Os Ares de Stardew Valley
1 As Lembranças Vem a Tona
Lorelai observava a paisagem mudar pela janela do ônibus. Sempre conseguia se desconectar de tudo e se perder na paisagem quando estava viajando, o problema seria quando o veículo chegasse ao seu destino: um fim de mundo chamado Stardew Valley, onde uma fazenda esquecida desde o falecimento de seu avô, Alfredo, a esperava.
A decisão de voltar a esse lugar depois de tantos anos foi impulsiva, como muitas outras na vida da jovem. Tantas coisas vieram a tona em tão pouco tempo, tantas possibilidades, tantas pressões, tantas desilusões, que no meio desse turbilhão ela se lembrou da carta que o avô tinha lhe deixado antes de morrer.
“Se você está lendo isso, significa que você está desesperado por uma mudança na sua vida.”
Não era exatamente essa a situação em que Lorelai se encontrava, mas a carta deixava claro que a fazenda agora era dela para fazer o que bem entendesse, e ela precisava de um tempo para pensar. Sozinha.
Memórias começaram a vir á mente, tirando a jovem de seu transe.
Ela sempre passava duas semanas das férias na casa de Alfredo. O ajudava nas plantações, e se maravilhava quando colhiam os melões logo antes de sua partida. O cachorro da fazenda, Whiskey, inspirou muitas birras e gritos da menina, suplicando aos pais para que adotassem um cachorro. Se lembra de pescarem juntos, e também de que tinha um medo irracional pelo pescador que morava nas docas. Se lembrava também do senhor lhe contando lendas sobre os junimos, seres da floresta, e sobre a misteriosa torre que ali se erguia. Quando tinha onze anos, a nem mais tão pequena Lorelai decidiu que iria encontrar todas as Frutas-Estrela, mas no final só passou mal por comer um pedaço de um superpepino.
Ela sorriu, mas logo as lembranças se tornaram mórbidas.
Alfredo adoeceu e morreu muito rápido, Lorelai teve medo de não chegar a tempo para se despedir. Naquela pequena casa, iluminado pela lareira uma vez aconchegante, seu maior herói e sua maior constante na vida definhava diante dos próprios olhos.
Naquela noite, a menina de treze anos não dormiu. Pegou a velha espada enferrujada do avô e percorreu todos os cantos mais distantes do vale em busca dos junimos, das Frutas-Estrela, da Deusa, qualquer coisa. Mas não encontrou nada. Ás cinco da manhã se sentou na escada de madeira da casa e observou o vale sendo iluminado pelo sol manso do outono, com Whiskey deitado resignadamente aos seus pés. As abóboras já estavam maduras, mas o avô não tinha forças para colhe-lhas, e Lorelai também não. O vento da manhã esfriava seus dedos, e fazer carinho em Whiskey não ajudava. Com o vento veio a frase:
“Ele não vai aguentar o inverno”
E assim foi. Faltado uma semana para o inverno, vovô foi enterrado na velha gruta na outra ponta da fazenda.
A última lembrança foi dela e de seus pais esperando o ônibus de volta, enquanto ela encarava fixamente o girassol em suas mãos.
Depois disso a vida ficou nublada. Tudo que a garota fazia era ir pra escola, dormir, jogar vídeo game, ler, etc. Aquele casulo era confortável, só tendo que falar com sua melhor amiga e seus pais, vivendo apenas no mundo da fantasia.
Foi então que precisaram se mudar. Por causa de uma proposta de trabalho ou qualquer bobagem dessas. Ela não disse nada, não tinha forças pra isso. Não importa o quanto seus pais tentassem consolá-la, Lorelai não conseguia se conformar. Foi quando sua amiga decidiu falar com ela.
“Lorelai, por favor se esforce. Essa é uma oportunidade pra melhorar de vida, e por favor, agarre ela com unhas e dentes.”
Então, fazendo uma força sobre humana, foi assim que ela seguiu com a vida em Sweet Amoris. E realmente, depois de seus momentos em Stardew Valley, os dias na nova cidade foram os melhores que já vivera. Mas eles também chegaram ao fim.
Quase ao mesmo tempo em que sorria genuinamente por todas as besteiras em que se meteu em seus anos de escola, sorria também amargamente quando Lysandre cruzava sua mente. Ela nunca superou o fato de ter de deixá-lo, e depois perder todo contato. Sua primeira paixão, seu primeiro namorado, seu primeiro tudo, e ninguém depois dele deixou uma impressão tão marcante, a impressão de ter achado sua alma gêmea.
Refletindo sobre tudo isso, parecia que a Deusa lhe pregava uma peça. A vida era boa, então ficou ruim, então ficou boa de novo e então ficou vazia, que era tão pior do que a ruim. Pelo menos na vida ruim se tinha algo concreto para culpar, alguma coisa para reclamar, enquanto a vida vazia é apenas cheia de frustrações, quase conquistas e quase tropeços, mas sem nada realmente acontecer. Mas de repente tudo começou a acontecer, e Lorelai culpava a Deusa por seu impulso de voltar a Stardew Valley.
Finalmente, aqueles caminhos, túneis e vegetação começavam a parecer minimamente familiares, e antes que se desse conta estava de volta á antiga “estação”, mais conhecida como abertura entre dois rochedos em que o ônibus parava eventualmente.
Respirando fundo e segurando sua única mala, ela desceu do veículo e viu pela primeira vez o vale durante a primavera, não tão quente como no verão mas não tão frio como no outono, várias ervas daninhas cresciam por toda parte. Tirando isso, o lugar era exatamente como Lorelai se lembrava. A garota se agachou e colheu um dente-de-leão. Ela desejou com todas as forças que não fizesse a decisão errada para sua vida e então soprou. Todas as “pétalas” saíram voando, e a jovem viu isso como um bom sinal, como se a cigana lhe revela-se a carta “A Estrela” em suas previsões com o Tarot. Com isso em mente, se sentiu mais motivada a virar a direta e entrar na antiga e abandonada fazenda.
Foi como um soco no estômago.
O celeiro e o chiqueiro eram apenas frágeis estruturas de madeira, com várias partes das paredes faltando, carcomidas pelos cupins, com todas as telhas em cacos no chão. O silo parecia uma torre depois do golpe de uma bala de canhão, com vários tijolos caídos e alguns ainda se mantendo em cima dos outros, ainda que bambamente. O campo, uma vez bem cuidado e cheio de plantações, era uma mistura de árvores, mato, pedras, tocos de madeira e ervas daninhas, e Lorelai poderia jurar que viu um urso remexendo algumas árvores distantes. A casa estava um pouco melhor do que o resto, mas ainda estava claramente infestada de cupins e com várias telhas faltando. A garota sentiu que não aguentaria olhar aquela querida casa por dentro nesse estado, então ela deu meia volta e se dirigiu á Vila Pelicanos. Ela teria que passar algumas noites na hospedaria, se é que ela ainda existia, até fazer os reparos necessários para que a casa do avô se tornasse habitável de novo.
Logo antes de entrar na cidade, ela parou. Lorelai se sentia como uma intrusa, e em uma cidade tão pequena, com certeza todos reparariam nela. A jovem continuou seu caminho a passos vacilantes, pronta para dar meia volta e sair correndo. Felizmente o primeiro rosto que viu foi um conhecido: Evelyn, uma senhora gentil que vez ou outra fazia biscoitos para a pequena Lorelai. Elas se encararam por um tempo, a senhora parecia procurar algo na memória. Nossa protagonista resolveu tomar a iniciativa:
—O-olá, senhora Evelyn.- ela disse com um sorriso que pretendia ser simpático.
Evelyn levou um tempo para responder:
—Me desculpe, querida, mas nós nos conhecemos?
—Talvez a senhora não se lembre. Meu nome é Lorelai, neta do Alfredo. Não venho até aqui desde que ele morreu, mas me lembro bem como seus biscoitos eram bons.- ela disse, agora inflada por uma ansiedade estranha de que alguém se lembrasse dela.
—Pela cauda da Deusa! É você mesmo, Lorelai? O que faz aqui?
A jovem se sentiu aliviada, e respondeu:
—Não sei direito. Acho que só preciso de um pouco de paz.- ela não queria ter de explicar mais do que isso á Evelyn, então logo emendou- Será que a hospedaria ainda existe? A fazenda tá infestada de cupins.
—Oh, é uma pena, querida. As pessoas pararam de vir até aqui, então Gus fechou a hospedaria. Agora é um consultório médico.
Lorelai gelou. Tanto pelo fato de não fazer a menor idéia de onde passaria a noite quanto pela idéia de que se o consultório tivesse sido aberto antes, talvez seu avô...
A senhora a despertou de seus devaneios:
—Infelizmente nós não temos quarto de hospedes, mas se você quiser dormir no sofá, ficaríamos felizes em te receber.
—Oh! Obrigada, mesmo! Vou dar uma volta para me apresentar, tudo bem?
—Claro, querida, mas vá para nossa casa antes das oito da noite, George insiste que eu tranque as portas nesse horário.
—Com certeza! Até mais!
Agora que o problema de estadia estava resolvido, Lorelai percebeu seu estômago reclamando furiosamente. Ela não comia nada desde as cinco da manhã, e o relógio já anunciava duas e cinquenta da tarde. A jovem se dirigiu ao bar, que também vendia comida.
Felizmente, durante o curto trajeto, mais ninguém cruzou seu caminho.
Empurrando a porta de madeira, o ar estagnado do recinto quase sem ventilação lhe parecia muito reconfortante. Gus, outra figura conhecida, a olhava com curiosidade.
—Bem vinda!- disse ele, animado, porém cauteloso- é a primeira vez que vem ao vale?
—Não senhor, mas faz bastante tempo que não volto. Me chamo Lorelai.
—Ah! Pelos meus bigodes, como você cresceu! O que te traz a Stardew Valley?
—Não sei direto, acho que preciso de um tempo.
—Ah sim, essa época da vida...- Gus parou o que poderia ser um grande monólogo quando percebeu o olhar perigoso da outra. Nossa protagonista odiava aquele tipo de conversinha fiada.- Bom, vai querer alguma coisa?
—Estou com uma fome! Poderia comer um búfalo inteiro.
—Que tal um café da manhã completo? Apesar do nome, é nosso maior prato.
—Claro, parece ótimo! Um copo de cerveja também, por favor.
—Minha nossa, parece que foi ontem que o velho Alfredo te disse que você só poderia beber cerveja quando fosse mais velha. Como o tempo voa!
Lorelai riu com a memória dela puxando a manga de seu avô e pedindo para tomar o que ele estava tomando.
—E aí depois ele fingiu que não estava olhando e eu tomei um gole! Me senti muito ninja naquele dia.
Durante o resto da tarde a jovem comeu o equivalente a três dias de refeições, enquanto relembrava várias histórias com Gus. Descobriu que ele tinha cuidado de Whiskey depois da morte do dono, o que a deixou aliviada.
Conforme anoitecia, novas figuras iam chegando ao bar, á olhando com a mesma curiosidade e tendo as mesmas reações quando ela dizia quem era.
Já eram sete da noite, e ela se levantou e começou a se despedir para ir á casa de Evelyn. Foi quando a porta do bar se abriu mais uma vez.
A primeira figura a entrar foi um homem alto, de cabelos longos e vestido de forma estranhamente chique para um residente da Vila Pelicanos. O outro usava uma camisa branca meio desabotoada. Estava queimado de sol, mas o cabelo branco e os olhos dispares eram irreconhecíveis: era Lysandre.
Lorelai ficou em choque, com o queixo caído e a mala esquecida aos seus pés. Logo Lysandre a notou, e ficou tão chocado quanto ela.
—Lorelai...?
Notas finais
Se ficou por favor da um toque nos comentários pra eu melhorar isso na próxima
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