Notas iniciais
Penúltimo capítulo, pessoal... Boa leitura!

Matheus de Aquário.

As coisas não estavam bem pro nosso lado. E, por Deus, aquilo era ridículo! Éramos um cavaleiro, duas amazonas de ouro e uma amazona celeste e estávamos levando a pior contra um... Sim, um. Não cinco, não mil. Um cavaleiro. Certo, ele era um portador, mas mesmo assim, que droga!

Luana estava ao meu lado descansando um pouco. A queimadura em sua perna era feia, mas seria pior se não fosse a armadura. Nós tentávamos estancar o ferimento o mais rápido possível para não sobrecarregar Mariana e Lays, que lutavam com afinco para deixar Apolo longe de nós.

– Tudo bem, acho que estou melhor. – Disse ela.

– Consegue ficar em pé? – Perguntei.

– Sim.

Ela conseguiu se erguer, mas suas pernas estavam um pouco bambas. Sua velocidade seria seriamente afetada por causa do ferimento.

Quando ela conseguiu ficar firme eu gritei para Lays que pulou levantou voo lançando uma bola de energia em Apolo, distraindo-o por segundos suficientes para Mariana se afastar.

Voltei correndo para frente de batalha.

Apolo me esperava com um sorriso maléfico no rosto. Um punho veio em minha direção, mas foi demasiado lento, me dando a oportunidade de saltar por cima dele, uma vez no chão, concentrei o máximo de cosmo energia no punho direito e mirei um soco em suas costas, mas ele conseguiu ser mais veloz dessa vez, não só se virou a tempo, mas defendeu completamente o golpe com apenas uma das mãos.

– TROVÃO ATOMICO!

A forte corrente de eletricidade veio pelo lado esquerdo de Apolo, mas não foi mais bem sucedido que meu golpe. Com a mão livre ele conteve a onda de raios quando estavam a centímetros de lhe atingir.

– Matheus, se abaixa!

Meus reflexos foram rápidos.

Com um salto impressionante Luana conseguiu, passando a milímetros na minha cabeça, acertar um chute voador na cara do sujeito que voou pelo salão. Lays, que estava planando lançou uma enorme bola de energia que atingiu em cheio o estômago de Apolo, enterrando-o no chão.

Era minha oportunidade. Não acreditava que fosse ser eficiente, mas nenhuma possibilidade podia ser descartada. Enquanto levantava voo fui concentrando meu cosmo para atingir o zero absoluto, quando atingi a temperatura concentrei o golpe na cratera onde estava Apolo.

– PÓ DE DIAMENTE!

A poeira se transformou em névoa e por um instante, por um mero segundo, eu achei que a tentativa havia sido bem sucedida. Como eu era ingênuo.

Uma explosão em grande escala aconteceu, aumentando o diâmetro da cratera e, de lá Érik olhava para cima, nos convidando a voltar a atacar.

– Isso é inútil, temos que nos preocupar em salvar Larissa, antes que a estátua a engula por inteiro!

Lays tinha razão. As únicas partes do corpo de Larissa que ainda não haviam sido engolidas eram o nariz e a boca.

– Vá até lá e a salve. Derrube a estátua se for preciso. Eu vou tentar segurá-lo por um tempo.

Lays disparou até a estátua e Apolo a seguiu com o olhar, sua expressão não foi das melhores, havia algo mais na presença de Larissa naquela estátua era mais do que parecia. E se...

Uma luz me veio à mente quando eu percebi. Como pude ser tolo a ponto de não ter percebido antes? Como pude não ter lembrado?

Apolo levantou voou em disparada na direção de Lays e eu o segui.

– Luana! – Gritei. – Vá atrás de Lays e a ajude! A fonte de parte do poder de Apolo é Larissa! Se vocês conseguirem tirá-la de lá ele enfraquecerá.

Ao terminar de dar as instruções eu já havia agarrado uma das pernas de Apolo e arremessei-o para longe de Lays, mas ele voltou em velocidade atômica. Só que um dos defeitos dele foi o desespero. O deixou cego, sem saber direito o que fazia, sendo guiado mais pelo instinto do que pelo cérebro. Quando chegou perto de mim lancei o soco mais lindo que já havia dado na cara de alguém. Ele foi lançado de volta para o local em que estava, onde Mariana o esperava com eletricidade correndo pelo corpo.

– TROVÃO ATOMICO!

O golpe atingiu-o nas costas. Eu pude ver nosso inimigo se contorcendo com toda aquela eletricidade correndo pelo seu corpo e esperei sentir o cheiro putrefação, mas não senti. Quando o golpe o parou ele simplesmente permaneceu no lugar, com uma fumaça escura saindo do corpo.

Mariana se descuidou e o soltou, mas apenas para ser envolvida por uma torrente de chamas que saíram do corpo de Apolo. Ela foi atirada ao chão com uma queimadura feia no rosto.

Ele veio na minha direção com a aura avermelhada se expandindo cada vez mais. Eu esperei paciente e, quando ele chegou, consegui desviar da maior parte dos golpes que me lançou, mas sua velocidade foi aumentando cada vez mais até que eu não conseguia mais acompanhar e fui atingido por uma torrente de golpes muito fortes no estomago, sendo finalizado com uma pancada com duas mãos na cabeça.

Minha vista escureceu por um momento e eu percebi que estava dentro de uma cratera no chão. Quando a visão voltou ao normal e consegui sair do buraco fiquei aliviado. A distração que eu causei foi suficiente para que Lays e Luana retirassem Larissa da estátua, mas Apolo se dirigia muito depressa em direção a elas.

A reação veio sem que eu pensasse.

Usei tele transporte e apareci entre Apolo e Larissa, quando ele se deu conta do que estava acontecendo meu cosmo já havia atingido o Zero Absoluto.

– EXECUÇÃO AURORA!

O raio gelado da técnica mais poderosa dos dominadores de gelo atingiu o deus do sol em cheio no peito, congelando grande parte da sua armadura e empurrando-o para fora da orbita do salão, nos dando um tempo para conversar.

Mariana se juntou a nós enquanto eu dizia:

– Luana, saia daqui. Leve Larissa de volta à Terra e procure por Bia, ela deve estar em algum hospital com o resto dos cavaleiros de ouro. – Ela não esperou eu repetir. Usando tele transporte levou Larissa do local.

– O que nós vamos fazer? – Perguntou Lays. – Ele é poderoso de mais, tenho certeza que levando Larissa daqui a diferença não vai ser tão grande.

– Tem razão... Mas eu não sei mais o que fazer... – Confessei.

– Mas a profecia...

Mariana havia começado a falar alguma coisa sobre a profecia, mas, ao som dessa palavra, eu tive um devaneio.

“Fogo!

O amor se torna ódio,

Por meio do fogo.

A ira não será saciada,

Até que um morra e o outro sofra!

O retorno dos cinco guerreiros

Simbolizará a esperança,

Com a ajuda do ultimo herói,

Também poderá simbolizar vitória.

E, quando a falta de fé

Estiver prestes a por tudo a perder,

A ajuda chegará.

E esquecendo a honra,

A guerra terá, enfim, uma chance de acabar.

... E esquecendo a honra,

A guerra terá, enfim, uma chance de acabar...

... esquecendo a honra...”

Era isso... Só podia ser isso. Todos os acontecimentos que levavam a esse momento gritavam o nome do golpe em minha mente, e talvez alguns estivessem me chamando de burro agora.

O fato era que eu estava tendo ajuda depois de ter morrido. E era a ajuda de mais dois cavaleiros de ouro. Só havia uma forma de três cavaleiros de ouro deixarem a honra de lado. E o som do golpe reverberou mais uma vez na minha cabeça.

Exclamação de Athena.

O golpe que a portadora da armadura havia proibido há séculos atrás por ser a maior das covardias que seus guerreiros cometiam. O golpe que reunia a força de três cavaleiros de ouro juntos, num ataque furioso e potente, que levou o Santuário abaixo nos anos oitenta. E não havia alternativa.

– Eu tenho uma solução... – Falei.

– Então diga! – Disseram as duas ao mesmo tempo.

– Exclamação de Athena.

O silencio que elas fizeram olhando para minha cara foi desconcertante, por um instante eu me achei muito idiota, mas recuperei a confiança e continuei:

– Olha, não temos escolha. É isso ou sermos derrotados...

– Mas é um golpe proibido... – Disse Mariana.

– Eu sei, eu sei... Mas você tem uma idéia melhor?

Mais uma vez o silencio. Um som estranho chegou aos nossos ouvidos e vinha de cima. Virei a cabeça a tempo de ver Apolo se envolvendo em uma bola de fogo que, eu imaginei, era uma forma de derreter o gelo que cobria sua armadura.

– Isso nos dá tempo suficiente de nos prepararmos. – Falei. – Vocês farão isso comigo ou não?

– Vamos. – Disse Lays.

– Certo... – Disse Mariana.

Eu me virei até Apolo e assumi a postura do cavaleiro central no golpe, com as mãos juntas e abertas assumindo uma forma semelhante à de uma boca aberta. A minha direita Lays fez o mesmo, mas se apoiando em um dos joelhos, Mariana fez o mesmo a minha esquerda.

Nós começamos a expandir nossos cosmos, e nossas auras prata, roxa e amarela, começaram a se misturar formando uma única e poderosa aura dourada, o poder começava a formigar na ponta dos meus dedos quando nossos cosmos entraram em sintonia e conseguíamos ouvir os pensamentos uns dos outros. Os cabelos das meninas flutuavam como se uma corrente de ar os empurrasse para cima.

Apolo saiu do casulo e observou-nos por um tempo, até que a compreensão recaiu sobre ele, mas, para a nossa surpresa, ele sorriu. Sorriu e desceu como um jato em nossa direção.

“Agora...” Falei.

“Agora!” Concordou Lays.

“Agora.” Disse Mariana.

Apolo agora traçava uma linha reta em nossa direção.

– EXCLAMAÇÃO... – Nossas vozes eram uma só. — ... DE ATHENA!!!

Um enorme e poderoso raio cósmico saiu das minhas mãos e engoliu Apolo como um pardal que havia sido abocanhado por um crocodilo. O poder enterrou-o fundo no chão fazendo com que todo o salão tremesse e várias pedras caíram sobre ele. Quando o poder cessou tive a impressão de ter corrido uma maratona.

Lays e Mariana, que estavam ao meu lado, não aguentaram a pressão e caíram para frente, desacordadas. Também senti vontade de me entregar ao cansaço, mas eu não poderia me dar ao luxo. Precisava verificar se Apolo estava realmente acabado.

Caminhei cambaleante até a cratera que havia se formado e, olhando lá dentro, não vi nada além de rochas sobre rochas. Não havia um sinal sequer de Apolo ou de seu cosmo.

“Talvez ele realmente tenha sido destruído com esse golpe...” Pensei. Mas meus instintos me pediram para esperar e eu o fiz.

E o silencio perdurou por um período de tempo que me pareceu uma eternidade. E um sorriso começava a se formar em meu rosto. Era o fim. O fim da guerra, do sofrimento, das mortes. Fui sentindo aos poucos aquela sensação de paz interior. Por mais que meus instintos me dissessem ao contrário eu sentia aquela sensação de dever cumprido e me dei ao luxo de deixar-me cair de costas, relaxando os músculos.

Após um longo suspiro comecei a varrer lentamente meu corpo com a mente para saber até que ponto meus ferimentos iam.

Minhas pernas estavam muito doloridas e quentes, mas, graças à armadura, não havia arranhões ou ferimentos graves, no máximo algumas queimaduras leves. Os braços já mostravam queimaduras mais graves, principalmente nas mãos, onde a mão direita se mostrava em carne viva. A cabeça estava ok. No máximo alguns cortes não tão profundos e arranhões, mas nada tão preocupante quanto o que havia em meu tronco, onde, pelo jeito, a armadura não tinha conseguido muito sucesso e estava rachada em vários pontos. Eu podia sentir uma costela quebrada, hematomas muito roxos, um corte profundo que ia da lateral da cintura até abaixo da costela quebrada e que sangrava sem parar, além de uma enorme e horrível queimadura na parte de baixo das costas. Isso tudo somado ao estresse mental e você tinha o resultado do combate.

Mas apesar de tudo eu me sentia bem por tudo ter dado certo no fim. Bom... Quase tudo. Relembrando o que eu havia sentido ao longo do santuário de Apolo percebi as mortes de John, Miguel, Rayssa, Laurinha e Joyce.

Cinco mortes.

O pensamento de que a morte deles não havia sido em vão me acalmou enquanto abria os olhos devagar. Mas eu continuava a sentir aquela urgência. Uma sensação horrível de que alguma coisa não estava no lugar, porém resolvi ignorar, era só coisa da minha cabeça.

Sentei-me no chão e retirei o elmo, olhando um pouco para a grande safira que havia no centro. Era hora de se levantar, tirar Mariana e Lays daquele lugar, dar uma última olhada no santuário de Apolo e, finalmente, voltar para casa.

Levantei e caminhei na direção de minha irmã e minha “quase-namorada” até que aconteceu. Aquele maldito segundo que fez com que eu nunca mais ignorasse meus instintos.

O chão do salão começou a tremer e o cosmo mais poderoso que eu já havia sentido na vida começou a se expandir atrás de mim, ao me virar vi a fonte de tal poder.

A armadura de Apolo estava caindo aos pedaços, e não. Não é força de expressão. Seu tórax estava completamente visível, e vários cortes e hematomas o enfeitavam. A única parte que ainda poderia oferecer uma mínima proteção eram uma solitária ombreira e a parte que protegia as pernas. Ou melhor, só a parte das pernas, pois a ombreira havia caído.

Mas isso não era o importante.

Ele flutuava à cerca de seis metros acima de mim e uma circunferência de mais ou menos dois metros e meio de área era o que o separava de sua aura cósmica, que estava tão poderosa que transformava o próprio cavaleiro num mini centro gravitacional, onde as pedras, que antes o soterravam, agora giravam em torno de seu corpo devido à força de atração.

Seu olhar era de um vermelho penetrante e estava fixado diretamente em mim, enquanto o medo me invadia fazendo a dor causada pelos ferimentos praticamente sumir.

– Blasfêmia. É esse o nome para o pecado que você cometeu, cavaleiro de ouro de Aquário. – A voz que saia de sua boca parecia não pertencer aquele corpo. O que só podia significar uma coisa: Apolo havia despertado completamente no corpo de Érik, sem deixar nenhum vestígio da personalidade do portador.

Esse fenômeno só havia acontecido uma vez na história dos cavaleiros, na década de oitenta. Quando Seiya enfrentava Hades nos campos Elíseos o espírito do deus grego rei do submundo saiu do portador, na época um de seus companheiros, e entrou em seu próprio corpo. Ao derrotá-lo Seiya condenou o espírito de Hades a nunca mais retornar a seu corpo original e vagar de tempos em tempo para um desafortunado portador.

Mas o que aconteceu trinta anos atrás não era nada comparado ao que acontecia na minha frente nesse momento. Apolo havia feito do corpo de Érik a sua casa, por vontade própria, o que tornava seu corpo original, seja lá onde estivesse, inutilizado nessa geração. Essa era a boa notícia.

A má notícia era que o deus mitológico do sol estava em pessoa na minha frente e pior, me acusando de blasfêmia.

– Receba a sua sentença e morra.

Apontando um dedo para mim, como se atendessem ao seu comando, as pedras que estavam orbitando à sua volta voaram em disparada na minha direção. Obrigando-me a enterrar a dor no fundo do meu cérebro e desviando de uma por uma. Nessa brincadeira o elmo caiu da minha mão entrando no buraco que soterrava Apolo momentos atrás.

Acabadas as pedras ele investiu contra mim. Levantei voo na esperança de conseguir escapar da investida, mas foi inútil. Antes que conseguisse alcançar dois metros de altura, a mão de Apolo segurou meu calcanhar e atirou-me de volta ao chão. A poeira subiu retirando minha visão por alguns segundos.

– Veja, Aquário. – Pude sentir seu hálito quente, que fedia a enxofre, perto do meu rosto. – Os seus piores temores se concretizarem, e as pessoas que você ama morrerem.

De repente eu me encontrava ao lado de Lays e minha irmã.

E eu senti medo.

Posso dizer com toda certeza, caro leitor, que aquele foi o pior momento de toda a minha vida. Procurei desesperadamente por Apolo para achá-lo segurando Lays, que ainda estava desacordada, pelo pescoço com as duas mãos e uma de suas unhas cravada em sua pele, até que uma pequena gota de sangue desceu de sua carne e à medida que aquela gota solitária descia, uma torrente de lembranças me vinha à cabeça junto com uma raiva descomunal.

“... Quem é aquela garota, Jennifer?

... Ah... O nome dela é Lays. Ela é tão doce, sempre que me vê me chama de ‘amiiiiiga’.

... Nossa. Ela é linda...”

“... Como você está, Lays?

... Levando, né... E você?

... Estou bem. Porque sempre que eu te pergunto se você está bem, você responde ‘levando’?

... Nossa, você percebeu?

... Como não perceberia? Você parece sempre tão triste...

... ... ... ...

... Eu te prometo que, um dia, vou fazer você me responder que está bem.”

A minha promessa. De certa maneira eu havia cumprido a minha promessa. Agora, sempre que eu perguntava como ela estava ela me respondia que estava bem (ou mal, se fosse o caso), mas minha promessa não se limitava simplesmente a isso... Não... Era muito mais que aquilo. Eu queria fazê-la feliz. Sempre. Poder fazer aquele sorriso, que tanto me acalmava, inundar seu rosto sempre que possível, mas, agora, todas as minhas promessas caíam. Caíam como aquela maldita gota de sangue.

E a partir dali minha mente não me obedecia. Eu era puro instinto.

Num movimento rápido agarrei o pescoço de meu adversário com uma mão e com a outra agarrei a mão que tirava sangue da minha namorada. O brilho vermelho que os olhos de Apolo emanavam, por um instante, apagou, e a expressão de dor de Érik olhava pra mim, implorando por misericórdia.

Crack!

Quebrou. O pulso que antes trabalhava para asfixiar Lays estava quebrado. Reunindo a energia cósmica que ainda me restava, eu concentrei uma bola poderosa de energia que descarreguei no estomago desprotegido de Apolo, que foi atirado para longe de nós. Com o baque surdo Lays bateu no chão, ainda desacordada. Não morta.

Então, erguendo-me, olhei na direção do meu inimigo. O olhar brilhante e acusador de Apolo voltava a me encarar. Mas eu não estava com medo, a raiva que eu estava sentindo era grande demais para eu me curvar perante tal sentimento. Um instinto protetor e um poder que eu jamais havia sentido antes se apoderou do meu corpo.

É difícil falar sobre tal sensação. Mas todo o meu corpo formigava e minha mente se escondia no fundo da minha cabeça como se esperasse o momento certo de sair e, enquanto isso, meus batimentos cardíacos aceleravam numa velocidade excitante e perigosa. Senti que minha pressão começava a cair à medida que o coração ribombava no peito e abaixo de meus pés uma fina camada de gelo se arrastava pelo chão.

Apolo assistia a tudo atônito. Por um instante me perguntei se meus olhos emitiam o mesmo brilho intenso que os dele, mas não foi algo que realmente tirasse minha concentração, pois, naquele exato momento, minha armadura começava a congelar. Ironicamente o som de ferro sendo fundido chegou aos meus ouvidos quando percebi que as rachaduras estavas se fechando. Ao perceber o que estava para acontecer, Apolo correu em disparada na minha direção, mas, antes que o soco que ele mirava no meu rosto atingisse seu destino, levantei a palma de uma única mão e desloquei uma camada de ar contra meu inimigo, que gritou de dor enquanto rolava para longe de mim.

Àquela altura eu já sabia o que estava acontecendo. Eu já havia sentido todo aquele poder um ano atrás... E, à medida que minha armadura se reconstituía e mudava de formato, eu ia deixando minha posição de cavaleiro de ouro.

A tonalidade dourada que banhava minha armadura ia dando lugar a um tipo de metal cuja cor ficava entre o azul do céu e o branco da neve. Pequenas safiras estavam incrustadas ao meu redor, estrategicamente posicionadas seguindo a ordem, posição e tamanho das estrelas que constituíam a constelação de Aquário. Um movimento a minha esquerda me chamou a atenção. Quando olhei, vi o elmo da armadura, que já havia sofrido a metamorfose, vindo na minha direção. A grande safira em seu centro se mostrava imponente e brilhante como nunca havia visto antes. Fechei os olhos enquanto sentia-o sendo posicionado delicadamente em minha cabeça.

Voltei minha atenção para a criatura à minha frente, cujo poder, que antes tanto me assustou, agora se igualava ao meu e minha mente saia do estado de dormência enquanto eu raciocinava com rapidez todas as possíveis formas de ataque das quais dispunha.

Decidi pela mais rápida e direta. Cerrando o punho esquerdo desferi um soco potente contra a figura caída no chão, que, com agilidade, saltou para cima e tentando me contra atacar enquanto meu punho abria uma cratera de três metros de raio e dois de profundidade no chão. Com o braço direito consegui me contorcer e impedir que o chute mirado no meu flanco atingisse minha costela quebrada.

Apolo usou meu braço como apoio e impulsionou-se para longe de mim. Ele olhava para mim enquanto uma gota de suor descia de sua testa.

– Uma kamui não garante a sua vitória, Aquário. Espero que saiba disso...

– Não é o que parece... Está cansado?

Uma careta distorceu suas feições e ele atirou-se para frente com os punhos envolto em chamas, fiz o mesmo lançando-me em direção a ele com o punho carregado de gelo. Nossos punhos se encontraram num choque tremendo, causando um barulho de explosão tão grande que, por um instante, pensei que perderia a audição, mas uma camada de ar separou-nos.

Por um instante perdi o foco da visão e, ao recuperá-la, não consegui achar Apolo, mas não foi um problema. Fechei os olhos e expandi meu cosmo varrendo o lugar por completo a procura do indivíduo e o encontrei.

Ele vinha num impulso enorme e na velocidade da luz por trás de mim. Virei-me e cruzei os braços para receber o soco potente no braço esquerdo e antes que eu pudesse contra atacar, meu inimigo havia sumido, reaparecendo mais uma vez à minha direita, mas, por pouco, não conseguiu me atingir, pois consegui me virar e segurar o soco.

E a brincadeira continuou. Apolo desaparecia e reaparecia em vários lugares a minha volta e me dava ataques potentes que não me davam alternativa a não ser ficar parado num único lugar e me defender, o que estava me cansado. Eu podia prever onde Apolo atacaria a seguir, porém ele era tão veloz que qualquer tentativa de ataque ou fuga era inviável, pois só tiraria minha concentração.

Mas uma solução pratica me ocorreu antes que fizesse qualquer ação impensada.

Quando Apolo reapareceu desferindo mais um golpe, cuja trajetória era, provavelmente, minha costela quebrada, consegui segurar seu punho com bastante força, impedindo-o de sumir mais uma vez. Para certificar-me de que ele não escaparia mais uma vez, concentrei meu cosmo ao longo de seu braço, que começou a desenvolver uma grossa camada de gelo que cresceu até seu cotovelo.

Com a mão esquerda, que estava livre, soquei o peito desprotegido do meu adversário que foi atirado contra para frente, mas, antes que atingisse o chão, saltei e chutei a lateral de seu corpo, o som de ossos quebrando foi audível e ele foi lançado contra a estátua abrindo um rombo um pouco acima do umbigo da imagem do Apolo mitológico e, antes que ele pudesse se recuperar do golpe, peguei impulso no chão e me atirei como um raio na direção do buraco. O soco que Apolo recebeu foi de uma potencia tão alta que automaticamente um hematoma começou a se formar no local atingido e várias gotas de sangue, saídas de sua boca, atingiram meu rosto e também pude ouvir um alto som de algo se rachando. Olhando mais atentamente percebi que era a estátuas que começava a partir-se ao meio inclinando-se ligeiramente para frente e começando uma queda livre.

A essa altura o Apolo a minha frente já havia se recuperado do golpe e me atacou uma joelhada no estomago que fez tudo ao meu redor girar, quando dei por mim estava estirado ao lado das, ainda desacordadas, Lays e Mariana. Ao olhar para cima vi que a metade destruída da estátua vinha em nossa direção. Nós seríamos esmagados. Os meus reflexos me ajudaram num movimento desesperado. Levantei-me e prostrei-me entre as garotas expandi meu cosmo enquanto esperava pacientemente a meia-estátua. Qualquer sinal que eu pudesse ter de Apolo nesse momento havia sumido da minha mente. Minhas mãos tocaram a estátua e uma dor lancinante se apoderou da minha coluna enquanto várias toneladas de concreto punham todo seu peso contra ela, mas, à medida que eu conseguia aparar a queda da estátua e me prostrava ereto.

Num olhar puramente instintivo para minha direita pude ver uma grande torrente de chamas vindo em minha direção e a única reação que me ocorreu foi atirar o pedaço de concreto que estava em minhas mãos, que serviu muito bem como escudo para as chamas, mas que se desintegrou em mil pedaços ao ir de encontro a Apolo.

– A cada segundo que você permanece vivo, Aquário, seu pecado aumenta mais por estar se opondo a um deus. – Disse Apolo, um tanto quanto ofegante.

– Ou isso, ou você quer que eu me renda para não apanhar mais? – Perguntei levantando uma sobrancelha.

As feições de Apolo se contorceram numa careta de puro ódio.

– Humanos... Quando vocês irão aprender que não adianta lutar contra o que vocês nunca irão compreender? – Enquanto ele falava um báculo surgia em sua mão, semelhante ao da portadora de Athena. – Não duvido do seu poder Aquário, mas me derrotando aqui e agora não terminará a guerra...

– Olimpianos... Quando vocês vão entender que não adianta querer destruir a humanidade? Sempre vai haver alguém com força de vontade o suficiente para se opor à sua opressão. – Fiz questão de deixar o sarcasmo em minha voz reconhecível. – Esse é o problema de vocês, não conseguem aprender com seus erros. Eu, Seiya, Tenma e tantos outros que vieram antes deles... Tantas surras não significaram nada para vocês?

O calor emitido agressivo emitido pelo seu cosmo agora era puro ódio, tão profundo e carregado de rancor quanto eu jamais vira em minha vida. E as proporções que ele atingia ultrapassavam a minha capacidade de compreensão. Com um calafrio, percebi que o Zero Absoluto não seria suficiente contra tal poder, a temperatura mais baixa dos dominadores de gelo não era fria o suficiente contra a temperatura do Sol.

Porém ainda havia uma saída. Havia um golpe no qual eu vinha planejando ao longo da caminhada pelo Santuário de Apolo, mas não era nada certo, apenas pura teoria, eu não sabia se funcionaria e, caso funcionasse, não sabia quais seriam as consequências dele em meu corpo, mas era minha única esperança.

Fechei os olhos e me concentrei o máximo que consegui erguendo o braço direito acima da cabeça e esticando o braço esquerdo mantendo-o colado à minha perna, aos poucos fui invertendo a posição dos membros enquanto captava toda energia solar contida no ambiente e transformava-a em energia glacial. A primeira consequência apareceu nesse ponto. Minha temperatura corporal, que antes faria qualquer pessoa pensar que eu estivesse morto, subiu rapidamente para uma febre altíssima e meu corpo adquiria uma coloração avermelhada como se eu tivesse passado a tarde ao sol sem passar protetor solar.

Mas não me contive, pois sabia que estava dando certo, devido à queda drástica na temperatura ao meu redor e à minha aura, que ondulava ao meu redor e se esticava até envolver Apolo variando sua cor entre o azul, o verde e o roxo... O primeiro sinal da aurora.

– Prepare-se Aquário. – Dizia ele sem se importar com o que acorria no ambiente. – Tudo está para terminar.

Não respondi.

– VENDAVAL DA COROA DO SOL!

– AURORA... – Juntei meus pulsos que assumiram a posição de boca aberta. – BOREAL!

A descarga de energia foi instantânea. A torrente de chamas que vinha em minha direção foi batida de frente pelo raio congelante. Por um instante combatemos um ao outro forçando os ataques a derrubar o do adversário, mas logo uma mudança foi notada, pois o raio multicolorido lançado por mim começava a congelar as chamas que Apolo conjurou, o mesmo assumiu uma expressão de desespero até que a camada de gelo atingiu-o, congelando-o por completo.

Minha temperatura corporal caiu novamente fazendo o mundo ao meu redor girar e eu caí de joelhos.

Uma luz forte foi emitida onde o Apolo congelado se encontrava e eu pude ver a camada de gelo que o envolvia virando migalha, mas, antes que eu pudesse me desesperar, ala caiu de bruços para frente. Um corpo sem o menor indicio do poder de momentos atrás.

A gargalhada saia de sua garganta como um prelúdio me dando calafrios.

Lentamente dirigi-me até ele, havia só mais uma coisa que eu precisava fazer para por um fim nisso. Uma espada de gelo com uma safira no botão se materializou a minha frente. Apesar de me sentir fraco ao ponto de não conseguir carregá-la direito eu prossegui, a lamina arrastando no chão à medida que eu mancava em direção ao inimigo.

– Então você quer castigar o pecador pessoalmente, pai? – Ele não falava comigo. – Pois muito bem... Ele é todo seu.

Um sorriso de, talvez, pena apareceu em seu rosto antes que eu erguesse a espada acima da cabeça e sentisse a lamina atravessando a carne de seu pescoço.

Imediatamente a espada desapareceu assim como o corpo de Érik, virando poeira estelar.

Pude me permitir um sorriso de triunfo antes que uma luz forte me cegasse a vista e um raio, vindo sabe-se lá de onde, atingisse meu braço me causando uma dor lancinante, fazendo-me rolar pelo ar e cair com força no chão.

“Acabou...” Era tudo que eu conseguia pensar.

“Pelo menos por enquanto acabou... Eu derrotei Apolo”

Não sabia o que o raio significava, nem porque meu ombro esquerdo doía tanto. Só me importava com o fato de que a Terra estava salva e que isso era tudo.

O alívio tomou conta de meu corpo enquanto eu me entregava ao cansaço. Ainda tive tempo de vislumbrar Carol e uma Sáskia vestindo uma kamui me sacudirem antes de apagar.

Lays de Virgem.

Lays se recostou na parede do hospital e escutou atentamente o que a voz do médico dizia aos pais de Matheus.

– Já faz quase um mês e não há mudança no seu estado... – Ele dizia com tendo o bom senso de amansar a voz. – A cor de sua pele indica claramente um câncer e sua atividade cerebral é quase nula. Sua temperatura é mais alta que o normal, até mesmo para uma febre considerada alta... Ele está sofrendo. – O gemido gutural que vinha da mãe de Matheus lhe causou arrepios. – Eu aconselharia aos senhores para pedir para desligarem os aparelhos e acabarem com o sofrimento dele. Mas a decisão está em suas mãos...

Uma lágrima solitária descia em seu rosto quando decidiu que já havia ouvido o suficiente. Lays se dirigiu lentamente para fora do hospital deixando-se envolver pelo torpor.

Notas finais
Tá chegando ao fim, pessoaaaaal... ): Desde já vou agradecendo o carinho de vocês, das pessoas que comentaram e também das que não comentaram... Muito obrigado mesmo. Mas ainda falta um capítulo!!!! Então, ATÉ DAQUI A POUCO, MINHA GENTE!!!