Os Cavaleiros de Gelo
2 Perda
Notas iniciais
Espero que gostem.
Tomara que não tenha ficado muito grande... kkk
Boa leitura!
“Enquanto as pessoas têm amigos para compartilhar a sua tristeza, esta se tornará mais suportável.”
William Shakespeare
Felipe estava cavalgando em seu cavalo branco lentamente pela floresta. Ele costumava passar o tempo com seu cavalo enquanto seu pai passava o tempo todo trancado na biblioteca. Felipe nunca o interrompia quando estava na biblioteca. Quando seu pai não estava lá, ele se perdia nas páginas dos livros. Seu maior sonho era viver uma aventura, mas desde a morte de sua mãe esse sonho parecia mais distante.
O tempo fechara e, a julgar pelas aparências, choveria a qualquer momento. Felipe deu meia volta e retornou à sua casa. Uma leve garoa começou a cair, quando ele deixou seu cavalo no estábulo. Quando ele ia até a porta, ele viu luzes estranhas e pessoas dentro da casa. Não era costume de seu pai receber visitas, a única pessoa que ia até lá com pouca freqüência era Salomon, um amigo de desde antes de Felipe nascer.
Antes de entrar, ele espiou através da janela e viu quatro homens de costas pra ele. Parecia que eles estavam no meio de uma briga com seu pai, que estava de frente para ele. Ao avistar Felipe, a expressão do pai se encheu de preocupação. Ele viu seu pai mexer os lábios e dizer em silêncio: “fuja”. Felipe não entendia o que estava acontecendo, ele queria ajudar seu pai, mas o que um garoto de apenas dezessete anos poderia fazer contra quatro homens empunhando espadas? Se ele entrasse na casa, provavelmente ele iria piorar a situação. Ele se escondeu atrás dos arbustos que ficavam embaixo da janela. Agora que ele prestava mais atenção, ele conseguiu ouvir o que acontecia lá dentro. Havia passos, como se alguém andasse de um lado a outro. Um dos homens disse:
- Enfim o encontramos, Lúcio! – O homem ria, como se toda aquela cena o divertisse. – Vossa majestade, o rei Digory, estava ansioso para revê-lo! Logo encontraremos os seis restantes Cavaleiros de Gelo, e assim que o rei possuir os sete anéis, ele se tornará o homem mais poderoso do mundo!
- Se ele pensa que vai encontrar os anéis, ele está muito enganado... – disse Lúcio.
- Você ainda dúvida do poder de Digory? – O homem disse, ele estava ficando furioso. – Diga, onde está o seu anel?
- Não está aqui – Lúcio respondeu. – Já faz quinze anos que eu renunciei à minha espada.
- Onde você o escondeu?
- Digory nunca terá o poder dos anéis. Podemos ficar nesse debate a noite toda. Eu não entregarei a localização do meu anel.
- Você prefere morrer pelos callianos? – Gritou o homem.
- Você pode me matar, mas um dia alguém vingará a minha morte e a de todos que sofrem pela tirania de Digory.
- Então, que assim seja – o homem gritou, e de repente tudo ficou em silêncio.
Os quatro homens saíram com pressa da casa e sumiram na noite. Ao que parece, eles não perceberam a presença de Felipe, mas ele pode ver na roupa dos homens o símbolo da Guarda — Real.
“O que esses homens iriam querer com um simples comerciante?” Felipe pensou. Ele correu para dentro da casa e a cena que encontrou fez com que o ar saísse de seus pulmões. Seu pai estava no chão, com as costas apoiadas nas pedras que circulavam a lareira. Lúcio respirava com dificuldade, sua mão direita pressionava seu peito esquerdo o qual escorria sangue. Ele olhou para o filho.
- Felipe... – A voz de seu pai saia entrecortada.
- Papai... – Felipe não conseguiu falar sem deixar que seus olhos se enchessem de lágrimas. Ele se ajoelhou ao lado de Lúcio segurando sua mão.
- Filho, me escute – ele disse o mais firme possível -, procure Salomon. Diga a ele que agora você é o dono do... – A voz de seu pai falhou. – Diga à Salomon que a hora chegou. Ele vai lhe explicar tudo.
Ele apertou a mão de Felipe com toda a sua força restante e disse o mais alto e claro possível:
- Eu te amo, meu filho.
Nesse dia Felipe viu seu pai fechar os olhos pela última vez. Ali, no chão frio, parecia que ele dormia em um sono profundo. Felipe até o chacoalhou algumas vezes, pensando que ele iria acordar, mas a morte é um sono do qual nunca mais se acorda.
Felipe perdeu a noção do tempo que ficou junto ao corpo de seu pai, chorando. A lua já estava alta quando Felipe enxugou seus olhos dourados e se levantou. Ele foi até lá fora e juntou pedras e gravetos secos debaixo de um carvalho. Ele trouxe o corpo de seu pai e o cremou, aquele seria um enterro digno de seu pai. O vento levaria suas cinzas para longe, e ele viveria para sempre no céu.
Felipe ficou ao lado da sepultura até que o fogo se extinguisse, então quando o sol estava quase nascendo, ele se levantou.
Parado ali, ele só tinha a noção de uma coisa. Ele vingaria seu pai. Ele iria atrás de Digory e quando ele o encontrasse, ele iria fazer jus à palavra: vingança.
...
Os guardas chegaram ao castelo quando o sol já estava no meio do céu. Por serem a Guarda – Real, eles foram diretamente falar com o rei. Eles precisavam informar que o trabalho fora cumprido sem intervenções. Para Thomas, tirar uma vida a sangue frio não era uma coisa fácil de fazer. Ao ver o seu colega assassinar aquele velho a sangue frio, ele começou a duvidar do que realmente seria a Guarda – Real. Agora que ele estava ali, não era nada do que ele imaginava que fosse. Desde pequeno ele ouvia histórias sobre a honra e a glória eterna que os cavaleiros tinham, mas honra por matar um inocente? Para Thomas isso não era honra.
Ele observou atento enquanto Edgar contava o acontecido. Por ser o mais novo da Guarda, ele ficava relutante em dizer qualquer coisa. Digory os encarou, gritando:
- E vocês o mataram sem antes conseguir o anel dele?
- Majestade – o guarda que matou Lúcio disse baixo -, ele disse que preferia morrer a nos dar a localização. Ele nos desafiou. Nós...
- Silêncio! – O rei gritou. Ele estava tão bravo que Thomas não se surpreenderia se saísse fumaça do nariz de Digory. – Você achou que ele iria nos dar a localização morto? Trouxesse-o até mim vivo! Vivo! Agora eu perdi a localização do primeiro anel! Se você quer alguma coisa...
O rei Digory parou, ofegando. Seu rosto estava vermelho.
- Com licença majestade... – Thomas disse -, mas o que você vai fazer agora?
- Vou convocar alguém que faça o serviço direito – o rei sorriu -, o Cavaleiro Negro.
...
Felipe selou seu cavalo e passou pelo corpo uma bolsa com água, comida e um pouco de dinheiro. Era mais ou menos um dia de viagem até a casa de Salomon. Não havia nada de especial em sua casa para Felipe levar com ele, a não ser um colar. Era o colar que sua mãe usava. Seu pai havia dado a ela no dia em que se conheceram, ele era feito de ouro, e o pingente era uma opala lapidada em forma de coração. Era a única recordação que ele poderia ter de seus pais, era uma lembrança, que ele levava pendurada no pescoço.
- Onde o senhor pensa que vai? – Uma voz atrás dele perguntou.
Felipe se virou e viu Diego, seu melhor amigo sorrindo. Ele sempre fora bem bagunceiro. Ele era o tipo de garoto sapeca, mas inteligente, e nas horas necessárias, ele era responsável. Felipe precisava contar o que acontecera à alguém, e ele tinha certeza que a pessoa ideal para ouvir seria Diego.
- Mas... – Diego franziu o cenho. Ele estava absorvendo toda a informação que o amigo lhe contara. – Você...
- Diego – Felipe sentou no chão -, preciso vingar meu pai.
Dizer aquilo em voz alta fez Felipe perceber a realidade que cercava agora seu presente e futuro. Diego olhou para ele e acentiu. Sim, ele entendia o peso que Felipe carregava.
- Mas o que a Guarda-Real iria querer com seu pai? – Diego perguntou.
- Eu não sei bem – Felipe mordeu os lábios como sempre fazia enquanto pensava. – Um dos guardas disse algo sobre encontrar os seis restantes Cavaleiros de Gelo. O que isso significa?
- Você não conhece a lenda dos Cavaleiros de Gelo? – Diego arregalou os olhos azuis, incrédulo.
- Não. — Felipe balançou a cabeça negativamente.
Diego começou a contar a lenda dos Cavaleiros de Gelo. Alguns ainda achavam que era só história, afinal, eles nunca superaram a morte do antigo rei e a posse do trono pelo irmão.
- Então ainda dizem que os Cavaleiros andam por ai, escon... – Diego se interrompeu no meio da frase.
- O que foi? – Felipe perguntou.
- Seu pai... – Diego sorria, como se não tivesse percebido o óbvio. – Felipe, seu pai poderia ser um dos Cavaleiros!
- Sua imaginação vai muito longe – Felipe revirou os olhos.
- Então me dê um bom motivo para eu acreditar que Lúcio não era.
- Ele era um simples comerciante – Felipe começou. – Ele não poderia empunhar uma espada ou fazer coisas que os Cavaleiros fazem. Ele não sabe lutar e nem matar, por exemplo.
- Como você pode ter tanta certeza? – Diego perguntou.
Felipe não respondeu. Como ele poderia ter tanta certeza? Diego levantou e abanou a terra da calça.
- Bem, só há um modo de descobrir se é a minha ou a sua teoria a correta – ele disse.
- É? – Felipe perguntou, se levantando também. – E que modo?
- Nós vamos até Salomon, seu pai nos mandou até lá, lembra? – Diego começou a andar até sua casa.
- Como assim nós? – Felipe começou a andar atrás dele.
- Eu sou seu melhor amigo – ele respondeu. – Você acha que eu seria capaz de deixar você ir sozinho matar um rei? Você poderia estragar tudo no caminho.
- Mas eu não vou deixar você ir – Felipe disse. Ele não queria por Diego em confusão.
- Por acaso você ouviu alguém pedir a sua permissão? – Diego parou de andar e encarou Felipe.
E assim, Felipe esperou que Diego arrumasse algumas coisas em uma bolsa igual à dele e celasse seu belo cavalo negro. Os dois partiram ao anoitecer. Felipe estava confuso, afinal, se Diego estivesse certo ( o que ele duvidava ) e seu pai fosse realmente um Cavaleiro de Gelo, porque ele nunca contara nada a Felipe? Para protegê-lo? E quem precisava de proteção? Querendo ou não, era hora de descobrir a verdade.
...
Salomon nunca havia se casado. Ele era um velho que morava sozinho em uma casa simples isolada do mundo. Seu vizinho mais próximo era Lúcio, seu melhor amigo. Eles haviam vivido muitas aventuras juntos, mas quando Lúcio encontrou a mulher que realmente o completava, ele largara tudo.
Até hoje Salomon não conseguia acreditar que seu amigo, o mais fiel ao trabalho, pudesse ter renunciado o seu posto e deixado seu anel e sua espada com Salomon. Mesmo que Lúcio renunciasse ao que ele deveria ser, ele nunca conseguiria apagar por completo o seu passado.
Salomon abriu um livro e percorreu os olhos por ele. Foi quando ele ouviu batidas na porta. Ao abri-la, ele deu de cara com as duas pessoas que ele menos esperava ver ali.
- Felipe? – Seus olhos percorreram o garoto pálido de cabelos negros à sua frente, e depois focalizou o outro, pálido do mesmo modo, mas os cabelos dourados da cor do mel. – Diego? O que estão fazendo aqui?
- Salomon – Felipe disse -, precisamos de sua ajuda.
- O que aconteceu? Onde está o seu pai? – Salomon perguntou. Era incomum Lúcio deixar Felipe ir para tão longe sozinho.
- Meu pai foi assassinado – Felipe disse entre dentes.
Aquelas palavras atingiram Salomon como um soco. Seu melhor amigo estava morto. Eles o encontraram. Depois de todos aqueles anos, eles enfim o encontraram. Não era possível.
- Entrem – Salomon disse rapidamente, colocando os meninos para dentro e fechando a porta. Quando estavam todos acomodados, ele enfim perguntou. – Como aconteceu?
Diego contou a história, sendo interrompido em vários momentos por Felipe, que acrescentava alguns detalhes. Salomon ficou encarando o fogo consumir a madeira na lareira.
- Salomon – Felipe disse. – Porque a Guarda-Real fez isso com meu pai? Por favor, me conte o verdadeiro motivo de sua morte.
- Felipe – Salomon hesitou -, é complicado.
- Acho que posso agüentar – ele respondeu confiante.
Salomon respirou fundo, decidindo por onde começar.
- Você conhece a lenda que os callianos contam sobre os sete Cavaleiros de Gelo escolhidos pelo próprio rei Eleazar? – Salomon perguntou, olhando fixamente para Felipe.
- Sim – ele respondeu.
Salomon foi até um armário perto de onde Diego estava e tirou de lá uma caixa grande feita de madeira, com vários detalhes entalhados na superfície.
- Sabe – Salomon disse, abrindo a caixa e tirando algo grande embrulhado em um pano preto e entregando a Felipe. – O que eu mais admiro nas lendas, é que às vezes, elas podem ser reais.
Felipe apoiou o embrulho em uma mesa perto e começou a desembrulhá-lo. Diego se aproximou para poder ver melhor. Os olhos dos garotos não acreditavam no que viam. Na frente deles, estavam duas espadas. Não. Não eram simples espadas, eles puderam perceber. Ambas eram iguais, a lâmina feita de um metal muito brilhante, quase translucido. Felipe quase podia ver o mundo sendo refletido naquelas lâminas. O cabo das espadas era prateado como ouro branco, e ambos eram cravejados de pedras preciosas.
Salomon pegou uma delas e entregou a Felipe. Ele observou mais atentamente, a lâmina tinha mais ou menos noventa centímetros, e gravado nela estava escrito: Lúcio Rosenblatt.
- Meu pai... – Felipe murmurou mais para si mesmo do que para os presentes.
- Seu pai – disse Salomon -, era um dos Cavaleiros de Gelo.
- Não é possível – ele negou com a cabeça e pôs a espada de volta na mesa.
- Porque não seria possível? – Salomon perguntou. – Seu pai já era um rapaz quando Eleazar governava. Eu e ele éramos amigos, nós tínhamos a idade de vocês – ele apontou de um garoto a outro. – Naquela época toda a honra que um homem poderia ter era trabalhando na Guarda-Real. Nós éramos cavaleiros, e Eleazar tinha um grande afeto por nós. Então ele convocou uma reunião particular com sete homens da centena que ele tinha. Eu e seu pai fomos uns dos escolhidos. A princípio eu achei que ele iria nos mandar em uma missão ou nos demitir, mas ele nos contou tudo sobre sua magia, e nos disse que quando chegasse a hora, nós defenderíamos o reino como Cavaleiros de Gelo – Salomon fitou sua espada. – Antes de morrer, ele transferiu seus poderes para sete anéis, e entregou um a cada um de nós. Muito tempo depois da morte de Eleazar, seu pai conheceu Elizabeth.
- Minha mãe – Felipe sussurrou.
- Sim – Eleazar sorriu. – Sua mãe. Eu poderia dizer que havia sido amor à primeira vista. Mas eles não podiam ficar juntos, porque seu pai era um Cavaleiro de Gelo, e tinha muitos inimigos. Juntos, a vida de sua mãe correria perigo.
- Por isso ele renunciou? – Diego perguntou, incrédulo. Salomon acentiu.
- Antes de Felipe nascer – Salomon continuou -, Lúcio deixou sua espada e seu anel comigo. Ele sabia o risco que isso traria à sua família.
Felipe sentou em uma poltrona. Ele estava atônito.
- Felipe – Salomon se agachou em frente a ele. – Eu sei que é difícil para você...
- Difícil?! – Felipe se levantou gritando. – Difícil?! Eu vivi numa mentira todos esses anos!
- Seu pai só queria proteger você – Salomon era paciente.
Felipe saiu da casa batendo a porta. Ele estava furioso. Primeiro, seu pai fora assassinado. Segundo, ele agora descobria que Lúcio havia mentido todos esses anos a ele sobre seu passado. Felipe foi até a floresta.
- Mas que... – ele estava com muita raiva, então ele começou a dar socos em uma pobre árvore. Não importava que à cada soco um novo corte ficasse em sua mão. Parecia que bater era a única forma de liberar tudo o que ele estava sentindo.
Felipe perdeu a noção do tempo que ficou na floresta liberando a sua raiva. Sua mão direita já estava cheia de sangue, e seus olhos vermelhos pelas lágrimas. Ele respirou fundo, contou até dez e voltou para a casa de Salomon. Já havia escurecido, e os grilos cantavam entre as folhas.
Ele abriu a porta e entrou. Diego estava sentado perto da lareira com um pote com algo fumegando dentro nas mãos. Ele olhou para Felipe e arregalou os olhos quando viu a mão do amigo.
- O que houve com sua mão? – Ele perguntou ao engolir a coisa quente que ele comia.
- Nada – Felipe respondeu, olhando em volta se perguntando onde estaria Salomon.
- Se eu fosse você – Diego levou outra colher à boca e engoliu -, comeria um pouco deste ensopado. Salomon cozinha muito bem para um velho.
Felipe riu.
- Onde ele está? – Ele perguntou.
- Saiu há mais ou menos meia hora – Diego olhou para a mão de Felipe -, pelo visto você estava tão ocupado que nem percebeu. Ele foi cuidar dos cavalos.
Felipe se serviu de um pouco de ensopado depois de lavar as mãos e enfaixar com um pano velho. Realmente, estava delicioso. Eles comeram em silêncio por um tempo até que Diego falou:
- Você deveria ser mais maduro.
- O que você quer dizer?- Felipe baixou a colher.
- Eu quero dizer em relação a todas essas situações dos últimos dias – ele encarou Felipe. – Você deveria encarar isso como um homem, e não como um garoto mimado. Meu pai mentiu para mim todos esses anos – Diego fez uma imitação da voz de Felipe. – Você já tem dezessete anos. Deveria entender que seu pai teve motivo.
- Se você estivesse no meu lugar e fosse o seu pai...
- Eu preferiria que fosse meu pai – Diego o interrompeu. – Pelo menos ele estaria mentindo para me proteger, e não mentindo para poder fugir com outra mulher. Você acha que é fácil viver com seus tios, sabendo que sua mãe está a sete palmos embaixo da terra e seu pai perdido no mundo? Não. Não é fácil. Mesmo assim, você me vê reclamando? Não. Então para de agir como uma criança e se põe no lugar de Lúcio. Tenta ver a situação através dos olhos de seu pai.
Felipe pensou por um momento. Realmente, Diego estava certo. Ele não deveria ter raiva de seu pai. Com certeza havia vidas bem piores, mentiras bem piores do que as presente na vida dele. As pessoas acham mais fácil perdoar os outros quando estão errados do que quando estão certos.
Naquele momento, ele agradeceu por Diego estar ali, junto dele. Ele era seu melhor amigo, e o único que naquele momento poderia por um pouco de juízo e bom censo na cabeça de Felipe.
Salomon entrou na casa. Ele cheirava a uma mistura de verduras e cavalo molhado.
- Está melhor? – Salomon perguntou com um sorriso no rosto. Um sorriso que Felipe não merecia.
- Sim – Felipe olhou para o chão. – Salomon, me desculpe pela minha imaturidade. Eu deveria saber como aceitar a situação sem surtar.
- Se você não surtasse – Salomon riu e se sentou na poltrona -, eu diria que você não era normal.
Felipe riu. Eles ficaram conversando e rindo até bem tarde, então Salomon olhou para Felipe e disse:
- É verdade que você quer vingar seu pai?
- Quem...? – Ele ia perguntar, mas ele olhou para Diego e viu no rosto do amigo a resposta. – Eu devia imaginar.
- Felipe – disse Salomon -, você sempre me lembrou muito seu pai. Nunca conheci ninguém como ele, e agora eu vejo o mesmo espírito que ele tinha em você. Eu sei que se a situação fosse invertida, Lúcio tomaria a mesma decisão que você está tomando agora. Ele não descansaria até encontrar o responsável por tal injustiça e fazê-lo pagar.
- Eu preciso de sua ajuda – disse Felipe.
- É claro que precisa – Salomon sorriu. – Mas eu não posso ir nesta jornada com você. Ao invés disso, vou fazer algo ainda melhor – ele olhou para Diego, que lia atentamente um livro da coleção de Salomon. – Diego?
- Sim? – Ele levantou os olhos do livro, meio perdido, como se estivesse retornando de uma longa viagem.
- Você me daria a honra de ser o meu sucessor como Cavaleiro de Gelo? – Salomon perguntou.
— Você está falando sério?! – Diego não cabia em si de tanta empolgação.
- Claro – ele respondeu. – Logo esse dia chegaria. O dia de passar o anel de pai para filho. Como vocês sabem, eu não tenho filho nem nenhum parente próximo. Eu não poderia imaginar ninguém mais digno do que você.
- Este é o melhor dia da minha vida – Diego sussurrou.
Salomon tirou uma gaveta do armário. Felipe percebeu que tinha fundo falso. Ele tirou de lá um saquinho de pano, e entregou um a cada garoto.
- Cuidem como a vida de vocês – ele disse sério. – Se o poder desses anéis caírem em mãos erradas, tudo o que poderemos fazer será rezar.
Felipe abriu a palma da mão machucada e despejou ali o conteúdo do saquinho. Um anel caiu em suas mãos. O metal era o mesmo do da lâmina da espada, e havia uma pedra do azul muito escuro que Felipe já vira.
Ele pôs o anel em seu dedo anular da mão esquerda. Diego havia feito o mesmo.
- É melhor vocês irem dormir – disse Salomon. – Não vou deixar vocês irem a lugar nenhum sem treinamento.
- Quanto antes começarmos melhor – Diego sorriu.
Felipe podia perceber o orgulho presente nos olhos de Salomon.
À noite, sob a luz do luar que entrava pela janela, ele fitava o anel em sua mão. Tudo estava mudando muito rápido na vida dele. Eram mudanças inesperadas, algumas terríveis, outras ótimas. Antes ele era apenas filho de um comerciante e seu pai ainda estava vivo.
Agora ele era Felipe Rosenblatt, filho de Lúcio Rosenblatt, Cavaleiro de Gelo.
...
Um mês se passara. O outono já estava chegando, todas as folhas das árvores estavam em tons variados de laranja, marrom e amarelo. Felipe e Diego cresceram mais ou menos dez centímetros nesse meio tempo. Os músculos estavam mais definidos devido ao contínuo treinamento de Salomon.
Hoje eles partiriam para o destino incerto.
- Vocês entenderam o mapa que eu lhes dei?- Salomon perguntou pela enésima vez.
- Entendemos – Diego disse.
- Então vamos repassar – Salomon cruzou os braços. – Quero ter certeza de que vocês não vão cometer nenhum erro.
- Temos que ir até o Porto das Conchas e procurar por William Benfique, ele é o único que têm coragem o suficiente para atravessar o Mar Negro – Diego revirou os olhos. Ele repetia exatamente as palavras de Salomon. – Deveremos atracar na Ilha dos Naufrágios e seguir pela Floresta Proibida. Lá deveremos seguir o mapa que você nos deu e encontrar o esconderijo dos Cavaleiros de Gelo. Quando nós os encontrarmos, nós devemos dar a sua carta para Nicolau Kane.
- Exatamente – Salomon acentiu. – Não esqueçam.
- Não vamos esquecer – disse Felipe.
Ele e Diego vestiam uma capa preta de viagem por cima da roupa. Os cavalos já estavam selados, e as bolsas com o necessário prontas. Felipe deu um abraço em Salomon, que era o mais próximo que ele tinha de um pai ainda vivo agora.
- Vocês entendem que o que vão fazer exige uma grande responsabilidade – Salomon disse. – Vocês precisam salvar os callianos e talvez até mesmo o mundo. Tenham cuidado. Eu confio em vocês.
- Tchau – disse Felipe ao subir em seu cavalo. – Não vamos decepcioná-lo.
— Tchau, Salomon – Diego acenou.
Ele retribuiu o aceno, então ambos os garotos pegaram as rédeas de seus cavalos e partiram, o mais rápido possível, para o Porto das Conchas.
...
- Vamos deixar os cavalos aqui – disse Diego, apontando para um espaço perto do lugar em que se lia: William Benfique Aluguel de Barcos.
Já estava anoitecendo, e quase não havia pessoas nas ruas. Uma coruja cantava ao longe, pelo tempo, uma tempestade se aproximava. Eles seguiram até o lugar e entraram. Ao abrir a porta um sininho tocou acima da cabeça deles. Um homem barrigudo de meia idade com a barba preta despenteada que cheirava a rum estava atrás de um balcão.
- William Benfique? – Diego perguntou ao se aproximar do balcão.
- Ele deve algo para vocês? – O homem perguntou.
- Não – Diego respondeu.
- Bem, então eu sou William – o homem sorriu. – Em que posso ser útil?
- Precisamos chegar à Ilha dos Naufrágios – disse Felipe.
- Bem, como vocês sabem, sou o único que faz essa viagem em todo o Porto, então não vai sair barato.
- Não estaríamos aqui se não pudéssemos pagar – respondeu Diego, bravo.
“Ele está blefando” pensou Felipe. Ele sabia que o dinheiro que tinham não daria para pagar a viagem.
- Quero ver o dinheiro – disse William.
- Você só vai ver metade do dinheiro agora – Diego jogou uma bolsa com algumas moedas de prata para William, que a agarrou no ar. – Você receberá o resto quando chegarmos à Ilha dos Naufrágios.
Felipe começou a olhar ao redor. Havia várias coisas de pesca pelas paredes, junto a remos e pequenas canoas. Pela janela ele pôde ver de relance a vela de um navio.
- Porque vocês precisariam ir até aquela ilha? – William perguntou, erguendo uma sobrancelha.
Felipe já estava com a boca aberta para responder quando Diego o interrompeu.
- É particular. Não estamos te pagando para nos especular.
William ficou surpreso com o tom usado por Diego. Felipe nunca o ouvira falar assim, autoritário. Ele sabia muito bem dar ordens, tanto que poderia até ser capitão ou chefe de algo.
Os garotos seguiram William, que disse a eles para deixarem os cavalos em um lugar em que seriam bem cuidados e foram ao navio. As velas eram brancas, e havia vários tripulantes.
- Porque você não disse o que vamos fazer? – Felipe perguntou quando já estavam sozinhos.
- Eu não acho que ele seja de confiança – Diego respondeu.
...
Dormir não é problema quando você está cansado devido a uma longa viagem a cavalo. Mas dormir em uma rede, balançando de um lado para o outro conforme o mar... Bem, isso sim é um problema. Só depois de muito tempo, e de muito enjôo, Felipe conseguiu pegar no sono.
- Ei! – Alguém o sacudia. – Acorde!
Felipe abriu os olhos devagar e viu grandes olhos verdes o observando. Era Diego.
Ele sorria, já vestia sua capa de viagem e segurava duas canecas que saiam fumaça.
- Vai dormir até que horas, Bela Adormecida? – Diego riu e estendeu uma caneca à Felipe.
- Eu fui dormir tarde – ele respondeu e experimentou o conteúdo da caneca. Era café.
- Troque de roupa e suba – disse Diego, jogando a bolsa de viagem em cima de Felipe e saindo do lugar.
Felipe abriu a bolsa, tirou de dentro uma roupa e se vestiu. Ele pôs sua espada em sua cintura e se certificou de que seu anel estava em seu dedo. Um pressentimento o alertava de que eles não deveriam deixar suas coisas sozinhas em um lugar cheio de homens desonestos. Então, ele pegou sua bolsa e passou pelo corpo e pegou as coisas de Diego. A espada do amigo não estava mais lá, um sinal de que ele já a empunhara.
Subindo as escadas, ele chegou ao convés. Vários homens trabalhavam esfregando o chão ou cuidando das velas. Diego estava parado perto da beira do navio, olhando o horizonte. A partir de cinco metros, não era possível ver nada a frente devido à névoa densa. Felipe parou ao lado de Diego e observou o mar.
- Estranho – Felipe murmurou. – Você vê algo?
- Não...
A névoa parecia sussurrar no ouvido dos garotos. O frio aumentara, arrepiando os cabelos da nuca de Felipe. Diego fechara mais a sua capa e observava o mar com muita atenção, os olhos serrados.
- Ouviu isso? – Diego perguntou, olhando para Felipe.
Felipe não desviou os olhos do mar, parecia que algo estava vindo em direção deles.
- Se abaixa! – Felipe gritou para Diego, pulando sobre ele bem no momento em que algo passou sobre a cabeça deles e arrebentou o leme.
- O que foi isso? – Diego perguntou atordoado.
- Um tiro de canhão – Felipe respondeu olhando para a névoa mais fixamente e finalmente avistando velas negras.
...
Notas finais
O que será que acontecerá agora? Felipe e Diego conseguirão os anéis?
Ai, preciso da opinião de vocês!!
Deixem review, dando opiniões.
Servem críticas sobre o que deve ser melhorado ou elogios se realmente ficou bom...
Recomendem também!
Continuem acompanhando...
Com carinho,
Carlyluna.
Fale com o autor