmo?
Shun ainda estava surpreso por vê-lo ali e acabou por não responder.
— Veja. — disse ele, colocando a Urna de Ouro no chão. — Essa é a Armadura de Libra. O Mestre de Shiryu a enviou para que pudéssemos destruir os Pilares. As Armas da Armadura são capazes de derrubar o Pilar. Foi assim que ela conseguiu. E eu também.
— As Armas de Libra?
— Sim!
Shun então olhou às suas costas para o Pilar do Pacífico Sul e compreendeu os milagres operados por seus amigos. Ele sorriu pela primeira vez em muito tempo. Ninguém precisaria morrer.
— Muito bem.
Shun tomou uma das barra-triplas de ouro da balança e a manuseou com habilidade; enquanto a arma descrevia arcos e pontes no ar, deixava para trás um rastro de estrela e brilho. O Cavaleiro de Andrômeda ardeu seu Cosmo ao máximo, tornando-se dourado tal qual a natureza daquela Arma Sagrada. Shun rodou a barra-tripla no ar e a arremessou contra o Pilar; a corrente de ouro que unia as três barras se retraía tanto quanto precisasse, de modo que foi como se ele houvesse arremessado suas próprias correntes no seu alvo.
Houve um clarão dourado antes que a Arma se chocasse contra o Pilar e voltasse para sua mão.
— Ah, Shun! — alertou Seiya para algo que o amigo não havia notado.
Io de Cíla estava pregada na rocha do Pilar, com as Correntes de Ouro ao redor de seu corpo, que finalmente afrouxaram e deixaram-na cair aos pés da construção, absolutamente ferida. Ela havia se lançado na frente da Barra-Tripla e foi arrastada pelo ar com a fúria da Arma de Libra até chocar-se contra o Pilar que ela defendeu até o último segundo com sua vida. Shun deixou a Arma cair ao seu lado e foi até o corpo de Io.
E enquanto o Pilar do Pacífico-Sul desabava, Shun chorou ao lado da General.
— Por que fez isso, Io? Por quê? Você não precisava morrer. — mas ela lhe sorriu de volta.
— Eu fiz o mesmo que você, Andrômeda. Você estava disposto a se lançar contra o Pilar e morrer para tentar derrubá-lo. E eu estava disposta a morrer para protegê-lo. No fundo, nós somos iguais.
— Ah, Io. Por quê?!
— Você sabe o motivo. É o mesmo motivo que o seu. Uma promessa para alguém importante. — balbuciou Io as suas últimas palavras. — Mas me escute bem, Andrômeda. Shun de Andrômeda. Se continuar a ser ingênuo dessa forma e poupar a vida de seu inimigo no campo de batalha, vai chegar um dia em que o corpo vencido e morto ao final da luta será o seu. Não se esqueça disso, garoto.
— Io… — lamentou Shun ao vê-la fechar os olhos pela última vez.
Shun sentiu os olhos marejados no campo de batalha e Seiya colocou a mão em seus ombros; o garoto rapidamente limpou as lágrimas e levantou-se, decidido, esforçando-se maisd o que em qualquer batalha para não deixar que a tristeza o paralizasse.
— Ela decidiu me poupar. E agora eu estou vivo e ela se foi. — falou Shun com tristeza, e então colocou a Urna de Ouro nas costas. — Vamos salvar Atena, Seiya. Vamos em busca da Saori.
— Vamos, Shun.
— Deixe o resto comigo, Seiya. Vá direto até Poseidon.
— O que está falando, Shun? — perguntou Seiya, um tanto confuso com aquela versão do amigo.
— Confie em mim. — pediu o garoto de olhos doces. — Se a Armadura de Libra é o segredo para derrubar esses pilares eu posso fazê-lo sem derramar mais nenhuma gota de sangue.
— Ah, Shun… — Seiya não tinha tanta certeza.
— Confie em mim.
Seiya refletiu por alguns instantes, mas havia uma força imensa nos olhos do amigo. Pégaso decidiu confiar nele. Os dois tocaram seus punhos em amizade, seus guizos dourados tilintaram e então cada um seguiu para um lado do Reino.
O céu-de-mar baixou ainda mais, cada vez mais ameaçando inundar todo aquele Reino Submarino, enquanto o Oceano parecia retroceder. Enquanto isso, na superfície uma brisa oceânica trouxe um calafrio imenso para Abdulmalik, atacado por tantos invasores, mas bravamente resistindo graças à Bênção dos Mares em sua Escama. Até que não resistiu mais, morrendo com o nome de sua Senhora na boca.
No frio do Alasca, o Tenente Rosa dos Ventos caiu de joelhos, com Sírio às suas costas; muito sangue brotava de sua boca enquanto ele se perguntava o que estava acontecendo com seu corpo.
— A minha Escama está se despedaçando, mas o que será que pode ter acontecido? Não é possível que o General Bian foi vencido e o Pilar destruído! Não, isso é impossível!
— Então era isso. — falou Sírio, lacônico, atrás dele. — Sua Armadura era indestrutível, pois havia uma proteção sobre ela. E agora que aquilo que a mantinha intacta foi destruído, ela se desmancha feito escamas de peixe.
— Sírio… — balbuciou o Tenente Marina, estendendo o braço até ele.
— Mas isso é apenas a sua Armadura. — falou o antigo Cavaleiro de Prata. — Os ferimentos em seu corpo, invisíveis, foram feitos pelos Cavaleiros de Bronze. Se achou que os venceu sem que eles deixassem um presente para você, está muito enganado. Aquele último golpe que Lince e Lebre usaram, combinando suas vidas, o atingiu dentro de seu corpo. Apostando em um milagre. E esse milagre veio. Você perdeu a proteção do seu Oceano e agora os efeitos daquele golpe estão rasgando seu corpo por dentro.
O Tenente Rosa dos Ventos sequer escutou a explicação, pois já estava estendido e morto diante de Sírio, que saiu dali com a Armadura de Boieiro deixando para trás o corpo do Tenente Marina. Assim como estava morto também um bonito rapaz moreno, rodeado por Marinas menores, em uma das ilhas de um bonito arquipélago próximo ao Chile. Matias, a pessoa especial que Io tão desesperadamente queria proteger, sabendo que a queda do Pilar significaria a sua morte.
Pois então morreram juntos pelo Oceano.
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