Os Avaradores

2 A Cúpula dos Guardiões


“Vemos assim que o fato de possuir duas pernas não era garantia de que uma criatura mágica pudesse ou devesse ter interesse nos assuntos do governo bruxo.”

Animais Fantásticos e Onde Habitam- p. 13

Aimée Marie Olaf estava quase uma hora adiantada. Tinha uma postura firme, que marcava presença. Os cabelos eram loiros e se encaracolavam ao chegar na metade do rosto. Os olhos eram verdes, mas quase nem se notava pelas constantes olheiras ou pelo vaguear do olhar que nunca parecia interessado. Aimée Olaf, ainda jovem, tinha um cargo importante e reverenciado no Ministério da Magia. Talvez porque só se interessasse pelo seu trabalho desde que concluíra os estudos em Beauxbatons, ao contrário da irmã gêmea idêntica.

Aimée era uma guardiã. E apesar de, na Cúpula dos Guardiões, não haver um líder proclamado, Aimée, a bruxa, era a mais ouvida.

Sua reunião era na Cúpula, mas Aimée sempre tinha que falar com Lúthien Grengrass antes, a Inominável do Departamento de Mistérios. Tudo porque antes de uma reunião dos guardiões começar, Lúthien tinha que acionar (e Aimée não tinha autorização nem sabia como fazer) o chamado Elo da Harmonia. O Elo não era um instrumento. Ele criava uma atmosfera na Cúpula que impedia que qualquer guardião tomasse uma decisão que não fosse pelo bem de todos os povos, impedindo-os de falar por interesse pessoal ou de sua própria raça. Era assim que as coisas funcionavam melhor, que a harmonia se criava entres os seres mágicos e que se estabilizavam as decisões.

Aimée andou pelo Átrio quase vazio (o sol nem tinha nascido) sem olhar para os lados. Pegou o elevador mais próximo, apertou o número nove e tirou do bolso um pergaminho violeta-claro com as palavras Ministério da Magia estampadas em suas asas. Aimée resmungou para o pergaminho na mão:

— Lúthien, acione o Elo, por favor.

No instante seguinte, o pergaminho flutuou para cima, virou um aviãozinho de papel e ficou voando em torno de sua cabeça.

Quando o a voz feminina anunciou “Departamento de Mistérios e a Cúpula dos Guardiões”, Aimée fez uma careta para o estrépito que as portas do elevador fizeram antes de desembarcar. O memorando interdepartamental disparou à sua frente, sumindo de vista, sendo sugado pela porta preta e lisa no fim do corredor. Quando Aimée alcançou a porta, colocou a mão em sua maçaneta. Ela se aqueceu e Aimée sentiu uma pequena eletricidade passar por ela antes de se abrir.

Aimée entrou na conhecida sala circular — toda negra, com portas pretas idênticas e sem letreiros, separadas por candelabros de chamas azuis. Parecia noite dentro da sala. Aimée nem se surpreendeu com o efeito que as chamas faziam no teto e no piso, refletindo uma claridade gelada. Quando ela fechou a porta em um clique, a sala começou a girar. Aimée bocejou. Depois de ganhar velocidade, a sala parou de rodopiar, e as portas pareciam idênticas ao estado anterior, mas Aimée sabia que agora a Cúpula seria reconhecível. As outras portas eram de respeito aos Inomináveis, como a sala de Lúthien. Aimée sabia que poderia entrar – mas já cometera o erro duas vezes, por cansar de esperar Lúthien para ativar o Elo. Ela preferia não mais se dispersar, até porque quando o fez não fora uma boa experiência. A sala em que Lúthien trabalhava era uma incógnita, mas era onde ficava o Elo.

A porta da Cúpula brilhava agora à sua frente, com os dizeres Cúpula dos Guardiões. Aimée girou a maçaneta fria e entrou.

Era um espaço totalmente diferente. Parecia uma catedral. A atmosfera era sempre leve. Havia arvores com grandes raízes que cresciam para cima, musgo no chão e pedras. O barulho de uma pequena cachoeira dava a impressão de estar em um banho. Havia a parte rasa de um lago, no qual a guardiã sereiana se instalava para a reunião. Na sala havia dois túneis – um submerso no lago, logo depois da quebra da cachoeira que ia bem mais além, até o Lago Ness, aonde habitava Nereiada. Ao lago do raso do lago, havia outra passagem encoberta por galhos e arbustos – era por onde chegava o centauro Kentau.

Lá no alto, para o teto, aonde as árvores maiores chegavam, abria-se (magicamente) um céu vasto e limpo, sempre claro, com o sol que os recebia em todas as reuniões.

Aimée percebeu que o Elo não havia sido ativado e tirou os sapatos. Adorava pisar no chão úmido e na relva. Era onde se sentia em casa.

Deitou no chão e ficou observando o falso céu por alguns minutos, até que a porta por onde ela entrara se abriu novamente. Dominic vinha chegando, percebendo-a deitada de qualquer jeito no chão.

Era um homem pouco mais velho que ela – olhos verdes, cavanhaque e bigode ralos e ruivos, cabelos desleixados, um porte seguro e olhar intimidador. O lobisomem não lhe desejou bom-dia ao chegar.

— Achei que não viesse, Dom. – Aimée tripudiou, deitada no chão, as costas sujas. Girou o corpo ainda deitado para ele.

— Você não sabe de tudo, Aimée. – Ele ainda estava de pé, olhando com zanga para ela.

— Claro que eu sei, Dom. Eu sei de tudo. – E ela deu um sorriso zombeteiro para ele.

— Me chame de Dominic. – Dom disse em uma voz potente que quase fez Aimée gargalhar.

— Você ainda está bravo?

E então, ele andou com ferocidade até ela. Agachou ao seu lado, puxou seu cotovelo e a fez se sentar. Aimée abriu a boca para protestar, mas ele lançou antes:

— Claro que estou bravo, Aimée. Você...

A cachoeira fez um rebuliço maior e a água teve uma leve movimentação. Nereiada dava o primeiro fôlego com a cabeça para fora da água, focalizando-os.

Era uma sereiana provinda da Grécia, então era mais bela do que sereianos da Irlanda. Era mais bela que os seres humanos. Possuía um exótico rosto de nariz fino, enquanto escamas verdes lhe enfeitavam as bochechas em forma de dois triângulos inversos. Tinha os olhos como bifurcações menores do que a de ser um humano, envolto por uma densa totalidade azul. Os cabelos eram negro-azulados e armados, mesmo na água. Era uma sereiana jovem e sábia. Embora todos os guardiões falassem vários idiomas, inclusive serêiaco, não era preciso, porque Nereiada também dominava o inglês.

— Bom dia Nereiada. – Disse Aimée, abrindo um pequeno sorriso e se desvencilhando de Dominic. Ele saiu irritadiço e sentou em uma das pedras perto da porta.

— Sabe que não me acostumo com seu tipo de cordialidade humana, Aimée. – Disse Nereiada em uma voz que mais parecia um canto. – Mas “bom dia” para você. – E também sorriu.

No mesmo instante, a porta tornou a se abrir e houve um remexer na entrada do túnel ao lado da cachoeira. Gortun, o duende de aparência velha e rabugenta, e Kentau, o centauro que lembrava, por sua parte de cima, um homem primitivo de grande barba negra, chegaram ao mesmo tempo.

Ambos foram saudados como velhos amigos por Aimée e Nereiada. Dominic não parecia de bom humor. Era período de lua cheia e todas as noites ele se transformava, embora não perigoso pela Poção do Acônito. O feliz saudar de todos também significava que o Elo da Harmonia estava ativado.

Nereiada ficou na beira do lago, sua cauda fazendo movimentos verticais que espirravam água; Dominic continuou na pedra mais próxima da porta; Kentau se acomodou dobrando as patas como se fosse dormir, ao lado de Nereiada; Aimée ficou no centro, sentada com as pernas em formato de borboleta; e Gortun preferiu se apoiar em uma das árvores. Era o único que não gostava do ambiente.

Os cinco guardiões tinham raízes de seu próprio povo, mas peculiaridades que eram “estranhas” aos olhares de sua raça, o que lhes permitia o cargo de lideres junto ao Ministério da Magia. Embora, na criação da Cúpula, o acordo fosse que apenas tomassem conta do Reino Unido, os cinco já estavam acostumados a tratar de assuntos urgentes em várias partes do mundo, porque o Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas era visto pelos seres mágicos como uma piada – parecia que os bruxos eram superiores e os seres não tinham voz ativa, fenômeno contrário à Cúpula.

Quando Aimée levantou a mão para falar, um rolo de pergaminho enorme se levantou ao canto – se desenrolou no ar, deixando seu papel ir até o chão. Uma pena também se elevou e parecia preparada para começar a anotar tudo que falassem. A pena tremelicava frente ao pergaminho estático no alto.

— Conseguimos nos reunir com organização hoje. – Aimée disse para eles e até Gortun riu.

Para cada um deles, tudo era diversificado, de modo que podiam mandar uma mensagem pedindo uma reunião à meia-noite no natal que Aimée comparecia (tudo por causa das divergências das espécies que não agregavam os mesmos costumes nem partilhavam a mesma rotina).

— Vamos começar com Gortun, que não gosta de esperar. – Informou Aimée.

Outra vez a Cúpula se encheu de risos. O duende fez uma careta para ela e se proclamou:

— Os duendes do Gringotes estão protestando quanto à nova lei que pode ser aprovada, sobre o não uso de dragões para segurança dos cofres. – Gortun anunciou e se calou.

Aimée se colocou de pé dessa vez:

— Não é uma questão apenas bruxa, Gortun, e você sabe. São animais, não escravos.

Gortun ainda se apoiava na parede quando rebateu:

— Portas-varinhas sempre usam elfos-domésticos como escravos. Hipocrisia, não acha?

Dominic quem respondeu de um jeito impaciente:

— Sim, pura hipocrisia, mas não veio nenhum elfo reclamar de sua posição até agora para nós, de modo que não podemos fazer nada a não ser que um deles reclame. Estão satisfeitos. Têm inteligência e meios para pedir a mudança, enquanto os dragões não a possuem.

Todos os guardiões pararam para pensar por um instante. Então Gortun falou novamente:

— Somos livres para tomar as decisões sobre como proteger os cofres sem os dragões?

Aimée sorriu.

— Sim, quando os duendes de Gringotes decidirem, apenas nos avise as mudanças e vamos registrar junto ao Departamento de Execução das Leis da Magia.

Gortun bufou, mas Aimée sabia que era seu jeito de mostrar que estava satisfeito. Então passou os olhos pelos outros:

— Nereiada, Kentau, Dominic, alguma urgência para colocar na reunião de hoje?

Os três fizeram uma negativa, então Aimée continuou:

— Os centauros de Hogwarts estão inquietos. Kentau, eu sei que vocês não gostam de se distanciar de seu bando, mas eu preciso que passe lá para saber o que está os incomodando.

— É o céu. Talvez eles sejam o bando mais próximo do problema, por isso se inquietaram. – Kentau disse como se falasse sozinho, sem olhar para ninguém.

— Você sabe que não vão me contar se eu for até lá. – Rebateu Aimée em tom brando.

Kentau assentiu. Nem sempre as decisões ou informações eram fáceis de serem compreendidas por todos, ou aceitas, mas de modo geral, já estavam acostumados. Aimée não fazia ideia do que ele queria dizer com “é o céu”, mas Kentau com certeza teria uma resposta mais direta na próxima reunião, por isso era tão importante que os guardiões fossem seres mágicos e não apenas bruxos.

— Precisa de ajuda na locomoção, Kentau? – Perguntou Aimée.

O centauro não respondeu. Aimée entendeu que ele não precisava. Daria seu jeito, não importa qual fosse (e talvez ela nunca descobrisse). Então olhou para Dominic:

— Soube que há um lobisomem sem registro e preciso que você o encontre e o persuada. Você sabe que não podemos deixar de ter o registro de todos eles. – O olhar de Aimée para Dominic era hipnotizante.

— Fiquei sabendo disso ao chegar. Vou cuidar de tudo hoje mesmo, não se preocupe. – O tom de Dominic beirava à indiferença.

— Certo... – Aimée não ligou para seu tom de voz, porque estava trabalhando e nada no mundo a atrapalhava no trabalho. – O processo da veela ainda está no Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas, embora ela tenha sumido... – Aimée citou como se repassasse as pautas da reunião.

Gortun se inquietou:

— A decisão final é nossa, correto?

— Sim, Gortun. – Respondeu Aimée calmamente.

O duende pareceu satisfeito.

— A pauta mais importante de hoje talvez pareça irrelevante a vocês – e Aimée passou os olhos por Gortun e por Nereiada – mas me veio por Ted Lupin, o chefe dos aurores. Há um pequeno grupo de dementadores se reproduzindo não muito longe daqui.

Gortun bufou lá de seu canto.

Dominic interpôs:

— Não foram extintos? O Ministério não os extinguiu?

— Sim, por isso é pauta da reunião, Dom. – Aimée rebateu calmamente – Não é problema direto de vocês. Quem insistia em “domesticar” os dementadores por causa de Azkaban era o Ministério até cinco anos atrás, quando foram substituídos por aurores, feitiços e outros métodos de segurança. Eu peço que se alguém tiver informação sobre isso, que me notifique, porque vocês têm olhos na água, no céu e na terra, coisa que bruxos não têm. – Aimée sorriu para incentiva-los.

— Nunca ouvi coisa mais estranha! – Exclamou Nereiada – Domesticar animais das trevas para que façam mal às outras pessoas! Por que não podem ser apenas bichos de estimação?

Aimée riu.

— Então... vocês já sabem. Qualquer necessidade de uma reunião de emergência é só informar – e ela apontou para um colar mínimo que cada um enlaçara no pescoço, que os permitia se comunicarem. — Amanhã estarei na Grécia com Nereiada por causa de certa bagunça – e piscou para a sereiana. – Até a próxima reunião. – Ela encerrou sem cordialidade, porque cada um tinha a sua própria.

Quando os três guardiões foram para seus afazeres; Nereiada dando um mergulho tão efusivo que respingou em Aimée; Gortun resmungando baixinho; e Kentau falando consigo mesmo ao sumir no túnel, Dominic chegou próximo dela.

— Não pense que desisti – avisou Dominic em tom baixo e firme.

— Não temos mais o que conversar, Dom. Queremos coisas diferentes. – Protestou Aimée, relutante, louca para sumir de vista e fazer seu relatório.

Dominic saíra de cima da pedra e estava de frente para ela, ambos próximos ao lago. Aimée se levantou para enfrenta-lo.

— Como pode ter tanta certeza, Aimée? – Dominic proferiu as palavras com o intuito de machucá-la pela decisão tomada.

Não havia fraqueza na voz de Aimée quando ela respondeu:

— Eu tenho certeza de tudo que quero para mim.

Mas Dominic sabia que não tinha. Pegou Aimée pelo braço e deu um beijo intruso, selvagem, puxando a cabeça dela com força contra seu rosto. Aimée não protestou. Por fim, ela o empurrou. Ainda sentia o coração acelerado, como sempre acontecia quando Dominic a beijava, mesmo depois de tanto tempo.

— Você foge de sua própria vida no trabalho. Uma hora você vai ter que perceber que outras coisas também são importantes. – Dominic jogou na cara dela, extremamente irritado.

— Não vou assumir um compromisso sério com você, Dominic. – Aimée foi firme, querendo acabar longo com aquilo. – Nada mais me importa.

— Claro que importa, Aimée. Sua vida...

— Minha vida é o meu trabalho! – Aimée quase gritou. Não entendia como podia ser mais clara. Como ele podia ser tão atrevido.

Ele a pegou pelo braço novamente, possessivo.

— E é assim? Só porque me cansei de dormir com você sem compromisso, você vai embora? Não há meio-termo? Tem medo de que? – Dominic a pressionava.

— Não tenho medo de nada, Dominic. Não ache que só porque foi meu casinho mais longo que tem algum direito...

— Seu casinho?! Seu casinho?! – Dominic parecia cada vez mais estupefato. Estava farto daquilo. Arregalava os olhos para ela, como se não acreditasse no que ouvia.

Aimée tratava as coisas do coração como supérfluas e descartáveis. Estava com Dominic há dois anos – e fora um ótimo relacionamento, o mais longo de sua vida. Até Dominic a pedir em casamento.

— Sim! Meu casinho. – Aimée confirmou com maldade. – Você não vai se meter na minha vida mais do que eu achar necessário! – E Aimée estava finalmente gritando.

—Achei que fizesse parte de sua vida, Aimée! – Dominic gritou de volta, explodindo.

— Não faz mais! – Aimée rebateu, puxando o braço que já doía de tanto que ele apertara. – E eu preciso ir à Grécia amanhã, então assuma as coisas por aqui. Ou você acha que não vai ficar dócil o suficiente, Dominic?

— Eu fui dócil com você por dois anos, como não seria agora?! – Ele não queria terminar a briga, porque Aimée sempre escapulia e não voltava atrás. Mas estava irritado demais, fora uma estupidez muito grande da parte dela o rejeitar daquele jeito.

— Que bom. Então te vejo mais tarde. – Aimée disse como se não estivessem brigando, como sempre fazia. Ignorava os assuntos pessoais ou não os levava a sério.

Outra vez Dominic se pôs na frente dela na porta e a puxou contra si. O beijo não durou mais de três segundos. Ele tinha certeza de que um dia Aimée o enlouqueceria.

—Você ainda vai perceber que eu também importo Aimée. Grave essas palavras como um Comensal marcava seu braço com a Marca Negra.

E ao dizer isso, se desvencilhou dela com rebeldia. Bateu a porta ao sair e não olhou mais para trás, deixando Aimée respirando alto.