Os Arautos de Héreddah - Livro I

1 Prólogo + Capítulo I: Os Escritos dos Últimos Dias


Notas iniciais
Nesta postagem encontram-se o prólogo e o primeiro capítulo do meu livro, já publicado pela editora Ases da Literatura, e que está disponível no Kindle Unlimited, no celular pelo Google Books e em versão física pela Amazon. Um abraço do seu maior fã, Boa leitura!

Os Arautos de Héreddah

Por Matheus L. Barboza

Dedicatória

Para os meus pais e a minha tia, que sempre me levaram ao cinema.

Para os meus tios, que me apresentaram a Star Wars.

Para a família Guimarães, por me dar a oportunidade de ler mais.

Para a TeamSoft, que fez isto se tornar possível.

Para os meus afilhados e o meu grupo de amigos, “Os vagabundos no fim”.

E principalmente para Carol Gomes, que nunca desiste de mim!

PREFÁCIO:

Prezado leitor,

Parabéns pela coragem!

Sei como é difícil se aproximar de novos livros de fantasia, ainda mais quando metade deles recicla as mesmas histórias; ou quando temos os mais variados filmes que já satisfazem, visualmente, nossa vontade de sermos transportados a novos mundos.

Mas também tenho certeza de que nada se iguala à imersão da leitura, ao apego aos personagens e a quão interessante — e louco! — é o fato de cada um de nós interpretarmos as mesmas palavras de diferentes modos, baseado em nossas experiências pessoais.

Esse, inclusive, foi um dos motivos que fez este que vos fala largar a faculdade mais de quatro vezes e passar longas noites ao lado de uma Coca-Cola gelada, dedicando tempo a esta história, que é o meu projeto de vida. Afinal, como um grande fã de fantasia, sempre quis desbravar a Terra Média ao lado de uma sociedade de amigos, fugir de um império galático com a Millenium Falcon ou receber minha carta de Hogwarts. É nessas grandes histórias que temos os mesmos sentimentos de deslumbramento, que nos fazem torcer e até mesmo chorar de maneiras diferentes: uns pela ação, outros pelas mortes inevitáveis — e até mesmo por uma boa gargalhada!

Com isso, fico feliz de você se dar a chance de entrar no mundo de Héreddah e de desbravar seus continentes e raízes na visão de um ladrão promissor, de um aprendiz de mago e de uma perigosa princesa. Meu desejo é que eles fiquem com vocês, seja por poucas horas de entretenimento ou como bons amigos pelo resto da vida.

Um abraço do seu maior fã,

Matheus L. Barboza

PRÓLOGO

Os Escritos dos Últimos Dias

GUERRA! Esta é a palavra que definia o mundo de Héreddah, vinte anos antes de nossa história começar. Sobre tintilares de espadas e disparos de feitiços, o místico mundo, no qual antes havia uma sólida aliança entre reis, magos e guerreiros, agora se encontrava em desgraça, dividido pela influência de uma perversa divindade. E como em todo conflito, motivado pela ganância e pelo poder, o que restava àquele povo era morrer, lutar ou fugir.

Mas para um mago fugir nunca foi uma opção.

Por isso Mestre Állathor, líder desta mesma ordem de magos, se encontrava no último prédio que restava em pé na Grande Cidadela. Állathor era alto e magro; seus cabelos prateados revelavam a idade avançada, suas vestes brancas simbolizavam a paz que defendia, e seus olhos cinzentos refletiam sua frieza, com a qual suportava o mal daquele tempo.

E foi essa frieza que o fez entender que, apesar da grande guerra que ocorria do lado de fora, era na Biblioteca que ele precisava estar, pois só ali conseguiria terminar de alertar o mundo sobre a verdade. Mas sua vontade de permanecer sozinho não foi respeitada: a porta do lugar se escancarou, e por ela adentrou o último grande amigo de Állathor, o Mestre Wing, em estado de alerta.

— Você está louco!? — gritou Wing, ofegante, com o coração gelado ao ver o amigo. Diferentemente de Állathor, Wing era corpulento e atarracado, e suava tanto que parecia ter saído do mar, embora suas vestes não estivessem sujas pela batalha.

— Calado! — vociferou Állathor para Wing. — Não posso parar, não agora tão próximo do fim.

— Mas eles estão chegando! — insistiu Wing, fazendo força para respirar. — Estão lutando nos céus lá fora, prontos para nos encontrar e nos matar!

— Então é seu dever me proteger — clamou Állathor. — Pois nada do que você fizer me tirará daqui. Terá que me matar…

— Não seja tolo — discordou Wing. — Não podemos fazer nada. Seja consciente e aceite a derrota. Fomos traídos!

Állathor respirou fundo, e então encarou Wing.

— Nossa lealdade pertence à honra de nossos votos, e não aos homens. Agora proteja-me deles! Falta só um pouco mais — cravou Állathor, encarando o amigo de tantas décadas, com o olhar decidido.

Com um olhar sombrio Wing se afastou, não insistindo, e aguardou pelo que viria.

E foi sobre uma rocha da lua mágica, enquanto murmurava feitiços, que Mestre Állathor terminou de cravar as últimas palavras de uma mensagem para o mundo de Héreddah. Uma mensagem que poderia mudar o curso de toda a civilização:

CARTA AOS POVOS LIVRES DE HÉREDDAH

Aqui se encontram os Escritos dos Últimos Dias, narrados pelos povos ainda livres de nosso tempo.

Atenção! Homens, mulheres e crianças ameaçados pelas mortalhas sombrias da Deidade! Chamo-me Mestre Allathór, título este recebido devido à ordenação dada pela Ordem dos Magos. Mas títulos não importam mais, já que sou um dos poucos sobreviventes dos dias vermelhos que se seguem neste momento, enquanto vos escrevo.

Como mestre, é de minha responsabilidade preservar a história de nosso mundo nestes escritos, para que nossos dias não sejam lembrados, pela geração futura, apenas por manchas de sangue que banham os nossos campos antes floridos, mas para que nosso legado seja honrado como o da geração que lutou até o fim. Aqui se encontram as verdades sobre os últimos dias do mundo de Héreddah!

E como o próprio sentido do mundo e do que é verdade está prestes a ser mudado, é melhor começar pelo início, para que nada do que for possível preservar se perca entre as areias do tempo.

Afinal, dentre todas as obras grandiosas do universo observável, o nosso mundo, o mundo de Héreddah, foi a primeira casa da vida após o tempo começar a ser contado. Nossas terras únicas formam um habitat inigualável que faz inveja até mesmo às constelações mais incandescentes. Isso porque, diferentemente de seus solitários irmãos em meio ao cosmo, Héreddah não era um mundo composto apenas por nuvens ou tempestades violentas em paisagens sem alma — embora abrigasse lugares bem mais inóspitos do que estes —, mas também era preenchida de um abundante, distinto e complexo sistema de vida, que se estende sobre toda sua fauna e flora.

Em outras palavras, Héreddah é a casa da vida! E faz jus à palavra, já que sua própria forma é mais do que incomum. Sobre seus violentos oceanos, a natureza fez emergir quatro gigantescos continentes, todos eles ligados a quatro magnânimas raízes. E o ponto de encontro desses quatro países nos leva até o lugar de convergência: a monumental Grande Árvore, fonte de toda a vida nas terras, maior do que qualquer edifício, tão grande em sua altura que seu topo abraça as nuvens mais altas.

Ou seja, um elo entre os povos! Isso nada mais era do que a natureza fazendo o prenúncio do que se comprovaria nos milhões de anos que se seguiram: embora nascêssemos separados, as forças místicas existentes no universo nos uniriam, de uma forma ou de outra.

Sim, místicas. Já que segundo a tradição que nós, magos, resguardamos, Héreddah e toda sua vida foi moldada por desconhecidas forças primordiais. Foram essas forças que, como conta a tradição, deram aos povos dos quatro continentes acesso às forças ocultas, como a magia…

Mas como se sabe, a vida, embora prospere, sempre enfrentará o inevitável ciclo de extinção.

Afinal, como lar de diferentes povos, isso significa que as guerras entre as civilizações eram incessantes. Os povos dos quatro continentes por tudo disputavam, de alimentos e recursos até a vontade soberba de se sentarem em tronos que não lhes pertenciam. Sangue e tintilares de espadas deram lugar às canções de festividade, e os puros ventos da liberdade criados pelos primordiais, que antes preenchiam os pulmões com o sopro da vida, hoje escapam pelo peito dos soldados devido aos golpes impetuosos que os Heddarianos davam em seus irmãos.

Foi então que, como conta a tradição, em algum momento do passado, nosso mundo decidiu se unir. E para essa união, as três mais importantes sociedades tomaram à frente.

A primeira que surgiu foi a dos Guerreiros da Terra, virtuosos defensores do nosso mundo, que com o dom de convocar a força de seus antepassados pelo controle da natureza protegiam-nos das grandes ameaças que surgiam de dentro e de fora de nossa fronteira, com suas poderosas armaduras formadas pela raiz da grande árvore.

Em seguida, homens de boa fé foram incumbidos com a sabedoria e a sucessão divina para governar os diferentes reinos e sociedades. Surgiram então os Reis, que por muito tempo tentaram conduzir com paz os confrontos diretos entre as grandes sociedades.

Por fim, a minha sociedade, a dos Magos Celestes, foi dotada com uma parcela do conhecimento — e da própria força mística — dos seres primordiais: a magia. Éramos os responsáveis por entender a natureza da existência e os mistérios da vida, desvendando os mistérios além dos olhos.

Unidos e dotados desses dons inimagináveis, as três sociedades decidiram fundar, acima do mais alto cume da Grande Árvore que unia os continentes, um lugar conhecido como Cidadela da Eternidade, um lar de enormes edifícios dourados e avenidas longas de mármore, onde os Reis, os Magos e os Guerreiros poderiam tomar juntos as grandes decisões de nosso tempo. A construção da Cidadela sobre o ponto de convergência entre as raízes era a confirmação daquilo que as raízes já tinham mostrado aos nossos povos: que nascemos como um só povo e assim deveríamos permanecer.

Que o todo deveria estar acima de todos.

Éramos o farol da esperança em todo o universo.

Uma chama de liberdade que crepitou mais que os sóis por eras.

Isso… Até que os dias vermelhos chegaram. Dias vermelhos como o sangue das vítimas que voltaria a ser derramado. O dia de nossa grande queda estava chegando.

Pois mesmo com os dons místicos de cada sociedade, e mesmo após a união entre os Arautos de Héreddah erradicar a fome, as desigualdades e o caos, as guerras ainda permaneciam. Os interesses se tornaram outros! O coração cego dos Heddarianos, embora cheios de compaixão, ainda desejava tronos; ainda tinha preconceitos, ainda clamava por batalhas. Mesmo com conflitos milenares chegando ao fim, outros surgiam. A cobiça se tornou a queda de todos, independentemente da raça, cor ou crença.

E para o nosso azar, somente uma força oculta atendeu ao clamor dos homens desesperados naquele dia: uma força na qual nenhum de nós, magos, sabia existir. Quando ela desceu dos céus, não parecia ter forma; era similar a uma luz escarlate, tão profunda que confundia-se seu forte vermelho ameaçador com as noites mais densas. O que entendemos anos depois como “a divindade” desceu dos céus, ofuscando todo o brilho dourado de nossas estrelas, e se anunciou com um nome que fez a terra tremer: o nome de Kazadhór

Kazadhór se revelou acima dos átrios da Cidadela da Eternidade. E isso tinha um motivo: assim como Magos, Reis e Guerreiros fundaram o local como um símbolo de que o coletivo estava acima do individual, desta vez era Kazadhór que estava acima de todas as coisas, imponente e eterna. Anunciando a si mesma como o último dos Arautos Celestes a sobreviver de um confronto há muito esquecido, aquela que ficou conhecida como Divindade Rubro-Sangue tinha um único objetivo: imperar sobre toda a Grande Árvore e seus países, para de uma vez por todas extinguir as guerras.

O caos reinou! Os Reis estavam completamente divididos em dar ou não credibilidade à nova Deidade, o que intensificou os conflitos já existentes entre os reinos. Os Magos discordaram completamente destes nobres, o que levou a uma guerra declarada entre as duas sociedades dos Arautos. Já os Guerreiros, em sua maioria, se uniram a Khazadhór, fazendo com que seu poder sobre as terras e sobre a própria natureza de Héreddah fosse amplificado como nunca antes.

E é por isso que estou aqui, sobre a mesa da lua. Um local místico onde, ao transcrever esta mensagem com magia, ela será replicada para todas as outras mesas espalhadas pelos continentes, que contarão a verdade sobre Kazadhór e seu reinado apóstada. Sinto que meus antigos aliados, os Guerreiros e os Reis, se aproximam de onde estou, prontos para me impedir e me destruir. Já posso ouvir as rajadas mágicas destroçando os vidros caídos a minha volta…

Mas não posso deixar de falar sobre a esperança — e por ela, vale arriscar a vida. A mesma que nos uniu como Arautos e que foi o alicerce de Héreddah; que um dia fez com que nosso mundo pudesse viver em paz, permitindo laços de amizade e família se formarem onde menos se esperava. Ainda que tudo caia hoje, até mesmo o templo que é o meu corpo, peço que não deixem de olhar para as estrelas, e que não permitam que apaguem o brilho delas para vocês. Pois elas são o sinal de que, embora a noite venha, há muito mais luz do que escuridão...

— Abaixe-se! — gritou Wing, e as últimas palavras de Mestre Állathor não puderam ser transcritas. Tal como foi alertado por Mestre Wing, o teto explodiu. E dos céus caíram dois seres como meteoros, que lutavam violentamente entre si.

O primeiro era uma mulher esguia com uma armadura dourada e brilhante; tinha uma pele albina e cabelos cacheados ruivos. Era a Arauto dos Reis.

O segundo, tão velho quanto Állathor, era um homem forte que usava também uma armadura, feita de raízes tão resistentes quanto o puro aço. Ali estava o Arauto Guerreiro, o Guerreiro da Terra

— Chega! — ordenou Állathor. Para seu desespero, os destroços caíram sobre Wing, e ele ficou soterrado. Állathor correu na direção do amigo, mas teve de parar, pois imediatamente os adversários recém-caídos apontaram suas armas: a mulher uma comprida espada de ouro, e o homem uma lança feita de raízes.

— Não… — chorou Állathor, olhando para os destroços. E ali estavam apenas os três Arautos. Antigos aliados, irmãos de batalhas, e hoje tendo um pelo outro apenas fúria e decepção.

— Tolos! — berrou o Mestre — Vocês entregaram o mundo nas mãos daquela criatura!

— Não justifique suas falhas com nossas atitudes — disse a Arauto dos Reis, por fim andando na direção do Mestre com uma longa espada de ouro nas mãos. — A Deidade nos mostrou apenas o óbvio: que sem controle, Héreddah perecerá!

— Não justifique suas ações ditatoriais com o meu bom senso, mulher — retrucou Állathor. — Conheço sua sede de poder, e vejo agora o que é capaz para alcançá-lo.

— Poupe-me do seu sermão, velho — disse o Guerreiro, também andando em direção à Állathor. — Foi a sua cegueira idealista que massacrou parte do povo. Tudo isso porque você desejou resolver guerra com diálogo.

— A palavra é mais afiada do que a espada quando bem colocada — disse Állathor —, e vocês não fizeram bom de nenhuma das duas. Deixaram todos os laços de lado em prol da promessa de um falso deus, uma deidade que hoje banha os nossos campos com o sangue derramado entre irmãos. Não conseguem enxergar?

— E achou que isso daria em que? — Gritou a Arauto dos Reis. — Até quando achou que pudéssemos sentar na mesma mesa sem crermos nos mesmos deuses? Achou que pudéssemos manter uma aliança fadada ao fracasso?

—Vocês nunca foram apenas aliados… — disse Állathor, com pesar. — Vocês eram… Parte da minha vida.

E um silêncio pairou sobre eles. Nenhum dos dois Arautos esperava isso vir do mago.

— Mas isso não importa mais — continuou Állathor, olhando para os destroços em cima de Wing. E então o Mestre se colocou em posição de batalha. E os três se encararam.

Mas algo aconteceu: uma explosão de uma violenta fumaça vermelha, vinda de algum lugar, fez com que os três Arautos fossem jogados cada um para um canto da Biblioteca. A fumaça se movimentou, sombria, a sua frente, como uma nuvem carregada de maldade.

Era tarde demais. A Deidade havia os encontrado.

— Divina Deidade — clamou a Arauto dos Reis, olhando para a nuvem —, aqui estou, a enfrentar os traidores que me pediste.

— O coração do homem é facilmente corrompido… Com promessas de poder… — respondeu uma voz fria e sem vida, vinda da fumaça, e que ordenou:

— Mate-a.

E sem que a Arauto percebesse, o Guerreiro da Terra lançou sua arma nas costas da mulher, perfurando sua armadura e empalando-a com um grito.

A dor do que aconteceu causou calafrios em Állathor, mas ele não pôde perder tempo; aproveitando-se da distração, o Mestre foi até a mesa lunar e, clamando um poderoso feitiço, ela se iluminou num azul sobrenatural. E, naquele momento, a mensagem que escreveu passou para todos os lugares do mundo, onde cada rocha lunar estava, em cada um dos continentes.

— Nãaaaaaaaaaao… — rugiu a Deidade, mas o mago era implacável: usando um feitiço há muito preparado, ele fez um raio cair na Biblioteca, desabando seu teto sobre a fumaça e o guerreiro. E fugiu dali antes que fosse pego, sumindo por vinte anos.

CAPÍTULO I

O Aprendiz Desapontado

País do sul, Vinte anos depois

Um quarto se iluminou nas primeiras horas do Vilarejo de Japegoá. O sol ainda não tinha nascido por inteiro, mas isso não precisava acontecer para o jovem Athos acordar, assustado na madrugada do primeiro dia da semana. Mais uma vez, foi levantado da cama pelos pesadelos que viviam lhe roubando o sono. Pesadelos esses que só alguém com um glorioso futuro poderia ter.

Não são só pesadelos, tentava se convencer Athos. Isso porque, mesmo vivendo em um tempo de paz, vinte anos após a tomada da Cidadela pela Deidade, suas noites de sono viviam revisitando os momentos da guerra que ele nunca chegou a viver. Obviamente ele não poderia pensar que era o simples acaso: Athos era neto do grande Mestre Wing, um dos Mestres Magos de outrora, e seguia os passos de seu antepassado. Como um jovem aprendiz, sempre tentava conectar as imagens que via no sono com algo mais concreto.

Por instinto, ele pegou seu bloco de notas e começou a anotar:

Nuvem vermelha

Gritos de dor

Mesa de Prata

Mesa de prata… refletiu ele. Não tinha reparado nisso da última vez. Após um tempo se esforçando para lembrar de algo mais, por fim — e como sempre — desistiu, desanimado. Tentou então aceitar que o único motivo de ter sonhado com isso foi o fato de remoer os acontecimentos passados todos os dias da sua vida.

Corpulento como o avô, branco e com seu corte de cabelo loiro caído, liso e repartido ao meio, o rapaz evitou se olhar no espelho para não se assustar com o próprio reflexo do rosto cansado, e só acendeu a vela mais próxima para retirar os cobertores enrolados em seus pés. Foi só quando pegou a toalha de banho e o calendário que seu coração gelou, assustado. Aquele dia seria muito diferente de todos os outros: era o dia de dizer adeus a sua família, pois finalmente foi convidado para defender sua tese e concorrer a uma vaga em uma das maiores universidades do País do Sul, continente onde morava.

O rapaz apagou a vela e voltou a se sentar. Não devido ao cansaço, e sim para sua ansiedade não aumentar. Seus olhos correram pelo quarto por um momento, por suas roupas arrumadas e livros bem organizados — bem diferente do restante de sua família. Passou brevemente os olhos pelo álbum de fotos caído ao lado da cama, que durante toda a semana apreciou para já matar a saudade dos seus, e fez isso como uma espécie de adeus à vida que levava.

A verdade é que o jovem Athos nunca foi preso a laços familiares. Não porque tinha problemas com seus parentes — muito pelo contrário, eram todos bem unidos —, mas devido ao que ele acreditava ser seu destino. Além de ser descendente de um Mago, era um fiel admirador de Mestre Állathor, velho amigo de seu avô e responsável por muitos dos eventos passados de Héredah, dos quais hoje poucos conheciam a verdade. E como herdeiro da sabedoria dos Magos, desde criança sua curiosidade era voltada a tudo que envolvesse lendas místicas, ainda que, segundo as leis da Deidade Kazadhór, não fosse permitido o estudo de qualquer conhecimento antigo dos Mestres — aliás, esse era o motivo pelo qual Athos simpatizava mais com livros do que com as pessoas atualmente.

Devido a essa criação, Athos tinha muita certeza do que queria fazer: desbravar o mundo, conhecer o desconhecido e encarar verdades que ele sabia que estavam ocultas. Se isso fosse lhe oferecer perigo, ele não sabia. Só tinha certeza de que essa era a única coisa pela qual tinha realmente vontade de lutar. E quando recebeu o convite dos Doutores do Sul, não poupou esforços em aceitar; era a chance que ele tinha de provar às pessoas sua forma de pensar, e como elas poderiam expandir novos horizontes, sem precisar entrar em guerra com ninguém.

Motivado por seus sonhos, ele terminou de banhar-se na água gelada da manhã, calçou suas botas marrons bem escuras e pôs as vestes roxas escuras habituais. Lembrando-se das palestras de motivação que tivera na escola, o jovem abriu a porta do quarto e viu o longo corredor de sua casa.

— Eu consigo — disse ele, impondo firmeza na voz e limpando o suor da testa, antes de tropeçar duas vezes na tapeçaria.

Tentou não fazer barulho ao descer para a cozinha, mas quando chegou ao aposento o olhar severo de sua mãe — que era bem parecido com o dele — estava o encarando.

Os olhos do garoto foram para o chão. Ele murmurou algo que deveria sair como um “bom dia” muito fraco, e ela, que estava fritando alguns ovos, bateu forte a frigideira contra o fogão. Foi o suficiente para entender que, mesmo depois de anunciar que iria seguir sua viagem, sua mãe não havia aceitado.

Poucos segundos depois, seu pai, Rineus, e seu irmão caçula de dez anos, Harp, desceram a escada.

— Bom dia, viajante! — disse Harp. O pai dos garotos segurou um riso e pediu para a criança fazer silêncio.

— Climão ainda? — cochichou Rineu para Athos.

— Climão sempre — respondeu a mãe de costas, com rispidez. — Ou achou que não ia conseguir te ouvir?

— Ora, Belly. Não vamos discutir de novo, vai — disse ele, lhe dando um beijo que ela não retribuiu. — Athos está decidido… Ele não vai despreparado.

— E você deve estar adorando isso, não é, Rineus!? Aventureiro como o pai. Que exemplo!

—Ih, pronto, começou! — disse Rineus, coçando a testa. — Pare de drama, mulher. A gente sempre soube o que o garoto queria da vida. Além disso, ele tem dinheiro, conhece nossas terras… Nunca nos decepcionou.

— Você o chamou da palavra certa. Garoto! Menino! Jovem! Não homem. Vinte anos, Rineus, vinte anos apenas. O que você estava fazendo aos vinte anos… Não responda!

Rineus a olhou com os olhos arregalados.

— Mãe, tecnicamente, pela lei, eu sou maior de idade… — Começou Athos, automaticamente querendo corrigi-la. Mas seu pai, com a boca cheia de pão, o censurou com o olhar. Tarde demais.

— É mesmo, geninho?

— Eu sinceramente não sei de onde a senhora tira tanta preocupação. Parece que meus anos de estudo não serviram pra nada! Por acaso vou fazer algum crime?

—Tecnicamente sim! — ironizou Belly, enxugando os pratos com tanta força que chegava a fazer som. — E não venha com chantagem emocional pra cima de mim. Ninguém nunca duvidou de sua inteligência, mas do que você quer fazer com a sua ingenuidade. Ah, isso sim!

—E o que tem demais nisso, mãe? — perguntou Athos, revirando os olhos, quase suplicante. — Descobrir mais sobre Mestre Állathor e meu avô, estudar novas culturas, encontrar o contraditório… Vou fazer o que qualquer um deveria, ora!

— Desafiar Kazadhór — disse ela, se virando finalmente. Estava vermelha como camarão. — Incomodar a lei vigente, correr o risco de ser preso… Até morto! O que vamos fazer caso você corra perigo? Tem ideia do que faríamos se você fosse e não voltasse mais!?

— Eu ia ficar com a cama dele — comentou Harp, entre uma risada.

Os homens não aguentaram, e todos riram. Me-
nos Belly, é claro, que impacientemente abandonou a cozinha.

Athos apagou o seu sorriso na hora e olhou para o pai, preocupado.

— Não me mete nessa — disse ele. — Sobe lá e resolve isso.

—Quer vir comigo? — tentou Athos para o irmão, que só balançou a cabeça negativamente, rindo na sua cara.

Relutante, Athos levantou e foi até o quarto da mãe. Ao abrir a porta encostada, viu que ela estava em pé encarando a parede cheia de fotos que seu marido lhe deu há dois anos. A nobre dona de casa olhava especificamente para a parte que tinha fotos do pequeno Athos na banheira e indo para a escola a primeira vez. Embora fosse uma mulher forte, ele reparou nas lágrimas no rosto da mãe quando a encarou. Então ele colocou a mão em seu ombro. O rapaz era apenas um pouco mais alto que ela.

— Mãe… A senhora vive dizendo pro meu pai que todos nós temos que tomar um rumo na vida.

— Digo até hoje isso pra ele, Athos. Até hoje!

—Verdade, ele precisa te ouvir… Mas essa é a minha hora. Olha essa oportunidade que ganhei. Palestrar na frente de doutores, concorrer a uma vaga na universidade. E fazer isso ainda defendendo os Magos. É algo que ninguém da nossa família conseguiu. Nem mesmo o vovô!

Ela abaixou os olhos.

— Parece que a história se repete, meu filho… Seu avô disse as mesmas coisa antes de partir. Ele e o amigo dele, Állathor. Mas será que você não entende minha preocupação? Eu sei que você vai se sair mais do que bem. Você é capaz de conquistar o mundo. Mas…

— Eu sou o que mais entende, mãe. Porque mesmo sem conhecer direito, eu sou um dos que mais sente a falta do vovô também. As almas de um mago estão ligadas além de laços sanguíneos. Mas essa é a chance que tenho de poder provar a esses homens que talvez eles estejam errados, que podem pensar diferente. Ou a senhora vai dizer que está satisfeita com o que Kazadhór faz com nosso povo?

— Jamais estarei! — respondeu ela, indignada. — Mas ninguém chegou a desafiar essas pessoas. Estamos falando de deuses e lendas antigas… Acha mesmo que vai conseguir uma vaga na Universidade contestando-os dessa forma? Não é isso que você quer: crescer, ser um bom professor? Você pode fazer tudo isso não os desafiando. Você sabe o que eles querem ouvir.

— Eu quero a verdade, mãe. Você me ensinou a ser assim. Se não houver alguém que os desafie a pensar diferente, então jamais teremos…

— As pessoas que desafiam Kazadhór morrem, meu filho! Desaparecem!

— E você acha que eu ligo? Eu sou descendente de um mago, ora! Eu não tenho medo. Eu… Eu não posso ter, não é?

Houve alguns poucos segundos de silêncio.

— Você vai se meter com coisas além de sua compreensão. Eu já tive sua idade, e essa vontade de fazer o que é certo. Mas a vida ensina… A fome ensina, na verdade… A sermos obedientes. Todos nós queremos o que é certo, Athos. Dos trabalhadores do campo aos estudiosos — completou ela, passando a mão sobre o retrato de Gór. — Mas não sei se há mais tempo pra isso agora. Não há mais tempo pra nada.

— Quem faz o tempo somos nós, mãe. Se a senhora não pode, porque graças às forças Celestes estava cuidado de mim, fique feliz em saber que hoje eu posso e vou honrar cada esforço seu.

Ela o olhou ainda séria, mas com um quê de orgulho. Então o abraçou forte, soluçando.

— Pena que demorei tempo demais pra aproveitar esse abraço — disse ela.

— Então — disse Rineus, horas depois. O sol já estava no alto, e os dois estavam carregando as bolsas com roupas para o rapaz e as colocando sobre uma carroça que o levaria ao rio — Viajante, né? Quem diria! Meu filho, um explorador do mundo!

— É, quem diria… — disse Athos, sem jeito, arrumando as bolsas.

— Ei, falando murcho desse jeito, parece até que não sou capaz de ter um filho inteligente! — brincou o pai.

— Modéstia à parte, pai, eu estou aqui, não estou?

— É, isso é verdade — Sorriu o pai, orgulhoso. Rineus, diferentemente da mãe, estava mais tranquilo com a partida do filho, e Athos puxou isso do pai: amar as pessoas mas não se prender tanto a elas. Talvez por isso ambos se dessem tão bem.

— Lembro-me de quando sai de casa pela primeira vez — começou ele, parando para respirar. Athos já tinha ouvido essa história umas vinte vezes, mas interrompeu, pois não sabia quando a ouviria novamente. — Na minha época não tinha esse negócio de estudo, sabe? Era uma enxada e um campo inteiro pra gente trabalhar. Mas você está certo, todo homem tem que seguir seu caminho. Ah, já ia me esquecendo! O vizinho me falou de um lugar que tinha garotas dançarinas perto do Centro que é óh, uma beleza!

— Pai, tenha vergonha! — comentou o garoto, rindo. — Eu não vou sair de casa pra esse tipo de coisa.

— Ora, vai falar que não gosta? — perguntou Rineus, encabulado.

— É claro que gosto! — respondeu ele, ríspido. — Tá me estranhando, é? Mas não desse jeito, indecente.

— Ufa, por um momento achei que eu não ia ter netos. Tá bom então, seu rabugento. Mas também não conto onde é! Se tudo der errado, vai se arrepender em não saber onde fica.

— Bem provável que não — respondeu o filho, abraçando o pai.

— Vou sentir saudades das nossas conversas — disse o pai, retribuindo o abraço e apertando a mão do filho —, e espero que Harp cresça com o mesmo coração que o seu. Imagine? Sua mãe teve você quando era bem nova. Se esse garoto aparecer com uma menina buchuda daqui a alguns anos, a gente não vai ter moral nenhuma pra dar bronca nele!

— O bom é que vocês sabem disso.

O garoto subiu finalmente na carroça e pagou quatro moedas de bronze ao carroceiro, senhor Fidalgus, um homem de idade bem avançada que parecia não aguentar as rédeas dos cavalos. O rapaz olhou para a casa de pedra, dando um último adeus.

— Ela não vem se despedir — comentou Rineus, olhando para trás. — Está muito abalada ainda.

— Tome conta dela — disse Athos, firme.

— E você de si. — Se despediu o pai, pondo a mão sobre a testa do rapaz.— Boa sorte, filho. Dou-lhe minha benção. Ah, só mais uma coisa! Você sabe que seu coroa aqui nunca foi de estudar muito, mas… Ainda sim, eu sei que com Kazadhór não se brinca.

— Eu sei, pai — respondeu Athos àquela mesma afirmação pela quinta vez na semana. — Eu vi nos livros. Não sou doido.

— Doido você é sim! E também sabe que livros não explicam como a vida real funciona… Eu já lhe disse isso. Ouça a voz da experiência. O pessoal da taverna disse que seu exército, os Inquisidores, estão mais violentos do que o comum. Pra você ter ideia, semana passada entraram lá…

— Então era isso que o senhor estava fazendo na semana passada quando falou que ia ter hora extra, não é? — indagou Athos, indignado.

— Não vem ao caso! — comentou o pai, com vergonha. — Enfim, semana passada eles entraram na Tavena do Rio enquanto jogávamos cartas. Suspeitaram que Jortus, o vizinho, tivesse passado informações para um bando de desordeiros. No dia seguinte, a casa estava vazia. Todos desapareceram. Disseram que os Inquisidores de Sangue, a guarda oficial de Kazadhór, levou toda a família! Eles não perdoam traidores. Então seja lá a loucura que você queira fazer, tenha cuidado e firmeza em seus propósitos! E não saia espalhando seu nome pra qualquer um. Você sabe muito bem quem era seu avô e com quem ele andava.

Athos concordou, escondendo o temor que as palavras do pai o fizeram sentir, e a carroça começou a andar pela estrada que cortava a floresta. Ele viu seu irmãozinho correr atrás do veículo, e acenou sem jeito para o pequeno. O olhar da criança era uma mescla de alegria pela vontade de seguir os mesmos sonhos de grandeza do irmão, mas ao mesmo tempo de tristeza, pois se despedia ali de seu grande amigo.

A viagem de carroça durou dois dias, nos quais o condutor Fidalgus tentou, por todas as primeiras três horas, contar a história de sua infância. Athos, tentando ser o mais educado possível, apenas concordava e dava sorrisos amarelos; afinal, tinha dois dias para revisar a tese que iria defender para conseguir a vaga na Universidade.

Foi quando finalmente ouviram, no fim do segundo dia, vozes altas, sinal de que haviam chegado ao Centro do Sul. O local era gigante; havia uma larga avenida feita de paralelepípedos cinzas desgastados que estava lotada de outras carroças e pessoas montadas em Esleipers (que são cavalos de oito patas) atravessando de um lado para o outro. Em cada lado dessa avenida, havia casas e comércios dos mais variados: desde lojas de sementes moídas, bares com dançarinas — que fizeram Athos rir ao lembrar do pai — a comerciantes que ficavam nas próprias calçadas, bem como artistas de rua e vendedores.

Athos não conseguiu ver ao certo devido à multidão, mas reparou que um desses comerciantes, que anunciava Amuletos da Sorte, estava sendo carregado para uma das travessas entre as casas por dois homens vestidos de roupas avermelhadas e lanças prateadas nas mãos.

Eram os Inquisidores de Sangue, mais uma vez agindo.

Viva a liberdade, pensou ironicamente o rapaz. Segurando-se muito, não foi ao encontro do pobre comerciante e fez preces em prol de sua alma.

Olhando para os pobres coitados que tentavam ganhar a vida em cima de objetos ocultistas, e que ainda sim eram reprimidos pelas forças militares de Kazadhór, parte de Athos sentia raiva do povo de seu país, mas outra parte também sentia pena. Afinal, não poderia culpá-los por terem tal curiosidade, já que o povo do Sul — e de toda Héreddah num geral — tinha muito pouco acesso ao conhecimento, e desde crianças seus destinos já eram previamente traçados. Quando jovens, eram matriculados nas escolas que lhes ensinavam a ler, a escrever — o idioma era conhecido como Guatupi — e a contar. Depois, aprendiam uma profissão voltada para o trabalho físico, como limpeza, feitor de bebidas, cozinheira, e só poucos tinham a oportunidade de continuar com os estudos. No fundo, o jovem sabia que a estratégia da Deidade se baseava em quanto menos um povo conhecesse sua história, mais fácil ele se entregaria a outra que lhe contassem.

Mas a mente de Athos rapidamente abandonou as reflexões que todos os dias fazia a respeito desses temas quando sua carroça passou por uma pequena ponte sobre o lago, e ele finalmente pôde encarar seu destino: um prédio enorme, retangular e cinza, como a cor de praticamente todo o Vilarejo. Havia muitas e muitas pequenas bandeiras brancas em seu telhado, e outras maiores penduradas ao lado das janelas. No fim da ponte, uma placa anunciava:

Desejamos à todos boas-vindas à XVI Academia Humanística Heddariana.

O velho embrulho no estômago de mais cedo tomou surgir no rapaz, e à medida que se aproximavam da entrada, a realidade batia mais forte. Sem enrolar, ele se despediu então de Fidalgus e, com suas enormes bolsas, se direcionou para a entrada, onde viu que um homem alto de vestes roxas escuras e de óculos tartaruga estava mais à frente com uma lista. Athos pigarreou:

— Bom dia… Eu…

—Ah! Seja bem-vindo, meu caro! — Alegrou-se o homem, de repente, cheio de pompas. — Você é o
senhor…

— Athos, Athos Quintillantum — disse o rapaz, largando as bolsas que trazia e apertando sua mão.

— Ah sim — disse o homem alto, não retribuindo o aperto e fazendo careta ao ver as luvas velhas do rapaz. — Chamo-me Padmus, muito prazer. Veio uma hora mais cedo! Está bem adiantado, e ansioso, acredito.

—Como todos os homens que querem algo pro futuro — respondeu Athos, tentando causar boa impressão.

— É assim que eu gosto! Meus antepassados diziam o mesmo, embora minha ansiedade nunca permitiu que eu pudesse apresentar um artigo sem desmaiar antes de concluí-lo. Enfim, histórias para outro dia. Entre, entre! É só me seguir!

Athos, ansioso, se virou para pegar suas bolsas antes de entrar, mas algo curioso chamou sua atenção. Próximo à ponte do rio sobre a qual haviam passado, um vulto negro desapareceu na mesma velocidade em que ele o viu. Pela rapidez, ele não discerniu se era homem ou animal, e até se sentiu tentado a desviar-se de seu caminho por breves minutos.

— Algum problema, meu caro? — perguntou cordialmente Padmus, surgindo com a cabeça pela porta mais uma vez.

— Nenhum — disse Athos, ainda olhando na direção em que o vulto desapareceu. — Coisa da minha cabeça.

— Ah, sei bem como é isso! Lembro até hoje como foi minha primeira apresentação…

Por fim, ambos passaram pelos portões de madeira enquanto Padmus ia narrando a primeira de muitas vezes em que havia desmaiado. A animação logo tomou conta de Athos, pois a academia humanística era tudo o que ele esperava: grandiosa! Tinha um salão oval com um teto bem alto, e em cada canto havia estantes cheias de livros, onde alunos e professores andavam com imensos rolos de pergaminho, e com as paredes escondidas, tamanho era o número de estantes lotadas. Havia quadros e amostras de objetos retangulares; expressões artísticas dos mais variados povos de Héreddah. Infelizmente elas tratavam de um único tema: o quão grandioso era Kazadhór.

— Belíssimo, não é, Sr. Quintillantum? — perguntou o homem.

— É, parece até Mag…

— Como disse?

— Magnífico! — emendou o rapaz, tossindo. Padmus o encarou estranhamente.

Os dois atravessaram rapidamente o salão, desviando da multidão que, a cada passo que davam, parecia aumentar. Agora Padmus lhe dava as mesmas instruções que Athos já estava enjoado de saber: tratar com total cordialidade os doutores que iriam avaliá-lo, argumentar sempre com fontes e contra argumentar caso fosse necessário, verificar se as vestes são condizentes com o tema proposto, dentre uma série de coisas desnecessárias. Athos concordava, fingindo ouvir o que já sabia enquanto sua atenção era direcionada para a parte de cima do saguão. Pendurados, havia imensos estandartes vermelhos com o desenho de chamas costuradas por linhas douradas, o que ele sabia também serem da bandeira oficial de Kazadhór. E bem no centro do teto, um desenho extremamente detalhado que mostrava a Cidadela da Eternidade sobre um grande pico das raízes que uniam os continentes. O desenho parecia se movimentar, dependendo da posição por onde ele andava, não por magia, mas por uma excelente técnica de pintura e movimento que ele já tinha ouvido falar.

Depois de longos passos, ele pôde perceber que a pintura contava sobre A Grande Guerra de Héreddah, na qual sabia, secretamente, que seu avô lutou até o fim. E obviamente contava-se na academia a versão na qual Héreddah era a grande culpada de todo o massacre do passado.

Propaganda é a chave, pensou Athos, sem achar graça. O jovem não acreditava tanto naquela versão. Aliás, esse era um dos motivos de estar ali.

—E lembre-se — comentou Padmus, quando atravessaram um dos corredores e abriram a porta de uma sala de espera —, quando for falar, primeiro…

— Espere ser requisitado, sim. Eu li o edital.

— Ótimo! Bom, chegamos. Vou pedir para que o senhor aguarde aqui, está lotado.

— Lotado?

— Sim, o público do teatro.

— Que teatro!?

— Ora, perdão por não lhe informar. Como o senhor pôde ver nos corredores, muitos dos jovens que irão apresentar suas teses ficaram para pegar algumas dicas com os que vão se apresentar antes deles. Fora inesperada, confesso, tamanha união! Mas fico feliz que eles estejam interessados dessa forma.

— É, realmente é algo inesperado, Padmus! — comentou Athos, voltando a suar. — Achei que seriam apenas os doutores…

— Ora, não se preocupe, o público tem sido bem favorável! É só pensar o quão inspirador pode ser sua apresentação para os que virão a seguir. Isso nos motiva a falar o certo!

— É… O certo — pensou o jovem, enjoado.

— Agora não se demore, pois pela hora, seu antecessor já está terminando. Separe suas folhas, anotações e, o principal: boa sorte! E para a glória de Kazadhór!

Padmus olhou para o rapaz sorridente, esperando ele retribuir o comprimento.

— Fala-voriax-xixefafa— respondeu o jovem mago entre os dentes.

O rapaz se largou em um dos sofás de couro marrom, preocupado. Uma coisa era passar vergonha na frente de alguns Doutores, mas de todos os seus concorrentes era algo bem pior! Com as mãos trêmulas, a primeira coisa que fez foi pegar o sanduíche embalado, que sua mãe colocou em suas vestes antes de sair, e separar de uma das bolsas os pergaminhos com suas anotações. Uma parte dele queria revisar mais uma vez o conteúdo, mas seu nervosismo agora tinha outro motivo: talvez sua mãe pudesse estar certa. Ele estava em um lugar cercado pela sombra daqueles que consideravam suas ideias como uma ameaça. Talvez a pintura tivesse esse efeito oculto de mexer com a cabeça dos outros, pensou ele, mas de qualquer forma, não era mais momento de voltar atrás. Tentando se distrair, ele pegou um exemplar do jornal mais próximo e leu enquanto mastigava forte o sanduíche. E se engasgou ao ler a primeira notícia; a última coisa que ela fez foi conseguir distraí-lo:

Cresce o número de renegados: Líder
é mais uma vez capturado.

Os Inquisidores do País do Sul relataram na tarde de ontem a captura de mais dois delinquentes que tentavam explodir os quartéis oficiais de Japá. Segundo eles, o grupo era comandado por Renéh Barbôssa, figura já conhecida pelas autoridades do país.

Mesmo aos vinte e três anos, Reneh tem quarenta e duas passagens, por terrorismo e furtos. O jovem é conhecido por suas inexplicáveis e mirabolantes fugas de prisões, sendo a última nada menos que a décima quinta vez. Embora entrevistados, os Inquisidores não quiseram dar mais detalhes sobre as falhas que favoreceram os criminosos, mas afirmaram que dessa vez reforçaram a segurança para que as ações não voltem a se repetir. Segundo os soldados, o caso foi considerado como uma “ação esporádica”.

O problema é que eles também disseram isso nas outras quatorze vezes”, comentou o cientista político Brunnél, ex-guardião da Grande Biblioteca e formado em Segurança Pública pelo CSE-7. “Precisamos de respostas e ações efetivas ao invés de promessas que já se provaram quebradas.”

A população, que nomeou o grupo comandado por Barbôssa como renegados, teme que os marginais possam servir de desculpa para ações terroristas de alguns praticantes de magia dos tempos antigos. Por isso, os Inquisidores notificaram os vilarejos para que denunciassem quaisquer suspeitos envoltos em atividades mágicas na Ala de Segurança Máxima de sua região — e isso inclui usuários de amuletos e teses anti-inquisidoras. A pena varia de decapitação à prisão perpétua, quando não tortura seguida de morte.

A seguir, nosso artigo de cozinha…

Athos largou o jornal, perplexo. Primeiro, porque não sabia como uma pessoa conseguiria ler um artigo de cozinha depois de encarar uma notícia como essa. Segundo, não sabia se de fato deveria ficar feliz, pois uma parte dele acreditava que existissem praticantes de magia por Héreddah; afinal, suas terras eram enormes, e o legado de seu avô pode muito bem não ter parado apenas no Sul. Por outro lado, estava ciente agora de que os Inquisidores usariam de qualquer desculpa para incriminar magos, ou qualquer suspeito — vide o pobre comerciante de artefatos “místicos” que encontraram na rua, apenas para mostrar serviço.

— Sua vez, senhor Athos! Estão todos lhe esperando — disse Padmus repentinamente, aparecendo por de trás de uma das portas da sala. Tremendo, e agindo no automático — pois se parasse pra pensar um pouco, sairia correndo dali — Athos recolheu seus papéis e adentrou no Teatro, que era pouco iluminado e tinha todas as cadeiras lotadas de jovens e seus responsáveis. Bem à frente, no palco, brilhava uma luz forte, onde, em uma espaçosa mesa de madeira, havia um enorme quadro negro e três Doutores sentados, que aguardavam para lhe avaliar.

Então é isso disse ele para si, descendo a longa escada que levava ao palco.

— Senhoras e senhores, Sr. Athos... — gritou anunciando um dos professores, branco, careca e de óculos, quando o rapaz subiu as escadas. Fracas palmas foram ouvidas — Athos do que, menino?

— Athos Quintillantum.

— Ora, seja bem-vindo! — gritou a segunda mestra, uma senhora magra e de cabelos castanhos, abrindo-lhe um sorriso e puxando uma salva de palmas mais forte. — Desde já te damos os parabéns por conseguir a oportunidade de concorrer a essa vaga. Pode ficar à vontade! Tem água, mesa e quadro a seu dispor.

O terceiro professor não se expressou. Era bem gorducho, de barba longa e cabelos negros cacheados bem curtos. Apenas olhava para o rapaz, examinando-o.

— E então — questionou a mestra —, o que você nos trouxe hoje?

— Bem, professora... Professores, no caso. Eu… Eu tentei arranjar um tema o qual sei que pode soar estranho, mas acredito que seja relevante nos dias de hoje. Ainda mais porque estamos em uma época em que o debate tem se tornado escasso.

— Não vai falar sobre educação íntima, não é? — comentou rápido o professor magrelo. A plateia morreu de rir.

— Não senhor, senhor! — respondeu o rapaz, corando. Aquilo parecia mais um show do que uma apresentação.

— Ufa! Um a menos hoje. Os colegas da sua idade andam meio empolgados. Enfim, prossiga!

— Certo — comentou Athos, aceitando que depois de vultos e perguntas estranhas, definitivamente aquele dia não estava sendo nada convencional. — Bem… O tema que venho trazer é o conflito entre as gerações pré- e pós-Deidade, e suas consequências.

Os professores se encararam surpresos, com cara de interesse. Houve pequenos aplausos da plateia. Esse pequeno gesto de reciprocidade fez com que sua confiança voltasse.

— Ousado, jovem! Lembre-se de que você terá dez minutos para concorrer a sua vaga — continuou a professora. — Deve sustentar seu argumento em bases sólidas, de preferência citando as fontes. Sua personalidade também será avaliada. Quando o senhor disser que está pronto…

Sua personalidade também será avaliada. Essa frase o quebrou. Athos viu a professora segurando uma pequena ampulheta nos dedos magros. Agora não havia mais tempo para pensar, mas também não precisava: estava tudo ali, em seu sangue, em sua mente, em sua alma. Seu último gesto foi encarar muitos dos olhares da plateia e pensar: é por vocês.

— Pronto, senhora.

— Que comece! — E a professora virou a ampulheta.

— Bem, senhores… Sabemos que a origem do nosso povo é pouco conhecida, afinal, boa parte da história foi recontada após a vinda da Deidade. O que nos é passado é que a própria, que hoje nos rege, veio em um momento de extrema necessidade para nós. As guerras que se seguiam antes de sua vinda estavam levando Héreddah ao colapso. Nossas estruturas de governo não davam conta das diferentes visões que os países tinham na época, e elas divergem até hoje! Então, mesmo inconscientemente, todos tinham o desejo de uma ordem.

Athos abriu sobre o quadro, enquanto falava, pergaminhos enormes que continham mapas e desenhos relacionados ao tema. O público começou a fazer pequenos comentários, se mostrando extremamente interessado.

— Mas essa também era uma época de descobrimento para os povos, e de muitas mudanças em seu sistema de crenças. Logo, é comum pensar que o conflito acontecerá. Estamos falando de um povo muito diverso! A questão é que, segundo relatos encontrados em pergaminhos em 20 A.D.V. (antes do Dia Vermelho), há textos em diversos pontos do mundo que confirmam o fato das civilizações serem unidas antes da vinda da Deidade. Em outro pergaminho, encontrado no fundo dos mares selvagens por piratas, há a confirmação da formação da aliança dos Arautos de Héreddah, que fundaram a Cidadela da Eternidade e, com muita dificuldade, trabalharam de forma nunca antes vista.

“Ou seja, embora a Deidade tenha chegado em nosso mundo, existia sim uma ordem antes de sua vinda. Algo que estava em construção, e que envolvia tanto os nossos reinos atuais como os Guerreiros da Terra e os… Os Mestres Magos…”

A menção da palavra “magos” fez com que todos os comentários diminuíssem consideravelmente e a atenção voltasse mais ainda ao rapaz, mas isso não intimidou Athos.

— Ponto interessante — disse o professor, bem sincero. — Mas isso não diminuiu o papel de Deidade na construção de nosso mundo, correto?

— E nem valoriza as antigas civilizações de algum modo — afirmou a professora. — Afinal, foi graças aos “Arautos” que nosso mundo quase ruiu, não?

—De fato, professora! O pouco que há nos Escritos dos Últimos Dias relata sobre a guerra entre os Magos, Reis e Guerreiros e confirma esse confronto catastrófico. Mas devemos nos lembrar de que esse documento também atesta a paz que existiu entre eles…

— Que supostamente existiu — corrigiu a professora.

Athos ficou um pouco assustado. Era como se a professora negasse a própria história.

— É… O assunto é controverso, confesso. Bem, a questão é que, dado o conflito, o mundo aceitou as palavras da Deidade quando ela se revelou. Pois ela prometeu e estabeleceu a tão desejada paz, mesmo que militarmente imposta, deixando claro que valia a pena sofrer alguns sacrifícios para isso. Afinal, a Deidade é um poder que jamais testemunhamos antes, que renovou o mundo. E retomar isso é importante, pois nos leva à questão principal que me fez estudar por anos até que eu pudesse levantar ao senhores a seguinte questão:

“Nesse processo de entregar nossa liberdade a uma único ser, o que será que perdemos?”

Os poucos comentários deram lugar a um silêncio mortal.

— É uma pergunta retórica, Sr. Quitillantum? — perguntou a professora, curiosa.

— Bem… Sim, mas se a senhora quiser responder, tem todo o espaço.

— Eu prefiro acreditar que é uma pergunta retórica. Porque se ela tivesse uma resposta, seria que não perdemos nada no processo de entrega de poder à Deidade.

O professor gorducho cochichou algo no ouvido do careca, que começou a folhear uma velha pasta sobre a mesa. Já a professora olhava Athos fixamente, com o queixo apoiado sobre as mãos entrelaçadas. O professor careca então comentou algo no ouvido da mulher, e ela concordou. Então ambos os homens continuaram a procurar algo na pasta.

— E é justamente por isso que eu estou aqui, professora. Para discordar! — comentou Athos, tentando disfarçar o nervosismo de agora com um riso. — A minha resposta, ou melhor, questionamento, para essa pergunta seria: nós perdemos culturas. Perdemos todo o conhecimento do mundo anterior. Perdemos muito! Toda uma história previamente construída.

“Afinal, a Deidade é conhecida por ser uma divindade que surgiu após o desparecimento dos Arautos. Só que não podemos esquecer do que havíamos construído até aquele momento!

“A organização da nossa sociedade em tempos antigos, por mais imperfeita que fosse, era democrática. Os Reis acreditavam na autoridade e na proteção de seus territórios como a melhor maneira de servir às forças celestes e ao mundo, mas poderiam ser depostos. Os Guerreiros da Terra, grandes protetores das fronteiras de cada país, acreditavam que apenas através da guerra conseguiriam vencer os conflitos, e tinham um código muito moralmente muito forte que os puniria caso fossem contra o seu propósito. E os Magos acreditavam que apenas o contato com o sobrenatural poderia levar o homem à perfeição. E embora fossem três classes bem distintas, ainda sim acreditavam nas Leis Naturais, de respeito à liberdade, à igualdade e à soberania entre os povos. Dessa forma, no fim, os Guerreiros ajudavam os Reis, os Reis eram aconselhados pelos Magos; que por sua vez ajudavam os Guerreiros. Era um ciclo perfeito de poder, onde nenhum se sobrepunha ao outro.

“A pergunta, então, Professora” Continuou Athos, após parar para beber um copo d’água “, se torna ainda mais instigante com os fatos levantados acima. Pois foi esse ciclo tão estável e tão perfeito que, no final, perdemos. Um ciclo que, pela primeira vez em toda história de Héreddah, conseguiu desfazer as guerras de nossos povos. Ainda que tivéssemos diferenças e brigas ocorressem, essa era a melhor forma de governar. Em cima disso, então, faço a vocês outra pergunta: onde a Deidade se encaixaria nisso?”

Os murmúrios se aumentaram na hora. Comentários na plateia como “Francamente!” e até mesmo “Herege!” foram ouvidos. Mas Athos continuou firme, aguardando sua resposta.

— O senhor está dizendo — disse o professor careca, coçando a bochecha — que a Deidade que governa nosso mundo nos inibe propositalmente de algum tipo de conhecimento ou liberdade?

— Veja bem — disse Athos, estendendo as mãos com um sorriso, se empolgando —, eu não disse que a presença da Deidade é inválida. Nem que ela não tenha um motivo para existir, pelo contrário! Ela existe, é um fato. Mas agora: qual o porquê disso? Vejam, todos sabem que a Deidade se impôs contra mais de metade contra mais da metade das leis e dos tratados de paz firmados por nossos antepassados. E o mais importante: a Deidade nos proíbe ter acesso a qualquer conhecimento político e teológico dos tempos antigos. E ninguém nunca se questionou o porquê.

— E deveríamos? — perguntou a professora, surpresa.

— Esse é o dever de todo cidadão. Até porque, professora, quem deve não teme — disse Athos, firme.

Os comentários da plateia se tornaram mais enérgicos.

— Então você está afirmando — perguntou novamente o professor — que a Deidade nos priva de vivermos as antigas leis porque, segundo você, elas são melhores e a Deidade está errada?

— Desculpe a pergunta professor, mas no que você é formado? — questionou Athos.

— Humanidades Gerais — logo respondeu ele.

— Então o senhor sabe que ocultar o conhecimento sem questionamento é a melhor forma de se perpetuar no poder. A força e o carisma de seus seguidores, a Deidade sempre teve. Mas o que deve ser questionado é: se ela é o toda poderosa, se ela está acima do bem e do mal, por que nos priva de conhecer o mundo antigo!? E foi assim que muitos livros e textos sagrados se perderam. Hoje não há uma única biblioteca que contenha escritos antigos. E novamente, professores, eu não quero entrar aqui na discussão sobre ela estar ou não certo, pois independente de nossas opiniões, acredito que todos nós aceitamos a lei vigente já promulgada por ela, e… E dificilmente isso será alterado! Mas houveram perdas significativas nesse processo de transição de poder, e devemos exigir o motivo disso.

— Além das perdas culturais que você já citou — indagou a professora, com uma expressão que era indecifrável —, poderia me dizer uma perda significativa, senhor Quintillantum?

— Bem… Como falei, há muitas, senhora. Temos os textos que citei, e até mesmo a extinção de raças hoje consideradas mitológicas como…

— Ah, por favor, não vá tão longe. Diga-nos um próximo.

Athos se calou por alguns segundos. Intuitivamente, ele sabia a resposta que a mulher queria ouvir.

— Magos, senhora. E o motivo pelo qual a ordem foi proibida.

— Suspeitei — comentou ela, com um falso sorriso, segundando uma folha — que essa fosse sua resposta. Porque sua árvore genealógica diz que você é descendente de um deles.

A plateia não se aguentou. Houve um forte suspiro coletivo de surpresa. Athos manteve seu olhar firme para a mulher, não desviando por nem um segundo e refletindo sobre qual atitude tomaria a partir dali: continuar de cabeça erguida ou negar suas origens para conseguir a tão sonhada vaga que a vida inteira correu atrás.

Mas como a história de seus antepassados havia lhe ensinado, para um mago, fugir não era uma opção.

— É verdade, professora, eu sou. A veste me entregou, eu sei — comentou ele, com um certo otimismo na voz. A plateia soltou risos de surpresa.

— É, Sr. Quintillantum. A veste e muito mais. Mas continue… Quero saber a conclusão disso.

—Com todo o respeito, professora, eu não tenho que achar nada. Eu só avalio os fatos, e não apenas o que me convém. E já que a senhora antecipou, o meu objetivo foi trazer uma reflexão além do que os senhores estão acostumados a passar pra nós. O fato de não podermos refletir sobre algo faz com que regridamos de seres conscientes à animais domados. E isso é o tipo de coisa que ninguém, Deidade ou homem, deve permitir.

Ele não sabia de onde veio a coragem para falar aquilo, só tinha certeza de que não estava nem um pouco arrependido; pois os comentários na plateia não cessavam, e aparentemente eram a favor dele.

— Nesse caso, então eu vou me aproveitar da brecha — falou novamente a professora —, pois tenho uma curiosidade. Já que você é um rapaz tão por dentro de ambos os lados, possivelmente tem respostas sobre os ataques dos renegados que acontecem por nosso país, e pode justificar esses fenômenos, correto?

Athos se surpreendeu verdadeiramente com a pergunta, sentindo um quê de acusação.

— São casos isolados. Sempre há extremistas, professora, independentemente do lado.

— Por favor, eu imploro por uma resposta concreta.

Athos pensou um pouco.

— Não senhora. Não tenho ideia.

— Pois eu suspeito que sim. Idealistas são sempre os mesmos. Usam o cérebro antes dos músculos. Por anos, o governo da Deidade sofreu muito achando que só a força venceria seu legado. Até que pensou diferente. E nós, a elite intelectual, começamos a apoiá-la. Acho que todo esse assunto pode convergir no simples fato de que as defesas indiretas que você faz aos seus antepassados não terão lugar aqui. Por isso, você já tem meu voto de desaprovação.

— O quê!? — exclamou Athos, surpreso. A plateia também se mostrou da mesma forma. — Professora, eu acabei de começar a minha tese!

— Cassandra — comentou o professor careca, achando graça da situação toda —, não acha que devemos dar ao menos a chance do rapaz terminar de se apresentar?

— Já está causando tumulto demais, jovem — cortou então a professora. — Em menos de seis minutos, você conseguiu acusar seu povo de burro e deixou a entender que nós, que seguimos a lei, a verdadeira lei vermelha, somos manipuladores da verdade!

— Mas a culpa agora é minha se os senhores realmente não fazem isso? — disse Athos, e a plateia novamente se agitou. — Eu só quis expor um lado da história que nunca vi chegar ao povo, ora! Algum de vocês da plateia já teve seus professores comentando sobre isso?

— A plateia não está sendo avaliada, muito menos te avaliando, jovem…

— Ora, então para que serve? — Athos disse em alta voz, perdendo um pouco o controle — É um circo, é? É só pra mostrar como somos “diversos” e “abertos” a novas opiniões? Ou para, através de aplauso da maioria, vocês oprimirem quem está aqui na frente?

— Mas meu caro — disse o professor careca, se levantando. A falsidade de sua voz era tanta que, se comparada aos amuletos do vendedor que foi preso, eles soariam até verdadeiros. — Como ousa chegar aqui e nos dizer que desejamos humilhar nossos alunos!?

— Independentemente do que vocês quiseram fazer aqui, acredito que já se mostraram mal sucedidos. E eu ainda tenho alguns minutos da minha apresentação, caso os senhores me permitam continuar.

A plateia comentou alto. Surpreendentemente, boa parte era a favor de Athos, e os professores perceberam isso. Por dez segundos, eles comentaram entre si, até voltarem sua atenção a Athos.

— Meu jovem rapaz — recomeçou a professora Cassandra, sorridente e com outro tom de voz. — Jovem e inteligente, como essa plateia pode perceber! Nós entendemos sua… Insatisfação com o mundo. E a sua forma de pensar. Não ficamos o dia inteiro aqui de enfeite assinando diplomas e chorando em formaturas; estamos aqui para formar pensamentos, cidadãos que respeitem as leis, e que não defendam qualquer um desses assassinos e desordeiros que tentam desestabilizar a economia, a segurança e a alimentação do povo para nos culpar. Nós vamos dar mais uma chance para você recomeçar e poder se expressar de forma…

—Eu desisto — cortou Athos, recolhendo suas coisas.

A plateia finalmente colapsou em comentários altos, entrando em choque. Os professores arregalaram os olhos. Independentemente da forte política repressiva da Deidade, os professores sabiam que era muito ruim para a imagem deles, como profissionais, terem um aluno desistindo. E Athos, que não era bobo nem nada, sabia do impacto que essa atitude teria.

— Então deixa eu ver se entendi — disse finalmente o professor barbudo, de grossa voz —, você teve excelente desempenho em suas notas escolares, nasceu em berço pobre, teve que se esforçar mais do que o dobro que todos aqui para, depois de dois dias de viagem, chegar a uma conceituada Instituição de Ensino Superior e jogar tudo para o alto?

— Mentira! — desafiou-o Athos. — Pessoas como eu não têm chances nesse lugar. Se o mais alto dos sábios antigos chegasse aqui, ele seria reprovado só por pensar diferente. Não é possível ser avaliado por ditadores! Agora, se um Inquisidor apontasse a lança na fuça covarde dos senhores, ele pularia os dez anos de graduação como curandeiro. Mas não adianta, o pensamento movido pelo medo não representa o povo em sua totalidade!

Muitos aplausos vieram da plateia.

— Então realmente acho que o seu lugar não é aqui, senhor Athos — disse por fim a professora, sem se abalar. — Lamento desapontá-lo.

— Não se preocupe, senhora — comentou Athos, trêmulo, recolhendo seus livros e pergaminhos. — Desapontado eu estaria se passasse nos seus critérios. Ser reprovado por pessoas como vocês é um privilégio.

E por fim recolhendo suas bolsas, saiu da sala, chutando com violência a porta.

— Mas o que você fez!? — perguntou Padmus, boquiaberto atrás de Athos, enquanto o jovem cruzava os corredores da Universidade em direção à saída em longos passos.

— Você estava lá?

— É claro!

— Então por que perguntou, seu idiota!? Me dê licença!

O rapaz abriu violentamente a porta para fora e, sem fechar, seguiu espumando de raiva para o vilarejo. A primeira coisa que quis fazer sem pensar duas vezes foi sentar na taverna mais próxima e pedir uma bebida. Continuava a tremer de raiva e nervosismo. Por fim, avistou um lugar chamado Casa do Barril, onde entrou, pegou sua bebida e a virou toda num único gole.

E as lágrimas de tristeza e decepção vieram contra sua vontade. Mas o jovem jamais poderia deixar de falar a verdade. Seria uma desonra à memória de seu avô, que lutou justamente para defender o que é certo. E por mais que tivesse o sonho de alcançar um nível superior depois de tantos anos de estudo, ele se confortava, no fundo, dizendo a si mesmo que fez o que deveria.

Afinal, para um mago, fugir nunca foi uma opção.

Notas finais
Nesta postagem encontram-se o prólogo e o primeiro capítulo do meu livro, já publicado pela editora Ases da Literatura, e que está disponível no Kindle Unlimited, no celular pelo Google Books e em versão física pela Amazon. O prólogo dela também se encontra aqui, no site, com o nome "Os Escritos dos Últimos Dias". Um abraço do seu maior fã, Boa leitura!