Os Aventureiros De Aurora
10 Capítulo 10
Os Aventureiros de Aurora
Capítulo 10
“Derill é o tiozão mais chato da face de Aurora. Pense num cara cheio de manias bizarras? Ele cismou que deveríamos arrumar um bicho de estimação e sabe o que ele quis? Um Touro-Montanhês. Você poderia ter me indicado a alguém menos estranho, não acha?
E o engraçado é que ele me chama de ‘Minha Pequena Fada’! Acredita nisso? Minha pequena Fada... Céus! Ele é muito sem noção.
A minha mãe está bem. Mandou lembranças. De novo. Esses dias nós passamos por Sira. O tiozão ficou babando pela Hari e pela Mya. E as duas, que não são nada terríveis, ainda fizeram umas gracinhas na frente dele. Pense num cara que ficou todo assanhado?
Ah, ele acabou dando o Chifrudo (o Touro-Montanhês que agora se chama Thor) para Mya de presente de aniversário. Aliás, ela ficou muito chateada por você não ter aparecido no aniversário dela.
Eu acho que você ainda não vai me responder.
Sei que não entra nas redes-sociais e sequer atende as chamadas do Decter, por isso estou escrevendo cartas! Até que está sendo divertido...
Mas eu tenho esperanças que venha a responder todas as oitenta e oito cartas que te mandei (brincadeira, não foi tudo isso!).
Mas o tempo está passando, Ryo. E eu vou te mandar logo a real: a fila anda, falou? (Ouvi essa gíria em algum lugar nessas novas viagens). Significa basicamente que posso me apaixonar por outro alguém. Será que posso ficar com outra pessoa? Se for para me mandar uma carta respondendo que “sim”, pense antes no pobre coração que irá despedaçar, ok?
Sei que você ainda se sente culpado pelo que aconteceu comigo. Sente uma espécie de medo. Mas posso repetir quantas vezes forem necessárias até fazê-lo entender: eu não fiquei com sequelas. Apesar do coma, nós fairies somos muito fortes.
Eu não desisti de você. Sei que está estudando para ir atrás do Altroz que exterminou seu clã e eu estou me esforçando para ir encontrá-lo. Sabe, Ryo, você não precisa ser tão turrão e fazer tudo sozinho. Eu gostaria de estar com você agora, de ajudá-lo. Sei que não o farei desistir da sua determinação, mas ao menos quero estar ao seu lado quando esse momento chegar.
Preciso terminar essa carta, o Tiozão está me apressando.
Ryo, a gente vai se encontrar novamente e quando isso acontecer, eu não vou permitir que você me afaste. Eu sou livre, sabia? Assim como você é. Então posso tomar minhas próprias decisões. E eu já me decidi: quero estar com você.
E.T.A.
Cris”
Ryoha estava relendo aquela carta pela décima quinta vez.
Por azar, recebera a carta no primeiro dia de aula do módulo prático do curso de Levidação, o que lhe rendeu um atraso maior, pois já havia acordado atrasado aquela manhã, mesmo assim, não conteve a curiosidade de ler a correspondência ao encontrá-la pela manhã jogada no chão por debaixo da sua.
Leu e a releu, pelo menos umas três vezes.
Acabou perdendo a cerimônia de apresentação dos tutores e alunos. Não que se importasse de verdade com aquelas formalidades exageradas e que, ao seu ver, só tomavam tempo desnecessário. Também nunca fora tido como um aluno disciplinado quando a questão não era estudo. Na verdade, ainda era visto como rebelde, como Paraxis costumava alegar.
Todavia, sua intenção era ter chegado cedo e participado da cerimônia, quem sabe assim, causasse uma boa impressão para seu instrutor. Porém, tudo conspirou contra aquela sua intenção naquela fatídica manhã a começar pelo decter, que descarregou no meio da noite e não acionou o alarme para despertá-lo. Acordou atrasado, perdeu o pé da sua bota e por fim encontrou aquela carta, junto com as outras correspondências na soleira da sua porta. Tinha uma caixa de correspondência, mas o mensageiro insistia e se habituara em jogar as correspondências dos alunos por debaixo das portas dos dormitórios.
Não foi por nada que ao chegar ao local que ocorrera a cerimônia, um campo extenso ao pé da montanha de Arix, não encontrou mais ninguém. Todos haviam se dispersados e só restara o pessoal do cerimonial que limpava o lugar.
— Oi, você sabe para onde foram as pessoas que estavam aqui?
O senhor que recolhia os copos descartáveis da mesa apontou os céus e os olhos de Ryoha se voltaram para cima acompanhando o movimento do dedo indicador do homem. Pontos longínquos bailavam no mais alto do céu. Perto da gigante montanha. Era certamente um voo de reconhecimento.
Crispou os punhos, irritado.
— Você dever ser o “Grande Ryoha”, não? — perguntou o senhor, chamando a atenção de volta para ele.
— Ryoha, apenas — o corrigiu.
— Sou Gor, do cerimonial — apresentou-se, sem dar importância a correção feita pelo rapaz. — O seu instrutor marcou seu primeiro dia de aula como “falta”, está dispensado por hoje.
Ryoha revirou os olhos e bateu as mãos ao longo do corpo, em sinal de reprovação.
— Ele não podia ter esperado um pouco?
— Ele esperou. Até o limite da tolerância de atraso permitida que é de dez minutos.
— O que eu faço agora?
O homem largou o saco de lixo e fez um sinal para que Ryoha o acompanhasse. Seguiram até outra mesa, onde haviam placas com os nomes dos alunos do curso. Somente na placa que indicava seu nome restava um tipo de quite.
Gor apanhou a prancheta que estava pendurada na lateral da mesa por um cordão e pediu para que Ryoha fosse checando os itens do quite enquanto ele iria assinalando o formulário.
— Vamos fazer a checagem — ele observou. — Vou assinalando conforme vai me confirmando os itens. No final, irá assinar o termo de retirada dos equipamentos de proteção.
— Hm.
— Sãos quatro macacões de voo — Ryoha murmurou “hm” em concordância após contar os quatro pacotes com aquele uniforme na cor caqui. Gor continuou recebendo um “hm” para cada item que ditava. — Cilindro de oxigênio, máscara de oxigênio, recarregador do cilindro de ar, dois pares de luvas especiais, dois pares de botas especiais, capacete, manual de instrução de equipamento, cronograma das aulas práticas, chip Decter com material para a aulas?
— Hm.
— Tudo certo, é só assinar — pediu, entregando a prancheta para Ryoha e apontando para o local de assinatura. Assim que o fez, Ryoha devolveu a prancheta para Gor. — No cronograma das aulas práticas consta a data, horário e o campo de voo onde ocorreram as aulas práticas.
Ryoha agradeceu e recebeu de Gor uma sacola, onde ele pode guardar seu quite. Depois disso afastou-se, sentou-se na grama e ficou observando os céus, até o cerimonial terminar seu trabalho e o campo ficar totalmente vazio. Diferente do que imaginou, seus colegas não pousaram ali, desapareceram. Decidiu voltar para o alojamento um tempo depois.
Pensou em procurar Paraxis para conversar e ter ideia do quanto aquela sua gafe iria prejudicá-lo, mas ao pensar que ouviria dele um novo sermão desistiu. Resolveu somente aguardar o dia seguinte enquanto se ocupava da leitura dos novos manuais que recebera.
No dia seguinte, madrugou, e antes do sol nascer estava diante do portão fechado do Campo Nº 08 de treinamento. Notou, pelo mapa que fora adicionado ao banco de dado do seu Decter após inserir o chip com o material das aulas, que existiam 12 campos de treinamento, exatamente a quantidade de alunos do curso. Ou seja, se algum dos alunos fosse reprovado, nem todos os campos funcionariam e nem todos seus instrutores seriam convocados para as aulas.
Cada campo estava localizado em um ponto diferenciado da região montanhosa de Arix. Os perímetros estavam delimitados para que cada instrutor trabalhasse individualmente.
Dragaria estava a 5 km de distância do alojamento e do prédio onde tivera as aulas teóricas do curso. Do alojamento até o Campo de Treinamento era mais 2,5 km subindo. Levou 20 minutos de teleférico para chegar ao campo onde fora o cerimonial no dia anterior. Mais alguns segundos no elevatubor para subir os 50 metros de altura até a entrada do Campo Nº 08. Dali, visualizou o corredor gigante ladeado por montanhas, a maior delas talvez chegasse há três mil metros de altura.
Nada comparado a região montanhosa de Tronto, uma extensão somente de montanhas, penhascos e desfiladeiros, onde alguns aventureiros ousavam dizer não se enxergar o chão. Montanhas cujos picos pareciam tocar os céus com a ponta dos seus “dedos” e que cobriam a luz do dia tornando o lugar obscuro e sombrio, iluminado somente pelas rajadas dos seus demoníacos habitantes alados e cuspidores de fogos.
Estudara nos livros que a maior das montanhas de Tronto chegava a medir 15 mil metros de altura, a Oz-Town além de gigante possuí uma estrutura peculiar, ela se parece com uma árvore seca com vários “galhos” que sustentam planícies inteiras fazendo com que de longe cause a ilusão de que essas planícies flutuam no céu. Por isso esse conjunto de elevações recebeu o nome de “Montanhas Flutuantes de Oz”. E é nela, nas Montanhas Flutuantes da Oz-Town, que se encontra a morada dos altrozes. Um lugar impossível de se chegar sem ser voando.
Consultou a hora no seu Decter e constatou que seu instrutor estava atrasado, imaginou que ele estivesse se vingando por causa do seu atraso do primeiro dia, mas ao ouvir o “gralhar” espalhafatoso de um Alcon que parecia agitado na área de treinamento, passou por sua cabeça algo que o fez ficar apreensivo, levantou-se para certificar-se de que poderia estar errado, mas bastou tocar no portão e percebeu que este estava aberto, apavorou-se.
O portão não estava trancado, isso significava que seu instrutor havia chegado primeiro que ele. Tratou de apressar-se, adentrou o espaço quase correndo, andou alguns metros por uma passarela de pedra e entrou em um túnel. Ao atravessar esse túnel, passou por mais uma entrada e chegou aquela cavidade onde fora recepcionado por uma forte rajada de vento. Arregalou os olhos ao ver o dragão vir voando na sua direção e em um gesto automático levou a mão direita a sua cintura, atrás da espada, só então lembrou-se de que não era permitido trazer armas para às aulas. Voltou-se para o dragão e prendeu o ar no peito esperando ser atacado, mas ao contrário do que imaginara, o animal pousou tranquilamente diante dos seus olhos e uma mão gentil surgiu na lateral do pescoço dele, acariciando.
— Ow, Calminha, Fariel! Calminha, minha amiga. Não se agite tanto, vai assustar nosso novo aluno.
Como se compreendesse a fala do humano em suas costas, o dragão parou de se agitar e juntou suas asas, antes abertas, rente ao corpo, deitou-se no chão e acomodou-se como um pássaro no seu ninho. O homem que estava em seu dorso ficou visível.
Os olhos de Ryoha e do instrutor se encontraram. Ryoha estava curioso, principalmente quanto a deficiência de Kahran, por isso acompanhou atentamente os movimentos dele quando desceu do Alcon elegantemente, após jogar suas duas pernas pela lateral do animal e escorregar sobre as asas escamosas até atingir o chão.
Kahran ficou de pé e veio ao seu encontro, o professor estava vestindo um macacão como o seu, distinguido pela cor chumbo e com o símbolo de Dragaria, um Teragon[1] bordado no bolso esquerdo, e no pé do símbolo o nome dele. O instrutor tinha os cabelos castanhos, compridos como os de Ryoha, presos por uma trança, no rosto uma barba rala, com destaque para o cavanhaque. Os olhos eram castanhos, as sobrancelhas grossas, apesar de ser um homem maduro, 41 anos, — de acordo com o que lera em sua ficha —, era bem apessoado.
— Está atrasado, grande Ryoha! — saudou, fazendo uma mesura debochada com a mão.
— Não, não estou — rebateu rapidamente. — Eu o estava esperando lá fora. Achei que você quem estivesse atrasado. E esqueça esse negócio de “Grande” é só Ryoha.
O instrutor abriu um sorriso de lado, detendo-se diante do aluno e o observando com cuidado. Era bonito e arrogante, exatamente como os rumores diziam.
— É, vou dar-lhe um desconto, porque eu vi a hora que chegou pelo monitoramento. Mas sua ausência no dia de ontem não me passou uma boa impressão — o homem declarou aquilo que já era a desconfiança do aluno. Coçou a barba no queixo e analisou o rosto de Ryoha com mais cuidado, observando-o de perto. — Você é mesmo tão bonito como dizem por aí, né? Parece uma garota! — concluiu e riu.
— Hã?
Deduziu, pouco depois, que Kahran não era nada o “monstro” que Paraxis pintara. O homem podia até ter um ar esnobe, e agir como se fosse alguém importante, mas a verdade era que ele falava, maquiava e aumentava as coisas demais, principalmente sobre suas aventuras quando esteve a serviço do Conselho. Parecia do tipo que gostava de ostentar glórias, nomes e luxos.
Kahran usava luvas especiais, botas e o macacão de mangas compridas, por isso não pode notar aonde estava a deficiência que Paraxis falara. Chegou a imaginar que fosse uma das pernas, pois teve a impressão de que ele andava mancando, apesar de ser um mancar discreto, mas desistiu de pensar sobre assunto ao perceber que ele não tinha relevância.
Além disso, descobriu algo que considerava bem pior do que uma deficiência física: a personalidade irritante. Kahran era do tipo de homem saidinho, cheio de sorrisos maliciosos e cantadas disfarçadas. Ele também não era muito bom com as explicações e se atrapalhava com informações básicas. Fora obrigado a corrigi-lo algumas vezes, o que de fato não incomodara o instrutor, que ria e o chamava de “belo-gênio”.
Ao perceber que Kahran não poderia explicar mais teoria do que já sabia, pediu para que ele parasse de enrolá-lo com conversas aleatórias e desnecessárias e passasse às aulas de instrução de voo. Surpreendeu-se quando ele simplesmente o acatou, sem sequer pestanejar. Foi quando começou a desconfiar que Kahran apreciava o fato dele, Ryoha, ser seu aluno. O fato se dava, acreditava Ryoha, por uma questão de vaidade. Para tipos egocêntrico e contador de vantagens como o instrutor, ter o irmão de uma figura heroica, alguém que já era tido também como “prodígio”, deveria ser uma honra.
Por isso que há dois dias o professor estava tentando instruí-lo de como montar na sua Alcon, sem nenhum progresso a princípio.
Ryoha dobrou a carta de Cristal ao ser sombreado pelo homem que se deteve em suas costas.
— Outra carta de fã? — perguntou o instrutor, em deboche.
— É feio espiar, Kahran — censurou o professor e se levantou, guardando a carta em um dos compartimentos do uniforme.
Olhou feio para o homem de barba ao passar por ele, ordenando em seguida:
— Vamos continuar de onde paramos.
Kahran riu, balançando a cabeça em descrença.
— Ainda estamos no intervalo — justificou. — E eu já disse que é “professor Kahran” ou “Mestre Kahran”. Qual é o seu problema com as normas de tratamento com as pessoas mais velhas e superior?
— Do que você tá falando? Superior? Você? Ah, por favor... É melhor continuarmos, o dia está indo embora e não tivemos nenhum progresso.
— Você é que não teve nenhum progresso. Esqueceu que eu já sou um levidador? — corrigiu o instrutor, aproximando-se de Ryoha e jogando um dos braços sobre os ombros dele, apertando-o devagar, aproveitando para trazê-lo para mais perto de si, o suficiente para que pudesse sentir o aroma cítrico de frutas silvestres que exalava dos fios vermelhos. — E, não seja tão frio com seu querido mestre, Ryozinho. Já disse que deve confiar mais em mim. Agora, diga-me, o que significa aquela sigla: “ETA” com a qual esse seu antigo alfa assina as correspondências? — sussurrou a pergunta rente ao ouvido direito do aluno.
— Não é do seu interesse — Ryoha respondeu ríspido, afastando o braço do ombro dele e empurrando o professor para longe. — O intervalo acabou, vamos voltar à aula.
— Quem é o instrutor aqui afinal?
Ryoha não deu ouvidos para aquela pergunta e se deteve diante do Alcon, encarando o dragão-águia com seus olhos cinzentos intimidadores.
— Vamos, permita-me que eu monte em você.
O animal ergueu suas grandes asas e alçou voo, sozinho.
— Tsc. Quer me ajudar aqui, Kahran? Ela está voando sem mim.
O Instrutor balançou a cabeça negativamente e soltou um silvo agudo. O animal que não havia tomado tanta distância voltou para a área de treinamento e o instrutor se aproximou de sua companheira, acariciando o grande pescoço dela.
— Esse garoto mal-humorado não sabe mesmo como tratar uma dama, não é, Fariel? — perguntou sorrindo. — Sabe, bebê, seja quem for, esse garoto das correspondências, não está conseguindo amolecer o coração de pedra desse garoto, não concorda?
O Dragão soltou um chiado como se tivesse compreendido e concordando com o instrutor, então ele se voltou para Ryoha.
— Vamos começar desde o princípio de novo. Não encare o Alcon desse jeito mal-humorado. Até eu tenho medo desse seu olhar, Ryozinho. Você precisa transmitir confiança sim, isso você tem até de sobra, sobretudo, a gentileza é a chave.
O homem olhou para o seu Dragão e após sorrir para Fariel, pediu docilmente:
— Permita-me que eu voe com você, minha dama?
O Dragão-Águia abaixou a cabeça e o instrutor conseguiu montá-la.
— Viu? É muito fácil — disse, já acomodado no dorso do animal.
— É fácil falar quando se tem tanta experiência — resmungou, cruzando os braços no peito e virando o rosto para o lado. — Se fizesse seu trabalho direito e me explicasse, de maneira compreensiva, já estaria voando.
— Não é uma questão de experiência e sim de jeito. Se você não cativar a confiança do Alcon ele jamais permitirá que o monte. Acho que você deveria arrumar um ser mágico que o ensinasse a se comunicar com os dragões.
Ryoha descruzou os braços e encarou Kahran com estranhamento.
— Do que está falando?
— Teremos uma pausa de duas semanas, férias do curso antes da fase final. Estou falando que nesse meio tempo deveria pedir a ajuda de algum ser mágico para ajudá-lo a vencer essa barreira que tem com os dragões, seres mágicos tem facilidade de compreender outros seres e animais em geral. Você carrega um rancor muito grande, Ryo. E, mesmo que indiretamente, você acaba transmitindo esse ódio. Dragões são seres sensíveis, alguns, mais que os outros. Os Alcons, em particular, se encaixam bem nesse quesito “sensíveis”, e, enquanto não aprender a controlar esse sentimento não conseguirá ganhar a confiança da Fariel e de nenhum outro Alcon. Se não o fizer, não conseguirá montá-los e não será capaz de passar no curso e se tornar um Levidador. Pense nisso.
Kahran colocou a máscara de ar, que ficava presa em um equipamento na nuca do animal, e ganhou os céus com a sua Alcon.
Enquanto os admirava, Ryoha ponderou sobre o que o homem dissera.
Para encontrar seu Altroz precisava primeiro invadir o território deles, as Montanhas Flutuantes do Vale de Oz-Town. Por isso necessitava aprender a voar em um Dragão para conseguir chegar até lá.
Lembrou-se da carta de Cristal e sentiu aquele estranho ardor em seu estômago. O mesmo ardor que sentia todas às vezes que pensava em reencontrá-lo.
Desde que o deixara, após ele ter quase morrido na última missão que tiveram juntos, não encontrara motivos plausíveis para um reencontro. Porém, agora o tinha.
Parou de pensar e decidiu agir.
...
Derill e Cristal estavam exaustos, reflexo da última missão que receberam: a captura de um Vaurin. Apesar do Vaurin ser um dos espécimes de dragões menores existentes em Aurora e não ser considerado do tipo perigoso, eles possuem asas múltiplas e se deslocam rapidamente no ar, como vespas, o que dificulta sua captura. Os Vaurins habitam ambientes úmidos e quentes, por isso são encontrados no território de Meraxis, uma região pequena e alagada, que faz fronteira com condado de Elva e Relva.
Derill e Cristal deram baixa na missão concluída e estavam deixando o prédio do Conselho quando o recepcionista, um senhorzinho com meio metro de altura, cabelos e bigode brancos, óculos ovais no rosto, saiu detrás do balcão e apressou-se atrás dos dois, balançando um pergaminho nas mãos.
— Tem correspondência! Correspondência!
A dupla se deteve.
Derill foi quem estendeu a mão para receber o pergaminho, mas o pequeno recepcionista o recolheu, não permitindo que ele o tocasse, para em seguida o estender para o jovem ao lado dele.
— É para a fada.
Cristal se retesou, sentindo as entranhas se contorcerem. Nunca recebia correspondências, mas imaginou de quem seria: Ryoha. Ele poderia tê-lo respondido só para lhe afrontar, redarguindo a pergunta que não queria que ele respondesse.
Apanhou o pergaminho com cuidado e um tanto trêmulo, o que arrancou um olhar desconfiado do senhorzinho da recepção.
— Obrigado.
— Hm — resmungou o homem, retirando-se na sequência, mas não deixando de virar o pescoço algumas vezes para trás, ainda curioso.
— O que foi, meu garoto? — quis saber Derill, apoiando uma das mãos no ombro dele.
— Tenho uma leve impressão que é do Ryoha — constatou, apreensivo.
— O grande Ryoha?
— Não o chame assim! É só Ryoha.
— Certo, certo — tirou a mão do ombro do garoto. — Mas... por que não abre e descubra? Sua cara de angústia está me dando medo.
— É.... eu vou fazer — respondeu não muito convicto e retirou o papel de dentro do tubo de pergaminho, desenrolou a mensagem, um papel minúsculo para o tamanho do canudo e leu com os olhos rapidamente. Conforme foi lendo, seus olhos azuis foram crescendo e ao terminar releu novamente. Só então entreabriu os lábios, incrédulo.
— Não me assuste garoto — reclamou Derill, tentando pegar a carta da mão dele, mas Cristal a tirou do seu alcance ao escondê-la nas costas.
— Ei, isso é meu, tiozão.
— Então desembucha. Não diga que ele morreu?
— Vire essa boca para lá! — Cristal gritou e suspirou fundo, respondendo calmamente: — Não, tiozão. É ao contrário. Por incrível que pareça é o momento pelo qual eu tanto esperava.
Sorrindo abertamente, o Alfa expôs o texto da carta para o seu Domador.
“Cris, eu preciso de você. Estarei em Erix na próxima semana, vamos conversar. Ryo”.
Diferente do que imaginava, Cristal percebeu seu atual domador fechar a expressão, algo que era incomum em Derill. Recolheu a carta e a guardou dentro do tubo novamente, puxando a mochila que tinha nas costas para sua frente e guardando o tubo em um dos bolsos, depois voltou ajeitá-la nas costas e encarou a expressão séria do seu domador.
— Eu sei o que está pensando — expôs ao companheiro.
— Aprendeu clarividência também?
Cristal balançou a cabeça, negando.
— Não vou abandoná-lo antes de completar sua pontuação, Tiozão. O Ryo disse que estará aqui somente na próxima semana. Temos essa semana para pegar uma missão que tenha a quantidade de pontos que faltam para você conseguir alcançar seu objetivo.
Derill continuou com o cenho franzido, a chateação aumentando por Cristal fazer aquela suposição. A verdade era que já havia se afeiçoado ao garoto e não estava gostando nada daquela visita de Ryoha. Cristal era devoto e apaixonado, Ryoha era duro e egoísta. Algo dizia-lhe que havia um interesse individual naquele “eu preciso de você” da correspondência. Algo que certamente Cristal não pensaria duas vezes em aceitar, por mais que fosse beneficiar somente Ryoha e seu grande desejo egoísta. Suspirou e tentou desfazer a carranca.
— Vamos passar a noite em uma casa de banho?
— Ah?! — o rosto de Cristal ficou vermelho ao ouvir aquele pedido repentino e que não tinha nenhuma relação com o assunto. — Por que eu iria em um lugar que é usado para encontro entre amantes com você, Tiozão?!
— Não é somente para encontro entre amantes. É também usado para encontro entre companheiros, amigos, um lugar ideal para beber e relaxar.
Cristal não se convenceu e continuou encarando o homem mais velho com o rosto vermelho. Mas Derill não deu tanta importância para a polvorosa do companheiro aventureiro e virou de costas.
— Nos encontramos lá — avisou, seguindo em direção a saída. — Ao pôr do sol — acrescentou. — Vou estender o convite para outros amigos se sentir mais seguro. Até mais tarde.
O garoto fada abriu a boca para contestar, mas a porta principal já havia se aberto e fechado e Derill desaparecido ao atravessá-la. Cristal coçou a nuca, suspirou e seguiu na mesma direção.
— O que ideia tosca é essa desse Tiozão agora?
Continua...
Momento fanart:
Novamente, minha filhota, a Bruninha, me presenteou com mais um fanart dos Aventureiros de Aurora em comemoração ao dia dos Namorados que foi o mês passado. Cristal e Lady Ryoha (a versão feminina do Ryo). Vejam que lindo! Achei tão romântico. O Cristal lembrou até o Curupira da minha Original publicada pela Draco “O Filho da Mata”. Obrigada filhota linda do meu core ♥

[1] Teragon – dragão alado de seis cabeças; cada cabeça representa um elemento natural: água, terra, fogo, gelo, terra e ar. Os estudiosos dizem que o “Teragon” foi o ancestral do Altroz e habitou Aurora há trezentos milhões de anos atrás. Mas, apesar de haver réplicas baseadas em partes de fósseis descobertos por exploradores em museus, o Teragon ainda é tido como um mito.
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