Capítulo VIII

O vale oculto

Renéh sentiu os olhos tão pesados ao acordar que, a princípio, os manteve fechado. Mas em poucos segundos o sono deu lugar a razão, fazendo-o rapidamente levantar ao lembrar-se de tudo que havia acontecido. Ainda com remelas, notou que estava num quarto muito escuro — e talvez bem empoeirado, tamanha era sua vontade de espirrar.

Com certeza, não fui preso, pensou ele ao sentir a cama confortável e um forte cheiro de perfume no ar. No máximo, morri.

Riu então sozinho pelos próprios pensamentos. Achava difícil, depois da vida que levara, chegar próximo da eternidade. Afinal, era supostamente um lar de heróis, não de ladrões. E embora a preguiça daquele momento fosse bem maior do que a preocupação em se importar com o fim do mundo, obviamente sua cabeça não conseguiu se enganar o suficiente para esquecer o que havia vivido, ao que parecia, poucas horas atrás.

Não foi apenas o fato de que Raízes Negras tentaram lhe matar. Surpreendeu-se ao perceber que todas as lendas relatadas sobre a Deidade eram verdadeiras. O fato inquestionável de que forças místicas agiam neste mundo enchia seu coração de uma mescla de medo e pequenez diante da situação. Isso sem contar, claro, com a terrível voz que parecia vir de dentro de sua alma, como se essa essência maligna de Kazadhór estivesse dentro dele. E enquanto pensava nisso, Renéh foi desgostando ainda mais da misteriosa voz ao lembrar que ela lhe trouxe a mesma sensação de terror da noite em que sua mãe havia morrido.

O turbilhão de pensamentos durou poucos segundos: a luz do sol invadiu o quarto quase que instantaneamente, revelando uma janela logo à frente da cama, que ia quase até o teto. Renéh se levantou rapidamente e viu que, mais ao lado, aparentemente vindo da porta, estava Athos, o mago, com um estranho avental.

— Achei que nunca fosse acordar, ladrão!

— Eu tenho nome, sabia? — Questionou Renéh ao mago. Logo reparou também que a face gorducha dele só tinha pequenas linhas de ferimento. — Ué, cadê os machucados?

— Você não sabe mesmo a hora de acordar — exclamou Athos, indignado. — Ou melhor, o dia!

— E existe hora de acordar? — brincou Renéh.

— Num mundo de pessoas honestas e responsáveis, sim!

— Caramba, eu tava brincando! — exclamou Renéh, até meio chateado.

— Estava? — questionou Athos, olhando-o por alguns segundos, meio inseguro. — Ah sim… Desculpe-me.

— Cês levam as cosas muito à sério — debochou Renéh, balançando negativamente a cabeça.

— Do jeito que as coisas andam, só assim para sobreviver. É que já passaram alguns dias… Sete, para ser mais exato...

— Sete!? — indagou Renéh, surpreso. — E ninguém me acordou?

— Garanto que não foi por falta de tentativa — disse Athos. — Você parecia o motor quebrado de um dirigível, de tanto que roncava. Tá vendo? Depois não quer que te chamem de vagabundo!

Renéh riu.

— E esse avental aí? Tá participando de alguma “Mago-Fashion-Week”?

— Bom… — disse Athos, puxando por detrás da porta uma grande bandeja com uma longa caneca, dois generosos pedaços de bolo e três pães.

— Ei, é pra mim? — disse o ladrão, de olhos arregalados. Sem esperar resposta, logo começou a comer.

— Não é muito, eu sei, mas é uma forma de agradecer por tudo que aconteceu semana passada. De certa forma, não estaríamos aqui se não fosse sua ajuda, por mais difícil que seja admitir…

— Qui isxo! — exclamou Renéh de boca cheia, todo agradecido.

— De nada — comentou Athos, olhando com estranheza a falta de educação do ladrão em querer comer tudo de uma vez.

— E onde é exatamente “aqui”?

— Ah, seria injusto se te respondesse sem te mostrar. Vem, vamos lá embaixo!

Com dois pães em uma mão, a caneca na outra e a boca cheia de bolo, Barbôssa acompanhou Athos para fora do quarto e desceu com dificuldade por uma escada espiral ainda mais curta. Por fim, chegaram a uma porta de madeira mais à frente, e muitas vozes eram ouvidas do lado de fora.

— Quer fazer as honras? — disse Athos, empolgado.

Renéh riu de canto de rosto, tamanha era a empolgação de Athos. Com o cotovelo, já que as mãos estavam ocupadas demais por aquilo que era prioridade, ele abriu; e logo recuou dois passos, de tão impressionado que ficou.

Estava no que parecia ser magnânimo campo verde sem fim, rodeado por uma cadeia de montanhas altíssimas. O sol de meio-dia banhava as centenas de pessoas que passavam de um lado para o outro, todas parecendo vir de diferentes culturas — e para sua surpresa, raças também, as quais ele nunca havia visto na vida.

Renéh andou pelo que devia ser a rua principal, já que à frente, no chão, havia um caminho de enormes pedras amareladas que levava a muitas direções, cortando todo o local. Reparou, a cada passo que dava, que as montanhas que os rodeavam tinham, de maneira impressionante, dezenas de edifícios que pareciam sair de dentro delas, cheios de janelas, com mais de sete andares — literalmente prédios que saíam das pedras —, e que nestas janelas era possível ver as pessoas correndo de um lado para o outro, aparentemente trabalhando fervorosamente em algo que parecia ter muita importância.

A comida em suas mãos ia ficando cada vez menos interessante à medida que ele percorria o olhar sobre o lugar: era muito rico! Tinha centenas de mini-insetos humanoides com múltiplas asas que voavam velozmente de um lado para o outro, além de animais muito peludos que eram ordenhados, cavernas onde pessoas de armaduras leves corriam para fora enquanto fortes rugidos eram ouvidos ecoavam de dentro delas e incontáveis árvores de folhas amarelas, azuis e rosas. Tudo o que ele nunca havia visto antes e que não estava acostumado: uma festa de cultura indizível, tamanha era a beleza que se admirava.

— Vai devagar! — gritou Athos de longe, correndo com dificuldade.

Mas Renéh não conseguiu parar a própria perna quando olhou para os céus e, derramando o café, sentiu o vento forte de dezenas de dirigíveis entrando e saindo do vale, pousando nos campos e no alto das montanhas.

Por fim, mais ao fundo do campo verde e do caminho de pedras amareladas, ele notou um edifício maior, todo feito de mármore branco desgastado, onde estavam hasteadas as bandeiras do que pareciam ser os muitos povos de Héreddah. Alguns — novamente — que ele nem sabia que existiam. Era um lugar diferente, imponente e visivelmente importante.

— Dá pro gasto, não dá? — questionou Athos, bufando.

— Então este é o linguajar usado por um mago, senhor Quintillantum? — disse uma voz muito rouca.

Ao se virar, Renéh finalmente viu que ao lado de um Athos muito ofegante, o dono da voz era um homem que até um segundo atrás parecia não estar ali: era magro, muito alto, de pele clara (e muitas rugas), longas vestes marrons e cinzas que se arrastavam pelo caminho de pedra e cabelos marrons-grisalhos cacheados até a cintura (bem como uma barba longa, do mesmo tamanho).

O homem tinha um olhar severo, com um tom acinzentado de tão claro que era, e seus dedos eram cheios de anéis.

— Perdão, mestre! Ahn… Lad… Renéh! Desculpe, força do hábito… Quero te apresentar o regente do Vale dos Arautos. Mestre Állathor.

Állathor, o antigo mestre da grande guerra, levantou a sobrancelha direita e colocou o queixo mais à frente. Parecia não fazer questão de ser simpático, e suas rugas demonstravam os importantes momentos da história que havia vivenciado em Héreddah. Renéh, que a princípio iria apertar sua mão, notou a soberba do homem, e apenas acenou com a cabeça.

— E aí, coroa?

Athos arregalou os olhos, mas Állathor pareceu não se importar. O homem estava ocupado demais estudando cada linha da face de Barbôssa.

— Ahn… — disse Athos, meio sem graça, e sem esperar essa reação de ambos. — Állathor é um Mestre, Renéh. Talvez um dos últimos… E que lutou nas últimas guerras.

— Com seu avô — disse Állathor, severamente. Tinha uma voz muito segura e imponente. — Não se esqueça dele ao se lembrar dos que se foram. Assim como não deve considerar-me um dos últimos, já que além de você, ainda carrego uma parca esperança de que há outros como nós por aí.

— Sim, sim, mestre!

— E é você que manda aqui? — disse Renéh, como se fosse a qualquer um, e deu um tapinha em suas costas.

— Se a definição de regente não é suficiente para você entender a autoridade em questão… — respondeu secamente Állathor, ajeitando com o ombro o lugar onde Renéh lhe cumprimentou. — A resposta é sim. Eu que “mando” aqui.

— Bom… Mestre, este é…

— Eu sei quem ele é. Renéh Barbôssa. Tragédia pessoal muito, muito densa. Passado sombrio; passado nas trevas. Achei que seu avô tinha deixado nos escritos para não se envolver e nem confiar em ladrões. E supostamente… Por mais difícil que seja acreditar… Ele é o último descendente dos Guerreiros da Terra.

— Pelo que eu testemunhei ao senhor, mestre — comentou Athos, empolgado. — Com certeza, é sim.

Állathor quase não conseguiu esconder a cara de impacto. Athos notou.

— É, devo ser — comentou Renéh, ocupado com a quantidade de informações a sua volta e sem dar muita atenção à conversa dos dois. — Mas hein, mago…

— Sim? — disse Állathor.

— Não, o mago mesmo — ratificou Renéh; e finalmente impressionando Állathor por tamanha audácia. — Que vale é esse, hein?

— Renéh! — exclamou Athos, indignado.

— Ué, gente, eu não tô faltando respeito algum. Você disse que ele era mestre, mas não do quê.

— Disponha — clamou Állathor, fazendo um gesto rápido com a mão em direção ao céu, e com um clarão, a caneca de Renéh explodiu.

— Ah que isso, mago! Aí é vacilo…

— Provavelmente ele está falando com você — ironizou Állathor a Athos.

— Bom… — começou Athos, meio perdido com a interação dos dois. — Achei que você tivesse ouvido falar das lendas. Aqui é o Vale dos Arautos, Renéh. É um lugar que todo mundo fora dele sempre ouviu falar. Aqui é onde resistem todos os povos e raças que foram ameaçadas pela Deidade, ao longo de todos esses anos.

— Ah, bem que os bandidos comentavam isso… — disse Renéh, olhando curiosamente com os olhos cemicerrados para as pessoas que andavam de um lado para o outro. — Que muitos dos que os contratavam para alguns serviços sujos sumiam do nada.

— Definitivamente, aqui não é lugar para covardes nem traidores, ladrão — reiterou Állathor.

— Eu sou covarde e tô aqui — comentou Renéh, se espreguiçando na cerca mais próxima dos animais peludos que eram ordenhados.

— Bom, mestre… — começou Athos, meio sem graça. — Como havia contado para o senhor antes, Renéh salvou nossas vidas. A minha, a da rainha, e de todos que foram oprimidos pela Deidade e por seu General. Inclusive da princesa Ferreira.

Állathor voltou a estudar o rosto de Renéh. Seu olho direito tremia de tanto que estava concentrado. Em seguida, fez cara de nojo.

— Que? — exclamou Renéh, sem entender nada.

— Mostre onde ele deve se banhar, Quintillantum. E se o jugar de confiança, esclareça um pouco mais a ele sobre a história dos Guerreiros. Ele aparentemente precisa saber de onde veio para pôr os dois pés no chão. Depois, seria muito útil que você estivesse no Saguão Consular às oito. A princesa dos Ferreiros estará conosco mais tarde.

— Ela está bem? — questionou Athos enquanto o Mestre do Vale seguia caminho para o edifício central de mármore ao fundo.

— Você ainda duvida? — ironizou Állathor. — Essa pergunta deve ser feita para os adversários dela. O que não está bom é o clima entre os povos.

— Caramba… — comentou Athos, quando Állathor se virou e seguiu seu caminho.

— Foi uma aventura e tanto! — disse Renéh.

—Nem me diga… Poderíamos ter morrido facilmente.

— Mas foi divertido, assume.

— Não a ponto de eu querer repetir… Meus pais estão por aqui a salvos também e quase me mataram quando eu contei tudo o que houve.    Mas não dá pra negar que foi incrível! Quer dizer, eu nunca estive tão próximo da morte.

— Se eu te contasse metade da minha vida, então, aí que você teria um treco.

Athos riu, e Renéh contou umas duas ou três histórias suas — sempre aumentando um pouco mais e evitando as vezes em que fora pego e capturado. Por fim, Renéh questinou:

— Por que acha que Kazadhór queria sequestrar a rainha?

— Não sei, mas à toa não foi. Espero saber no saguão hoje.

— Que saguão?

—O que Mestre Àllathor disse; do prédio de mármore, ali no fundo. É a câmara do conselho de Héreddah… Bom, da verdadeira Héreddah. Representantes de todos, ou pelo menos dos mais expressivos povos, se reúnem para criar planos de se proteger contra a deidade.

— Se proteger? E por acaso ninguém pensa em cair na porrada com ela?

— Você viu pelo que passamos. As coisas não estão fáceis.

— Mas estamos falando de todos os povos.

— Nem todos. Vê as pessoas aqui? Nem um décimo de Héreddah se encontra neste vale. Ou por realmente não conseguirem lutar contra a Deidade, ou por medo.

— … Por covardia — completou Renéh.

—Não penso assim. Mas é realmente complicado. Kazadhór dominou o coração, o governo e a alma de muitos. Para um rei, regente ou exército, tomar a decisão de enfrentar o poderio da Deidade não deve ser fácil.

— Sim. Mas não é porque não tem ninguém que esteja à frente disso, o que não significa que não deveria ter, não é?

— Na verdade… Meio que existe. Os seus antepassados.

— Como assim?

— Você não conhece mesmo a história dos Guerreiros, não é?

— Ah, desculpa, senhor “três refeições por dia”. Eu tava ocupado tentando sobreviver por uns vinte anos.

Athos riu.

— Bom… então venha comigo!

Athos guiou Renéh novamente pelo caminho de pedras, por onde tiveram que apressar o passo contra um enxame de insetos bem maiores que o normal. Por fim, chegaram perto de uma das cavernas, vazia e escura — até Athos estalar os dedos e iluminá-la com uma forte luz amarelada.

— Aonde estamos indo? — perguntou Renéh, quando haviam descido uma pequena rampa de terra e agora já mal conseguiam ouvir o som do lado de fora.

— Aonde chegamos, você quis dizer — disse Athos. Agora batendo a palma das mãos três vezes, fez com que archotes da parede revelassem o fim da caverna: era circular, com teto mais alto do que aparentava e com muitas estátuas e quadros ao redor.

— Seja bem-vindo ao saguão histórico. Começa por aqui…

Renéh riu da empolgação do jovem mago e fez uma falsa reverência, indicando para que ele prosseguisse com a apresentação.

Héreddah, dentre todas, é a palavra mais antiga das civilizações. Significa casa.”

Ao lado desse primeiro quadro, havia uma estátua de pedra desgastada do mundo de Héreddah. Um grande globo rodeado pelo que pareciam ser duas luas e diversas estrelas; no topo dele permanecia uma grande árvore de quatro raízes que cortavam os mares, e cada uma delas sustentava um magnífico continente.

— Nossa… — Encheu-se Renéh de admiração. — É esse o tamanho de Héreddah?

— Por que? Vai dizer que não gostou!

— Não! Longe disso, na verdade… É que… Eu nunca tive ideia da dimensão. E é tão… Bonito.

— Nós é que somos feios — Athos retribuiu o sorriso.

— Mas ei… Que som é esse? — perguntou Renéh, ouvindo o eco do que parecia ser o mar e o som de um coro. — Parece que vem daqui e que, ao mesmo tempo, está longe!

— Bom, ninguém sabe ao certo… Mas a Sala Histórica parece ter um encantamento muito antigo, a partir qual é possível ouvir ecos do passado.

— Uou… — Renéh levantou as sobrancelhas por um longo tempo. — Ok, isso é de impressionar.

Os dois recentes amigos seguiram para o próximo quadro.

Não se sabe quando surgiu a vida em nosso mundo; sabe-se apenas que as primeiras civilizações tinham a noção de que existiam forças místicas muito além de sua compreensão.
E cada uma as interpretavam de maneira distinta. Portanto, a guerra era a linguagem da verdade. Quem vencia a batalha, tinha a sua lei imposta sobre os conquistados.”

Renéh dessa vez ouviu gritos, lamentos, pesados passos e um nítido titilar de espadas. Athos saltou para trás comentando “Sim, também ouvi”. Era ao mesmo tempo empolgante e amedrontador.

Em meio a estes conflitos, data-se com o número um o dia em que os Arautos Celestes desceram sobre nosso mundo. Conforme diz a tradição, os Arautos, que também são criaturas, mas misteriosamente mais elevadas, vieram cessar o conflito que dizimava as populações. Eles dividiram as nações de Héreddah em três classes: os Guerreiros, os Magos e os Reis. E com isso, as três classes fundaram, sobre os mais altos e colossais galhos da Grande Árvore, uma Cidadela, na qual seria integrado um membro de cada sociedade; a partir da qual cessariam as guerras e teria lugar o diálogo; onde, entre concílios e debates, buscariam a verdade. E assim foi fundada a Cidadela da Eternidade.”

O coro foi se intensificando quando Renéh decidiu pela primeira vez prestar atenção no quadro. Havia um desenho de linhas rudimentares do que pareciam ser enormes edifícios. Na menção da palavra “celeste” narrada por Athos, Renéh pôde perceber que as chamas dos archotes intensificaram sua luz.

— Bem, a parte dos Magos e dos Reis eu já descobri na prática com funciona — disse Renéh, olhando com gratidão para Athos. — Agora, e a minha?

— Está… Aqui!

E por fim, os Guerreiros da Terra. Guardiões vindos das próprias raízes. Herdeiros desta terra que juraram proteger, com o legado de suas gerações, o amanhã dos que não podem se defender.”

Dos três, os Guerreiros da Terra são os únicos capazes de se conectar com seus ancestrais de maneira direta, e é por essa ancestralidade que eles canalizam o poder espiritual de seus entes queridos já falecidos. Do que se conhece, nenhum outro homem consegue obter a força dos que vieram antes. Apenas os Guerreiros da Terra. Está na sua alma. Está no seu instinto.”

Renéh ficou quieto alguns instantes, enquanto admirava o movimento das estátuas. Então, uma breve canção ressoou pelas estátuas, com uma voz conhecida:

Livraremos todo o mundo da maldade e do tormento;

Seguiremos sempre em frente, falsos deuses venceremos;

Da terra brota o amor e a arma que empunhamos,

E por fim, na eternidade, repousamos.

— Tudo bem? — perguntou Athos, após ver Renéh com os olhos arregalados.

— Essa voz… Eu ouvi a voz deles ontem, Athos. Quando ataquei aqueles galhos malditos.

— E você se lembra do que fez? — questionou Athos.

Renéh olhou para o punho fechado e, assustado, concordou.

— Mas como… Eu não… Não foi por querer!

— É como um instinto, Renéh — disse Athos. — Você é um deles. É um Guerreiro.

Renéh arregalou os olhos enquanto olhava para as estátuas. Muitos segundos em silêncio se passaram até Athos perguntar:

— Tudo bem?

— Vai ficar — respondeu o ladrão com os olhos cheios de lágrimas, sem conseguir esconder um ligeiro sorriso no rosto.

— Vou deixar você um tempo aqui — disse Athos, aliviado, saindo aos poucos.

E quando o jovem mago saiu, Renéh de imediato caiu de joelhos.

Tudo pareceu girar em sua cabeça. Ao mesmo tempo que muita coisa começou a fazer sentido, perguntas surgiram na mesma proporção. Como ele, um ladrão, poderia ser um Guerreiro? Seria de seu pai ou de sua mãe que herdou isso? O que deveria fazer a partir de agora?

Mas um outro sentimento veio ao seu coração. Uma paz. Um silêncio inenarrável, apenas sentido. Um senso de pertencimento que ele nunca teve em toda sua vida abandonada. Pois por mais que perdesse seus pais, por mais que perdesse sua mãe, ele finalmente estava vendo que era alguém. E anos perdidos pareciam ter ganho um propósito.