Notas iniciais
Este é o segundo capítulo de uma história já publicada pela editora Ases da Literatura, e que está disponível no Kindle Unlimited, no celular pelo Google Books e em versão física pela Amazon.

Capítulo Ii

O Ladrão

Enquanto o jovem Athos se afogava em suas mágoas pela desastrosa apresentação que arruinou seu futuro, longe dali, um excelente ladrão cumpria a pena nas escabrosas Masmorras de Gungabad por um crime muito bem executado. Um ladrão diferente de qualquer outro; de origem sombria e com um passado trágico. Mas, ao mesmo tempo, um jovem cheio de sonhos que aguardava a chance de finalmente ver um amanhecer decente na sua vida, em que teria aquilo que mais desejava: uma família. Ali estava o conhecido Renéh Barbôssa. O jovem homem que mudaria o curso da história de Héreddah — para o bem ou para o mal, mas, ainda sim, para sempre.

O local onde ele estava preso ficava a muitos metros no fundo da terra, em meio a uma desconhecida e densa floresta cercada de animais selvagens. Para lá eram levados aqueles que desobedeciam as Leis da Divindade.

No caso do Renéh, a visita ao lugar era tão constante a ponto do local ter se tornado sua segunda casa. E mal sabia ele que o destino lhe reservava maravilhas — e sacrifícios — a sua frente.

— Jantar, seu animal! — anunciou Bórh, um dos guardas que tomava conta do corredor, para Renéh.

Ele jogou a comida com força por debaixo da cela, mas houve um silêncio absoluto, incomum, quase fúnebre. E Bórh desconfiou, pois cada ação dos guardas na prisão era seguida de uma fala de Renéh, que não hesitaria em sacaneá-lo.

— Tá muito quieto! — insistiu Bórh. — Nem parece que gosta de estampar as capas de jornais.

Obviamente, se tratando de Renéh, a ausência de deboche durou pouco.

— Paaaara de inveja — Ecoou a voz do rapaz, viva de sarcasmo. — Ou! Tu sentou em cima dessa porcaria aqui que chama de jantar?

— Calado!

— É sério, homem, nem cachorro come isso aqui! E, óh, você revirou tudo no chão. Vai ter que me dar na boquinha.

Sua fala fez com que risos dos outros detentos — compostos por seus seguidores e admiradores — ressoassem por toda a prisão.

— Silêncio! Dê seu jeito! — exclamou Bórh, que já estava um pouco alterado por causa do vinho que tomou mais cedo. — Meu trabalho aqui é levar a comida. Como você vai comer, é problema seu!

—Poxa… A senhora sua mãe foi muito mais simpática quando eu pedi a ela da última vez — ironizou Renéh. E os risos dos demais detentos se tornaram gargalhadas.

— Eu pensei que depois da quadragésima vez preso você fosse tomar jeito, moleque — exclamou Bórh, dando duas pancadas de punho fechado na porta, tentando repreendê-lo.

— Caramba! Admiro o seu otimismo quanto a mim, mas confesso que nem eu acredito tanto na minha pessoa quanto você.

Bórh revirou os olhos, pensando se o salário daquele trabalho compensava a impaciência. Ele deu alguns passos ignorando Renéh.

— Mas vem cá… — insistiu Renéh. — Cadê aquela sua namorada?

— Minha namorada? — questionou Bóhr.

— Que barulho todo é esse aqui!? — berrou então uma voz do lado de fora. Era outro guarda, Guildor, amigo de Bórh, que fazia a vigília junto a ele.

— Ih! — exclamou Renéh, entre risos. — É só falar da mulher dele que ela aparece, rapaziada!

As risadas explodiram ainda mais pelas celas. Bórh ficou furioso, rosnou e quis abrir a porta.

— Bórh, não! — Interveio Guildor, retirando a garrafas de suas mãos. — Lembre-se do que nos falaram sobre ele! É perigoso.

— Já é a quinta vez só hoje que ele me enche a porcaria do saco, Gui! — exclamou Bóhr. — Parece que tenho que ter sangue de inseto pra aturar esse filho…

— Tá xingando o inseto comparando ele a você, bonitão! — gritou novamente Renéh, entre o coro de risadas dos bandidos. Bórh olhou para Guildor, que por mais que pedisse paciência ao amigo de trabalho, também estava cheio das gracinhas do delinquente.

— Ainda que eu esteja com a vontade de fazer a cara desse idiota de vassoura pra esfregar no chão — murmurou Guildo —, não é uma boa ideia.

— E por que não? — exclamou bêbado Bórh. O guarda então tirou uma faca de bolso e começou a afiar na parede de pedra da prisão. — Esse verme pegou perpétua dessa vez! Não tem família! Ninguém liga!

— Os nossos superiores ligam, Bórh. Eles estão aqui, se esqueceu? Esse idiota aí arranjou briga com gente grande… Tem muitos querendo a cabeça dele. Só estão pegando a autorização lá em cima pra levá-lo e jogar o que sobrar do corpo no rio negro. Seremos prejudicados se fizermos algo.

—Eu é que vou sair prejudicado se ficar ouvindo esse babaca o dia todo! — comentou Bórh, olhando para a ponta de sua faca afiada. — Além do mais, não vamos matá-lo. Só vamos fazer com que ele pare de ser tagarela.

— Booooora, gente, que demora — Renéh bocejou alto de dentro da cela. — Quero jantar, quero comer, misericórdia!

Aquela foi a deixa: Segurando uma tocha acesa e a faca recém afiada, Bórh pediu para que Guildor abrisse a porta maciça de madeira e ferro; e este, mesmo contrariado, aceitou o pedido do amigo. Bórh foi o primeiro a entrar entre tropeços, iluminando o local que era banhado apenas por uma fraca luz do luar que entrava por uma grade na parede. Além de sombria, a cela era extremamente fedorenta, sendo possível até ver as silhuetas de diversos insetos passando rapidamente pelos cantos das paredes úmidas. E mais ao fundo, tendo os braços e pernas erguidos no ar por correntes da grossura de jiboias, estava ele, o prisioneiro mais procurado de toda Héreddah.

— Eu espero que você não tenha vindo aqui com essa faca praticar nenhum fetiche seu comigo, colega — disse o jovem Barbôssa ao ver a faca nas mãos de Bórh. Reneh não tirava o sorriso sonso e encarava o guarda com os olhos semicerrados. Sua pele era parda, seus olhos eram verde-escuros e seu cabelo era liso-ondulado, grande e mal cortado. O seu blusão encardido e a sua calça preta e cheia de furos mostravam que não foram poucas as aventuras que o jovem já havia passado até ali.

— Que a Deidade tenha piedade do seu senso de humor — respondeu Guildor, vindo logo após Bórh, que ainda tropeçava. — Se dependesse de suas gracinhas, a morte seria um privilégio perto do que eu queria fazer com você.

— Vindo de você, considero um elogio pra mim — comentou Renéh, sorrindo sonso. — Já disse pra vocês pararem com essa psicologia inversa; só faz o meu ego crescer.

— Não cabe a você decidir o que é bom ou não, ladrão — rosnou Guildor.

— Bom, então vou direto ao assunto — disse Renéh. — Se vocês dois me tirarem daqui, eu consigo roubar o que vocês quiserem, de qualquer um

Guildor e Bórh se encararam, rindo.

—Já foi o tempo que os guardas caíam em suas propostas malditas, ladrão — continuou Bórh, se aproximando com a adaga. — Meu maior prêmio não vai ser roubado… Mas vai consistir em dizer que consegui tirar uma lasca de pele do ladrão mais procurado de nosso mundo!

E sem aviso, Bórh perfurou a pele de Renéh.

Ou, pelo menos tentou.

Pois a faca extremamente afiada entortou como manteiga.

— O que… — Tentou questionar o guarda, olhando para a faca.

— Podemos retomar a proposta? — disse Renéh. Mas os dois guardas ainda estavam em choque. Pois nenhum deles sabia da descendência de Renéh.

Por um segundo, então, Guildor perdeu o controle e brandiu a espada presa na bainha, mas antes que ele transferisse um golpe em direção ao pescoço do ladrão — que, por sua vez, não se assustou nem um pouco —, uma mão ainda mais forte a segurou.

— Meu… Meu senhor!

A mão pertencia a um homem albino, de cabelos e barba ruivas trançadas, olhos verdes vivos e vestindo uma suntuosa armadura negra com detalhes dourados. Quem estava diante deles era Sabáh, general dos Inquisidores. Estava ali o homem de maior posição militar em toda Héreddah.

— General! — exclamou Guildor, se ajoelhando e puxando Bórh para imitá-lo.

— Quero ter uma conversa com o ladrão, a sós — disse Sabáh, sua voz saindo quase como um sopro. — Aliás, para o bem dos dois, espero que não tenham causado nenhum mal ao garoto. Embora duvide que algum de vocês consiga fazer algo contra ele.

— Jamais, senhor, jamais! — bradou Bórh, se levantando.

— Então saiam — retrucou Sabáh —, deixem-nos agora.

Os guardas obedeceram a seu General, dando uma última encarada cheia de ódio para o acorrentado Renéh.

— Beijo pra vocês — ironizou Renéh, acenando com a mão acorrentada.

Sabáh então admirou por alguns segundos as correntes que prendiam o rapaz, com um sorriso vitorioso no rosto, e começou a dar passos circulares em volta da cela.

— Quem diria — começou ele. — Face a face com um dos maiores ladrões de nossos tempos.

— É, amigo, eu sei, eu sei — retrucou Reneh, revirando impacientemente os olhos incomodados por tanta luz — que eu sou bom no que faço, ninguém duvida. Agora, antes de começarmos, será que dá pra vossa senhoria aí diminuir a luz?

Para a surpresa de Reneh, Sabáh deu um leve sopro, e as fortes chamas dos archotes misteriosamente diminuíram como se um forte vento as levasse.

— Truque legal — comentou Renéh, olhando a sua volta.

— Não, truque é coisa de mago, senhor Barbôssa. O nome disso é poder. Eu me chamo Sabáh, sou general dos Inquisidores e mão direita da Divindade Kazadhór.

— Você é novo na área? — comentou Reneh, com sinceridade. — Porque nunca te vi tentando me prender, então…

— Realmente, nunca viu. Até porque, se eu tentasse, certamente seria uma única vez. Mas é justificável que não tenha ouvido falar de mim, afinal, minha história está entrelaçada com a dos Ferreiros do Sul, que é pouco conhecida. Um povo muito trabalhador, mas sofrível graças as políticas de meu irmão. E é por fazer parte da realeza que eu tenho esses, como você mesmo chamou, “truques”. Enfim, longa história… O que importa aqui hoje é você.

— Pra eu chamar a atenção de um príncipe — comentou Renéh —, é sinal de que tô famoso.

—Pois é. Sabe… — continuou Sabáh, caminhando de um lado para o outro da sala. — Essa é a diferença de quando se põe alguém útil no comando. Veja, se não me engano você conseguiu escapar de sete das dez maiores prisões de segurança de toda Héreddah. Só dessa aqui, foram quase cinco fugas… E, basicamente, da mesma forma. Usando toda sua força e lábia, obviamente. Por conta disso, muitos aí fora o consideram um mito entre os ladrões, beirando uma figura quase transcendente. De qualquer forma, você conseguiu manchar a credibilidade de guardas como Bórh e Guildor, que eram conhecidos por colocarem qualquer marginal para correr depois da vinda da Deidade. E isso… É algo que tira meu sono.

Reneh deu uma risada.

— O senhor há de convir que, para eles ganharem essa má fama, não precisava nem se esforçar. São dois inúteis.

— Ah, disso eu sei bem — Sabáh retribuiu a risada sem achar graça. — Mas as coisas mudam. Desde que o Conselho da Távola de Héreddah deixou que cada prisão ficasse sob a responsabilidade de seu vilarejo, profissionais foram postos no lugar de idiotas e os baderneiros tiveram mais dificuldade em causar tumulto. Mas você não é um mero baderneiro, não é? Veja… Qualquer um que pensasse um pouquinho saberia que o senhor tem habilidades que ninguém mais tem.

Renéh o olhou curioso por alguns segundos de silêncio, e Sabáh alargou o sorriso.

— Ora, vai dizer que está surpreso por alguém descobrir seu segredo? Ou achou que ninguém suspeitaria de suas misteriosas fugas ao longo desses anos? Afinal, grande velocidade, força descomunal, excelente estratégia são coisas que se encontram em um exército como um todo, não em um homem só. E todos esses dons você possui, Barbôssa.

— Acho que você deve tá me confundindo com um dos seus amiguinhos coloridos — tentou mentir Renéh. — Se eu tivesse mesmo tudo isso aí que você diz, com certeza não estaria aqui.

—E além disso, é um ótimo mentiroso — Ignorou-o Sabáh. — Você só conseguiu ser preso desta vez porque eu estudei você. Essas correntes não são como outras. Não poderia prendê-lo com aço reforçado depois de você conseguir parar sem dificuldade uma legião de Bigas.

— É, na correria do dia a dia, a gente faz o que pode — comentou Renéh, sem dar muita atenção. — E nem insiste porque não vou te contar meus segredos, ruivo.

— Foi então — continuou Sabáh, sem dar atenção à interrupção do rapaz — que imaginei que não conseguiria partir essas correntes.

Renéh encarou o General, percebendo que havia perdido o debate. Pôde notar que havia um quê de desafiador nos olhos de Sabáh, mas manteve sua postura indiferente diante de seu tom.

— Eu não consegui sair daqui porque, caso não tenha visto, essas correntes são do tamanho de uma cabeça humana, e por isso qualquer pessoa que for presa aqui vai ficar aqui. Vem cá, o que você quer, hein? Quer que eu assuma que vocês me pegaram? Me pegaram! Pronto, parabéns! Quer o que agora? Um biscoito?

Renéh ainda tentava manter o tom de indiferença, mas de fato isso tinha lhe assustado. De fato, nunca antes uma corrente ou prisão havia conseguido lhe prender por tanto tempo. Foi então que Sabáh andou na direção do rapaz, e com ambas as mãos retirou do seu cinto duas adagas: uma muito pontiaguda, prateada, outra não tão afiada e avermelhada.

— Essa é uma excelente oportunidade de realizarmos um teste — comentou Sabáh. Em seguida, ele passou a primeira adaga prateada com força na pele do rapaz, mas ela se dobrou como manteiga, tal como a de Bórh.

— É isso que vocês chamam de adagas? — Balançou negativamente a cabeça Renéh, confiante em sua mentira. — Tá mais pra um conjunto de talheres

— Segundo round — sussurrou Sabáh, então passando no canto do rosto do rapaz a adaga avermelhada. Renéh, que esperava sem preocupações a mesma ineficácia da primeira, foi surpreendido quando o objeto adentrou sua pede e fez um filete de sangue escorrer.

— PARA! PARA COM ISSO! — Exclamou ele, assustado ao sentir a dor. Era uma sensação que quase nunca sentiu na vida.

O jovem ladrão, pela primeira vez, se debateu assustado; mas Sabáh segurou seu rosto pelo queixo e retirou sem demora a adaga, limpando-a em sua armadura negra.

— Parece que alguém não está acostumado a sentir dor com frequência, não é? — perguntou o sorridente general.

— Como você fez isso!? — questionou Renéh, respirando um pouco mais rápido, trocando sua expressão irônica por olhos arregalados. Sabáh então pegou uma cadeira no canto da cela e se sentou bem à frente do rapaz.

—Eu? Eu não fiz nada. As correntes que antes lhe prendiam, jovem Barbôssa, eram feitas do mesmo material da primeira adaga, de aço comum. Já essas correntes de agora são de metal yriliano, forjada pelas chamas mais profundas de Héreddah, que, aliás… É da mesma composição desta segunda adaga vermelhinha aqui.

— Eu… Eu não sabia que desse tipo de ferro… Eh, metal, sei lá… Tinha algum efeito…

— Ora, mas a questão não é o metal, não é? O que importa aqui são seus dons. Você tem talentos… Talentos valiosos à cidadela. Com certeza você descende de uma linhagem nobre, mestiça de alguma outra raça…

— É… Deve ser — disse Renéh, ignorando-o.

— … O curioso é que não encontrei registros seus em lugar algum. Seria dos Guerreiros da Terra, talvez? Ou dos seres das montanhas? — insistiu Sabáh.

— Eu sei lá, homem! — respondeu Renéh, ríspido. — E isso faz alguma diferença por acaso?

— Bom, certamente não — disse Sabáh, e ficou feliz com a indiferença de Renéh com sua origem. — Além do mais, eu também gostaria de ter um pouco de paz após sofrer uma tragédia muito forte. Irmão, pai e mãe mortos…

—O que você quer, hein? — Interrompeu Renéh, irritado. — Por que tá levantando meu passado assim, de graça?

Sabáh respirou calmamente, e por fim seguiu.

— Quero que você pare de enxergar a vida pelo buraco de uma fechadura. E aproveite a oportunidade que vou te oferecer. Seus roubos se limitam aqui porque sua vida foi crescer nas ruas após a perda de sua família.

Renéh se calou por alguns instantes. Era a primeira vez que estava sendo exposto dessa forma, tanto física quanto mentalmente. Essas feridas de seu passado tinham uma profundeza tão dolorosa quanto a dor da adaga Yriliana que arranhou seu rosto.

— Não precisa se irritar — Tentou suavizar Sabáh. — Eu sei como é perder as coisas que ama. Eu já fui pai de uma linda família também, e filho de pessoas muito justas. E como você, eu perdi o que mais amava para pessoas que não tem controle sobre si. Mas acredito que você não seja feliz com essa vida de vai e volta… Todo homem precisa, uma hora ou outra, parar. E vejo que você quer isso.

— E você por acaso consegue oferecer o quê? — respondeu ele, sem paciência. — Cretinos extremistas como você tiraram a vida da minha família. Então tenho exemplos bem próximos de que não devo me aliar com generais de seitas ou fanáticos.

— Ora, mas é claro que não! — respondeu o General, interessadíssimo. — Até porque ninguém aqui quer ficar no passado. Não há como voltar atrás, nem ficar martelando sobre nossas dores. Todos nós merecemos um recomeço. E é por acreditar que você também quer recomeçar que estou aqui pra te oferecer um último trabalho. Bem objetivo. Um trabalho que, caso aceite, pode salvar seu pescoço e tirar toda a preocupação que tenho com a estabilidade de Héreddah.

O General pegou com as mãos um rolo de pergaminho e mostrou para Barbôssa, que leu com dificuldade.

— Reconhece o que está escrito aqui?

Renéh entortou a cabeça para tentar ler.

— Parece ser uma sentença de morte… Ou eu li errado? Ei… É uma sentença de morte pra mim! Caraca! Diz pra mim que eu li errado!

— O senhor as acumulou porque ficou despreocupado, já que nada até então lhe oferecia risco. Por conta de toda sua “força misteriosa”, tinha a certeza de que nenhuma lança, flecha ou raio que caísse dos céus fosse lhe oferecer perigo. Mas dessa vez sim, Barbôssa. Dessa vez você experimentou na pele algo que pode lhe machucar. Algo que está sob o meu poder. E por conta disso, essa sentença aqui pode ser a última da sua vida. A definitiva. Concorda comigo?

Renéh se calou. Era difícil alguém causar esse efeito nele com tal facilidade.

— Mas você não tem o que temer se aceitar me ajudar — concluiu Sabáh, de maneira confiante.

— Devo confessar que o senhor é bem persuasivo — assumiu Renéh. — E que trabalho é esse? Do que você precisa?

— Seus dons. Sua força descomunal e sua quase invencibilidade. Preciso de você para uma honrada missão que a própria Cidadela me encarregou de realizar. Como você sabe, há muitos revoltosos surgindo, questionando a autoridade de nossa divindade, e isso não faz bem para a imagem onipotente da Deidade.

— E por que ele não resolve, se é o todo poderoso? — ironizou Renéh.

— Ah, ele está resolvendo. Mas o jeito dele, como posso dizer… Leva tempo.

— Que cara desequilibrado — comentou Renéh —, ou Deidade… Enfim, como você quiser chamar, eu nunca liguei muito pra essas doideiras.

— Eu sei que não. Como você disse, tem exemplos bem próximos de que não deve se meter com isso. Aliás, por curiosidade, nunca um desses delinquentes magos tentou lhe recrutar?

— Não, e acho que mesmo se tentassem, com certeza eu não toparia. As pessoas que tiraram a vida de meus pais eram fanáticas. E além do mais, esses delinquentes são fora da lei, então devem pagar mal. Nunca me interessei. Ganho bem mais como autônomo.

— Bom saber disso. Na verdade, é até um incentivo para você aceitar minha proposta. Lutar contra os extremistas que já ameaçaram a vida de seus pais.

— Não sei se é correto afirmar isso… — ironizou Renéh. — Afinal, não sei quais foram os extremistas que cometeram esse crime. Eles podem ser muito bem do lado da Deidade também, não?

— Ora, mas eles não podem lhe oferecer uma segunda chance de viver, ou podem?

—Não… — Pensou Renéh rapidamente —, e é por essas e outras que tenho que admitir mais uma vez que o senhor é bem persuasivo. Aliás, falando sobre o trabalho, é só isso que eu recebo em troca se ajudar vocês? Minha cabeça continuar presa ao corpo, é esse o prêmio?

— O que já seria de bom tamanho. Se concordar em me ajudar, toda sua ficha criminal ficará limpa. Do menor ao maior delito que já cometeu. E também receberá uma gorda quantia em ouro e joias.

— Agora sim estamos conversando na mesma língua — disse Renéh, pela primeira vez interessado.

— Só haverá uma condição — interrompeu-lhe Sabáh. — Você não vai mais poder pisar aqui no país do Sul. Esse dinheiro, e sua ficha renovada, serão para que possa recomeçar sua vida em um dos outros três países, bem longe daqui.

Renéh parou alguns segundos para pensar.

— Então eu tenho a minha condição também.

Sabáh o olhou, surpreso.

— Como se estivesse em posição de pedir. Mas diga.

— Não importa o que aconteça, eu não irei levantar a espada para qualquer inocente. Independentemente do motivo.

Sabáh lhe encarou por alguns segundos.

— Temos que definir aqui então quem você consideraria inocente para não termos problemas futuros.

— Mulheres, crianças, pais… Guardas e guerreiros que não ofereçam ameaça de vida a qualquer um de nós.

Sabáh continuou a fitá-lo. Seus olhos verdes eram tão claros que as chamas dos archotes nas paredes úmidas refletiam neles. O general então deu mais alguns passos, retirou uma pesada chave de pedra de seu bolso no cinto e, ao bater nas correntes, as fez se desprenderem do jovem ladrão. Renéh caiu no chão, sentindo apenas um pouco de câimbra nos quatro membros — estava na mesma posição fazia dias —. O general ajudou ele a se levantar, e estendeu a mão em direção ao jovem para um aperto.

— Parece justo. Afinal, não queremos machucar ninguém. Somos só bons homens de passado manchado, atrás de um recomeço.

— Pode se dizer que sim — disse Renéh, hesitante, retribuindo o aperto de mão.

Notas finais
Este é o segundo capítulo de uma história já publicada pela editora Ases da Literatura, e que está disponível no Kindle Unlimited, no celular pelo Google Books e em versão física pela Amazon.