Notas iniciais
Carol de Leão
Depois de retirarem Matheus, Lays e Mariana do Salão de Apolo, Carol e Saskia não perderam tempo e logo tiraram suas armaduras para poderem levar os companheiros ao hospital.
As meninas foram colocadas em apartamentos comuns, mas Matheus foi encaminhado direto para UTI assim que os médicos puseram os olhos nele. Seu corpo estava um caos e o cheiro de sangue coagulado logo penetrava as narinas de quem ficasse alguns segundos ao seu lado.
Caos maior ainda se encontrava a cidade. Havia incêndios por todos os lados, as famílias corriam desesperadas por salvar seus pertences e algumas apenas queriam saber de seus entes queridos. Existiam também os heróis anônimos. Pessoas que saiam de suas casas para pular em telhados e resgatar bebês e idosos. Por vezes a beleza desses atos de heroísmo era ofuscada pelos saques que aconteciam em centros comerciais e estabelecimentos menores. Com as autoridades locais ocupadas em abrigar as vitimas não havia quem tomasse atitude frente a coisas tão insignificantes. A imprensa teve um prato cheio no dia seguinte.
– Na cidade de Juazeiro do Norte, situada no sul do estado do Ceará, um vazamento de gás se alastrou pelos esgotos, causando explosões e incêndios em diversas localidades da cidade. Autoridades informam que ainda não descobriram a localidade exata do foco do vazamento, mas as investigações ainda continuam. Aos poucos os cidadãos conseguem ter suas vidas de volta... Agora esportes! O Icasa...
Depois de um mês de repercussão, a notícia do ocorrido rapidamente se alastrou pelo país. O caso até ganhou manchetes em alguns jornais internacionais, que especulavam um vazamento criminoso, outros apenas colocaram a noticia em notas de rodapé.
Entretanto a causa do “vazamento” nunca foi descoberta e à medida que a população parava de se preocupar com a causa e começava a focar na consequência as autoridades começavam a esquecer o caso. Era sempre assim. Acontecia a tragédia, pessoas morriam, perdiam amigos, familiares, casas, objetos pessoais, ficavam revoltadas e desejavam desesperadamente uma explicação. Então, um por um, começavam a seguir cada qual com sua vida e deixavam as preocupações de lado. As autoridades, que se viam livres da opressão pública, paravam de se esforçar para resolver o caso que terminava numa pilha de papel como tantos outros que também não tinham solução. A burocracia e a negligência por parte dessas entidades acabavam se tornando algo que auxiliava com o segredo sobre os cavaleiros.
– Acho que dessa vez demos sorte. – Falou Victon, que acabava de entrar na sala de espera do hospital, onde Carol se esticava para desligar a televisão. Ele movimentava o braços e fazia algumas caretas.
– Veio tirar o gesso... Como está o braço? – Perguntou Carol.
– Ficará melhor daqui a algumas semanas... Você soube de Matheus?
Matheus... Uma torrente de lembranças assolava a mente de Carol ao ouvir o nome do amigo desde que a notícia de que seus aparelhos seriam desligados se espelhou pelos amigos. Várias mensagens de força e de lamentações chegavam noite e dia em seu celular, redes sociais e, por vezes, em sua caixa de correio.
Não que os demais cavaleiros não sentissem sua perda, mas havia aqueles que sentiam mais do que outros e Carol era uma delas, assim como Mariana. A irmã do cavaleiro que mal tinha recebido alta do hospital de já se internava mais uma vez em seu próprio quarto a chorar dia e noite chamando o nome do irmão que certamente nunca ouviria seu chamado. Numa visita à casa do amigo, Carol pode conversar um pouco com seus pais sobre os acontecimentos, sempre cuidando para não fugir da história inventada pela imprensa, e para dar uma olhada na jovem amazona. Encontrou-a deitada em sua própria cama, dormindo abraçada a um álbum de fotos aberto numa fotografia antiga onde Matheus abraça a irmã sorrindo tão espontaneamente que era quase impossível não sorrir junto.
E havia também Lays. Que ouviu da boca dos próprios pais de Matheus o destino que teria seu amado. E quem imaginaria o quão desafortunado seria o relacionamento daqueles dois? Todos sabiam que eles não namoravam, porém só um louco não notaria o clima, os beijos silenciosos, os sorrisos ternos que eram trocados vez ou outra.
O fato era que, desde que soube das más notícias Lays não era vista. Carol estava no hospital no dia, esperava poder ver como o amigo estava e talvez conversar um pouco, na esperança de alguma reação. Mal chegou a portaria quando viu a garota sair soluçante e cambaleando de lá e sem responder a nenhuma de suas perguntas, antes que pudesse alcançá-la ela tele transportou e não era vista desde então. Logo em seguida Alexandre, pai de Matheus, saia do hospital carregando sua esposa desmaiada nos braços e colocando-a no carro. A única resposta que a amazona obteve do homem foi um olhar pesaroso, que foi suficiente.
Carol deu por si envolvida pelos braços de Victon. Suas lágrimas molhavam a camiseta do garoto e os soluços a impediam de pedir desculpas.
– Calma... – Repetia o amigo. – Eu sei como você se sente...
Sim, ele sabia.
Há duas semanas Carol compareceu à missa de enterro dos cavaleiros mortos, que, a pedido dos amigos e familiares, foram enterrados numa única cerimônia. Foi melhor assim, menos sofrimento, menos lembranças. Mas ele estava lá. O tempo inteiro ao lado do caixão de seu amigo Jhon e, ao termino da celebração, o próprio Victon com a ajuda de Rafael puseram terra no buraco onde estava seu caixão. Lá mesmo permaneceram os dois, sentados diante da cova com nada mais que uma garrafa com dois litros de água.
– Vamos, todos estão nos esperando. – O rapaz a guiou devagar pelos corredores do hospital até chegar a um quarto, no terceiro andar, onde Matheus passava seus últimos dias.
Todos os cavaleiros estavam lá. Lizandra, Rafael, Mariana, Claudino, Luana, Bia e Saskia. Todos exceto Lays, que ainda não havia aparecido.
O motivo de tal movimentação o corredor era que todos eles haviam combinado de fazerem, juntos, uma última visita ao amigo e, por vezes, comandante de todos.
Rafael estava abaixando a maçaneta quando som de passos chamou a atenção de todos. Lays, que usava um belo vestido branco andava a passos desajeitados na direção dos companheiros e sem olhar ou falar com ninguém ela abriu caminho e empurrou a porta.
Lays de Virgem
Matheus estava da mesma forma que ela se lembrava.
Um lençol branco cobria seu corpo até o umbigo e seus braços nus pousavam delicadamente ao lado do corpo, uma seringa, conectada a um tubo de soro que gotejava lentamente, penetrava a veia de seu pulso esquerdo. Ataduras se mostravam firmemente enroladas em seu estômago e hematomas enfeitavam seu tórax, que também apresentava algumas cicatrizes aqui e acolá assim como eletrodos que monitoravam seus batimentos cardíacos. Seu rosto estava vermelho, assim como o resto do corpo. Cateteres adentravam suas narinas e seus lábios ressecados permaneciam semiabertos revelando dentes ainda brancos.
E a mais curiosa lembrança do incidente no Salão de Apolo se encontrava em seu obro esquerdo: Uma cicatriz enorme em forma de raio.
A inquietação no quarto começava a incomodá-la e, sem sequer desviar os olhos do seu amado, disse:
– Vocês podem, por favor, nos deixar a sós? – Ela tentou não parecer rude, mas não tinha certeza se havia conseguido. Quando a porta se fechou atrás dela uma lágrima após a outra começaram a cair de seus olhos e, em meio a soluços, disse: – Amor... Eu preciso te falar uma coisa...
Matheus de Aquário.
Minha mente se acalmava à medida que a sensação de perigo ia passando e eu ia lembrando que havia matado Érik. Eu me preparava para levantar e tirar as meninas do templo, mas algo não cheirava bem. Ou melhor, cheirava bem de mais. O perfume de rosas e grama recém cortada envolveu-me e eu pude sentir a grama fazendo meu peitoral coçar, prestando mais atenção comecei a ouvir o som de um riacho correndo ao longe e pássaros cantando ao meu redor. Senti falta de minhas roupas quando percebi que estava nu. Abri os olhos lentamente e notei as árvores cercando-me e se estendendo até a onde a vista alcançava.
– Precisa de ajuda? – A voz de Eduardo soou calma ao meu lado. Ele pôs as mãos em minhas axilas, ajudando-me a ficar de pé.
Ao olhá-lo percebi uma resplandecente armadura de Áries protegendo seu corpo, porém nenhum traço de batalha era notado em seu rosto que exibia um sorriso de orelha a orelha, ele segurava seu elmo entre a cintura e o antebraço e, aparentemente, esperava que eu dissesse alguma coisa.
– Por que cargas d’água eu estou sem roupa?! – Perguntei irritado.
Uma gargalhada começou a nascer em sua garganta até que explodiu boca afora fazendo vários pássaros levantarem voo, mas era completamente natural e ia me contagiando aos poucos, até que estávamos ambos rindo sem saber exatamente por que. Aquela risada foi minha libertação, de todo estresse, preocupação, tristeza e qualquer outro sentimento negativo que pudesse ainda estar me assolando.
– Tudo bem... – Disse à medida que o riso morria. – Onde eu estou, cara?
– Ah, meu filho é uma longa história... Vamos caminhar um pouco, sim?
Enquanto caminhávamos as árvores começavam a se afastar umas das outras até que chegamos ao fim da floresta que acabava no vale mais deslumbrante que já vira na vida.
Ao longe o sol se aproximava de uma verde e enorme montanha que parecia olhar para o lago de águas cristalinas à nossa frente. O gramado se estendia numa descida até transformar-se num pequeno punhado de areia que precedia as margens do lago onde duas figuras, aparentemente também nuas, encontravam-se lado a lado conversando, mas não eram as únicas ali. Várias pessoas conversavam, corriam ou tiravam um cochilo naquela região e, enquanto minha vista clareava, eu ia reconhecendo os rostos um por um, alguns dos quais me surpreenderam bastante.
As pessoas que estavam sentadas nas margens do lago eram Joyce e Dhiego, que conversavam animadamente. Mais atrás Rayssa atirava umas bolinhas vermelhas, que identifiquei sendo acerolas, num rapaz de longos cabelos negros. Meu estômago deu uma volta quando ele virou o rosto e o reconheci como Shiryu, antigo cavaleiro de Dragão. Mais a esquerda Jhon saboreava uma maçã, recostado numa das poucas árvores do ambiente e, na arvore ao lado, Miguel estava deitado cochilando. Laurinha acabara de emergir das águas do lago, dando gostosas gargalhadas, ao lado de um Seiya que gritava de dor.
Tudo aquilo era quase tão surreal pra mim quanto o rosto de dois dos cinco cavaleiros lendários.
Uma compreensão assustadoramente conformada esclareceu qualquer duvida que eu possa ter tido até então.
– Você está bem?
– Esses são os campos Elíseos, não são? Estamos mortos. É por isso que estamos todos nus. – Falei sorrindo esperando a confirmação de Eduardo.
– Eu e eles estamos sim. Mas você ainda não. Pelo menos não exatamente.
– Como assim? – Olhei assustado para meu amigo, notando pela primeira vez que, apesar de estar morto, não estava pelado.
– Existe Alguém que é dono de tudo isso. Alguém sábio que fez de mim o mensageiro. Você deve se lembrar dos acontecimentos dos anos oitenta, onde todos cavaleiros de ouro que haviam morrido e se aliaram à Hades num plano de conspiração para derrubá-lo, todos exceto um. Aioros de Sagitário não se uniu a seus demais companheiros mortos por ser o mensageiro daquela geração. Enfim... O Dono de tudo isso resolveu dar a você um último presente, Matheus.
– E que presente seria esse?
– Direito de escolha. – Ele não precisou dizer mais nada. Eu sabia que escolha estava sendo imposta a mim. Duas alternativas bem simples: morrer ou viver. – Mas, antes de sua decisão, foi concebida a mim a tarefa de te mostrar algumas coisas, uma delas é esses campos. Você tem o tempo que quiser e pode conversar com as pessoas, se quiser.
Desci devagar o pequeno morro em direção à árvore onde Jhon acenava para mim. Ao chegar lá ele me ofereceu uma maçã que eu aceitei sentando ao seu lado. E lá permanecemos até ter comido metade da fruta, quando Jhon quebrou o silencio.
– Me faz um favor?
– Prometo que vou tentar.
– Se você decidir voltar... – Ao que parece todos ali sabiam da decisão que eu devia tomar. — ... Fala pra Victon e Rafael que eu agradeço muito o que eles fizeram por mim no meu enterro, eu vi tudo... Eles vão saber do que eu estou falando.
Simplesmente fiz que sim com a cabeça abocanhando o que restava maçã. Levantei-me e segui para a margem do lago de onde Dhiego se levantava e corria até mim.
– Obrigado. – Disse, segurando minha mão, depois de me alcançar. – Se não fosse por você nada disso seria real.
Também não pude encontrar palavras para responder a isso, mais uma vez balancei em concordância e segui em frente. Com os cabelos molhados e o corpo ensopado Laurinha veio até mim e me abraçou. Por ser bem mais baixa que eu pude esconder meu rosto em seus cabelos. E assim ficamos até uma voz desconhecida chamar meu nome.
– Matheus... – A voz de Seiya de Pégaso era diferente de tudo que eu algum dia pude imaginar. A voz aguda e urgente que eu imaginava era na verdade uma voz grave e tranquila que transmitia, acima de qualquer coisa, segurança. Laurinha me soltou dando-me espaço para cumprimentá-lo.
– Seiya... – Foi tudo que consegui dizer.
– Vamos conversar. – Começamos a caminhar em volta do lago em silêncio até que Seiya parou e olhou para mim. – Parabéns. De verdade, você foi muito corajoso no Salão.
– Não tive alternativa.
– Teve sim. Athena estava salva, nada o impedia de pegar suas companheiras e sair de lá, mas você não o fez. Você ficou e terminou o serviço como um cavaleiro de verdade faria. Estou orgulhoso de você.
– Ainda é um pouco cedo pra falar de orgulho... – Falei, sentando-me na areia.
– Se está pensando em ficar aqui e viver conosco não precisa se preocupar – Havia um sorriso na sua voz e sua mão bagunçou meus cabelos. – Ninguém vai lhe julgar caso não queira voltar para a Terra. Todos aqui, não só eu, mas Shiryu, Hyoga, Shun, Ikki e o resto dos seus companheiros reconhecemos o nome e presença que você teve nessa batalha. Não é errado querer descanso.
Calei-me absorvendo o que acabara de ouvir. Todos estavam orgulhosos de mim e eu poderia descansar se quisesse. E porque não quereria?
– Matheus... – Mais uma vez uma voz chamou meu nome, era Eduardo. – Talvez devêssemos continuar a viagem.
Levantei-me e dei uma tapa no ombro de Seiya despedindo-me com um sorriso em agradecimento. Ele nada disse, apenas correu de volta para o ponto da margem onde Laurinha o esperava.
– Preparado? – Perguntou Eduardo e, após minha confirmação, disse: – Segure em meu ombro e feche os olhos.
Eu esperava pela sensação conhecida de tele transporte, onde parece que você está caindo, mas foi justamente ao contrário. Senti que nossos corpos começavam a levitar e iam cada vez mais alto depois de alguns segundos senti que alguma coisa cobria o meu corpo, uma túnica, talvez. O cheiro de fumaça e gasolina invadia meus sentidos e o som de carros indo e vindo começou a me incomodar.
– Abra os olhos. – Obedecendo ao comando de meu amigo pude ver a portaria de um hospital e em sua direção caminhava Carol e, na direção oposta, uma Lays completamente fora de si. Carol tentou alcançá-la gritando alguma coisa ininteligível, mas, sem responder a nenhuma das perguntas, Lays desapareceu. – Após seu desmaio do Salão de Apolo, Carol chegou e tirou você, Mariana e Lays de lá e os trouxe para este hospital, isso foi em torno de um mês, você está em coma aqui desde então.
“O que estamos vendo aconteceu há mais ou menos uma semana, Lays tinha acabado de receber a noticia de que os médicos iriam desligar seus aparelhos para que você pudesse descansar em paz. Feche os olhos mais uma vez.”
Sem dizer nada, obedeci. Dessa vez nós flutuamos devagar, mas em direção ao chão, até que meus pés sentirão o toque de uma cerâmica lisa e fria.
Ao abrir novamente os olhos e me vi no corredor de um hospital onde um grupo de pessoas se amontoava em frente a uma porta. Essas pessoas eram meus companheiros que sobreviveram a essa batalha, eles abriam caminho para que Lays passasse. A mesma, ao chegar à porta, abre-a e todos entraram.
– Estamos agora no presente. – Continuou Eduardo, enquanto andávamos em direção ao quarto. – Seus amigos vieram aqui para se despedir de você, pois os médicos desligarão os aparelhos hoje à noite, sua decisão deve ser tomada em torno de quatro horas, se até lá você não tiver chegado a uma conclusão não haverá mais escolha.
Atravessamos, literalmente, todos os cavaleiros e chegamos ao pé da minha cama, onde pude ver o estado horrível em que meu corpo se encontrava, Lays ajoelhou-se e segurou minha mão.
– Vocês podem nos deixar a sós, por favor? – Lays disse para o resto do pessoal que, um por um, saíram do quarto e, quando a porta bateu, ela continuou: – Amor... Eu preciso te falar uma coisa...
“Oi, meu amor. Hoje o dia foi meio vazio. Mesmo tão cheio de lágrimas. Acredita que eu cheguei ao ponto de não conseguir sorrir para minha irmã? Sabe, hoje eu percebi que não posso viver de lembranças, pelo simples fato delas serem perfeitas demais. Eu não sou o melhor exemplo em otimismo e nunca fui de ter esperança. Mas agora eu vivo disso. Estou tentando ao máximo alimentar-me de esperança, porque eu acredito em você. Você prometeu que nunca me machucaria, e eu acredito em você. Eu sei que tudo vai dar certo, porque você me prometeu. O nosso para sempre ainda existe, não existe? Eu sei que sim. Todos me acham uma tola por estar aqui te dizendo isso, mas eu não me importo. Porque eu sei, que em algum lugar você pode me ouvir. Eu sei que você me sente, onde quer que esteja. Eu sinto que de alguma forma, minhas palavras estão te tocando. Engraçado que eu nunca pensei que pudesse haver um adeus, e mesmo agora, enquanto te vejo assim, não posso acreditar. E talvez por isso, eu tenha deixado passar tantos e tantos momentos. Eu queria tanto voltar no tempo. Queria tanto voltar atrás e apagar cada vez que te magoei. Queria te olhar nos olhos e te dizer o quanto eu te amo. Acho que nunca consegui te dizer o quanto você me faz feliz e o quanto você me fez crescer. E talvez, você nunca saiba disso. E é isso que dói. Saber que eu perdi tanto tempo com bobagens, quando o que eu mais queria era te fazer a pessoa mais feliz do mundo. Eu acreditei que teria tempo para tudo isso. Eu sou uma boba por acreditar nisso. Como eu queria te dizer que você é dono de todos os meus sorrisos. Que sem você nada tem sentido. É egoísmo demais da minha parte te pedir que fique aqui? Se for, perdão. Mas eu não consigo seguir em frente sem você. Eu não posso. Eu não posso levantar a cabeça se não te tiver por perto. Como pode haver uma vida longe de você? E os nossos planos? E os nossos sonhos? E nós? Quem vai me abraçar e apagar todo o medo? Quem vai me consolar nos momentos de lágrimas? Por favor, me diga quem vai me chamar de pequena e vai arrancar tantos sorrisos? Eu daria o mundo para que você abrisse os olhos. Daria tudo o que sou e tudo o que tenho, por mais um sorriso teu. A única coisa que me mantém viva agora é o som do teu coração. Cada vez que ele pulsa, eu posso respirar com alivio. Mas a cada minuto fica mais difícil. Eu juro que estou tentando ser forte. Mas não dá. Eu só te peço, por favor, que não me deixe. Eu te peço com todas as poucas forças que me restam. Eu te imploro, com todo o amor que existe em mim. Não me deixe. Eu te amo, meu amor. Eu te amo de uma forma que você nunca poderá entender. E não suporto a ideia de viver sem você. Você é minha vida. E se isso for um adeus, eu quero que você saiba que me fez a pessoa mais feliz do mundo e que sempre guardarei o seu sorriso em mim. Porque ele me dá força. E caso eu nunca mais possa te dizer isso, eu te amei e continuarei te amando, durante cada dia. Fique. Isso é a única coisa que te peço. Para sempre. Você prometeu.
“E agora pode ser tarde demais para isso, mas dane-se. Esses dias eu encontrei no dicionário o significado da palavra amor. ‘Amor: Sentimento que induz a aproximar, a proteger ou a conservar a pessoa pela qual se sente afeição.’ E outras várias definições, que se tornam até ridículas. E eu comecei a rir. Ri porque parecia ridículo colocar isso em palavras. Porque se alguém me pedisse essa definição, eu daria o teu nome sem hesitar e falaria também de como você me ensinou a amar. Eu lhes diria que amar é crescer. Falaria de como você me fez enxergar o mundo com outros olhos. De como você colocou cor onde já não havia. Falaria do seu abraço, do que ele me causa. Falaria de nossas mãos entrelaçadas durante horas. Falaria também de como as horas tornam-se segundos na tua presença. Diria também que o amor é quando olho nos teus olhos e tenho medo que enxergue tanto amor. Então, lá vai minha definição de amor: Amor é agora, quando estou aqui, implorando a alguém que não me ouve, para que fique. Amar é lutar, mesmo sem forças, mesmo sem razão, até por uma causa que parece perdida. Amor é cada uma dessas lágrimas que derramo por você. É esse desespero que emoldura cada palavra. Amor é te pedir que não vá. Pedir que fique. Você é minha definição de amor.”
Um grito saiu do fundo da garganta e soluços compulsivos seguiram logo após.
Eu não precisava ouvir mais nada. Não importava o orgulho que Seiya sentia de mim, ou minha vontade de descansar. Eu tinha um motivo milhões de vezes mais nobre para ficar na Terra, independente de toda dor e sofrimento do mundo. E que estava agora, na minha frente, esperando meu retorno.
– Eu vou voltar. – Falei.
– Tem certeza disso?
– Nunca tive tanta certeza de alguma coisa em toda minha vida.
Eduardo então pôs polegar na minha testa e disse:
– Até a próxima, parceiro... Por questão de segurança você não vai lembrar-se de nada do que viu nos Elíseos.
– Por quê? – Falei, pensando na promessa que fiz a Jhon. O recado nunca seria dado.
– Seria uma confusão se as pessoas soubessem o real motivo pelo qual você voltou a vida. – Disse Eduardo.
– Então uma última duvida. – Ele esperou. – Quem é o Dono dos Elíseos que você falou antes?
– Alguém que está acima de qualquer criatura, humano, ou Olimpiano... – Disse ele com um sorriso brincalhão no rosto.
Fechando os olhos eu senti o polegar de Eduardo fazendo pressão contra a minha testa e apaguei.
Lays de Virgem.
“Porque ele não acorda?”
Foi a primeira coisa que Lays pensou depois de respirar um pouco e tentou, inutilmente, enxugar as lágrimas que não paravam de sair.
Mas já era de se esperar. Ele estava praticamente morto, não havia chances dele ter ouvido seu pedido, de jeito nenhum.
Lays se preparava para sair do quarto e voltar para a solidão da casa de Virgem quando um som chamou sua atenção. Era um bip que já estava presente na sala desde que havia entrado, mas agora estava diferente. Cada vez mais rápido e frequente até que o impossível aconteceu.
A mão de Matheus começou a apertar a sua com força e seu peito subia e descia com velocidade enquanto seus olhos se abriam devagar.
– Meu amor! – Gritou Lays sentando-se na cama e enxugando o suor da testa do rapaz. – Fala comigo, o que você está sentindo?!
Suas pupilas diminuíam aos poucos, sinalizando que sua visão começava a entrar em foco, até que ele olho diretamente para ela. E assim permaneceu. Até que um sorriso torto se formou em sua boca.
A explosão de felicidade e alivio invadiu mais uma vez pelos seus olhos em forma de lágrimas, diferentes das lágrimas derramadas durante toda a semana. Ele viveria. Era só isso que importava nesse momento.
– Estamos a salvo? – Perguntou ele com a voz fraca.
– Sim, estamos – Disse ela, percebendo que o mês havia passado para o resto do mundo, mas não para ele. – Vai ficar tudo bem, você derrotou Apolo.
– Que bom... – O sorriso não saia de seu rosto. – Amor... Eu preciso dizer uma coisa...
– Pode dizer, anjo... Qualquer coisa.
– Quer namorar comigo?
Epílogo.
Matheus de Aquário.
Como era bom estar em casa.
Depois de tudo que havia se passado no Santuário e no Salão de Apolo era bom ter o calor do sol no seu rosto sem se preocupar em morrer por causa disso. Também era bom ver seus parentes e amigos lhe desejando boas-vindas e ver a felicidade estampada em seus rostos por seu retorno.
Infelizmente aquela não era hora nem lugar para demonstrar tal felicidade. Uma semana depois de os médicos me darem alta, perplexos e sem saber explicar aonde foi parar meu câncer de pele, nós estávamos no Parque Anjo da Guarda celebrando a missa de um mês de falecido dos nossos companheiros de batalha.
Eu usava terno e gravata pretos e, ao meu lado, minha namorada trajava um vestido e sapatilhas também pretos, ela abraçava meu braço enquanto o padre falava sobre cada um dos rapazes e moças que à um mês haviam partido.
Alguns minutos depois todos saíamos da salinha reservada para as celebrações quando uma figura alta com enormes cabelos brancos chamou minha atenção. Ela se recostava nas grades leste do parque, que ficava próxima a algumas covas e olhava para mim. Demorei a perceber que ali se encontrava o Mestre do santuário, talvez eu nunca me acostumasse a vê-lo sem sua tradicional túnica branca que o cobria por inteiro dos pés ao pescoço.
Despedindo-me de uma relutante Lays, fui em direção ao senhor que me recebeu com o firme aperto de mão.
– Bom vê-lo outra vez, Aquário.
– Não sei se posso dizer o mesmo, Mestre... – Falei com um pouco de sarcasmo na voz.
– Como assim?! – É. Ele pareceu realmente indignado ao ouvir isso.
– É que sempre que eu o vejo algo de ruim acontece, geralmente o mundo está prestes a acabar, e o senhor bem sabe que não é só força de expressão.
– Não se preocupe... – Disse ele em meio a risos. – Não é nada disso. Vim fazer uma convocatória, mas não para a guerra. – Fiz que sim com a cabeça pedindo-o para continuar. – Agora que nós descobrimos a portadora temos que lavá-la ao Santuário para um treinamento apropriado. Você e o restante dos cavaleiros também têm que vir.
– Vamos ter que nos mudar para a Grécia? – Perguntei, surpreso.
– E pra ontem. Vocês têm um prazo de um mês.
– Bom, vou falar com os outros e estaremos todos lá daqui a um mês, prometo. Mas isso significa que temos que falar com nossas famílias, certo?
– Não tem problema, eles vão se convencer facilmente quando mostrarem as armaduras. – Disse ele, pensando um pouco a respeito.
– Não vai ser tão simples para mim. Minha mãe quase me perdeu uma vez, agora imagine só a cara dela quando disser que vou me mudar para a Grécia. Ela vai surtar.
– Ela vai se convencer no fim das contas. – Disse ele. – Agora eu preciso ir.
Ele brilhou e sumiu, deixando-me absorto em meus próprios pensamentos.
O quão difícil seria convencer meus pais a cederem ao meu senso de dever? E os pais de Lays e Larissa? Seria assim tão fácil para eles abrirem mão de uma filha de sete anos?
Bom, essas perguntas não precisavam de resposta imediata então liguei o modo “jeitinho brasileiro” no meu cérebro, pois, a minha frente, a garota mais incrível do mundo me esperava de braços abertos. E era só isso que eu precisava saber.
Tempos de paz estavam prestes a vir.
Infelizmente um leve ardor vindo da minha cicatriz no ombro esquerdo estava lá para me provar que era apenas temporário.
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