Os Avaradores
1 Animais Fantásticos e Onde Habitam – 53º edição
“No meio do saguão havia uma fonte. Um grupo de estátuas de ouro, maiores que o tamanho natural, estavam dispostas no centro de um espelho de água circular. A mais alta era de um bruxo de aparência aristocrática, com a varinha apontando para o ar. Agrupados a seu redor, havia uma bela bruxa, um centauro, um duende e um elfo doméstico. Os três olhavam com adoração para o casal de bruxos.”
HP e a OdF — p.107
“- (...) A indiferença e o abandono muitas vezes causam mais danos do que a aversão direta... a fonte que destruímos esta noite representa uma mentira. Nós, bruxos, temos maltratado e abusado dos nossos companheiros por um tempo longo demais, (...).”
HP e a OdF – pag. 674
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Naquele verão, em julho, a família Scamander estava inquieta. Tudo porque pai, mãe e filho sempre viajavam nas férias. Os pais eram pesquisadores de animais mágicos e o filho começaria o seu último ano na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.
Tanto Amie quanto Lorcan Scamander vendiam pequenos artigos para as várias publicações bruxas sobre animais mágicos. Amie trabalhou por três anos no Ministério, no Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas, conseguindo aprovar uma lei junto ao Organismo da Relação entre Seres Mágicos que dizia respeito ao excesso da matança que os sereianos faziam de dilátex (um peixe que consideram pragas) até ir fazer pesquisas com o marido. Porém, alguns meses antes, Lorcan encontrou a primeira edição de um livro do bisavô, Newt Scamander, um dos melhores livros do mundo bruxo sobre o assunto, chamado Animais Fantásticos e Onde Habitam e decidiu atualiza-lo com todos os dados que ele e a mulher coletaram em todas as viagens e outras mudanças na bruxidade.
Por conta disso, Amie corria pela casa juntando os pergaminhos de anos de dedicação e tantas outras aparelhagens de pesquisa, enquanto o adolescente Lohan ficava absolutamente entediado.
Lohan Xenófilo Scamander era um rapaz um tanto peculiar. Cabelos emaranhados e castanhos, olhos verdes claros e barba por fazer, seu olhar parecia enxergar mais do que havia em sua frente e até em seus gostos havia estranheza. Não fosse por toda a família Scamander ser esquisita, Lohan seria muito notado pela diferença entre os parentes.
Muito desacostumado com a rotina dentro de sua própria casa, observando o pai escrever loucamente e a mãe apoiada ao seu lado, sempre entregando algum dado importante, despachando corujas para obter respostas ou fazendo apressadamente uma xicara de café, Lohan se trancou em seu quarto, no segundo andar, e começou a trocar corujas corriqueiras com a prima da mesma idade, Utau.
Seu pai parecia à beira de um ataque febril de tanto que se dedicava ao livro. Mas, ao ver de Amie, sua esposa, o trabalho estava tão caprichado e detalhado que merecia esse esforço. Lorcan escrevia manualmente, sem querer perder nada, riscando muitas informações da última edição (que era de mais de cinquenta anos atrás) e adicionando novas.
Na última edição quem escrevera o prefácio fora Alvo Dumbledore. Lorcan e Amie escolheram uma nova pessoa para começar essa edição tão extraordinária e aguardavam sua coruja. Aimée Olaf aceitou de bom grado escrever para a 53º edição de Animais Fantásticos e Onde Habitam. Ela também sabia que seu nome estaria incluso no livro mesmo se ela não escrevesse o prefácio.
Lorcan ainda revisava o começo do livro.
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O que é um animal?
Perguntamos então: qual dessas criaturas é um "ser" — ou seja, uma criatura digna de direitos legais e voz no governo do mundo mágico — e qual é um "animal"?
(...)
Somente em 1811 foram encontradas definições que a maior parte da comunidade mágica achou aceitáveis. Grogan Stump, o Ministro da Magia recém-nomeado, decretou que um ”ser” era “qualquer criatura que possuísse inteligência suficiente para compreender as leis da comunidade mágica e para compartir a responsabilidade na preparação de tais leis”.
(...)
Naturalmente, a questão não se encerrou aí. Todos conhecemos os extremistas que fazem campanha pela classificação dos trouxas como "animais"; todos sabemos que os centauros recusaram a condição de "seres" e solicitaram permanecer como "animais” 3 à época.
Animais Fantásticos e Onde Habitam – páginas de 10 a 13
Uma mudança brusca começou a ocorrer a partir de 1998 4, sobre a classificação de “seres mágicos”.
O Ministério da Magia Britânico criou uma sede única do chamado Organismo da Relação entre Seres Mágicos, que tinha como intuito inicial apenas reavaliar e reorganizar os ideais bruxos sobre “animais” e “seres”, quando o Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas já parecia ultrapassado 5.
Embora o Organismo da Relação entre Seres Mágicos fosse apenas um subdepartamento do Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas e pudesse ter se extinguido depois das novas decisões pós-guerra contra Voldemort, atualmente, cada Ministério da Magia possui o seu próprio co-departamento de relacionamento com os seres.
O Ministério da Magia Britânico (com a aprovação do Ministro que posteriormente se aposentou no poder, Quim Shacklebolt) criou também a Cúpula dos Guardiões. Os guardiões são líderes de variadas criaturas mágicas que tomam decisões propícias ao seu povo junto aos bruxos. Os guardiões tornaram a denominação de “seres mágicos” como “qualquer ser que possa criar, compreender e compartilhar um mesmo governo sem atrito de interesses” (incluindo os bruxos 6). Isso excluiu outras criaturas da condição de “seres”, como as megeras 7, mas todos foram realocados para as três outras divisões do Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas – a Divisão de Feras, a Divisão de Espíritos e a Divisão de Animais (enquanto a Divisão de Seres se transformou na Cúpula dos Guardiões).
Os seres mágicos que se unem aos bruxos através da Cúpula dos Guardiões são os duendes, os lobisomens, os sereianos e os centauros. Aimée Olaf foi a primeira guardiã bruxa e responde diretamente ao Organismo da Relação entre Seres Mágicos, mas há rumores de que até o Departamento de Mistérios esteja envolvido em apoio aos guardiões, tornando muito mais complexas as recentes mudanças. Embora apenas o Ministério da Magia Britânico acolha guardiões, no momento em que escrevo o Ministério da Magia Francês já tem planejamento de desenvolver sua própria Cúpula.
(...)
Notas de rodapé:
3 Os centauros fizeram objeções a algumas das criaturas com quem deveriam compartir a condição de "ser", tais como as megeras e os vampiros, e declararam que eles administrariam seus negócios independentemente dos bruxos. Um ano depois os Sereianos fizeram o mesmo pedido. O Ministério da Magia aceitou essa exigência com relutância.
(Animais Fantásticos e Onde Habitam- p. 13)
4 Em 1998 ocorreu a queda do bruxo que se intitulava “Lorde Voldemort” e por conseqüência da estranha ação de centauros, elfos-domésticos, hipogrifos, testrálios e até um gigante na ajuda de sua derrota, a relação entre os bruxos, os seres mágicos e os animais foi reavaliada pelo Ministério da Magia Britânico, responsável pela Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, onde ocorreu a batalha.
5 Percebemos as “falhas” do departamento com o exemplo de Firenze, o centauro que lecionou Adivinhação em Hogwarts entre 1996 e 1998. Na época, o Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas não soube nem como pagar o centauro, embora tenha ocorrido intervenção de Alvo Dumbledore (o diretor da escola na época) no caso.
6 Alguns bruxos discordam dessa posição porque consideram que a bruxidade é superior à outros seres mágicos, animais e trouxas.
7 Elas se reportam à Divisão de Feras atualmente.
***
Lorcan ainda escrevia repetidamente, revisando as datas, quando Amie foi para cima, no quarto do filho e percebeu a porta entreaberta. Ela sabia que o filho não tinha o que fazer, mas estava tão ocupada que não sabia como ajudar.
— Lohan? – Ela chamou.
O garoto se virou devagar, quase imperceptível, com uma carta nas mãos. Amie reconhecia aquela coruja que alcançou o céu logo depois de sua entrada. Pertencia à irmã de seu marido, Johanna Scamander.
— É de Utau. – Informou o jovem Lohan, percebendo o olhar inquisidor da mãe, curiosa.
Amie abriu um sorriso meigo e perguntou:
— Ela está encontrando os meninos para ensaiar este verão?
Lohan não deixou o segredo de sua prima se revelar nem por sua expressão. Apenas respondeu casualmente:
— Não, ainda não.
Amie ainda tagarelou um pouco sobre o almoço demorar antes de girar e deixar a porta entreaberta como estava. O filho gostava de tudo organizado. Era muito rígido. Ele se lembrou depois que nem contara à mãe que provavelmente seria o novo baixista da banda, já que Max (o antigo baixista) se formou em setembro.
Quando percebeu a sombra da mãe sumir escada abaixo, Lohan voltou novamente sua atenção à carta. A estranheza de Lohan não o separava da prima – aquilo os unia. Não que Utau precisasse de amigos. Mas Lohan, pelo contrário, era muito introvertido. Passara dois meses morando com os centauros, com a aprovação e excitação dos pais quando tinha quinze anos, porque era tão diferente que as criaturas o aceitaram de boa vontade em seu convívio. Desde então, passava tempos na Floresta Proibida. Claro que não eram os mesmos centauros, mas a ligação fora imediata, tal qual na primeira vez. Ele se dava melhor com os centauros do que qualquer outro ser humano conhecido.
A carta de Utau era breve e preocupante. Ele a girou nas mãos antes de suspirar, olhando para o céu claro lá fora. Talvez devesse fazer uma visita às tias, mães de Utau. Para apaziguar o tédio e se convencer de que a prima estava bem.
A letra estava muito tremida e Lohan conhecia bem a letra da prima. Compunha as letras de sua banda de rock com ela.
Lohan,
Os gritos continuam.
Utau
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