Os Aventureiros de Aurora

Capítulo 08

Era a primeira vez, em meses, que Ryoha sentia seu corpo incandescer do desejo carnal. Antes de conhecer Cristal, de ser beijado e tocado por ele, nunca pensara em ter um relacionamento. Sequer ideara qual era a sensação de estar com outra pessoa de uma forma mais íntima. O único desejo que fizera questão de nutrir, após a decadência do seu clã, era o de vingança. E acreditara veemente que ninguém seria capaz de desviá-lo desse objetivo.

Entretanto, mesmo sendo indiferente ao quesito “relações”, desde o ensino básico, vinha recebendo declarações, pedidos e propostas de relacionamento. Negou a todos, simplesmente.

Não acreditava haver sentido em se criar laços para serem rompidos mais tarde. Limitava-se a se envolver somente com aqueles que lhe trariam benefícios práticos, técnicos ou intelectuais; como seus mestres e instrutores, por exemplo. Rejeitou a obrigação de se ter uma Alfa o máximo que pode, exatamente pelos rumores sobre o laço que se formavam entre fada e domador. Pelo que deduzira, não havia praticidade e nem benefícios técnicos naquele enlace que acabava sendo regido por sentimentos.

Na sua concepção essa relação deveria ser estéril, baseada somente na colaboração mútua de serviço. Porém, sabia que a teoria não funcionava daquele jeito. Os próprios domadores saíam em busca da sua Alfa com outras pretensões em mente. A grande maioria baseava sua escolha na aparência da fada e não em suas habilidades. Não demorando assim se formar entre eles um laço afetivo de amizade e até amor, ao invés de um contrato de colaboração. Seu irmão fora um grande mal exemplo dessa situação. Por esses motivos, os quais considerava irrelevantes, é que Ryoha relutara sobre a obrigatoriedade de se ter uma Alfa.

Mas seus argumentos foram rebatidos. Não foi possível evitar o contrato. Não era uma escolha, era uma regra, que deveria ser seguida sem exceções. O Conselho Geral simplesmente não dera nenhum crédito ao pedido documentado que encaminhara solicitando sua liberação da obrigação de se ter um Alfa. Ainda tiveram a discrepância de mencionarem no Ofício-Resposta que não poderiam abrir aquela exceção nem mesmo para o irmão do “Grande Dallian”, como se ele estivesse tentando usufruir daquele fato para pedir regalias. Depois daquela resposta, determinou que escolheria uma Alfa de acordo com as habilidades da mesma, como acreditava que deveria ser, e honraria com ela o contrato até o momento do fim, quando se tornasse um Caçador, momento em que poderia liberá-la da sua obrigação com ele.

Entretanto, desde o princípio parecia haver um plano, arquitetado por algum ser poderoso, dominante de um plano superior — que tudo pode e tudo conjura —, que parecia se divertir conspirando contra sua obstinada determinação.

Sua satisfação, por sentir-se vitorioso ao sair da Seleção de Alfas com alguém dentro das suas expectativas, um alfa que além de se mostrar altamente habilidoso era um raro e, não menos obstinado que ele próprio, Fairy do sexo masculino, foi diluindo-se aos poucos. A cada missão, a cada momento de discórdia, a cada grito que davam um com o outro. Achou que Cristal seria o Fairy ideal, com quem poderia manter o contrato estéril no qual acreditava e que no fim se separariam sem floreios.

Entretanto...

O aventureiro Cristal transpassou a barreira a qual erguera a sua volta e considerava intransponível e tocou diretamente sua alma.

Desprovido de receios em enfrentá-lo, em criticá-lo, em contrariá-lo, em impor suas convicções quando acreditava estar certo, Cristal foi abrindo seu espaço em um lugar antes não habitado por ninguém. Sem nunca se sentir inferior, sendo transparente e cristalino tal como seus olhos.

Quando caiu em si, Ryoha já estava perdido nos braços dele, deixando-se reger por sua determinação, que parecia ser maior que as suas próprias, e enfim ser dominado.

As carícias, os toques, os beijos de Cristal o elevaram ao desconhecido mundo das sensações luxuriosas e acabou deixando de ser o Domador para ser o Domado.

Eram por esses reles motivos que, naquele instante, em que seu corpo era impelido à recordar os libidinosos momentos de outrora, é que se se sentia angustiantemente fraco. Fraco por não ter resistido à Cristal. Fraco por ter se deixado levar ao estado de êxtase e estar naquele momento ansiando em recordar tal prazer. Prazer o qual sabia que, mesmo dois caras repugnantes como aqueles, poderiam lhe proporcionar.

As mãos ásperas de Kairon, o colega do curso de Levidação que atacara Ryoha em conjunto com outro colega, Enon, passeavam com firmeza a pele branca, avaliando e se deliciando com sua textura. O homem deteve o passeio ao encontrar o sexo túrgido o qual segurou e passou a massagear cadenciadamente. Enquanto Enon, o qual Ryoha apelidara em sua mente de “Ogro”, lambuzava e mordiscava seus mamilos.

As mãos de Ryoha estavam presas à cabeceira de madeira entrelaçada da cama, sua boca estava amordaçada e suas pernas foram imobilizadas de uma forma que os joelhos ficassem dobrados, deixando-o totalmente exposto. Descobrira que não era mentira quando os dois “irmãos” disseram que o levariam a zona do múltiplo êxtase. Porém, não era devido as habilidades dos mesmos no sexo, e sim a droga que lhe aplicaram. Sentia o efeito do entorpecente correndo por suas veias e pondo todo seu corpo em chamas. O coração palpitava acelerado. A cada toque em sua pele, extremamente sensível devido ao efeito da droga, o ar faltava-lhe. Sentiu um ardor latejante instaurar-se em sua virilha. O membro que estava sendo massageado freneticamente respondeu ao estimulo que recebia e pulsava o desejo de alívio.

Ryoha sentiu-se ainda pior por estar gostando daquele insuportável desejo que o fazia, mesmo que momentaneamente, esquecer-se dos seus objetivos. Esquecer-se de quem era, de onde viera, de todos os infortúnios que vivera, para simplesmente ansiar ter seu corpo tomado. Sentia extrema urgência em ser penetrado. Aquela urgência sobrepujava até mesmo suas convicções. Queria apenas ser preenchido por todo o ardor que era ter seu corpo dominado e se perder no êxtase que se injetaria em cada fibra da sua pele. E, mesmo que por meros segundos, perderia a consciência e seria obrigado ao relaxamento o qual nunca se dispunha estando consciente.

— Ele está fazendo uma cara tão sedutora que meu pau está vibrando, irmão — comentou Enon, parando de lamber o peito de Ryoha para admirar a face dele.

— Eu percebi. Ele está se segurando para não gemer, tanto, que o rosto está contraído. Se ele não tivesse de amordaça o veríamos com os dentes trincados. Mas isso aqui... — disse, enquanto escorregava os dedos na ereção lambuzada pelo pré-gozo do seu prisioneiro e descia para parte inferior. — Prova o quanto ‘O Grande Ryoha’ está gostando do que está sentindo. Aqui embaixo também... — O homem continuou a massagem, enquanto entrava com o dedo indicador da outra no orifício abaixo das bolsas escrotais. — É a prova o quanto aquele discurso de merda que ele fez sobre as “questões” da prova proporcionarem mais prazer que o “sexo” ser somente conversa fiada. Essa belezura tá mesmo doido pra ser enrabado, irmão — concluiu, abrindo um sorriso avantajado.

— Deixa eu ir primeiro, irmão! — o Ogro praticamente urrou a súplica, quase não contendo a euforia e o desejo.

Enon usou a costa de uma das mãos para limpar a baba que escorria da boca entreaberta, enquanto que com a outra ele buscava o pênis dentro da calça e o expunha, deixando a mostra seu tamanho e espessura quase anormal.

— Você vai acabar com ele se entrar com essa tora nesse buraquinho fofo e tão estreitinho. Olha só, que lindo... — comentou e sorriu empolgado, sentindo seu dedo sendo comprimido pelas contrações involuntárias do corpo de Ryoha. — Está apertando meus dedos — observou. E, antes que o companheiro protestasse, justificou. — Vou entrar primeiro para alargá-lo para você, irmão. Não quero que ele sinta dor agora, quero vê-lo se desmanchando em prazer para fazê-lo engolir, junto com o gozo que vou esporrar na cara dele, as palavras bonitinha que ele cuspiu agora pouco.

— Tá falando de mim, mas o seu pau é tão grande quanto — o Ogro ignorou o restante da conversa, para observar apenas a justificativa contraditória do cúmplice.

— Chega de choradeira, Enon! — esbravejou, ficando de joelhos na cama e abaixando a calça suficiente para tirar o sexo latente para fora e encaixá-lo na entrada de Ryoha. — Cada um terá sua vez. Eu tive a ideia, por isso eu...

Batidas repentinas na porta, que ressoaram aquele estrondoso “blam, blam, blam” por todo o quarto, fizeram os dois alunos estagnarem.

— Ryoha, você está aí? — a voz abafada do visitante se fez audível.

Os dois homens se entreolharam assustados, as respirações momentaneamente suspensas, estava claro que a voz pertencia ao professor Paraxis.

— Vim para ajudá-lo nos exercícios que me pediu. Você está aí, Ryoha? — repetiu a pergunta e voltou a bater na porta.

— O que faremos? — sussurrou o Ogro, o olhar desesperado desfigurando ainda mais sua face quadrada. — Se formos pegos estamos mortos, irmão.

— Fique quieto e ele vai achar que o principezinho está dormindo e irá embora — advertiu o outro, no mesmo tom de voz sussurrado.

Ryoha moveu-se na cama, resmungando com a amordaça na boca, enquanto as batidas retornavam.

— Está dormindo, Ryo? Você não tem o costume de dormir a tarde. Não está se sentindo bem? — Novas batidas ressoaram ainda mais altas. — Ryo? Quer que eu chame um médico?

— Merda! — Kairon desceu da cama guardando o sexo dentro da calça, empurrou o colega para o lado e apanhou um punhal dentro da bota, tirou a amordaça da boca de Ryoha, segurou-o pelo pescoço e apontou a arma para o Pomo-de-Adão no pescoço dele, pedindo em um tom de voz mínimo: — Responda que está descansando e mande-o embora.

Depois de respirar melhor por ter a boca descoberta da amordaça, Ryoha explicou para Kairon:

— É melhor que saiam pela janela. Conhecendo Paraxis como conheço, ele não vai arredar o pé da porta antes que eu o atenda, não importa o que eu diga. Ele me conhece. Se eu demorar mais um pouco a atendê-lo ele irá chamar a emergência pelo difone móvel e não vão demorar a arrombar a porta. Não tem como vocês se esconderem nesse quarto minúsculos, eles irão pegá-los.

— Vamos embora, irmão! — chamou o outro. — Não vale a pena arriscarmos.

Kairon ponderou, não podiam ser expulsos de Dragaria, não até conseguirem o que queriam: aprender a montar dragões alados. O motivo era financeiro. Sabiam que contrabandistas alados ganhavam quantias exorbitantes em seus trabalhos. E, os poucos que sabiam levidação, não ensinavam aos outros para não terem disputas de trabalho.

As batidas na porta continuaram. Mesmo contrariado Kairon usou o punhal para romper as cordas que amarravam Ryoha.

— Vá para janela! — pediu ao outro e após terminar de desamarrar seu prisioneiro segurou-o pelo queixo, obrigando-o olhar em seus olhos. — Haverá outra oportunidade, belezinha.

— Não. Não haverá — Ryoha garantiu, sorrindo, o rosto ainda abrasado. — Não serei mais tão descuidado. Além disso, uma mera denúncia e poderão vasculhar as coisas de vocês e se encontrarem substâncias ilegais serão expulsos, então...

— V- vamos, irmão! — grunhiu o outro, tendo dificuldade de passar seu corpo gigante pela janela que não era muito grande. — Me ajuda aqui, fiquei preso.

Kairon soltou do queixo de Ryoha, o rosto todo franzido, contrariado. Empurrou o traseiro do colega que havia entalado na janela e assim que ele conseguiu sair, voltou-se para Ryoha, apontando-lhe o dedo.

— Talvez não aqui, em Dragaria, mas tenha cuidado quando estiver sobrevoando descuidadamente o território de Tronto — jogou aquela ameaça no ar junto com um beijo e saiu pela janela que Enon havia deixado aberta, fechando-a ao sair.

Ryoha suspirou. Então, juntou forças para desamarrar as pernas, se levantar e atender a porta, abrindo somente uma pequena fresta, suficiente para que seus olhos desfocados medissem o homem detido na porta. O professor já mexia no teclado do difone móvel.

— Você é muito barulhento, Paraxis.

— Por que demorou? — o professor quis saber, guardando o telefone no bolso.

— Estava dormindo.

— Você não dorme durante o dia. Está com o rosto vermelho. Está passando mal? Eu vi que deixou seu armário aberto e achei estranho, você não é de fazer essas coisas. Aconteceu algo?

— Eu não pedi sua ajuda em nenhum exercício, por que a desculpa?

— Achei que... — o homem massageou a nuca, relutante. — Estivesse sido encurralado.

— Sua imaginação é bem fértil, Paraxis. Estou bem. Só preciso descansar, vai embora, por favor — pediu e foi fechando a porta, mas o professor o impediu, espalmando a mão no batente de madeira, o olhar tornando-se mais furtivo sobre o aluno. — Vai se arrepender se ficar — Ryoha o alertou.

— Por quê? — quis saber, o tom desafiador.

Ryoha saiu da porta, deixando-a aberta. Paraxis compreendeu que podia entrar e o fez, fechando a passagem ao entrar. Apanhou o envelope que estava em seu bolso e que encontrara caído no chão, perto do armário do aluno, o motivo real que o trouxera até o quarto de Ryoha, mas ao voltar-se para o interior do quarto e ver o aluno completamente despido, de costas para ele, não evitou o calor que afogueou sua face e o papel amarelo simplesmente escorregou dos seus dedos, bailou no ar e pousou ao pé da cama.

— O- o- o- q- q- que significa isso, Ryo?

— Eu disse que se arrependeria se entrasse... — O rapaz ruivo soltou a amarra do cabelo, e os fios rubros cobriram suas costas como se fossem um manto de seda. Sentou-se, depois colocou as duas pernas para cima da cama e deitou-se com a cabeça recostada na cabeceira. — Você me interrompeu em um momento íntimo e eu não consegui concluir com a barulheira na porta.

O professor ficou ainda mais perplexo ao notar aquela parte despontada no corpo do aluno.

— V- v- você e- estava se- se- mas- mas... D- Digo, cubra isso, agora!

— Está calor para me cobrir — Ryoha desculpou-se, e passou a ponta dos dedos na ereção. — Tá dolorido para caramba sabia.

— E- eu não i- imaginei q- que o flagraria fazendo algo t- tão...

— Despudorado? Vergonhoso? O quê? Pare de gaguejar e desembucha. Você não é homem também? Não se masturba? Eu não perco tempo indo aquele vilarejo nojento e ficando com qualquer um. Até porque não quero me envolver com ninguém. Optei por fazer sozinho. Não posso? É contra as regras de Dragaria se masturbar?

O professor sentiu o ardor da vergonha arder ainda mais intensamente em sua face.

— E- eu só pensei que você ainda fosse o menino inocente que conheci anos atrás. Você mudou mesmo, Ryoha.

— Eu só cresci — justificou, fechando os olhos ao sentir um arrepio ao tocar o próprio sexo. Não podia contar a verdade ao professor, (que nunca fizera aquilo sozinho), e estava apenas dando uma desculpa qualquer para evitar um interrogatório e mais problemas com aqueles dois colegas ignorantes.

O professor engoliu em seco ao se dar conta que seus olhos não se desprendiam do rapaz em seu momento íntimo na cama e achou-se patético, invasivo, era prudente que se retirasse.

— Desculpe-me atrapalhá-lo no seu momento de... Bem, eu volto outra hora. Continue de onde parou.

— Paraxis?

— Hã?

— Não vá.

— Como?

Voltou-se para o aluno, o rosto ruborizado.

— Se... aproxime, por favor — pediu, arfante, enquanto os dedos deslizavam sobre a ereção.

Sentindo-se hipnotizado, o professor aproximou-se devagar.

— O que é? — repetiu a pergunta. E a resposta veio em forma de gesto, Ryoha segurou seu pulso e o direcionou até seu sexo, fazendo-o sobrepô-lo.

— O que pensa que está fazendo? — ele tentou recuar, mas a mão firme de Ryoha apertou seu punho e não permitiu. — Eu sou seu prof-...

Mas Paraxis se deteve ao perceber Ryoha arfar quase que dolorosamente, seu coração disparou.

— Eu ingeri uma droga sem saber, Paraxis... — Ryoha explicou. — Foi algo que alguém me vendeu dizendo que era suplemento alimentar. Eu fiquei assim. Está doendo muito. Eu preciso que me ajude.

— Mas...

— Por favor?

Paraxis observou o cintilante rubor que cobria as bochechas de Ryoha e que de alguma forma combinavam com os fios vermelhos esparramados na cama embaixo dele. Não podia negar aquilo que estava sentindo naquele momento. A ponta dos mamilos estavam eriçadas, a pele branca reluzia convidativa. Sentiu o coração acelerar mais as batidas. Não foi preciso mais nenhuma palavra, debruçou-se sobre o sexo o qual segurava e fez o melhor que imaginou que poderia.

...

Derill cessou a corrida desenfreada de maneira abrupta, a milímetros da margem que o levaria a uma queda que, apesar de não ser muito alta, seria mortalmente mutiladora, devido as centenas de cabeças recobertas por chifres pontiagudos do rebanho de Touro-Montanhês logo abaixo.

Cristal, que vinha logo atrás, voando no modo diminutivo, praguejou ao baquear-se com as costas do seu novo Domador. Sacudiu a cabeça, recuperando-se, e passou a xingá-lo, fazendo as ondas brancas que ampliavam o volume do sua voz — e eram visíveis a olho nu — saírem da sua boca em uma frequência energética.

— Qual é a sua, tiozão? Por que parou de repente? Não sabe que tem que sinalizar quando for parar?

— Ainda bem que está no tamanho de fada — foi a única coisa que Derill comentou, ainda com os olhos arregalados para as centenas de chifres abaixo dele. Se tivesse sido empurrado pelo Alfa no seu tamanho normal teria perdido o equilíbrio e seu corpo jazeria naquele momento como um lindo chapéu na cabeça de um daqueles touros.

Sem entender a cara de atordoado do Domador, Cristal voou e pousou sobre a cabeça dele. Caminhou pelos cabelos grisalhos arrepiados, abrindo caminho como se estivesse em uma selva e observou lá de cima o que ele olhava, então emitiu um silvo agudo.

— Uau! Que merda é essa, Tiozão? Galhos?

— Não, minha pequena fada, aquilo lá embaixo são chifres pontiagudos tão resistentes quanto o marfim! E o problema aqui não é ‘que merda é essa’, mas sim ‘que merda faremos’ para livrar nosso traseiro... Digo, meu traseiro. Já que você tem lindas asas de borboletas e pode bater em retirada agora mesmo se quiser. Mas aquela maldita lagartixa com pele de pedra está se aproximando e não tenho por onde escapar.

Cristal inflou as bochechas e fez um bico com os lábios, saiu de cima da cabeça de Derill e, desfez o encantamento Baccara, voltando ao seu tamanho normal.

— O quê está fazendo?? — o Domador quis saber. — Aquele maldito Largrador está se aproximando — apontou para o dragão que eles mesmos tiraram da toca e se aproximava devagar, caminhando com suas patas pesadas, fazendo o chão estremecer.

O cenho do Alfa continuou fechado e ele apenas resmungou.

— Tá pensando que sou o quê?

— Eu não estou pensando nada! Eu tenho certeza do que você é: uma fada. E que pode voar!

— Beh! Resposta errada.

— Ah, é? E o que você é então?

— Sou seu parceiro — Cristal respondeu sério, inflando o peito, e descruzando os braços para apoiar as mãos na cintura. — Não pense que vou fugir com o rabinho entre as pernas e abandoná-lo. Tamo juntos nessa, Tiozão.

— Você é maluco?

O homem olhou em polvorosa do Alfa para o dragão que tinha a aparência de uma lagartixa gigante. A língua bifurcada do animal estava para fora, a dupla cauda balançava no ar de um lado para outro e ele vinha andando tranquilo nas quatro patas que eram pequenas, mas fortes o suficiente para sustentarem as duas toneladas que ele pesava em média, devido a couraça poderosa que o revestia. Artigo pelo qual estavam atrás daquele espécime. A couraça que recobria o Largrador era um artigo muito disputado entre Domadores porque servia para confecções de escudos e armaduras. Mas também sabia que eram poucos os Domadores que ousavam a capturá-lo por temerem o animal. O Largrador era definitivamente um dos dragões terrestres mais fortes existentes em Aurora, ele matava suas vítimas asfixiando-as com a força das caudas. Uma vez presa por aquelas caudas, a vítima morreria sentindo o terror de ter todos seus ossos estraçalhados ou terem seus corpos despedaçados, já que o animal costumava bater tudo o que prendia na sua cauda contra o solo.

— Pare de besteiras e voe agora mesmo! — ordenou Derill, o tom de demanda mais ríspido que conseguiu. — Eu estou falando sério, Cristal. Sua mãe jamais me perdoaria se você morresse aqui.

— Eu não vou morrer, Tiozão — garantiu Cristal com um sorriso brincando em seus lábios. — Nem o senhor — acrescentou. — Ainda temos sonhos a alcançar e isso é o que continuará nos mantendo vivos.

Os olhos do Domador se arregalaram e se não fosse a proximidade do Largrador ele poderia até perder alguns minutos aplaudindo a determinação daquele jovem Alfa. Mas decidiu que, por àquele discurso, Cristal merecia seu voto de confiança.

— Certo, então, diga-me, minha pequena fada, como sairemos vivos dessa? Você pode voar, mas de acordo com o que disse, não pode me carregar.

— Carregar um humano do seu tamanho no meu modo reduzido seria tão possível quanto você, Tiozão, tentar erguer esse Largrador de duas toneladas com seus braços. As asas que nós fairies possuímos são pouco resistentes, por isso usamos o encantamento Baccara para reduzirmos de tamanho e tornar nossos corpos tão leves quanto uma pluma e assim sermos sustentados por essas asas frágeis.

— Então a verdade é que vocês plainam, não voam — observou o domador, arqueando uma das sobrancelhas em direção do seu Alfa.

— Num modo geral, é isso sim — assentiu Cristal.

— Bom saber. Mas isso ainda não resolve aquele nosso “pequeno” problema ali na frente.

Em resposta, Cristal sorriu e posicionou-se na direção do animal.

— Tiozão, o Ryoha e eu só tínhamos uma forma de lidar com esses bichinhos. Chuta qual é?

— Mágica? — sugeriu Derill, arqueando agora as duas sobrancelhas.

O Alfa sorriu de lado, negou com um gesto de cabeça, e retificou com entusiasmo.

— Lutando! — clamou e saiu correndo ao encontro do dragão. — Vamos, Tiozão! Bora enfrentar essa fera!

— Agora eu percebi a merda que fiz, esse Alfa é maluco! — observou ele, apanhando sua espada e a empunhando, correndo na mesma direção que ele.

— O ponto fraco do Largrador é o mesmo ponto forte: as caudas.

— E você acha que tenho armas capazes de atravessar a couraça que reveste a cauda dessa criatura? Se fosse assim o Largrador não estaria classificado entre os espécimes mais difícil de se capturar.

Cristal gargalhou, o brilho dos seus olhos expondo ainda mais seu entusiasmo.

— Falou tudo, Tiozão. Eu não teria indicado a captura dele para essa missão se não tivesse um plano matutado. O Largrador está mesmo classificado como um dos espécimes mais difícil de se prender, mas isso significa que não é impossível. Ele é um dos poucos dragões que tem o poder de regeneração, ou seja, se a couraça for removida, ela vai crescer de novo. Quando eu era estudante, era aficionados por dragões que se regeneram, isso me fez ler vários artigos sobre eles, um deles, falava de como os forjadores removem a couraça do Largrador para usarem como matéria prima na confecção de escudos e armaduras.

— Chega de mistérios, Cristal! Como fazemos isso?!

— Usando “Pó de diamante”.

— Pó de diamante?

— Hm — assentiu o Alfa. — Mas as caudas são imunes ao efeito do Pó de Diamante, elas são o foco da dificuldade em se capturar o Largrador. Mas tem um detalhe: o Largrador não enxerga, ele move-se de acordo com os sensores na cauda.

Derill imaginou que estava começando a entender o plano de Ryoha e sorriu.

— Acho que estou começando a entendê-lo, Fada. Então devemos atingir os sensores e...

— Nem pensar! — gritou. — Isso está fora de cogitação. Nós o cegaríamos se fizéssemos isso. E ele não consegue regenerar todo seu corpo, somente a couraça. Fora que tiraríamos dele seu único poder de defesa e faríamos desse um animal inválido, seria o mesmo que condená-lo a morte.

— Certo, eu achei que estava começando a entendê-lo, mas não.

— O Ryo também tinha dificuldade. Mas é simples, Tiozão. Se fossemos capturados como espécimes a ser estudados para o bem de uma raça de inteligência maior, você gostaria que tirassem de nós nossos sentidos? Olhos, braços, pernas ou até a boca? Tirar de um ser vivo o direito até mesmo de executar necessidades básicas não é algo cruel demais? O Largrador usa a cauda não só para capturar seu alimento, mas também para levá-lo a boca, se tirarmos dele isso, é o mesmo que tirar dele os braços. Não seria melhor matá-lo que deixá-lo viver nessas condições?

Derill sentiu um engasgo entalar na sua garganta de repente. Estavam a pouco tempo juntos, mas em todo seu tempo de vida jamais conhecera alguém com uma forma de pensar tão perturbadora como Cristal. Suas argumentações mexiam e desorganizavam completamente as convicções que adquirira ao longo da sua vivencia como domador. Olhou para o animal a frente e pela primeira vez pôde visualizá-lo como algo que realmente é: um animal assustado, acuado, em sua casa, lutando contra invasores. Com o único intento: o de sobreviver, quem sabe até, proteger suas crias. Sentiu por ele um apreço que jamais imaginaria sentir por um animal antes.

— Ok, meu garoto, você me convenceu. Está no comando. Se há uma forma de determos essa fera sem ser pelos métodos convencionais, insira-se aqui o termo “drásticos”, te darei um beijo na boca.

— Ah?! Corta essa, Tiozão! Não quero ser beijado por um barbudo!

Cristal vasculhou o bolso lateral da mochila onde carregavam seus itens mágicos e retirou dela uma caixinha metálica. Abriu essa caixinha e ficou visível uma quantidade de esferas transparentes, que lembravam bolas de gudes, e estavam separadas por carreiras de cores. A segunda carreira eram de esferas brancas, havia em torno de seis delas em cada carreira. Cristal tirou uma delas da carreira e a estendeu para o seu Domador.

— Para que serve? — perguntou ele, direcionando a esfera para boca.

— Não é para engolir! — advertiu Cristal, rapidamente. — Estou te mostrando.

O domador se deteve.

— O que isso vai fazer?

— Essa esfera faz nevar.

— Nevar?

— Na verdade, ela produz o “Pó de Diamante” que mencionei. Essa neve é tão fina e brilhante que foi batizada desta forma, mas é um poderoso pó congelante.

— Então, é isso que pretende, congelar o Largrador?

— A couraça dele — corrigiu. — É assim que o forjadores a removem. O Largrador é sensível ao frio, por isso ele habita essa região quente e desértica de Valrix. A couraça serve também para proteger o corpo sensível das baixas temperaturas. Mas se a couraça congelar, instintivamente seu corpo produz um enzima que faz com que ela se desprenda e ele consegue deixá-la. Aí, é nesse momento que poderemos injetar nele o tranquilizante e aprisioná-lo. Obviamente, a couraça irá crescer de novo em poucos meses.

— Garoto, você é impressionante.

— Ainda não é hora de ficar impressionado, Tiozão. Não sabemos se o plano dará certo. Para congelar a couraça precisamos fazer o Pó de Diamante cair sobre ela. Mas, para isso, precisamos estar acima do Lagrador, algo que ele não permitirá enquanto tiver aquelas caudas.

— As quais não podemos nos livrar de acordo com você.

— Mesmo se pudéssemos, não podemos cortar com sua espada, de acordo com você.

— Eu queria apenas atingir os sensores!

— Mas os sensores estão, ou melhor dizendo “são”, praticamente toda a cauda. Não são pontos específicos.

— Ótimo! Voltamos à estaca zero.

— Não é hora de se desesperar ainda, Tiozão. Eu tenho outra coisa aqui — Cristal disse, tirando a mochila das costas e vasculhando os compartimentos, retirando uma moringa de couro e entregando ao homem.

Derill derrosqueou a tampa e sentiu o cheiro podre que vinha de dentro da moringa.

— Não me diga que essa merda agora é para beber?

Cristal gargalhou.

— Não, Tiozão. Isso é água barrenta do Pântano de Almika. Não tenho certeza se vai dar certo, ainda não fiz um teste. Mas eu percebi, quando Ryoha e eu tentamos capturar um casal de Almískins...

— Vocês o quê? Não acredito que tentaram capturar aquelas coisas.

— Sim. Mas não deu certo. Tentamos e falhamos. Enfim, isso não vem ao caso agora. Mas nessa tentativa percebemos que essa água tem a propriedade espantosa de esconder o calor de nós humanos.

— Se isso for verídico, ficaremos invisível perante esse monstro?

— Exato. Se ficarmos invisíveis, eu poderei voar sobre ele e fazer nevar sem ser esmagado ou enxotado como um inseto pelas caudas. Aí, você entra em ação aplicando o tranquilizante quando a couraça sair.

— Garoto, estou ficando apaixonado por você.

— Não me faz sentir arrepios, Tiozão! Então, bora entrar em ação?

Derill assentiu e os dois seguiram com o plano, fora a primeira vez que capturara um dragão de forma tão ‘limpa’, se não fosse, obviamente, pela fedor podre da lama de Almika que impregnara no seu corpo mesmo depois dos quatro banho que tomara no fim do dia.

— Ainda estou fedendo — comentou.

Cristal estava sorrindo, enquanto acariciava a face gigante do animal adormecido no chão. Sem a proteção da couraça o Largrador agora parecia uma lagartixa raquítica sem a pele, dava até para ver os ossos embaixo da pele arroxeada.

— Quem diria que todo aquele tamanho era somente a couraça, né? — O homem se aproximou com a toalha em torno do pescoço e também acariciou a face do animal.

Cristal ergueu seus olhos para o seu novo Domador que agora exibia um rosto muito liso, por um instante ficou tentando identificá-lo.

— Quem é você?

— Como assim “quem sou eu”, idiota?! Sou sua avó decerto!

— Vovó você cresceu e está... mais máscula e bonita. Ha, ha!

— Engraçadinho. — ele passou a mão no próprio rosto. — Só me barbeei porque o fedor daquela lama parecia impregnado nas partes com pelo do meu corpo.

— Até que o senhor é o Tiozão ajeitado — Cristal observou, coçando a ponta do nariz com o dedo indicador.

— E você é uma fada, e fadas não tem ideia do que é ser “feio” já que nascem perfeitas e brilhantes. Então, não fique cheio de sorrisinhos maliciosos pra cima de mim ou vou querer devorá-lo de verdade.

O sorriso no rosto de Cristal se diluiu.

— Argh, Tiozão! Achei que gostasse de garotas!

O homem passou por Cristal dando de ombros e esfarelando os cabelos dele. Sentou-se a beira da beira da fogueira, apanhando um espeto com coxinhas de perdizes que assavam sobre o fogo.

— Prefiro mesmo as mulheres, de preferência do tipo suculentas, com seios e quadris grandes, coxas roliças, boca carnuda e cabelos compridos e cacheados... Hmm... — o homem abocanhou uma das coxinhas e mastigou, inclinando a cabeça para trás e observando o céu estrelado que sem querer lhe remeteu ao momento pouco antes, quando Cristal rompeu a esfera branca fazendo o “Pó de Diamante” cair sobre o Largrador.

O pó bailou no ar por um tempo, parecendo minúsculas estrelas dançantes, que despencavam sobre o animal. Rapidamente a couraça foi congelada e aturdido e com o frio, o Largrador desprendeu seu corpo esguio da couraça e se arrastou para fora dela, nesse instante foi que atingiu o pescoço da criatura com os dardos de tranquilizante. O animal só foi capaz de reagir um pouco mais, rastejando alguns metros à frente, até que perdeu as forças e adormeceu.

Apesar de coberto de lama, fedendo, achou a cena de Cristal comemorando em pé sobre a couraça, enquanto resquícios das minúsculas estrelas caíam sobre sua cabeça, encantadora. E aquilo estava mexendo com ele. As sensações que aquele garoto o fazia sentir eram perturbadoras. Por isso precisava fixar-se naquilo que gostava de verdade, pelo menos assim, ele não destroçaria mais uma de suas certezas: o seu desejo pelo sexo oposto. Não queria, àquela altura da vida, começar a sentir desejo por garotos bem mais jovens.

— Ainda bem que não me encaixo no seu tipo — Cristal chamou a atenção do Domador ao suspirar aliviado e sentar-se ao lado dele, perto da fogueira. Depois disso, ele retirou da mochila o pergaminho e um pincel.

— Vai escrever para O Grande Ryoha de novo?

— Não chame o Ryo assim.

— Ele nem respondeu a primeira.

— Quando ele sentir vontade ele vai responder.

Derill ficou observando o rosto de Cristal enquanto escrevia e repreendeu-se mentalmente ao notar que estava começando a se encantar por ele. Deduziu que precisava de algo que o distraísse enquanto estivessem parados, para evitar pensar besteiras, e uma opção repentina surgiu em sua mente.

— Hein, meu menino?

— O que é?

— Estive pensando em adotarmos um animal de estimação, o que acha? Grandes aventureiros tem animais de estimação.

— Acho uma ideia digna.

— Amanhã mesmo, pode ser?

— Pode ser — Cristal comentou, sem tirar os olhos do que escrevia. — No que está pensando? Seria legal um Fiorin[1] ou uma Raguna[2], né?

— Estive pensando em algo que está mais ao nosso alcance nesse exato momento. — O homem se levantou e caminhou até a beirada do rochedo, admirando agora as centenas de cabeças chifrudas e seus donos que jaziam adormecidos no vale ao pé daquela montanha.

— Tipo o quê?

— Touro-Montanhês — expôs o Domador tranquilamente, com os olhos brilhando na direção dos animais.

— O quêeeeeeee??

Continua...

[1] Fiorin: um tipo de lobo que possui seis patas e a cor verde, se camufla entre as folhagens, corre muito rápido e tem um faro poderoso.

[2] Raguna: um tipo de águia que possui três olhos.

Notas finais
Notas da autora: É realmente uma pena que essa minha original não tenha caído no gosto de mais leitores. Gosto tanto da história e estou elaborando com tanto carinho que não gostaria de desistir de escrevê-la. Enfim, se você está lendo e curte a história, peço que me ajudem a não desistir, não estou pedindo nada fora de alcance, apenas que deixem um pequeno comentário. Eu vou agradecer de coração. Até o próximo!