São Petersburgo, Rússia, 1918

─ Não saia daí, eu volto para te buscar.

Essa era uma promessa que ela jamais poderia cumprir. Ele não sabia, mas aquela seria a última vez que ele a veria.

A porta se fechou, e a escuridão o engoliu. Ele se comprimiu no pequeno espaço e ficou escutando. De fora do armário, vinha o som ritmado de explosões e gritos...

Muitos gritos.

Uma luz incidia por uma fresta da porta do armário, e ele percebeu quando a névoa branca começou a entrar no recinto apertado e escuro. Havia fumaça por toda parte e ela começava a tomar conta do lugar.

Logo começou a ficar difícil de respirar. Cada inspiração queimava lhe o sistema respiratório, como se inspirasse brasas. A fumaça agredia seus pulmões e garganta. A tosse veio em seguida. Ele tentou controlá-la, mas em vão. Não sabia bem o porquê, mas pressentia que precisava ficar em silencio.

O medo logo tomou forma, lançando calafrios que faziam todo seu corpo tremer. O espaço do armário parecia diminuir a cada segundo, o comprimindo em uma escuridão sufocante e desesperadora.

Ele não conseguia enxergar nada, apenas escutava a gritaria do lado de fora, sucedida de estrondos ensurdecedores, que o enchiam de pavor. Ele começou a sentir uma tontura forte, a grande quantidade de fumaça que inalava a cada segundo já começava a surtir efeito, ele estava prestes a desmaiar. A cabeça parecia pesar uma tonelada.

A falta de ar aumentava conforme todo o lugar era tomado pela fumaça e pelo calor, a luz branca que entrava pela fresta se tornou alaranjada. O fogo começava a consumir tudo.

Seus olhos ardiam e ele previa que iria desmaiar a qualquer instante, quando a porta do armário foi aberta e lançou uma luz forte que cegou seus olhos por um momento. Sua visão tinha se transformado em um borrão e ele não conseguiu distinguirá a silhueta que contrastando com a luz intensa e alaranjada do fundo, era emoldurada pelo batente da porta.

As lágrimas produzidas pelo calor, o impediam de identificar o dono da silhueta, que estendeu uma mão pesada e o puxando com força para fora do armário o fez bater a cabeça com força no portal.

Do lado de fora do armário, ele percebeu que as explosões haviam cessado e os gritos tinham se transformado em grandes lamentos de dor e misericórdia, mas o fogo consumia tudo que estava em seu caminho, desde as tapeçarias estendidas nas paredes até os móveis de mogno trabalhado, enquanto o corredor era tomado por grandes labaredas vermelhas e laranjas.

Ele sentiu o sangue quente e espesso molhar seus cabelos e escorrer por seu rosto, antes de imergir na mais completa escuridão e desmaiar.