Os Arautos de Héreddah - Livro I
6 Capítulo VI: A Caçada
Capítulo Vi
A Caçada
—Kara! — berrou Athos. Repentinamente, algo acertou em cheio a cabeça de Renéh, que pelo impacto caiu no chão. Sem ter tempo de reagir, as mãos rápidas acorrentaram os pulsos do ladrão.
— Mas o que… — questionou Renéh.
— Precaução — disse a princesa.
Cambaleando, Renéh então percebeu que ele, Kara e Athos estavam presos na mesma corrente.
— Kara, tá doida, é! — indagou o mago. — Ele quer ajudar!
— Por precaução! — insistiu a princesa, friamente.
— Vocês estão de sacanagem com a minha cara!? — questionou Barbôssa.
— Então decida-se, ladrão — falou com firmeza Kara. — Ou você solta nós dois, ou não solta ninguém.
— A vontade que tenho é de deixar os dois aqui, isso sim! — Renéh estava vermelho de raiva.
— Mas eu não tenho nada a ver com isso! — comentou Athos. — Bom, podemos, por favor, andar logo? Quando isso acabar, cada um toma seu rumo.
Renéh encarou mais uma vez Kara. Nem a beleza da jovem foi o suficiente pra deixá-lo menos enfurecido. Por fim viu o olhar verdadeiro, quase suplicante, do mago.
— Vamos… Mago.
O trio saiu com dificuldade pela escada. Renéh tinha passos mais rápidos e barulhentos. Kara, mais leves, porém ia bem devagar — o que foi motivo o suficiente para trocarem farpas por todo o corredor. Athos, que estava no meio dos dois, era o que mais sofria: estabanado, tropeçava a cada cinco passos, e era arrastado de um lado para o outro pelo ladrão e pela princesa.
— A sala fica daquele lado — disse Renéh, se escorando na curva de uma das paredes.
— Parados, todos! — ordenou uma voz metálica. Era um Inquisidor mascarado, que apontou sua longa lança prateada para os três. Então percebeu que Renéh estava entre eles. — Senhor, o que é isso?
— E você ainda pergunta, guarda? — exclamou Renéh. — Esses dois tentaram fugir da prisão na hora do jantar.
— Traidor! Eu sabia! — exclamou Kara.
— Quieta, Kara! — cochichou Athos, arregalando os olhos para a princesa. Então os dois perceberam que Renéh estava improvisando.
—E por onde você estava, hein? — indagou Renéh ao guarda. — demorou tanto que os dois aqui escaparam!
— Recebendo ordens de Sabáh. Ele disse que possivelmente estaria envolvido caso o mago e sua sobrinha escapasse.
— Vish! — exclamou Renéh. — É. Dane-se.
E num golpe, Renéh tentou socar o rosto do guarda… Mas a corrente, também presa ao braço dos dois companheiros, freou o impulso do golpe no ar, fazendo com que Kara e Athos fossem arrastados e o soco fosse mal sucedido.
— E, pelo visto, ele estava certo! — exclamou o Inquisidor, que num brusco movimento, disparou da ponta de sua lança prateada uma rajada vermelha de luz extremamente fina e rápida que atingiu o ladrão em cheio, arrastando ele, Kara e Athos para trás.
Mas Athos, que já esperava o pior, revidou antes que caísse: de suas mãos, uma rajada perolada rugiu, de um azul bem vivo, tão forte que fez toda a luz do corredor sumir por um instante. O guarda foi atingido pelo feitiço e caiu rolando pelo chão do veículo.
— O que houve!? — chamou a voz metálica de outro Inquisidor. E o pânico se instalou em Kara e Athos.
— Sai de cima de mim! — exclamava Kara, empurrando Renéh ainda zonzo para o lado e se levantando.
— Guarda! — berrou a voz metálica mais uma vez. Passos pesados iam se aproximando pelo corredor.
— Kara! Renéh! Fiquem deitados, tive um plano!
Mesmo confusos, ambos obedeceram. Athos se deitou e pôs sobre sua cabeça o capuz. Em seguia, apontou os dedos para o corpo caído do Inquisidor que derrubara. Concentrando-se, ele sentiu como se cordas invisíveis amarrassem cada um de seus dedos. E, ao movê-los, sobrenaturalmente, o corpo do Inquisidor foi se levantando também, como se controlasse um boneco de trapos tonto e desequilibrado conforme sua vontade.
Por fim, o Inquisidor que chamava apareceu no fim do corredor.
— Ouvi o som de um disparo por aqui!
Com esforço, Athos fez o corpo do Inquisidor concordar com a cabeça. Embora fosse um bom feitiço, o corpo do guarda estava perigosamente desengonçado.
—E o que esses estão fazendo aqui? São prisioneiros!
Com outro movimento bem difícil, Athos fez com que o corpo do guarda apontasse para os prisioneiros, e depois para a cozinha.
— Para a cozinha? — questionou mais uma vez o soldado — Mas por que…
Por fim, Athos fez o guarda bater no chão com a lança, dando a entender que o assunto estava encerrado. Renéh e Kara se levantaram vagarosamente, e entendiam aos poucos a situação. Então eles ergueram Athos pelo ombro, que ainda controlava o corpo do guarda, fazendo-os todos andarem em direção a cozinha. Os soldados estavam boquiabertos, mas nada falaram, já que ali era um superior.
— Vamos! — disse um dos Inquisidores, e os demais foram correndo até a cozinha. E segundos depois, o guarda controlado pelo feitiço caiu no chão como uma marionete velha.
— Bom trabalho! — disse Renéh, segundos depois, impressionado,
— De nada — disse Athos, suspirando sinceramente cansado.
— Teremos tempo pra comemorar se sairmos vivos daqui — concluiu Kara. — Aqui! Chegamos!
Ao ver a porta, Renéh pegou a chave roubada de Sabáh e abriu a única fechadura que ali havia, no meio.
— Agora é a vez de vocês — disse Renéh para os dois, quando entraram na pequena sala escura.
Sem ao menos responder, Kara e Athos começaram a bagunçar as gavetas desesperadamente, mas a fraca iluminação não os ajudou. Renéh, que estava mais preocupado com a incômoda corrente em torno de seu braço, encontrou uma chave de fenda que era do mesmo material da corrente e, sorrindo, pensou em usá-la para se soltar dos companheiros.
Mas sua atenção foi desviada para a parede acima da mesa. Ela estava coberta do chão ao teto por um imenso pergaminho todo desenhado. Era um mapa.
—Assim vai ficar difícil — disse Athos, quando Renéh tirou uma lâmpada de perto dos dois e aproximou-se do mapa. E ele só precisou de alguns segundos em silêncio para entender qual era o propósito deste papel.
— É, conseguiram me convencer — disse o ladrão.
Athos se aproximou, ajeitando os óculos. Ele então reparou que o mapa na parede que Renéh encarava era do País do Sul; completamente detalhado, nele haviam todas as vilas que haviam sido saqueadas. O pior não era isso, mas sim as notas de rodapé: palavras como “desaparecimento”, “tortura”, “sequestro”.
— Agora você entende? — Kara lhe perguntou, bem séria.
— Ah, eu entendi bem — respondeu ele, de olhos e punhos fechados.
— Precisamos arrumar uma forma de ajudar aquelas pessoas lá fora — disse Athos. — Eles sofrerão, assim como todos nesses lugares do mapa já sofreram.
— Não mais — afirmou Renéh — Por hoje, não.
Unidos e agora muito mais em sintonia, eles saíram pela traseira da embarcação e viram o rastro de muitas pegadas no chão dos Inquisidores. Com cuidado, eles os seguiram, e começaram a ver algo que deixou o coração dos três horrorizados: uma pequena vila simples, cercada de árvores tropicais, formada de ocas, foi saqueada, e um rastro de pessoas arrastadas e destruição já se encontrava sobre a estrada, que agora se mostrava longa e barrenta. E o ódio foi subindo ao coração de Renéh.
— Ele prometeu que não mexeria com inocentes — disse Renéh, com uma raiva que beirava o descontrole. E logo se lembrou de tudo pelo que passou.
— Ali na frente… — sussurrou Athos. E à frente da longa e feia estrada de barro que subia, eles puderam ver bem de longe uma enorme fogueira crepitando, bem como gritos horrorizados.
Renéh partiu rapidamente em direção da estrada que subia. Kara e Athos tentavam acompanhar seu ritmo enquanto caiam xingando e eram arrastados pelo barro sujo e úmido, tamanha era a força de Renéh.
— Aqui atrás — ordenou Kara, imunda de barro, apontando para uma pedra no canto.
Os três se esconderam, e assim puderam ver que todos os humildes habitantes daquela terra estavam no meio da estrada, presos por cordas e correntes. À volta deles, havia muitas carruagens e cavalos sendo maltratados pelos Inquisidores que cercavam o local. E, dos dois lados da estrada, estavam duas gigantescas estátuas feitas de madeira e palha que representavam deuses daquela cultura, um com uma lança e o outro com um escudo.
Muitos gritos eram propagados pelas mulheres e pelas crianças, que buscavam consolo enquanto olhavam as estátuas dos deuses.
— Não os encontramos — disse um dos Inquisidores, próximo de Sabáh.
O general, que agora estava possesso de ódio, foi em direção à população assustada e pegou um dos idosos ali presentes, ajoelhado, arrastando-o pelo pescoço no barro imundo. Os gritos dos habitantes se tornaram ainda maiores. Dois deles tentaram avançar contra Sabáh para proteger o idoso, mas foram golpeados fortemente pela lança de prata.
— O líder deles… — falou Athos, em voz baixa. Kara estava em choque, e Renéh, furioso.
— Silêncio! — berrou o general, apontando para o céu sua lança e disparando uma rajada para o alto, que ressoou como um trovão no meio da noite estrelada.
Todos se silenciaram.
— Eu já dominei povos por não merecerem a liberdade que tinham. Mas vocês demonstraram nem ao menos competência para defendê-la.
Renéh reparou que havia um sorriso nos lábios finos do general, e a grande fogueira que crepitava perto do povo tornava do tom avermelhado de seus cabelos ainda mais diabólico.
— Vocês são nativos. Um povo que sofre por si só, e que hoje entregaram seu destino por tão pouco. Por protegerem uma civilização que traiu Héreddah. Então, a pergunta será uma só… Onde está a Rainha dos Cristais?
O idoso, que parecia ser de fato o líder, um ancião, respondeu em seu próprio idioma.
— O que ele está falando? — questionou Athos, tenso.
— Esse povo é nômade… — traduziu Kara, sussurrando, ainda mais tensa, enquanto ouvia a voz do idoso. — Eles estão sendo acusados de protegerem os Povos dos Cristais… E aparentemente, estes nômades não vão entregá-los… Pois os Povos dos Cristais é sagrado para o grupo.
Sabáh também havia entendido. E não iria deixar barato.
— Muito bem — ordenou Sabáh aos Inquisidores. — Queimem os deuses deles.
— Ataquem os totens! — disseram os Inquisidores, e sem piedade começaram a atirar contra as grandes estátuas dos deuses ali. Os gritos da população se tornaram ainda maiores.
— Temos que fazer algo! — disse Athos.
— O que você pretende? — perguntou Kara, ainda aflita.
— Esperem — interrompeu Renéh, firme — Pre-
cisamos pôr a cabeça no lugar.
— Como assim? — questionou Athos.
— Confie em mim — concluiu Renéh, sério. Seu coração estava em fúria.
Então o ancião gritou. Mas sua voz falhou de medo, e Sabáh tinha entendido o que quis dizer.
— Busquem nas ocas! — ordenou Sabáh.
— Não… Ele disse — comentou Kara, em conflito. — Disse onde eles estão.
— Isso é bom — disse Renéh —, não poderíamos sair daqui sem eles. E agora saberemos onde eles estão, por isso não podemos atacar ainda. Agora é esperar o momento certo.
Minutos depois os Inquisidores trouxeram, arrastados pelo joelho, os seres mais espetaculares que Renéh já tinha visto, tão impactantes que demorou um tempo até sua mente entendê-los. Eram parecidos com humanos, mas a pele era completamente feita de um cristal enrijecido, que fazia sons similares ao riscar de pedras quando moviam seus braços e pernas. Eram carecas, os olhos eram como dois pequenos faróis e não tinham nariz. Ali estavam dois seres: a rainha e o jovem príncipe daquele povo.
— A Távola… E meu Rei… Ele saberá sobre isso — disse por fim a rainha, cansada. Sua voz era ecoante, como se falasse dentro de uma caverna. — Você não pode agir da forma que bem entender…
—Meus aliados da Távola já sabem, minha cara — disse Sabáh, se aproximando e abaixando o rosto na altura dos olhos da mulher. — Inclusive, estão cientes de que seu esposo e seu reino não querem mais fornecer armas para o meu povo. Esse foi o passe livre para que eu pudesse rodar metade de Héreddah atrás de vocês.
— Vocês nunca acharão o nosso lar... Terão de guerrear caso queiram nossa fonte de energia. Os Cristais são sagrados para nós. Assim como são para o povo que me acolheu. Eles só devem ser usados em conflitos que vão defender ou libertar Héreddah… E nunca para essas lanças que tiram a vida de muitos.
— Não cabe a você decidir o que a Deidade faz ou não — disse Sabáh —, e essas leis se aplicam a seres humanos… Não a nativos como vocês, ou como esta subcultura imunda.
Ele olhou com desdém para os totens caídos.
— Nós somos como vocês… — insistiu a Rainha. — Por favor… Tenha piedade…
—Piedade e leis devem ser usadas com humanos.
E não com nativos. A vocês a lei dos animais. E nesse caso, eu sou o topo da cadeia alimentar. O povo de Héreddah não admite gente imperfeita ou incapaz. Devemos ser perfeitos como a Deidade nos exige. Seres como você são como recursos… Escada de outros. Tudo em prol da verdadeira perfeição. E você vai ser usada como moeda de troca para o seu esposo. Já este pequenino…
E ele pegou o jovem príncipe pela nuca, levantando-o a mais de um metro do chão.
— Ele vai servir como exemplo de que não devemos ser desafiados.
Mas tudo o que Sabáh planejou deu errado.
— Sai da frente, babaca! — disse a voz pesada logo atrás. O general se virou e ficou perplexo com o que viu. Com um salto, Renéh chegou carregando Kara e Athos (que gritaram ao serem arrastados) e deu um forte soco em Sabáh.
O general voou metros no ar, antes de cair com a cabeça enterrada no chão de barro.
— Abaixem-se! — gritou Athos ao se levantar, e com movimentos dos braços ele fez com que a fogueira criasse quatro chicotes de fogo largos que começaram a atingir como serpentes os Inquisidores.
O caos reinou. Os nativos saíram correndo em todas as direções, tentando aproveitar do cataclismo criado para fugir nas carroças. Mas Renéh estava focado, e correu em direção à rainha, que segurou seu filho antes que ele fosse arrastado pelo soco junto com Sabáh.
— Rainha — gritou Renéh, em meio a todo o som de guerra enquanto soltava suas amarras —, sei que não é primeira classe, mas acho que a melhor chance que você terá na sua vida é se me acompanhar até uma carruagem para sairmos daqui.
— E quem são vocês? — disse ela, se levantando.
— Não somos Inquisidores, isso te consola? — questionou Renéh, desviando de dois chicotes de fogo da fogueira enquanto corria pela multidão caótica ali.
— Vocês são da resistência contra a Deidade? — berrava ela.
— Quando eu descobrir, te conto, rainha! — gritou Renéh.
— Não me importa! — gritou ela em resposta — Só nos levem para o mais longe daqui!
— Com prazer! — exclamou Athos, assustado e aos tropeços. — Ali! A carruagem!
Os três correram em pânico enquanto o caos reinava.
— Para onde? — disse Renéh, finalmente parando para pensar.
— Para o Oeste da Floresta! — disse a rainha, subindo no veículo com seu filho. — Há lendas de que são terras abençoadas. Lá conseguiremos ajuda!
— Faz sentido — disse Athos, cumprimentando a monarca com uma reverência. — Eu conheço as lendas.
— Só espero que não estejam erradas — disse Renéh, procurando o domo do cavalo para dar partida.
— Olhe, Renéh — disse Athos. E Renéh viu que muitas outras carroças apareceram a sua volta, com os nativos, que gritavam para ele.
— Estão dizendo que vão conosco — disse Kara, sem saber como reagir.
— Eles não vão me abandonar — disse a Rainha.
— Vamos ficar expostos, Ladrão — questionou Kara. Por um segundo, Renéh pensou o quanto seria mais fácil e seguro sair dali sozinho, dispensando a companhia de pessoas que poderiam atrapalhar a sua fuga. Mas no outro segundo, se lembrou que daria de tudo para que, quando fosse criança, alguém pudesse ajudá-lo naquela terrível noite.
— Vamos! Quer dizer, diz para eles que podem ir conosco, rainha. Eu tô dizendo “vamos” e eles não entendem nada. Cavalgue rápido!
E junto, uma caravana de mais de dez carroças, lideradas pela que Renéh e seus amigos estavam, começou a seguir pela longíssima estrada de barro.
— Estamos salvos, meu filho! — disse ela, agarrada na criança.
— É, vamos garantir que a gente também fique! — disse Kara, procurando algo na carroça. E então, encontrou algo que fez seu sorriso abrir maliciosamente: duas bestas prateadas (armas que disparam flechas automaticamente).
— Essa é a primeira coisa que você diz hoje e eu concordo, princesa! Só cuidado onde vai mirar isso… Abaixem-se!
Dois Inquisidores apareceram, um de cada lado da carroça, caçando-os velozmente e disparando suas rajadas de energia sem piedade contra eles.
— Arranjei o alvo, ladrão — disse ela, atirando e fazendo-os cair, um a um.
— Boa, princesa! Ah, não… — disse Renéh, olhando para trás. — As carroças lá de trás estão sendo atacadas. Rainha, assuma o controle dessa carroça! Athos e Kara… Vocês dois vem comigo!
Respirando bem fundo, eles foram para a traseira da carroça ainda em movimento, enquanto o vento corria veloz e frio sobre suas faces.
— Vamos precisar ajudar eles lá atrás! — disse Renéh. — E temos que trabalhar juntos, pois estamos acorrentados ainda!
— Que ideia, hein! — reclamou Athos. — Eu tenho um medo danado de pular de um lado pro outro.
— É só não pensar e fazer isso, óh — disse Renéh, pulando — Já! Pula!
Por reflexo, Athos pulou para a carroça de trás. E quase caiu, não fosse Kara segurando suas vestes.
—Você vai nos matar assim! — gritou Athos, indignado.
— Não, eles vão nos matar! — berrou Kara, em resposta — Vamos!
De maneira atrapalhada, mas ainda sim unidos, os três pularam entre as carroças que estavam em movimento, e em cada uma livravam o povo de serem atacados pelos Inquisidores que estavam nos cavalos ou que subiam pela traseira do veículo. Kara com as armas, Athos com feitiços e Renéh com sua força bruta. Todos mudando o curso de uma história que deixava de ser tragicamente escrita pelos ditadores daquele mundo.
E muitos vivas foram dados pelos nativos, que agradeciam aos seus salvadores.
—Boa, engomadinho! — gritou Renéh para Athos, encorajando-o quando voltaram para a primeira carroça à frente, na qual estava a rainha. — Tá pegando o jeito!
Mas a felicidade durou pouco. Pois mais à frente, um paredão formado de mais de cem Inquisidores estava começando a disparar as rajadas em sua direção. Caiam diante deles abrindo grandes crateras no chão e dificultando o caminho.
— Temos que ir mais rápido, ladrão! — gritou Kara. — Os disparos deles caem sobre nós como tiros de catapultas! Precisamos de uma boa distância.
— Virem para a floresta! — pediu a Rainha; confiante na palavra dela, Renéh segurou o domo do cavalo e virou.
— Desviem! Nos sigam! — gritou Kara para as carruagens que os seguiam logo atrás, e elas fizeram o mesmo. Então entraram de maneira rápida e bruta pelos galhos bem secos do caminho que a rainha indicou, e depois de muitos deles acertarem suas faces, finalmente um caminho se abriu para uma pequena estrada de terra malfeita que cortava a floresta.
— Não tem pra ninguém! — comemorou Renéh — Epaaaa!
Seu grito teve motivo: como não bastassem as surpresas daquela noite, as árvores que formavam o caminho da estrada ao lado começaram a secar e crescer violentamente.
— Ladrão! A estrada, olhe! — gritou Kara, apontando mais para frente.
A terra sob as rodas das carruagens começou a tremer, formando fendas enormes que exigiram mais ainda das habilidades de Renéh como condutor para desviá-las. Mas não era um terremoto ou algo comum: luzes vermelhas saíam dessas crateras, iluminando os rostos aterrorizados dos fugitivos.
Então algo saiu das fendas, explodindo o chão abaixo deles. Galhos podres, extremamente negros, com um odor muito forte, e que tinham veias pulsantes vermelhas; da mesma cor do disparo dos Inquisidores. A mesma essência das trevas.
— Cuidado! — berraram eles para todas as carroças, que agora buscavam desviar dos galhos que subiam sobre a estrada.
— Meu deus, o que é isso? — exclamou Kara.
— É ela! — berrou Athos, em choque. — Ela está aqui!
E para o horror deles, uma fantasmagórica luz saiu das fendas. Junto dela ressoou uma voz tão fria que fez gelar a espinha dos três. Só algo divino causaria aquilo.
— É a Deidade… — sussurrou Kara. Mas não houve tempo de reação, pois a roda da carroça passou por uma das fendas, travou, se ergueu pesadamente no ar e capotou pesadamente, cuspindo todos para fora. E foi uma reação em cadeia, pois todas as carroças às suas costas também capotaram, num terrível acidente.
Para Renéh, tudo ficou bem escuro e embaçado por alguns momentos. Embora ele não sentisse dor, ficou extremamente tonto com a queda. O borrão preto então foi dando lugar a uma mescla de luzes bem avermelhadas. Limpando a terra dos olhos, ele pôde ver, aterrorizado, Kara e Athos desmaiados, ambos com feridas e arranhões no rosto.
—Acordem! — pediu Renéh, com uma voz embaçada. Ele sabia que, com esforço, conseguiria sair daquela situação se fosse rápido, mas não deixaria o mago e a princesa para trás, não após tudo que passaram (ainda que parecesse tão pouco perto do que estava por vir).
“De joelhos…” foi o som ouvido da terra. E sua alma gelou.
Raízes negras continuaram a sair das fendas, formando um círculo maldito à volta de todos, cercando os fugitivos.
Mas não foi isso que o fez temer. A voz voltou a falar, e parecia vir tanto de dentro de sua cabeça, quando do próprio chão. “De joelhos, diante do seu ídolo…”.
Raízes amarraram seus pés e o forçaram a ajoelhar. Renéh lutou contra esse controle maldito, mas não conseguiu.
— Eu não pertenço a nenhuma deidade… — sussurrou com esforço, enquanto tentava se levantar.
— Socorro! — gritou de repente Athos, cheio de pavor, tendo as mãos e a boca envolta pelas raízes negras, que o impediam de lançar qualquer feitiço.
— Mago… — tentou gritar Renéh. A princesa Ferreira tentou agir, mas estava completamente imobilizada.
— Saia da minha cabeça ou irá se arrepender! — desafiou Renéh, com a voz falhando.
“Mas eu não estou na sua mente…” zombou a voz “Eu estou na sua alma… Eu estou na sua carne… Infiltrado em seus ossos… Até o último segundo da sua insignificante existência… Então que ela seja breve…”
Aparentemente era o fim. As raízes já iam cobrindo seu corpo como uma teia, limitando até mesmo os movimentos de sua cabeça. Era como se estivesse sendo empalado em um caixão contra sua vontade.
Mas ele olhou para o povo aterrorizado logo atrás de si. Sobre os escombros das carroças capotadas, estavam os companheiros de fuga caídos à sua volta.
Mas para sua surpresa, uma outra voz veio a sua mente.
“Erga-se!”
A voz ressoou como uma ordem sobrenatural. E tirando forças de onde não sabia, ainda com o corpo dormente, Renéh deu um impulso descomunal para se levantar. A força de seu impulso soltou placas inteiras de terra do chão, fazendo-o estremecer.
A voz que parecia ser a da Deidade berrou. Era uma mescla de ódio e desespero. Sem explicações, o maldito brilho avermelhado que saia das fendas do chão deu lugar a uma luz esmeralda. Uma luz que vinha de dentro de Barbôssa, e que parecia saltar de suas próprias veias, se espalhava pelas raízes do chão.
Com as raízes enfraquecidas, Athos e Kara conseguiram se levantar, e olharam impressionados para Renéh.
— Abaixem-se! — ordenou Renéh para os dois, que obedeceram.
E com ódio, Renéh deu um soco contra as raízes. Mas o mago e a princesa perceberam que, ao invés de um golpe simples, dado de sua própria mão, o movimento que Renéh fez para atacar as raízes restantes fez erguer do chão arenoso um punho de terra gigante que imitava a sua mão fechada, feito de galhos, barro e raízes. E tal como o movimento que o ladrão fez com a mão, o punho socou as raízes a sua volta, que se explodiram em mil pedaços.
Renéh sentiu os olhos revirarem, e uma forte dor subir para a cabeça antes dele cair e desmaiar nos braços de Athos.
Fale com o autor