Os 'Anjinhos' Do Papai !
9 Capítulo 9
Notas iniciais
—Que garotinho mais cheio de força e com pulmões de aço, esse que o senhor tem, hein?
A enfermeira comentou em brincadeira enquanto trazia o material pra começar a dar os pontos no machucado de Noan.
O garotinho agora estava dormindo profundamente por conta da anestesia. A enfermeira teve que aplicar dose geral, pois se fosse só local o garoto não lhe deixaria dar os pontos.
—Sim! — Grissom se limitou em dizer enquanto não tirava os olhos do filho e passava carinhosamente uma das mãos pelos cabelos de seu menino adormecido na maca.
Ele viu a mulher então começar a trabalhar com a pinça e a agulha no ferimento de Noan. Ver aquilo lhe fez sentir uma náusea súbita. Durante anos se acostumou a ver coisas piores que isso e não passar mal. Mas aquilo ali era diferente. Era seu filho recebendo pontos bem acima de seus olhinhos, e o estômago de Grissom revirou-se só com aquela cena.
Na sala de espera Catherine tentava acalmar a amiga que ficou desesperada após saber onde estavam.
—Como foi que isso aconteceu, Cath, pelo amor de Deus?!
Ela estava quase chorando e segurava o celular trêmula de nervoso.
—Liah disse que ele subiu numa cadeira pra pegar um boneco e escorregou, batendo o rosto na quina do criado-mudo antes de chegar ao chão.
—Meu Deus! Eles estavam sozinhos no quarto?
Ela não podia acreditar que seu marido tenha deixado os dois sozinhos.
—Não! Gil os deixou na sala vendo TV enquanto eu e ele fomos pra cozinha. Ele ia preparar um café pra gente. Ficamos de conversa e de repente escutamos um barulho. Seguimos pra sala e os dois não estavam mais onde deviam estar. Aí, escutamos o choro alto de Noan e Liah apareceu nas escadas dizendo que o irmão caiu.
—E Liah está aí com você?
—Está. Ela estava um pouco assustada quando chegamos aqui. Mas já acalmei.
—Eu quero falar com ela.
Catherine deu o celular a afilhada dizendo que a mãe da menina queria falar com ela.
—Mamãe!
—Oi, meu amor.
—O Noan caiu e machucou o rosto. Tava saindo sangue.
Mais nervosa Sara ficou e mais vontade de chorar lhe deu ao saber disso. Seu filho machucado, sagrando e ela há milhas de distância de casa. Queria ter asas e voar agora pra onde eles estavam, pois seu menino precisava dela.
—Filha a mamãe já não falou pra vocês que é pra chamar quando quiserem algo e não subirem na cadeira ou em qualquer outro móvel pra pegarem o que querem?
—Eu disse pro Noan. Mas ele não me ouviu.
Ele era um pouco difícil de seguir ordens e Sara bem sabia o que era isso. Ela própria era assim também.
—Passa pra tia Cath, amor.
A menina assim fez após mandar um beijo a mãe.
—Oi, Sara.
—E o Gil?
—Tá lá dentro na enfermaria com Noan.
—Meu filho se manchou muito, Catherine? Não mente pra mim.
—Ele abriu o supercílio.
Ela suspirou nervosa e preocupada.
—Foi só isso mesmo? Ele não se machucou mais seriamente, não é?
—Aparentemente, não. Ele ia ser encaminhado depois do curativo pra fazer um raio-x da cabeça.
Sara não sabia se ficasse mais aliviada ou preocupada com isso de raio-x da cabeça. Deus queira que nada de mais sério acusasse nesse exame.
—Assim que estiver com o Gil diz pra ele me ligar. Vou tá com o celular na mão aguardando a ligação dele.
—Pode deixar.
Enquanto isso de volta a enfermaria, a experiente enfermeira terminava de dar os pontos em Noan e fazer o curativo sobre o machucado do menino.
—Pronto, papai. Terminei.
Ela o instruiu a não deixar o menino tirar o curativo, nem fazer esforço pra não abrir os pontos. E era pra trocar o curativo todo dia. Daqui a sete dias os seis pontos poderiam ser tirados.
—Obrigado! — O ex-supervisor agradeceu pegando no colo seu menino ainda desacordado da maca.
—Que isso. É o meu trabalho. Seu filho ainda vai dormir por umas horinhas, OK?
Ele assentiu enquanto via a mulher mais velha passar a mão com carinho nas costas de Noan e depois lhe entregar uma receita com o nome de uma pomada pra passar no local do machucado quando fosse fazer a assepsia e o novo curativo.
Grissom pegou o papel da mão dela e logo em seguida, seguiu pra levar o filho a sala de raio-x.
...
Mais de uma hora após seu amigo ter passado pelas portas que levavam para o interior do hospital, Catherine o viu cruzar as mesma portas de volta.
—E aí? — Ela sussurrou pra ele quando Grissom chegou nela acomodada numa cadeira. No colo dela Liah cochilava.
—Graças a Deus o raio-x não acusou nada.
—Que bom!... Os gritos que ouvi, eram dele?
—Sim!
—Que belos pulmões esse garoto tem, né?
Catherine brincou, sorrindo e tentando com isso desfazer a cara de preocupação e pavor que seu amigo ainda tinha.
Mesmo que o pior já tenha passado, Grissom ainda não conseguia relaxar. Aquele pavor que o tomou ao ver o filho machucado, e que prosseguiu enquanto seu menino era atendido na enfermaria, ainda persistia no ex-supervisor. O rostinho de Noan sujo de sangue era algo que não saia da cabeça de Gil.
Foi o maior susto aquilo que aconteceu. Mais até do que os anteriores que ele já passou por causa de seus pimpolhos.
—Vamos, vou deixar vocês em casa e depois irei pro laboratório. Ecklie ligou a pouco e expliquei que tive um pequeno contratempo, mas já estava indo.
Durante o trajeto pra casa do amigo, Catherine lhe contou sobre a ligação de Sara enquanto ele estava com Noan na enfermaria.
—Você contou à ela o que houve?
—Sim! Fiz mau?
—Não! Eu nem sei como daria uma notícia dessas a ela. E como Sara reagiu quando soube disso?
—Ficou desesperada como toda mãe no lugar dela ficaria.
Ele não podia esperar menos que isso da parte da esposa. Ainda mais, sabendo o quão preocupada e zelosa ela era com os filhos.
—Ela me pediu pra te dizer para ligar pra ela assim que saísse da enfermaria.
—Em casa eu ligo. Estou sem o celular aqui comigo.
Eles chegaram poucos minutos depois a casa de Grissom. Catherine carregou uma Liah já desperta e Gil seguiu com Noan ainda dormindo, em seu colo pra dentro de casa. O ex-supervisor agradeceu a amiga pela ajuda.
—Que isso. Não tem nada que me agradecer. Eles são meus afilhados. E qualquer coisa me liga.
—Ok!
—Tchau, meu amigo.
Ela tocou o ombro de Grissom. Beijou as costas de Noan e depois deu um beijo no rosto de Liah, pra em seguida ir embora.
Grissom subiu com os filhos para o seu quarto e colocou Noan na cama.
—Liah fica aqui deitada com seu irmão enquanto o papai vai só pegar o celular dele na sala, tá bem?
—Tá!
—Não demoro.
Ele desceu rápido e apanhou de cima da mesinha de centro o aparelho. Viu no visor as ligações perdidas da esposa. Tratou de retornar a chamada enquanto seguia de volta para o quarto.
No primeiro toque sua esposa já atendia a ligação.
—Gil! Como está, Noan?
—Agora bem, querida. Fez curativo. Teve que levar seis pontos no machucado.
—Ele fez o raio-x?
—Fez!
—E...?
—Não acusou nada.
—Graças a Deus! — Ela sussurrou aliviada, mas não menos angustiada. Só ficaria completamente aliviada e despreocupada quando visse seu menino com seus próprios olhos e comprovasse que de fato, ele estava bem mesmo. Ouviu seu marido suspirar do outro lado da linha. Com certeza pra ele não devia ter sido fácil passar sozinho por esse susto. _Como você tá depois do que houve?
Ele ainda se encontrava bem assustado, nervoso e desejando enormemente que a esposa estivesse ali em casa naquele momento.
—Tô tentando me restabelecer do susto. Foi tudo tão aterrorizante, Sara. O sangue... Noan gritando... Ele chamou por você o tempo todo. Fiquei desesperado!
Nunca até hoje ele tinha sentido aquele medo enorme como sentiu horas atrás. Se pudesse tomar o lugar de seu menino ou tomar pra si a dor que ele certamente estava sentido com aquele machucado, Grissom tomaria sem hesitar.
—Eu posso imaginar.
—Parecia até um pesadelo. Mas o pior é que era real. E foi culpa minha. — Ele declarou encarando o filho dormindo em sua cama com Liah deitada ao lado dele quase dormindo também.
Nunca se perdoaria se algo de mais sério tivesse acontecido com Noan. Somente aquele machucado que o filho sofreu já lhe doía e lhe deixava com uma culpa enorme. Coisa pior lhe devastaria por completo.
—Ei, não foi sua culpa. — Sara tratou de tirar aquele peso que seu marido estava se pondo. _Ele é danado. Uma hora algo assim ia acontecer com ele.
—Se você tivesse aqui certamente isso não teria acontecido. Foi descuido meu. Me desculpa, Sara.
—Eu não tenho que desculpar nada, Gil. Ninguém tem culpa.
Ela não ia deixar seu marido ficar se culpando por aquilo. Ele não tinha culpa de nada e nem ela o culpava pelo ocorrido. Foi um acidente que poderia muito bem ter ocorrido com ela estando ali, apesar de Grissom achar o contrário.
Eles trocaram mais algumas palavras e a ligação foi encerrada.
Enquanto Grissom foi se acomodar na cama um pouco com seus filhos e ficou vendo ambos adormecidos... Em Boston, Sara fazia uns ajustes pra voltar pra casa naquela noite mesmo. Não ia conseguir esperar até amanhã pra embarcar.
Após uma ligação e muita conversa pelo telefone com a atendente da companhia aérea, Sara conseguiu trocar e antecipar o horário de seu voo que era das oito da manhã do dia seguinte, para as onze e meia daquela noite mesmo. Precisava e queria voltar pra casa o quanto antes.
Horas mais tarde enquanto Sara se acomodava em sua poltrona no avião pra ir embora para sua casa... Em Vegas, Grissom era despertado pelo chorinho fino de Noan.
—Ei, meu campeão. O que foi? — Ele abraçou seu pequeno tomando o devido cuidado de não bater no machucado em seu rosto miúdo e também, pra não acordar Liah que dormia ao lado deles.
—Minha cabeça tá doendo, papai.
A vozinha dele saiu afônica e rouca, consequência de tanta gritaria de horas atrás.
—Vai passar, filho.
—Eu quero a mamãe! — O pequeno murmurou choroso.
—Amanhã, ela já está aqui, meu filho. Amanhã! — Ele embalou seu garotinho até senti-lo voltar a pegar no sono.
Encarando o teto do quarto, Grissom desejou imensamente que sua esposa estivesse ali pra Noan ficar mais calmo e dormir tranquilo.
...
Passava das quatro e meia da madrugada, quando Sara entrava cuidadosamente em casa. Depois de quase cinco horas de voo, e alguns minutos de táxi do aeroporto até ali, ela enfim estava em sua amada casa. Lar doce lar!
Largando sua mala próxima do sofá, a perita subiu as escadas silenciosamente e foi direto para seu quarto. Se bem conhecia seu marido, ele com certeza levou os filhos pra dormirem com ele. E realmente os gêmeos estavam dormindo com Grissom!
Na penumbra do quarto, Sara se aproximou da cama e enxergou seus meninos agarrados ao pai. Ela viu de imediato o curativo de Noan.
Sentiu vontade de chorar por ver seu filho com aquilo. Se dependesse dela seus filhos nunca sofreriam um arranhão sequer, mas isso era algo impossível. Crianças caem, se machucam, é dá natureza delas. Ainda mais, quando eram crianças levadas como seu menino.
Ela tocou com extremo cuidado os cabelos de seu pequeno. Depois afagou os de sua menininha. E acariciou o rosto de seu marido. Pensou em lhe dar um beijo, mas ele estava tão lindo dormindo que não o beijou só pra não acordá-lo. Ficou ali observando Grissom e os gêmeos por um tempo até sair do quarto pra ir descansar um pouco no quarto de hóspede.
...
Grissom acordou e deu uma olhada no relógio sobre o móvel ao lado da cama. Eram oito e vinte da manhã. Sua esposa já devia estar no avião à caminho de casa, pois o voo dela saia as oito. Fez rapidamente as contas mentalmente pra saber o horário que ela chegaria em Vegas. Quase uma da tarde.
Suspirou e seus olhos fitaram seus filhos que ainda dormiam serenamente. Ele notou que Noan tinha o lado do rosto que estava com o curativo, levemente inchado e com agora pequenas e visíveis escoriações na maçã da face.
Beijou a testa do filho e depois repetiu o gesto em Liah. Com todo cuidado, levantou da cama e foi ao banheiro escovar os dentes. Depois já de volta ao quarto, ele se permitiu observar os filhos por mais uns poucos segundos antes de resolver sair do cômodo pra preparar o café pra eles.
Descendo as escadas, ele ouviu a voz da esposa e quase não acreditou nisso. Será que estava alucinando?
Apressou-se em descer os últimos lances de escada. Chegou a porta da cozinha e lá estava Sara de costas pra ele.
Ela mantinha o celular entre o ombro e a orelha, falando com Catherine, enquanto lavava algo na pia.
—Nem me fale. Foi o pior susto da minha vida, Catherine.
...
—Eu imagino. Coitado!
...
—Ok!... Então mais tarde a gente se fala mais, Cath.
Ele viu sua esposa se despedir da amiga. E quando ela se virou pra depositar o aparelho sobre a mesa, foi que notou sua presença ali.
—Oi!... Bom dia!
Ela lhe sorriu e ele retribuiu o sorriso.
—Sara!
Grissom sentiu uma felicidade ímpar em vê-la de volta. E sem pensar duas vezes, o ex-supervisor foi até a esposa e lhe abraçou apertado, pra logo em seguida buscar a boca dela com urgência e desespero, e cheio de saudade.
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