Os Aventureiros de Aurora

Capítulo 09

Fora bem sucedido em todos os testes que tivera ao fim do módulo teórico do curso de Levidação. Mesmo tendo certeza de que havia errado algumas questões que foram marcadas como corretas. Adendo que acreditara vir de Paraxis, o professor passou a agir de forma estranha depois do ocorrido entre eles, mesmo que tivessem feito uma única vez.

Ryoha acabou fechando como o melhor aluno da turma, não graças a estranha ajuda de Paraxis, pelas suas contas, continuaria no topo da lista mesmo que ele não tivesse considerado suas questões erradas como corretas. A única coisa que o professor conseguira com aquela atitude fora aumentar os comentários de alguns sobre sua “genialidade”, por ter gabaritado todas as provas, e de outros, — especificamente Kairon e Enon — sobre existir um possível caso proibido entre ele e seu professor. Rumor baseado na única visita que Paraxis fizera ao seu dormitório. Apesar de que o fato fora aumentando em algumas frações de vezes e os comentários aleatórios que ouvira era que Paraxis o visitava todas as noites desde que começara o curso e até dormia em seu quarto.

Não que Ryoha se preocupasse com aqueles boatos, seu foco estava muito além daquele mundo pequeno em que aquelas pessoas viviam.

Assim, o último dia de aulas teóricas chegou.

— Bem, é com grande alegria que parabenizo todos os senhores por passarem no módulo teórico do curso de Levidação — anunciou Paraxis à frente da sala, o projetor holográfico desenhando ao seu lado a palavra “Parabéns” enquanto minis dragões voavam lançando suas chamas em torno da palavra.

Apesar do anúncio empolgado, nenhum dos alunos se manifestou e o professor soltou um suspiro resignado, ajeitando os óculos no rosto e imaginando que era muito mais divertido dar aula para crianças. Todos ali eram adultos, conhecedores de suas habilidades e apesar de alguns terem passado com mais méritos que outros, aquela não era uma novidade.

Limpou a garganta com um pigarro e resolveu dar continuidade ao protocolo.

— Ok. Daqui três dias os senhores darão início a parte prática do curso de Levidação.

Paraxis acionou um dispositivo no seu apontador e a imagem reproduzida no centro da sala mudou para uma lista com fotos dos próprios alunos. A lista estava ordenada de acordo com a numeração disposta na frente de cada nome.

— Como podem ver, disposto no holograma, constam a soma final das avaliações que os senhores tiveram e a ordem de colocação de cada um. Agora vocês devem estar se perguntando o que a ordem de classificação interessa, já que todos passaram? Bem, como poucos leem a programação do curso, alguns de vocês não sabem, mas a escolha de instrutores é liberada de acordo com a colocação final do módulo teórico.

Mais uma vez Paraxis acionou um dispositivo em seu apontador e outro quadro surgiu no holograma, ao lado do primeiro, agora mostrando vários rostos diferentes.

— O primeiro da lista — continuou ele, se voltando para o grupo de alunos. — ou seja, o mais bem pontuado da sala, terá direito de escolher o seu instrutor de voo primeiro. O curso de Levidação aceita poucos alunos por vez, exatamente pela quantidade mínima de instrutores de voo disponível. Afinal, exceto pela aula de apresentação, todas as demais do curso prático serão individuais.

Finalmente Paraxis teve dos seus alunos uma reação a qual considerou mais apropriada: murmúrios encheram a sala ao concluir aquela parte da explicação. Parecia que agora os alunos compreendiam a necessidade da pontuação e avaliavam seus resultados no holograma, enquanto conversavam entre eles.

Diferente do restante da turma, Ryoha continuava com as mãos entrelaçadas uma na outra, os cotovelos sobre a mesa e o rosto apoiado sobre as mãos, enquanto os olhos se mantinham atentos a lista reproduzida no centro da sala. Paraxis imaginava que o seu aluno prodígio sabia sobre aquela informação, e avaliava qual dos instrutores listados na imagem seria a melhor escolha, tendo em mente que ele seria o primeiro a escolher.

— Continuando — ele disse, apontando para a tela holográfica. — Para facilitar a escolha dos senhores, na imagem reproduzida, os instrutores estão listados por indicie de aprovação, do maior para o menor. Abaixo do nome deles, a numeração informada, se refere a quantidade de horas voo. Todas essas informações e outras que a Academia acredita serem pertinentes estão disponíveis para serem acessadas através dos decters dos senhores. O Grande..., digo, o primeiro colocado da lista terá um prazo máximo de seis horas para fazer sua escolha a partir desse instante. Assim que o primeiro colocado fizer e confirmar sua escolha, a liberação será feita automaticamente para o próximo da lista que receberá uma mensagem em seu decter. Mas peço que usem todo o tempo necessário para...

Um barulho de conexão interrompeu a explicação de Paraxis. Todos os presentes se espantaram ao notar a imagem de um dos instrutores, o qual estava quase no final da lista, ser selecionada e subir na lista, parando ao lado da imagem de Ryoha. A seleção moldou uma faixa verde em torno dos dois e a informação: “instrutor escolhido e confirmado” surgiu em letras redondas e garrafais. Na sequência a mensagem se dissolveu para dar lugar a outra: “próximo da lista liberado para escolha: seu prazo é de três horas”.

Depois disso, Ryoha se levantou, propagando um barulho alto ao arrastar mesa e cadeira no chão na sala em silêncio. Então andou calmamente pelo corredor, abriu a porta e saiu sem dizer uma única palavra. Não se importando em deixar Paraxis e os demais colegas com ar de aparvalhados para trás.

Mais tarde, Paraxis foi ao quarto do aluno, procurando por justificativas de suas ações, mesmo que já soubesse o quanto era complicado entender a mente de Ryoha.

— Qual é seu problema, Ryoha?

— Não sei por que todos acham que tenho um problema — comentou ele indiferente, sentado rente a escrivaninha, de costa para o professor que havia acabado de invadir seu quarto sem bater e ofegava atrás dele.

Estava mais preocupado com as informações que acessava no banco de dados holográficos no seu Decter.

— Porque simplesmente não é normal agir da forma como você age! Você sequer esperou eu concluir a explicação para ir fazendo sua escolha. Você tinha ouvido o que eu falei? Que a lista estava por ...

— Por ordem de índice de aprovação — interrompeu Ryoha, concluindo a informação do professor com um tom de voz alternando para o impaciente. Depois cruzou os braços sobre o peito e girou na cadeira, encarando o professor com o cenho franzido. — Desde que meu clã foi extinto tudo que tenho feito na minha vida é pensar, Paraxis. Pensar, repensar, planejar, trabalhar, reformular as estratégias, tudo para alcançar um único e maior objetivo. Você sabe disso. Acha mesmo que tomo minhas decisões de forma aleatória?

O professor engoliu em seco, mais por ter os olhos negros de Ryoha encarando-o de forma tão dura, do que pela observação feita por ele.

— Então, por que... você...

— Escolhi um instrutor que tem um dos piores índices de aprovação? Pense, Paraxis. Eu não estou aqui atrás de títulos, nem para ser somente aprovado. Eu me esforcei para tirar as melhores notas no seu módulo porque sabia que elas me dariam a vantagem de escolher meu instrutor primeiro. Eu venho estudando o histórico de todos àqueles instrutores há muito tempo; minha decisão estava tomada antes mesmo de me formar um Domador, antes de sair do ensino básico aqui em Dragaria. Só precisei me manter atualizado e reafirmar minha decisão levando em consideração os novos instrutores que foram surgindo. Sei que temos outros prodígios, mas Kahran é justamente o que preciso. Ele pode ter índices baixos de aprovação, mas é o instrutor com maior número de horas voo hoje em Dragaria, além de ter sido levidador do Conselho de Erix por dez anos. Seu rigor é justificável: o critério de aprovação de Kahran é alto porque ele só aprova seu aprendiz por mérito, quando ele tem certeza que este se tornou um levidador de verdade.

Desta vez fora o olhar de Paraxis que se endureceu. Imaginava que seu aluno estivesse mesmo agindo em função de seus próprios objetivos, mas sentiu-se diminuído pelo fato de Ryoha inflar-se todo para pontuar as qualidades de Kahran quando sequer o conhecia pessoalmente. Principalmente ao que se referia ao quesito “rigor”, quando ele, Paraxis, agira com total falta de ética ao levar em consideração seus sentimentos pelo rapaz para beneficiá-lo e fazer dele o melhor da turma mesmo sabendo que Ryoha alcançaria tal patamar por mérito próprio.

Não conseguiu evitar a vergonha. E aquela informação que tinha sobre Kahran, mesmo sendo sigilosa, simplesmente deixou sua boca como se tivesse vida própria.

— Mas, tenho absoluta certeza, Ryoha, que essas suas pesquisas não apontaram que Kahran não é criterioso somente por ter sido Levidador do Conselho por dez anos, ou ter o maior número de horas voo da academia. Na verdade ele é assim por ser um cara amargo e rancoroso, porque a vida lhe tirou coisas importantes e ele não foi maduro suficiente para superar. Aliás, você sabe por que Kahran se aposentou do Conselho para se tornar instrutor em pleno auge da carreira?

Ryoha continuou encarando Paraxis por mais alguns segundos em silêncio, não sabia exatamente onde o professor queria chegar, mas deu de ombros, respondendo algo qualquer.

— Escolha própria?

Paraxis deu uma alta e maldosa risada, quando se acalmou, ajeitou os óculos no rosto, suspirou fundo e finalmente explicou:

— Na verdade, não é algo para rir. Kahran sofreu um acidente em pleno voo, não há detalhes de como aconteceu. Ele passou por inúmeras cirurgias, reabilitação, fisioterapia, tentou métodos alternativos, mas nada. Nada foi eficaz. O acidente que ele teve foi fatal e o aleijou para sempre.

Aquela informação pegou Ryoha de surpresa. Havia estudado Kahran somente pelas informações disponíveis na rede, mas nenhuma dessas informações relataram algo tão drástico. Descruzou os braços.

— Nunca ouvi nada sobre isso, Paraxis.

— Claro que não ouviu. O próprio Kahran fez um pedido formal ao governador para que o caso fosse abafado. Tendo em vista o tempo de serviços prestados ao Conselho e o fato de que ele sofrera o acidente em exercício de suas funções, o parecer ao pedido foi unanimemente favorável. Também acredito que Kahran fez essa solicitação por ser orgulhoso em demasia e acreditar que seria visto com olhares de pena e repulsa, caso admiradores como você, Ryoha, soubessem dessa informação. Se você tivesse falado comigo antes de tomar a decisão de forma precipitada, só para fazer aquela ceninha ridícula de agora pouco na sala, eu o teria alertado. Mas, no fundo, Kahran se parece com alguém orgulhoso que conheço. Talvez vocês dois se deem bem no final. Boa sorte, Ryoha — desejou o professor, virando as costas e caminhando em direção da porta que havia deixado aberta.

— Espere um minuto, Parax-.... — A porta bateu.

Ryoha voltou-se para escrivaninha, batendo o punho fechado sobre ela.

— Tsc.

Observou a imagem holográfica reproduzida pelo seu decter tremular. Não costumava cometer aquele tipo de falhas, mas também não tinha como ter levado em consideração uma informação que fora maquiada. Mas uma coisa não podia negar, mutilado ou não, os números não costumavam mentir, Kahran ainda era o instrutor de Dragaria com um número de voo surpreendente. Precisava se apegar aquela esperança.

...

Depois que os coletores levaram o Largrador e os pontos pela missão concluída foram acrescentadas ao registro de ambos aventureiros, Derill e Cristal resolveram fazer uma pausa para descanso antes de selecionarem a próxima missão.

Bastou que ultrapassassem os portões de Sira e foram recepcionados pelo o som alto de tambores em um ritmo frenético, além de conversas e risadas altas. A vila estava toda iluminada, havia uma fogueira enorme crepitando mais a diante, soltando faíscas multicoloridas que se erguiam para o céu noturno. Tinha inúmeras barracas na praça, pessoas amontoadas, crianças correndo, gente dançando, além do aroma delicioso de assado que estava espalhado no ar.

— Uau! — exclamou Derill colocando a mão aberta sobre a testa, tentando enxergar mais à frente. — Eu achava que um clã de caçadores fosse mórbido. Imaginei um lugar frio, sombrio, obscuro, silencioso, cercado por uma névoa branca e povoado por pessoas que se escondiam com capuzes e mantos negros.

— Não viaja, Tiozão — pediu Cristal, que vinha sentado no traseiro do Touro-Montanhês, de pernas e braços cruzados, e de costas para o seu domador, que fizera questão de vir montado no touro depois que o capturaram. — O clã Sira é muito festeiro. Sempre arrumam motivos para comemorarem. Certo que hoje é alguma data especial.

— O que será que eles estão comemorando?

— Não faço ideia. Mas vamos nos aproximar rápido, o cheiro de comida está maravilhoso!

— Concordo em número, gênero e grau, minha pequena fada! Em frente, Chifrudo! — bradou o homem, batendo com os calcanhares nas costelas do touro que soltou uma espécie de mugido e arrancou de repente, fazendo Cristal se desequilibrar, cair no chão e ficar no caminho.

Pacientemente o rapaz fada se levantou, bateu a poeira da parte detrás da sua vestimenta, e só então estreitou seus olhos claros, observando o rastro de poeira deixado por seu domador e seu novo “bichinho” de estimação. Suspirou fundo, ergueu o braço em punho e gritou:

— Agora você anda rápido, Chifrudo, seu desgraçado! Esperem por mim!! — esbravejou, ativando o encantamento Baccara para reduzir de tamanho, e voou em velocidade máxima para alcançar os dois.

O clima era mesmo de festa dentro do clã, mesa farta no centro da aldeia, com vários tipos de comida e bebida expostas sobre ela. A carne assava na brasa, e todos os moradores do lugar pareciam estar ali comendo e bebendo. Derill foi saudado por Sora assim que desceu do touro.

— Grande Sora! — saudou o domador.

— Grande Derill! — repediu a saudação o líder do clã. — Mas que novidade é essa, homem?

O líder do clã apontou para o animal que tinha o físico parecido com o dos cavalos, mas que tinha proporções bem maiores que um, um cavalo adulto perto de um Touro-Montanhês parecia um pônei. A altura era ainda maior devido ao pescoço alongado e os chifres na cabeça.

Derill segurou o animal pelas rédeas improvisadas e puxou-o devagar para que ambos se aproximassem do líder de Sira. Cumprimentou Sora com um aperto forte de mão e o soltou, para acariciar o pescoço do animal, explicando:

— Estávamos em Valrix e não resisti quando vi uma manada dessas belezinhas. Sempre quis ter um desses quando criança.

— Você gosta mesmo de animais de grande porte, Derill.

— Não tanto quando minha pequena fada vindo aí atrás. Se ele pudesse, adotaria todos os dragões de Aurora.

Os dois homens gargalharam em concordância e o pequeno foco de luz azul brilhante se desfez ao aproximar-se dos dois homens. Cristal ganhou seu tamanho normal e mesmo ofegante passou a esbravejar com seu domador.

— Qualé a sua, tiozão? Por que me deixou pra trás, meu?

— Seja bem vindo de volta, Cristal.

— Tio Sora! Tudo bem?

— Sim, bem. E parece que você também. Vejo que está se dando muito bem com seu novo domador.

O rosto de Cristal ficou vermelho, mas ele não quis negar a informação.

— Não exagere, Tio Sora — respondeu ele, fazendo um bico com os lábios. — Ele só não é tão ruim quanto esse tamanho todo fazia parecer.

Derill gargalhou e repousou a mão sobre a cabeça do seu Alfa.

— Não fique tímido, meu menino.

— Pare de bagunçar meu cabelo, Tiozão — gritou ele, espanando a mão pesada de Derill de cima da sua cabeça e tentando alinhar de volta para cima os fios azuis do seu cabelo. — Dá um baita trabalhão colocar tudo pra cima e vem você com essa mãozona cheia de dedos e amassa tudo de volta!

O homem gargalhou novamente.

— Ah, essa nova geração de garotos que estão mais vaidosos que as mulheres. Depois ainda reclama de quando eu o chamo de “minha pequena fada”.

— Uma coisa não tem nada a ver com a outra!

— Deixem para brigarem mais tarde, rapazes. Vamos, aproximem-se, o clã está em festa, é aniversário de Mya.

O homem apontou para o centro da festa e pediu para que os visitantes o acompanhasse; seguiram caminhando.

— Sua filha mais nova?

— Só tenho ela, Derill.

— Ué, e o garoto do clã Edo?

— Ah, é verdade. Se for contar todos os filhos adotivos que tenho, aí terei que incluir metade do meu clã ­— o homem riu ao fazer aquela observação. — Mas Ryoha é mais novo que Mya. Então, de qualquer forma, ela não seria minha caçula.

— É aniversário da Mya, Tio Sora? — perguntou Cristal, entrando em polvorosa. — Eu não sabia! Nem trouxe nada!

— Se olhasse seu perfil na rede social através do decter de vez em quando não ficaria tão desatualizado, minha fada.

— Merda, merda! E agora? — Cristal coçou a cabeça, bagunçando ele próprio o cabelo que havia acabado de arrumar. — Apesar de que — ele parou, e olhou o touro que era puxado por Derill. — Temos um presente bem aqui! Que tal isso! — ele apontou para o touro que mugiu alto em resposta.

— Ei, moleque, que tal capturar seus próprios presentes? O Chifrudo é meu!

— Mas eu o ajudei a capturá-lo, ele é meu também!

— E o que aconteceu com presentes mais típicos como “flores”, “doces” e “joias”? Por que você acha que uma garota vai querer um Touro-Montanhês?

— Você não conhece a Mya, Tiozão.

Sora suspirou fundo.

— Começaram de novo. Acho que o problema não era o Ryoha afinal...

— Quê, tio Sora?

— Cris, você veio!

Domador e Alfa pararam de discutir quando o foco de luz lilás se dissipou e a fairy de Mya surgiu em seu tamanho normal, cumprimentando Cristal com um abraço.

O que Cristal não esperava era ser abraçado de repente por alguém vestindo tão pouca roupa e acabou ficando ruborizado com a ação da amiga.

— Ha- Hari, que trajes são esses?

— De banho, ora — a Alfa justificou, se afastando de Cris e dando uma volta para que seu traje fosse visto de maneira completa.

Sem notar que havia despertado o olhar canibal do domador do amigo.

Hariza vestia a parte de cima de um biquíni verde e a saída de banho curta tinha uma estampa floral e estava enrolada na sua cintura. Mas o tecido da saída de banho era fino e quase transparente e delineava perfeitamente o biquíni por baixo dela.

— Coisa de garotas, rapazes — Sora explicou diante dos olhares de perplexidade dos aventureiros recém-chegados. — Mya insistiu que queria uma festa na praia, mas como estamos longe da região praieira, improvisamos uma piscina no quintal de casa. Venham, venham.

Derill não teve nem tempo de levantar informações sobre Hariza com Cristal quando seus olhos simplesmente vislumbraram o que acreditava existir de mais perfeito na raça humana: uma jovem garota, com atributos femininos bem desenvolvidos e em roupas mínimas.

Mya, a única filha de Sora, veio ao encontro do grupo com os seios volumosos ajustados e parcialmente amostra na minúscula parte de cima da roupa de banho que ela vestia. Os seios praticamente dançavam de um lado para o outro conforme o andar meticuloso da jovem, como se fossem pêndulos a hipnotizar o olhar de Derill que até entreabriu os lábios.

O domador foi totalmente dominado pela inveja quando, da mesma forma que Hariza, Mya recepcionou Cristal com um abraço caloroso fazendo seus redondos atributos roçarem no corpo dele.

Sora apenas balançou a cabeça negativamente e saiu de perto. Havia se tornado um homem liberal por obrigação, já que não tinha como dizer “não” aos caprichos de Mya, sua única herdeira. Mas ainda era pai e ver marmanjos salivando diante da beleza da sua filha era algo difícil de engolir.

— Fiquem a vontade. E, minha filha, cubra-se um pouco, pelo amor de todos os deuses de Aurora, você está quase nua.

Mya voltou-se para o pai, que se retirava, apoiando ambas as mãos na cintura, sem se preocupar com o sobressalto que causou nos outros dois homens atrás dela ao se depararem com a imagem da deslumbrante filha do líder do clã Sora vestida com um minúsculo fio dental.

— Pai, vou tomar banho coberta? — resmungou ela. — Oie, lógica, te conheço?

Sora apenas suspirou mais fundo e continuou em seu caminho.

A filha, ao perceber que o pai não havia lhe dado a mínima, voltou-se emburrada para os dois aventureiros, notando-os com os rostos vermelhos e uma expressão de abobalhados na face. Expressão a qual ela conhecia muito bem e se divertia em provocar, decidiu atiçá-los um pouco mais.

— Não imaginavam que viriam, meninos — ela se pôs provocante entre eles, ficando mais ereta, fazendo o busto amostra pular, então jogou os braços sobre os ombros deles e sorriu, procurando saber: — E meu presente?

— Como nós não viríamos no aniversário da mais bela das beldades humanas da atualidade! — exclamou Derill, fazendo Cristal arquear uma das sobrancelhas. — Fizemos questão de madrugar para capturarmos essa belezinha exclusivamente para você, minha cara — ele apontou o touro e segurou a moça pela cintura descoberta, fazendo-a andar até ficar de frente ao animal que estava ao lado dele.

Como se o bicho fosse capaz de entender, este elevou a cabeça em uma pose altiva.

— Jura? É para mim? Uau! Papai nunca me deu um Touro-Montanhês antes — exclamou ela, passando a acariciar o pescoço do animal, que empinou mais o grande focinho.

— Ei, ei, tiozão — Cristal cutucou seu domador. — Você não estava dizendo agora pouco que...

— Shh! — O homem interrompeu Cristal, cortando o que sabia que ele iria dizer. — Mimar lindas mulheres estará sempre em primeiro lugar na vida de um homem, minha pequena fada, grave isso — explicou ele, piscando um dos seus olhos castanhos para o garoto. — Depois voltamos a Valrix e capturaremos outro touro para nós.

Mya tentava subir nas costas do animal e Derill decidiu dar-lhe uma mão, segurando-a pela cintura e elevando-a sem dificuldade nenhuma para cima do lombo do animal.

— Que tal?

— Nossa! A vista é incrível. Eles são muito altos — exclamou ela. — Posso mesmo ficar com ele, aventureiro?

— O Chifrudo já é seu, minha beldade.

— Chifrudo... Não gostei muito desse nome. Que tal: Thor?

O animal trotou na terra, batendo as patas e abrangendo ainda mais a pose.

— Acho que esse safado está gostando — resmungou Derill para Cristal.

— Eu não acho, tenho certeza, tiozão.

— Você gostou do seu novo nome, Thor? — ela perguntou, acariciando a lateral do pescoço do touro. Que pareceu gostar do carinho e soltou um novo som, emitido pela boca e nariz, algo parecido com um relincho. — Ótimo, ótimo, vamos tentar cavalgar juntos então.

— Você pode precisar de ajuda, minha cara — falou Derill, com uma ideia brilhando em sua mente. — Irei com você para guiá-la nessa primeira cavalgada já que esses animais costumam ser arredios a princípio e...

— Não precisa — Mya cortou o discurso do homem e estendeu a mão para Hariza que até então só observava. — Vem, Hari.

A dupla de aventureiros se voltou no mesmo instante para fada de Mya que estava ao lado de Cristal e parecia relutar.

— Hari?

Cristal observou a colega de vila e de profissão, notando que havia algo de diferente nela. Hariza parecia um pouco retraída, quieta, algo que não era muito do feitio da fada, então firmou a mão no ombro dela e fez um meneio positivo de cabeça.

— Vai lá, Hari.

Hari assentiu, emitindo um sorriso forçado para Cristal, então afastou-se do toque dele e aproximou-se da sua domadora, apanhando a mão que ela lhe oferecia. Em um gesto automático, Derill agiu rápido e também segurou a fada pela cintura, erguendo-a para acomodá-la no espaço que Mya havia deixado na frente dela. Então a jovem morena entregou as rédeas para controlar o animal nas mãos da fada, e envolveu a cintura dela de forma estranhamente sensual, fazendo questão de encostar seu corpo e seus seios as costas dela.

— Está no controle agora, Hari. Comande.

Com o rosto ruborizado, e um sorriso mais confiante no rosto, Hari assentiu, batendo com os calcanhares na lateral do animal e comandando no dialeto das tribos nômades de Valrix.

— Riar, Thor! Riar!

E o animal saiu em disparada com as duas mulheres sobre seu lombo.

— Não imaginava que a Hari estava cavalgando tão bem — comentou Cristal, mas não teve resposta de Derill que parecia em outro plano dimensional. — Ei, tiozão, falei com você! — exclamou, balançando a mão diante do rosto dele. — Ih, está desconectado para bate-papo no momento.

— Quanta beleza e sensualidade — suspirou ele.

— Limpa a baba aí, Tiozão. Tá escorrendo pelo canto da boca.

O homem passou o punho fechado na boca e gargalhou alto, coçando a cabeça.

— Bora festejar, minha fada! Hoje é dia de beber e comemorar com o clã Sira!

— Ei, ei, Tiozão, não vai encher a cara, viu? Precisamos estar de pé amanhã cedo para pegar a estrada de volta para Erix, ouviu?

— Sim, sim, claro que ouvi. Mulheres de Sira, vejam quem chegou.

Cristal revirou os olhos.

— Ai, ai.

....

Havia pensado em inúmeras possibilidades de desfazer sua escolha caso os apontamentos de Paraxis fossem reais.

Leu todos os manuais e editais do curso de Levidação e até de outros cursos de Dragaria. Pesquisou por situações parecidas com as suas, de alunos que pediram troca de instrutor antes do início das aulas práticas ou no percurso das mesmas. Descobriu vários casos idênticos, mas em nenhum deles houve deferimento do pedido. A justificativa era sempre a mesma: que o tempo dado para a escolha era o tempo necessário para o aluno pensar, repensar, desistir, fazer uma nova escolha, desistir dessa nova escolha, refazê-la. No entanto, depois da seleção feita e confirmada, não havia mais retorno a não ser desistir do curso e recomeçá-lo. Mas se fosse recomeçar, teria que fazê-lo em uma nova turma, a qual abriria somente no ano seguinte. Perder mais um ano esperando estava fora de cogitação.

Pensou que poderia usar suas economias e de repente pagar um instrutor particular, mas ficou perplexo com o resultado da sua busca. Apesar de ter imaginado que seria daquela forma: era contra a lei a instrução de Levidação fora de instituições regulamentadas pelo Conselho. E no momento a única instituição aberta ao público era Dragaria.

Tudo porque dragões nunca foram considerados animais domesticáveis e os únicos capazes de lidar com eles eram os próprios domadores formados em Dragaria e regulamentados (e ainda em atividade) pelo Conselho. Domadores aposentados ou em outras funções só podiam lidar com dragões caso obtivessem uma licença especial do Conselho. Estava começando a se incomodar com as leis aprovadas em Valdoura.

A única opção que encontrou, mas que não garantia a troca de instrutor, seria um afastamento temporário. Dependendo da gravidade e, do motivo do afastamento, teria as aulas suspensas e poderia retomá-las ainda naquele ano.

Caso o instrutor escolhido não estivesse disponível, poderia tentar negociar com outros. Porém, leu sobre um dos alunos de Kahran que contraiu uma doença alérgica e teve que ficar em tratamento por oito semanas, mesmo assim, quando ele retornou, Kahran fez questão de ser seu instrutor e ainda reprová-lo ao término das aulas.

Suspirou fundo, fechou os olhos por um instante e massageou as pálpebras fechadas. Seria obrigado a fazer sua escolha valer a pena.

Apoiou as mãos sobre a bancada de estudos, impulsionou seu corpo para trás empurrando a cadeira e ergueu-se. Esticou os braços, fez um breve alongamento girando o corpo de um lado pro outro e só no processo percebeu a biblioteca totalmente vazia, havia até poucas luminárias acesas.

Ainda de pé, desconectou os acervos holográficos que estava pesquisando do seu decter, fechou os livros, prontuários, fichários e devolveu tudo às prateleiras. Então seguiu em direção à saída.

Passou pelo bibliotecário na recepção, um jovem e belo angeano, com ar de Nerd, que sempre lhe chamava atenção por seu jeito indiferente e pela aparência remeter-lhe a um determinado alguém. A pele negra destacava os olhos e os cabelos crespos e espetados para cima na cor púrpura. O rapaz estava sempre com fones plugados nos ouvidos, certamente conectado a rede. Mas sabia muito bem que angeanos eram escolhidos para aquele tipo de função por terem um poder incrível de múltipla concentração, além dos olhos extras. Algo totalmente acima da média humana.

Era por esse motivo que sabia que o bibliotecário estava atento aos seus movimentos e certamente prestava atenção em sua saída mesmo parecendo distraído. Não entendia o motivo, mas saber daquele fato lhe causava um frio intenso na barriga.

Também sabia que o cérebro desse espécime de híbrido possuía a capacidade de armazenar informações dignas de um grande banco de dados eletrônico. E certamente ele armazenaria, com exata precisão, o dia que estivera ali, horário de entrada, quantas horas havia estado na biblioteca, todos os arquivos que solicitara permissão de acesso e seu horário de saída.

Cansou-se só de pensar.

— Hau, Ralf — acabou por quebrar aquela estranha tensão ao se despedir.

O angeano levantou um dos tentáculos em suas costas para responder o aceno de mão do aluno, já que suas duas mãos estavam ocupadas dando os comandos necessários para o jogo online.

— Haure, GranRyo.

Não sabia muita coisa em angeano, somente cumprimentos básicos como aquele “tchau”. Achava o dialeto engraçado, meio nasalado, por causa das narinas pequenas ou ausência delas do seu povo, mas a fala soava simpática, com todos aqueles “erres” puxado para os “eres”, mas sempre que precisava se comunicar mesmo com o rapaz usava o tradutor de línguas universal do decter.

Ralf realmente fazia-o lembrar daquele alguém, talvez esse era o motivo do frio em sua barriga.

Notou que já era noite em Dragaria ao sair do prédio.

O som de desplugue da área da biblioteca se fez audível no seu decter e em seguida começou o som incessante de mensagens recebidas uma atrás da outra. Ignorou, como sempre fazia.

Mas ao chegar ao seu dormitório não conseguiu manter-se imparcial, o espaço da sua caixa de mensagem havia sido esgotado com as mensagens de Mya. Ficou com receio de que tivesse acontecido algo com Sora.

— Tsc, espero mesmo que seja importante — resmungou ele, retirando o decter do pulso e repousando-o sobre a mesa, acionando a ligação por comando de voz. — Mya-a-chata.

Não foi preciso esperar nem o segundo toque para ser atendido.

— Seu filho da puta, egoísta! — ouviu o grito da irmã que apareceu no seu reprodutor holográfico com a parte do busto descoberta, os cabelos úmidos, as bochechas coradas e os olhos vermelhos.

— Estava no banho? — Ryoha quis saber, arqueando uma das sobrancelhas, formando um “L” com os dedos indicadores e polegares, para ajustar a tela holográfica manualmente e focar somente no rosto da irmã.

— Por que está encurtando minha imagem, seu desgraçado?

— Porque você está nua.

— Não estou! Estou de calcinha. Quer ver?

— Ah, poupe-me, Mya. O que você quer?

— Você não sabe mesmo tratar uma mulher, né, Gran-Ryo-babaca? Por um acaso, só por um acaso, passou por sua cabeça que dia é hoje?

Ryoha parou. Em um mero segundo moveu os olhos para o canto da tela do decter que mostrava vários ícones com informações da chamada e notou aquela caixinha de embrulho vermelha que indicava uma data especial.

— Seu aniversário.

— Eu vi seus olhos se moverem para o canto de informação da tela, seu maldito cara-de-pau, egoísta, filho de...! Ah, Ryo, Ryo! Porque você é desse jeito, irmão?

— Se vai mesmo começar uma sessão de drama, vou desligar.

— Só queria ouvir seus parabéns.

— Parabéns, Mya. Feliz aniversário. Muitos anos de vida. Apesar de duvidar que os tenha, já que fazemos parte de um clã de Caçadores assassinos. Enfim. Está bom? Agora podemos desligar? Terei um dia cheio amanhã.

Ryoha iria acionar o comando para desligar a chamada quando ela o impediu.

— Só mais uma coisa.

— O que é?

— Ele está aqui.

“Ele está aqui” era uma oração que remetia a tantas e tantas informações, mas Ryoha sentiu raiva por saber exatamente de quem ela estava falando. Não soube bem o que responder, mas viu quando Mya apontou o ambiente atrás dela.

— Eu sei que não está reconhecendo, mas aqui é seu quarto. Ele está dormindo todo fofo na sua cama. Mas tem motivos, ele está bem cansado, teve uma viagem longa, capturou um Largrador, acredita? E um Touro-Montanhês. O qual me deu de presente. Ainda teve energia para festejar com o nosso clã. Mas sabe o que era mais chato de tudo isso, é que a cada dez palavras que ele dizia, nove era você...

— Mya, isso não me interessa, ok?

— Será que não, Ryo? — a irmã duvidou e Ryoha notou que Mya se movia.

Ela deixou o decter sobre sua antiga cômoda e apareceu no visor para se despedir, não antes de acionar uma função especial, soube graças a luz alaranjada que apareceu no lado de cá do seu decter.

— Bem, eu sei que eu sou a aniversariante, mas vou te presentear desta vez. Te amo, irmãozinho-babaca. Tchau — ela jogou um beijo para o irmão e em seguida saiu do quarto.

— Mya, sua... — demorou algum tempo ponderando se aceitava ou não aquele compartilhamento.

Até que não foi capaz de lutar contra aquilo que sentia e aceitou a expansão holográfica que Mya havia compartilhado. Em questão de segundos foi envolvido pelo ambiente do seu antigo quarto. A imagem era estranha, estática, tremulante, mas era de certo modo nítida.

Andou devagar até a cama. Parou. A última vez que vira seu ex-Alfa dormindo ele ainda era seu Alfa e estava beirando o precipício entre a vida e a morte. Seu coração disparou dolorosamente ao recordar aquele fato. Mas ao ouvir os murmúrios desconexos do dorminhoco na cama o receio desapareceu.

— Tiozão, comida, Chifrudo, Ryo, comida, Ryo, dança, biquíni, tambores, Hari, Ryo, Ryo, Ryo, Mya, não, não, Largrador, Ryo, eu te amo, eu te amo, Ryo...

Sorriu. Sentiu um engasgo na garganta. Sorriu de novo. O fairy estava dormindo todo desajeitado entre as colchas e almofadas da sua antiga cama. A camisa levantada, a barriga amostra, o calção grande todo amassado, o rosto virado para o lado.

Ficou ali, sem notar o tempo passar, ouvindo-o ressonar, se mover, se coçar, reclamar, respirar, murmurar seu nome, se declarar repetidas e repetidas vezes. Como ele sabia ser tão inconveniente mesmo dormindo? Ser tão chato. Ser tão Cristalino. Ser tão Cristal. Ser tão seu. Seu Cristal. Ele estava bem. Graças aos deuses de Aurora ele estava bem.

Deu-se por si quando a noite já havia partido e a claridade do dia invadia as janelas do seu antigo quarto, ergue-se, precisava se desligar.

Não podia tocá-lo, mesmo assim, aproximou-se do rosto dele, debruçou-se e juntou seus lábios holográficos aos dele. Despediu-se. Não sentiu nada, mas recordou-se da sensação. Era hora de desligar. Desligou.

Continua...

Momento Fanart por Bruninha Uzumaki

"Lady Ryoha" versão feminina do Ryo.

"Lady Cristal" versão feminina do Cristal.

E o Cristal no quadro maior!

Obrigada, filhota!!

Notas finais
Sim. Eu me empolguei nesse capítulo. Ele saiu enorme. *___* Mas eu amo tanto escrever essa história que quando dou por mim, ela já está enorme. Gostaria de agradecer a Gima, que recomendou esse trabalho lá no Nyah e eu fiquei mega contente de ter recebido a recomendação e a review dela quando achava que não tinha quase ninguém acompanhando essa história. Também agradecimentos especiais a Bruninha Uzumaki que além de me encher de lindas reviews, me mimou com lindos fanarts do Ryo e do Cristal, e deles ainda em sua versão “feminina”. Pena que não deu tempo pro Akito colorir ainda. Mas o trabalho a lápis por si já é gratificante! Obrigada, Bruninha, minha filhota fofa! Espero que tenham gostado do capítulo! Comentem! o/ (não custa continuar pedindo, vai que uma hora cola! xD)