Os Aventureiros De Aurora
11 Capítulo 11
Os Aventureiros de Aurora
Capítulo 11
De longe Cristal ouvia os risos exagerados vindos de dentro da kandra mais popular de Erix.
O lugar estava localizado fora do movimentado centro da cidade, praticamente escondido naquela região densamente arborizada, entre árvores que engoliam a bela construção de madeira rústica.
De onde estava pousado, o galho de uma das árvores frondosas do jardim de entrada da residência, o fairy notou uma grande quantidade de ciclos-riquixá[1] parados em um tipo de uma área de estacionamento na frente da construção. Apesar de ter percebido que alguns frequentadores chegavam ao lugar de táxi-riquixá que os deixavam ali e depois faziam o caminho de volta para a cidade.
Seres mágicos dificilmente usavam meio de locomoção. No caso de Cristal ele precisou usar somente suas asas.
Esperou escondido que o casal que havia acabado de chegar adentrasse o local e só então criou coragem para voar até a entrada e desfazer o encantamento Baccara. Cristal estava prestes a tocar o sino que anunciaria sua chegada quando a porta de correr se abriu repentinamente e aquela bela atendente surgiu.
— Seja bem-vindo — ela anunciou, recebendo ele, o visitante, com um sorriso gentil e ao mesmo tempo encantador na face.
Cristal não conseguiu responder de pronto.
Um tanto fascinado ele observava a bela moça que o recepcionara. A atendente não tinha somente um sorriso bonito, a pele dela era de um castanho rosado, os olhos de um cintilante esverdeado e ela ainda vestia um traje que a deixava casualmente sensual, um único tecido, que dava voltas em sua cintura e subia pela lateral do corpo dando novas voltas que cobriam seus seios.
Mas o que mais chamou atenção do fairy não fora nem tanto a beleza da recepcionista e sim as orelhas pontudas que se destacaram graças aos cabelos castanhos estarem presos em uma fita azul no alto da cabeça.
Teve dúvidas se ela era ou não uma fada. Não sentia emanando dela o ponder mágico, o fluxo de energia vital que diferencia as fadas dos seres humanos.
Curioso, acabou acionando seu modo de defesa fairy para tirar do seu jeito aquela dúvida. Constatou então que fluxo de energia da atendente era de um tom rosa e não lilás como os dos nascidos fadas. Tão pouco era do tom vermelho dos seres humanos. Porém...
— Não é muito gentil da sua parte me analisar através do seu modo de defesa. — A fala da atendente interrompeu o raciocino de Cristal. — Sinto como se eu fosse um tipo de ameaça — ela explicou, encarando-o com um olhar vívido.
Aquela leva reprimenda fez com que o alfa perdesse a compostura e desfizesse de imediato o sistema de alerta. Não considerou que a atendente, mesmo que fosse mestiça, pudesse notar o modo de defesa e quis se socar por ter sido tão rude com uma garota.
— Desculpe-me a grosseria, senhorita — pediu, curvando o corpo para frente.
A moça então explicou.
— Eu sei que causo curiosidades, mas se tiver dúvidas no futuro prefiro que pergunte diretamente.
Cristal ficou ainda mais envergonhado.
— Eu achei que fosse mestiça e talvez não notasse. De qualquer forma, isso não justifica a grosseria da minha parte, perdoe-me, por favor.
Ela voltou a sorrir.
— Tudo bem — aceitou as desculpas. — De qualquer forma, você não é o primeiro fairy a ter essa curiosidade. Sabe, minha mãe se casou com um humano, por isso eu não tenho todas as características dos fairies, mas sou capaz de ver o fluxo do ponder como qualquer outro da espécie.
— Ah, sim...
— Mas também é raro ver um menino fada por aqui.
— É...
Cristal não sabia ao certo o que responder depois da sua gafe e ficou feliz pela jovem ser desinibida o suficiente e continuar puxando conversa.
— Meu sonho é conhecer o Vilarejo de Sonora, sabia?
Cristal ficou surpreso.
— Você ainda não conhece a vila?
A jovem meneou a cabeça em um não.
— Meus avós fairies não aceitaram muito bem o enlace da minha mãe com um humano, por isso ela deixou a vila sem a aprovação deles — esclareceu, enquanto fazia um gesto pedindo para que ele entrasse. — Precisa deixar os calçados ali — ela apontou a fileira de calçados na entrada, cada um em um espaço reservado por nome grudado em uma espécie de papel adesivo. — Seu nome é?
— Cris! — respondeu com empolgação, mas ficou corado em seguida, depois de notar que a bela recepcionista mestiça só estava perguntando para colocar seu nome em uma fita adesiva da cor rosa a qual provavelmente direcionaria para a reserva do seu calçado. — Er... Digo, Cristal, na verdade.
A atendente sorriu daquele jeito gentil. O que deixou Cristal ainda mais encabulado. Mas percebeu que ela escreveu somente o “Cris” no adesivo que colou no espaço vazio o qual seria dedicado as suas botas.
— Mariana — ela falou ao ficar ereta depois de agachar para colar o adesivo. — Mas pode me chamar só de Mari se quiser, Cris.
...
Foi encaminhado para a área das piscinas depois de passar pelo pré-banho. Mari se despediu na entrada principal, desculpando-se por não poder mais acompanhá-lo. Ela explicou que não podia deixar a recepção sem ninguém por muito tempo. Cristal assentiu, garantindo que de despediria dela na saída.
Cristal poderia até estar enganado, mas ele tinha fortes indícios para acreditar que aquela troca de olhares, sorrisos e a conversa amistosa que tivera com Mari fora seu primeiro flerte. Percebeu as diferenças de quando alguém simplesmente dizia que ele era bonito e jogava cantadas aleatórias no ar.
Diferente também do que aconteceu entre Ryoha e ele. Eles não haviam passado pelo o momento do “flerte”, seguiram direto para a investida.
Por isso a sensação de que se tornara um pouco mais adulto o fez inflar como se fosse um balão.
Porém, bastou passar para área interna do banho e fechar a porta de correr as suas costas para se desinflar como se o tivessem esvaziado com um espetar de agulha.
Como havia ouvido falar o Kandra era mesmo repleto de casais. Todos bem à vontade. A névoa que subia devido a água quente que despencava em pequenas cachoeiras não deixava muito visível o que acontecia. Mas um arrepio percorreu a espinha dorsal do fairy ao ouvir gemidos aleatórios que se misturavam com risinhos envergonhados, gargalhadas altas e som de conversas. Foi quando distinguiu bem ali, na primeira parte da piscina, mesmo entre aquela névoa toda, o rosto muito corado de uma mulher. Ela estava debruçada sobre a beira do lago de pedras naturais com os olhos fechados, a expressão contraída, enquanto um homem robusto se movimentava atrás dela com ímpeto.
Desviou seu olhar rapidamente. Era por não ter certeza daquele rumor que não quis aceitar o convite de Derill a princípio. As águas correntes daquele tipo de casa de banho era o convite ideal para amantes que acabavam saciando suas necessidades sexuais ali mesmo. Muitos frequentavam o kandra apenas em busca de prazer momentâneo.
“Eu juro que mato esse Tiozão”, mentalizou seu desejo e passou a caminhar depressa.
Pelo que levantara com a atendente Derill estava em uma área reservada nomeada de Z-36. Notou as letras e números iluminados em placas conforme andava. Aquele recinto era imenso e a própria natureza se incumbira de arquitetar pequenas áreas privadas ladeadas por pedras, se não, por divisórias de madeiras que permitiam alguma privacidade para aqueles que a buscavam.
Como ocorria quando andava em meio ao público Cristal percebeu olhares indiscretos sobre ele ao cruzar com outros frequentados pelos corredores. As áreas aonde caíam menos água levantava menos névoa e em consequência a visibilidade era melhor.
Notou muitas fadas, ou mestiças delas, no percurso.
— Ei? — ouviu um chamado e parou para verificar se era com ele.
O homem que emergiu de uma das fontes não-privadas se expôs diante dos seus olhos sem se preocupar com a nudez. Cristal observou que ele era bem mais alto, bem mais robusto e bem mais peludo que Derill. Os pelos chegavam a formar um “v” no peito e se ramificar pelos braços, pernas e rosto.
— Procurando por diversão, belezinha? — ele perguntou sem pudor, passando a língua pelos lábios. — Quer se divertir com o tio? — sugeriu, piscando um dos olhos e apontando sua área com o polegar em sinal de joia.
Cristal não soube o que responder. E sua ausência de resposta fez com que o homem em um movimento rápido segurasse seu queixo e erguesse seu rosto, analisando-o com cuidado.
Notou também quando ele espichou os olhos para seu peito descoberto, aumentando a expressão de aprovação na face.
— Uau, uau, uau! — exclamava. — Nunca vi uma Fada tão bonitinha. Quase não tem seios. É do jeito que eu sempre quis — lambeu a saliva que escorria pelo canto da sua boca. — Sabe, bonitinha, o tio tem como pagar e...
A última frase dita pelo homem enfureceu Cristal. Ele desferiu um safanão estalado contra a mão do homem e o fez largar do seu queixo.
— Qualé, cara?! Tá falando do que, hein? — perguntou mal-humorado. — Você não é nada meu, muito menos tio! — gritou.
O homem abriu um sorriso ainda mais satisfeito
— Oh? Ainda é arisca! Eu gosto de domar meninas que... — Mas o homem se deteve novamente ao notar uma sombra se erguer atrás da sua bela pretendente.
— Oi, amigo. Será que está tão bêbado que não consegue diferenciar um macho de uma fêmea? — Derill que havia surgido atrás de Crista arrancou a toalha da cintura do seu colega sem se preocupar, fazendo-o sobressaltar ao expor sua masculinidade. Então anunciou com euforia: — Veja! Ele tem pinto. Ou seja, não é o que está procurando.
— Eeeeeei! — Cristal protestou, tentando tampar seu sexo usando as duas mãos. — O que pensa que está fazendo, Tiozão, seu...! — Cristal parou de se mexer quando sentiu ser puxado pelos ombros.
O infeliz que o assediava estava com o rosto contraído em fúria, ele não parecia nada satisfeito de ter se enganado e avaliava seu corpo, virando-o de um lado a outro.
— Não pode ser, não pode ser!
— Ei, ei, peludão! Eu não tive culpa do seu engano! Dá para parar com essa merda?
O homem não deu resposta e continuou segurando Cristal pelos ombros, avaliando-o com curiosidade. Quando, de repente, o ar de ameaça no semblante dele se dissipou e deu lugar a um sorriso envergonhado.
— Continua sendo a coisa mais bonitinha que já vi desfilando pelado por esse kandra — observou. — E olha só! — Cristal foi girado e mantido de costas. — Que bundinha arrebitada mais fofa é essa? E entre essas bandas macias tem um buraquinho apertadinho onde posso enfiar meu companheiro aqui. Ha, ha! Minha proposta está de pé — Girou Cristal de novo, fazendo-o ficar de frente com ele. — Aceita? — perguntou com um sorriso abrilhantando sua face grande e quadrada.
—...
...
Derill levava as bebidas que havia comprado e Cristal continuava reclamando com ele do assédio recebido.
— Tenho vontade de te estrangular, Tiozão! Estrangular. Entende o que é isso?
— Já disse para relaxar e aproveitar, meu garoto.
— Relaxar? Relaxar como nessa merda de lugar?! Com a ameaça de ser agarrado e estuprado por um desses maníacos a qualquer momento?
— Ninguém vai te forçar a nada aqui, Cris. Os donos dos kandras são ex-agentes da justiça. Todas as pessoas e criaturas que entram aqui são perfeitamente identificadas. Se alguém cometer algum abuso aqui corre o risco de receber a punição máxima da lei. E, apesar de os frequentadores do lugar fazerem sexo sem se preocupar se estão sendo observados, sua resposta aqui ainda é a última palavra. Basta responder que não está interessado e ninguém vai forçá-lo a nada. Não foi o que aconteceu com aquele cara? Ele parou de te importunar no momento que você pediu, não foi?
— Sim, né? Mas depois de ele ter insinuado que eu estava querendo dar pra você, Tiozão — justificou entre o bico que formou com os lábios e a gargalhada de Derill se propagou gostosa pelo lugar.
— É por isso que gosto de você, meu garoto — ele jogou um dos braços sobre os ombros de Cristal.
— Desencosta, Tiozão — pediu, mantendo o bico de emburrado.
— Vamos, vamos, Cris. Desfaça essa carranca. Estamos aqui para nos divertir. Veja — ele apontou para a placa Z-36 na rocha. — Chegamos.
— Eu já, já vi.
O lugar era quase uma gruta sem teto. Havia divisórias de madeiras do lado direito e esquerdo. Detrás vinha um desvio da cachoeira que descia pelas pedras e calhava na tina grande de água natural criando ondas, espuma e um barulho que era com certeza reconfortante.
Ali se encontrava um grupo de homens que Cristal desconhecia. Eram certamente os amigos que Derill mencionara. Quatro no total. Eles riam e conversavam alto, mas bastou que sua presença fosse notada para que todos se calassem ao mesmo tempo.
Eles eram adultos como Derill, em torno dos trinta anos. O primeiro deles, o qual chamou mais atenção de Cristal, era negro, careca, usava um tapa-olho, tinha a cara fechada e uma barba rala azulada. No mesmo lado do tapa-olho existia uma cicatriz cortando a bochecha em diagonal. O tronco exposto para fora da água era bem trabalhado.
O segundo tinha uma expressão sedutora, os olhos cinza semicerrados, os cabelos esbranquiçados, longos, talvez cobrindo as costas, davam-lhe um ar feminino. Notou que o branco do cabelo não era da idade, pois ele aparentava estar na casa dos trinta como os demais. Não era tão troncudo quanto Derill e o Tapa-olho, mas não era magro, seus músculos eram discretos, os olhos acinzentados e de cílios longos completavam sua tez delicada. Ele segurava uma lata de bebida e Cristal observou os dedos longos com anéis e unhas bem feitas. Era sem dúvida o mais bonito entre eles.
O terceiro tinha um ar alegre como Derill, pareciam até irmãos devido alguns traços semelhantes. Apesar de esse terceiro ter uma pele bem mais bronzeada, os cabelos com mechas loiras e aparentar ser mais novo que ele. Além disso, o homem tinha várias cicatrizes e tatuagens espalhadas pelo tronco e braços definidos.
O quarto homem parecia ser o mais velho do grupo. Talvez estivesse chegando a casa dos quarenta, era algo notável em suas rugas e nos fios brancos que começavam a se destacar entre seus cabelos vermelhos. Mas o corpo estava em forma como o dos demais. Esse quarto ainda exibia uma pele muito branca e os olhos de um tom castanho avermelhado que quase se igualava ao tom vermelho dos cabelos.
Cristal prendeu a atenção nos movimentos desse último ao notar que ele desativou algo que visualizava na tela de um aparelho parecido com o Decter.
— E aí, pessoal — cumprimentou Derill. — Esse é o Cristal que eu falei para vocês. Meu menino fada. Cris, esses são meus companheiros de estrada. Vou apresentá-los, começando da esquerda: Thor.
— E aí? — o grandão moreno o cumprimentou.
— Opa.
— Nosso belo Nessis.
— Oi — respondeu delicado.
— Oi.
— Gardine — apontou para o que parecia irmão dele.
Esse piscou várias vezes antes de sorrir abertamente e responder.
— E aí, beleza?
— Beleza.
— Norian — apontou para o ruivo mais velho, que respondeu com um meneio de cabeça.
— Ouvimos falar muito de você — comentou Gardine e o grupo soltou risadinhas que constrangeram Cristal.
— É, né.
— Ele faz jus ao que havia dito, meu irmão. Garotos fadas são mesmo tão bonitos quanto as garotas! — riu Gardine da sua própria constatação.
— São irmãos de verdade, Tiozão? — Cristal perguntou, fazendo também um gesto de cabeça na direção de Gardine.
Mas não houve tempo para resposta, pois o grupo trocou olhares entre eles e logo eclodiu uma gargalhada grupal.
— “Tiozão”? — vociferou o moreno alto, fazendo Cris se encolher de vergonha.
— Merda, que bola fora — Cristal reprimiu a si mesmo, sentindo o rosto abrasar de vergonha ao entender que o motivo da piada era o apelido que dera ao seu domador.
Cruzou os braços no peito e juntou os lábios, formando um bico de emburrado mais uma vez, resmungando.
— Qualé a desse bando de otários?
— Ei, pirralho! Somos mais velhos, nos respeite! — reclamou o que foi apresentado como Thor.
— Se deem ao respeito primeiro! — Cristal rebateu.
— Ele é uma graça, Derill — observou Nessis.
— Traga-o, entrem, vamos — convidou o homem ruivo.
O braço de Derill envolveu os ombros de Cris e os dois entraram na água.
Entre um gole e outro das várias latas de cernin muita conversa foi jogada fora. O foco do grupo manteve-se em suas histórias do passado. Diferente do que Cristal imaginava, nem todos ali eram ex-domadores, na verdade, Derill era o único domador entre eles.
Mas soube que todos frequentaram a academia em Dragaria e foi lá que se conheceram. Descobriu assim a existência de vários ramos para os alunos de Dragária. Ser domador era o básico.
Impressionou-se em especial com a profissão de Thor que, apesar nome imponente e da aparência rude, era um tecelão. Ele trabalhava desenhando e confeccionando trajes, uniformes e todo o tipo de roupas e adornos em geral usados pelos vários funcionários dos órgãos governamentais de Aurora.
Gardine era um Tratador. Um profissional que recebia os dragões domados e coletados e tratava dos seus ferimentos.
Nessis trabalhava no Laboratório de Pesquisas Avançadas. Norian no Centro de Tecnologias Avançadas. Havia notado que os dois possuíam mesmo um ar de intelectuais com seus olhares avaliadores. Nem tanto Norian, que falava bastante na opinião de Cristal, mas sim Nessis, que quase não se expunha.
Não compreendia muito bem aquele sentimento, mas o olhar desse último causava-lhe um frio no estômago. Por isso tentara participar da conversa dos mais animados e assim não ter tempo para pensar no olhar contemplador de Nessis.
Empolgou-se principalmente com a narração de Gardine sobre o estado deplorável que alguns domadores deixavam os dragões capturados. Simpatizou-se ainda mais com o irmão mais novo de Derill quando ele falou com revolta que não concordava com a captura radical, nem com a decapitação de membros importantes dos espécimes capturados.
Era a segunda vez que Cristal bebia. A primeira fora na festa de aniversário de Mya no clã Edo. No começo achou o gosto da cernin horrível, amargo. Mas depois dos primeiros goles notou que o paladar se habitua fácil ao gosto da bebida que se torna estranhamente agradável de ingerir.
No entanto, havia aquele efeito colateral, a vontade de ir ao banheiro.
Levantou-se rápido da piscina e os olhos de Nessis o seguiram. Foi algo tão indiscreto que Cristal não evitou dar a ele uma justificativa.
— Preciso ir ao banheiro, é meio urgente.
— Eu vou com você — Nessis se propôs, juntando os cabelos compridos em um único coque no alto da cabeça. Ficaram alguns fios soltos no pescoço e no rosto dando a ele uma aparência mais feminina. Depois disso ele se pôs de pé e o espanto que causou em Cristal foi visível.
— Mas o que é...
Havia escamas prateadas que começavam na lateral do corpo de Nessis, na margem da cintura. Tinha também barbatanas na lateral das coxas e dos tornozelos, mas o que mais impressionou Cristal não fora notar que ele era um mestiço dos povos de Densimar, mas sim a elevação um pouco acima do seu ventre. Ele tinha uma barriga que certamente não era de gordura, pois seu corpo inteiro era rígido e esguio e a elevação estava tão esticada em sua pele que mais parecia com um inchaço. Seus olhos ficaram tão vidrados que o grupo inteiro parou a conversa para observá-lo.
Mas bastou que a mão de dedos longos fizesse uma breve carícia na barriga para Cristal ficar encabulado ao notar que havia se hipnotizado no ventre de outro homem.
— D- Desculpe-me.
— Não se preocupe — respondeu Nessis delicadamente. — Acho que você nunca viu uma barriga de gravidez em um homem antes, não é?
Cristal balançou a cabeça positivamente e saiu da água, para não se aborrecer mais com os novos risos dos amigos de Derril. O belo Nessis o acompanhou em silêncio.
Sabia que existiam homens capazes de engravidar, principalmente se fossem híbridos.
Na sua espécie também existia aquela possibilidade. Seus ancestrais, ou melhor, suas ancestrais, a princípio eram todas fêmeas cuja uma parte nascia hermafrodita. As poucas que nasciam com o órgão reprodutor masculino fertilizavam as demais para gerar novas crianças. Mas, com o decorrer do tempo, começaram a surgir fadas somente com o sexo masculino e com elas nasceram também os acordos de convívio em sociedade. Um desses acordos regia que a responsabilidade de gerar os novos filhos passaria a ser somente das fadas que nasciam completamente fêmeas.
Porém, ele tinha conhecimento dos estudos que confirmavam que sessenta por cento das fadas do sexo masculino ainda nasciam com o aparelho reprodutor interno feminino, sendo capazes de gerar filhos tranquilamente. Mas como não havia mais entrada para introdução do sêmen de forma natural esta gestação só poderia ser concebida caso fosse o desejo do fairy. Todavia a inseminação seria feita de forma induzida, com acompanhamento de um curandeiro especialista.
Mas desde que nascera nunca vira nenhum homem naquele estado e por isso foi pego de surpresa.
Nessis adentrou uma das repartições individuais, enquanto Cristal usou o urinol do mictório mesmo. Reencontraram-se na pia ao lavarem as mãos.
Cris não conseguia evitar encarar a barriga do homem através do reflexo espelho. E aquele pensamento simplesmente se expôs em sua mente: seus futuros filhos com Ryoha poderiam ser lindos mestiços como a bela recepcionista daquela Kandra. Porém, se humanos do sexo masculino não possuíam o aparelho reprodutor isso significa que...
— Quer tocar?
Sobressaltou com a pergunta.
— C- Como?!
— Você está olhando tanto, pensei que gostaria de sentir como é.
— N- n- não... i- isso s- seria u- um p- pouco c- cons-... — Seu punho foi apanhado antes que concluísse a linha de raciocínio e a mão depositada sobre a formação abaulada da barriga de Nessis.
A pele era firme, mas macia. Sentiu uma leve movimentação sob seus dedos e espantou-se. Sorriu.
— Está mexendo?
— Sim. Isso é um bom sinal. Prova que ele está bem vivo, saudável e louco para sair.
— Falta muito?
— Menos de dois meses.
— É um menino?
— Sim. Hyan será o nome dele. Mas não é o primeiro. Só para constar, tenho um casal. Depois do primeiro você deixa de se impressionar tanto com a gravidez ou com a surpresa que isso ocasiona de vez em quando.
— Desculpe-me por ser tão idiota.
— Eu que peço desculpas, não estava reclamando de você — ele sorriu.
— Posso fazer uma pergunta um tanto invasiva?
— Fique a vontade.
— É que eu acho que está óbvio, mas vai saber, né?
— Diga — Nessis o encorajou.
— Você é híbrido de marino, né? — perguntou, sentindo-se mais a vontade.
— Sim. Um dos meus pais é de Lagoa Del’Fonte. O outro é humano. Eles se conheceram quando meu pai humano fazia pesquisa na região de Densimar. Mas meu pai marino foi quem saiu de Lagoa Del’Fonte para vir morar com o meu pai humano em Sandrix.
Cristal assentiu
— E você casou-se com humano também?
— Sim. O nome dele é Kafah.
— Kafah, Kafah... Esse nome não é estranho.
— Deve ser porque seja parecido com o nome do irmão mais velho dele, que é alguém importante.
Novamente os olhos de Cristal se arregalaram.
— O governante de Erix? Ele é irmão de Jafah?
Nessis assentiu com um sorriso, voltando a alisar sua barriga. Então os dois seguiram para saída.
— O Thor também é como eu.
O comentário aleatório pegou Cris de surpresa mais uma vez.
— Ah?! O Thor também é casado com o irmão de alguém importante?
O riso de Nessis foi tão bonito que Cristal sentiu algo revirar dentro de si.
— Não, Cristal. Eu quis dizer que é mestiço como eu. Thor não é casado.
— Pode me chamar só de Cris.
— Certo. Cris.
— Ele é mestiço com qual...
Mas não precisou daquela resposta. Estavam nas proximidades da área de banho reservada Z-36 quando Thor saiu do lugar e passou por eles. Não teve como não notar os dois tentáculos. Eles bailavam no ar gesticulando conforme ele andava e falava ao mesmo tempo com alguém na tela do que parecia um Decter. Thor soltou uma estrondosa gargalhada e seguiu caminho parecendo concentrado na conversa. Cristal então notou que um dos tentáculos era tão comprido que se deteve perto deles e o olho que se abriu na ponta piscou para os dois.
O mestiço de marino acenou com a ponta dos dedos para o olho no tentáculo que começou a ser puxado conforme o corpo no qual estava ligado se distanciava.
Cris fez uma cara de repulsa.
— Argh! Isso é bizarro! — exclamou, mas se repreendeu mentalmente ao olhar de esguelha o outro híbrido. — D- desculpe-me, Nessis. Eu não quis dizer que todo mestiço é estranho, mas é que...
— Não se preocupe, Cris. Sua reação é mais comum do que pensa. Apesar da revolução e do Tratado Entreraças ainda existem muitos que não se sentem a vontade com a miscigenação das espécies.
Cris ficou ainda mais constrangido por ter sido comparado a um racista.
— Não quis deixar entender que sou desses tipos lunáticos que defendem a pureza de suas espécies — tentou se justificar. — Só achei os tentáculos bizarros porque nunca vi um angeano antes. Assim como nunca vi um marino de perto e me surpreendi com as escamas. Juro que foi só isso. Foi mal.
— Você é mesmo uma graça — Nessis observou novamente.
— Por favor, fico sem graça.
— Desculpe-me.
— Mas, me conta outra coisa, por um acaso o Gardine e o Sr. Norian...
— Não... — ponderou a resposta e logo retificou. — Digo, na verdade, Norian é mestiço sim. Mas entre dois clãs humanos. Um é o quase extinto clã Edo.
— O clã Edo? — Cristal repetiu admirado.
— Sim. Você conhece o clã, né? Sei que seu parceiro domador é o grande Ryoha. O pai de Norian era primo do Pai de Ryoha, o que faz de Norian primo do pai de Ryoha e consequentemente primo do próprio Ryoha também.
— Mas ele me disse que todo o clã havia sido extinto.
— É...
Cristal percebeu que o belo mestiço de marino ficou receoso de repente.
— Pode falar.
— Bom, talvez seja mais uma das coisas que não saiba. Não saber de certas coisas é o que faz de você tão puro e inocente. Não quero ser o responsável por estragar isso.
— Eu vou saber de qualquer forma uma hora ou outra, não vou?
— Pode ser.
— O que é então?
— Bem... Os Edo sempre foram problemáticos, Cris. Sabe o radical que você se negou ser tão veemente? — Cris concordou com um balançar de cabeça. — Então, eles não pensavam assim — Cristal percebeu que Nessis queria lhe dizer algo a mais, mas novamente o percebeu ponderar e desistir de continuar. — É melhor eu ficar quieto.
— Não, eu quero saber.
Os olhos claros do marino se firmaram nos dele.
— Você pode buscar as informações que desejar fazendo uma pesquisa com o Werfone.
— O que é isso?
— É aquele aparelho que o Thor estava usando. É a nova sensação tecnológica do momento, é quase que uma fusão do Decter com o difone móvel.
— Ah, o mesmo que o Sr. Norian também estava usando na hora que entrei na área reservada de vocês, não é?
— Esse mesmo.
— Eu não tenho um desses.
— Eu posso emprestar o meu para vocês mais tarde — ele piscou um dos olhos em cumplicidade ao garoto fada. — Mas não vamos estragar nosso encontro, é melhor entrarmos.
— Vocês demoraram! — gritou Gardine que ria tanto que se dobrava dentro da água. — Cristal, venha ouvir essa piada. Conte para ele, irmão.
— Nem precisa, as piadas do Tiozão não me fazem nem cócegas.
Uma troca de olhares entre Norian e Nessis não foi percebida por Cristal. Não demorou muito e Thor também voltou do banheiro. Derill já sabia o que tinha que fazer depois que todos se acomodassem de volta na água. Então distribuiu os copos e logo os encheu com uma bebida diferente, um líquido azul e brilhante.
— O que é, Tiozão?
— Não faça isso, Cris — Derill o repreendeu quando viu Cristal aproximar a bebida do nariz. — Homem de verdade não fica farejando o que vai beber. E não existe coisa pior que o gosto da cernin, parece mijo essa bosta, e você não se acostumou?
Desconfiado, Cristal ergueu uma das sobrancelhas, mas levantou o copo de bebida quando os demais o fizeram.
— Um brinde a amizade que vem perpetuando entre esse grupo durante alguns anos. Em especial hoje ao Cristal que me deu um grande empurrão na carreira quando eu me sentia desacreditado. Sabendo que não tinha mais caminho para um velho domador aposentado.
Cristal finalmente compreendeu o que estava acontecendo e mesmo quando as taças se juntaram brindando e desejando alto “alute” ele sentiu o peso nos ombros e não foi capaz de acompanhá-los.
Enquanto todos os demais entornavam suas bebidas ele observou seu reflexo no líquido azul florescente com os olhos perdidos. Havia se apegado a Derill rapidamente, não queria se despedir.
— Derill bateu a mão no ombro do rapaz ao notá-lo cabisbaixo, seu rosto havia ganhado uma mancha vermelha, efeito certamente de toda a bebida que ingerira.
— Não é cortês da sua parte não entornar a bebida após um brinde.
— Tiozão...
Derill notou as lágrimas margeando os belos olhos de Cristal.
— Ei, ei, ei... — as mãos firmes e pesadas de Derill apertaram mais os ombros do seu alfa-temporário, transmitindo a força e a confiança que seus quase dois metros faziam tranquilamente. — Eu fiz um empréstimo — observou ele. — Se seu Domador oficial, o que conquistou o direito sobre você de forma justa na Seleção de Alfas, o quer de volta, nada eu posso fazer para impedir essa transição. Também sei que é algo que você deseja mais que tudo. Eu só não queria me despedir sem mostrar para você que, mesmo separados, você faz parte de um grupo especial de amigos para mim, como todos aqui são há tempos. Isso não significa que não iremos nos ver nunca mais, Cris. Isso significa ao contrário, que estamos firmando um contrato de amizade a longo prazo. Verdadeiro e duradouro. Está de acordo, não está?
— Tiozão — as lágrimas quiseram sair e Cristal pegou-se esfregando o punho no rosto —, não sabia que podia falar tão bonito!
— Ah, pare com isso, minha pequena fada! Engula o choro e beba!
— Sim! Alute!! — e o copo verteu-se.
Meros segundos.
Meros segundos foram suficientes para tudo ficar desconexo. Os rostos. As vozes. O som. Os sentidos. Sentia mãos. Ouvia vozes. Mas não conseguia distinguir o que estava acontecendo. Sua cabeça girava. Havia névoa, neon e tudo brilhavam intensamente. Sentiu o estômago arder. A respiração ficar pesada. Ofegava. Arrepios. Mãos. Toques. Sentiu algo gélido em seu pescoço.
— O- quê.... é.... icho...? — a boca estava mole, as palavras saíram preguiçosas, com dificuldade, tudo girava, sentiu vontade de rir. Gargalhou alto. — Fazzzz cóchegaaaaasss... Ahh...
— Calma, só mais um pouco.
— Q-q- que-.... merda tá... aaa... pondo em mim, Tiojaum... — o pescoço pendeu para trás, era onde sentia o formigamento.
Ouviu a gargalhada de Derill.
— Está gostando, é?
— Segure o rosto dele. Porra, Derill.
— Tá, tá... Cris, olha para mim — Derill pediu, segurando seu rosto entre as mãos firmes dele. — Isso excita um pouco.
— Eu sei, tô shentindo...
— É.
— V- v- vooche n- não-o v-vai me beijar, vai, Tiojaum?
— Você deixa eu te beijar?
Deu de ombros.
— Tanto faz... eu acho... essa droga...
— Derill, você não vai se deixar levar agora e... ah? — Era tarde. — Deixa quieto.
— Olha aí, meu irmão beijando um cara. Eu achei que não viveria para isso! — e a gargalhada de Gardine irrompeu aguda o ambiente.
— Eu não acho que aproveitar desse momento de fraqueza dele seja certo... — a voz suave de Nessis advertiu.
— Deixa eles aproveitarem um pouco. Está quase feito, acho que já dá pra você fechar.
Não entendia o que estava acontecendo. Aquela conversa não fazia sentido algum. Sua boca não se mexia correspondendo ao beijo. Sentiu aquele formigamento estranho e gelado em sua nuca descer para baixo.
— Vai doer um pouco, Cris... — a voz doce de Nessis soou suave o alerta.
Mas em contraste com aquelas palavras. Provou que o alerta era real. A pontada de dor que sentiu na nuca foi tão lacerante e acentuada que não foi capaz de conter a ejaculação.
Seu grito foi abafado pelo pressionar ainda mais intenso da boca de Derill sobre a sua. Nem teve a opção de resistir, seu corpo não o obedecia. Sentiu falta de ar. Os olhos giraram nas órbitas. Apagou.
Continua...
[1] Ciclo-riquixá– riquixá é um meio de transporte de tração humana em que uma pessoa puxa uma carroça de duas rodas onde acomodam-se mais uma ou duas pessoas. O vocábulo riquixá tem origem na Ásia onde eram amplamente utilizados como meios de transporte pela elite. Atualmente, no entanto, os riquixás foram proibidos em muitos países na Ásia em decorrência dos numerosos acidentes. Os riquixás comuns têm sido substituídos pelos ciclo-riquixás. Eles também são comuns em cidades ocidentais como Nova Iorque. Em Londres eles são conhecidos como pedicabs. O vocábulo "riquixá" vem da palavra japonesa jinrikisha (人力車, onde 人 jin =humano, 力 riki= tração, 車 sha = veículo), que literalmente significa "veículo de tração humana". (Fonte: Wikpédia)
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