Os Amores de Hécate

1 ONE SHOT - Das cinzas às chamas


Tudo começou em uma pequena fazenda na cidade de Törva. A família Kilimagi estava sendo abençoada com a chegada de gêmeas — um sonho para qualquer bom fazendeiro: mão de obra em dobro pelo preço de uma. Todos na cidade já conheciam a gravidez e suas conturbações, os mais velhos sempre prestavam auxílios e conselhos para o casal quando os viam pelas ruas.

E, apesar de todos os votos positivos, das orações e dos aconselhamentos, o parto fora de longe um dos mais complicados. Foram-se quase dois dias com uma boa parteira e muito sangue até que a aberração surgisse: gêmeas xifópagas. Era visível o terror nos olhos da assistente de parto que chorava à medida que gritava rezas de deuses antigos; mas nada se comparou ao nojo exposto no olhar do pai que amaldiçoou o nascimento e principalmente o ventre que dera luz a tal criatura horrenda.

A mãe não pode reagir: delirante e hemorrágica teve de ser levada para o hospital imediatamente, já beirava a morte pós-parto. A moçoila despertou duas semanas depois e foi recebida com a notícia que quebrou o seu coração: ojerizado pela visão do próprio inferno, seu marido havia a abandonado.

Estava descabelada e se desfazendo entre lágrimas quando a enfermeira cruzou a porta do quarto com suas filhas nos braços. A visão de suas doçuras foi o suficiente para atenuar todo o sofrimento que antes possuíra. Sua união era única: se dava pelo corpo todo, mas cada uma havia se desenvolvido individualmente – o que era crucial; mas o hospital da cidade não possuía tecnologia o suficiente para separá-las sem risco de morte. Elas eram excêntricas em cada detalhe; apesar de serem idênticas, diferiam nos olhos: uma carregava uma ternura com uma combinação de amarelo e roxo; a outra, um misticismo com prata e laranja avermelhado.

Os risos uníssonos dos bebês eram um deleite para a mãe enquanto elas brincavam com o seio materno. Padeceu ao ter de vê-las partir pouco tempo depois para a amamentação; como estava fragilizada pelo parto, teve de implorar para que pudesse se regozijar com o primeiro alactamento de seus amores antes de cedê-las para uma ama de leite. “A de olhos ternos se chamará Zenobius; a mística, Üvlla” – fez-se ouvir pelas enfermeiras quando nomeou suas filhas, sabendo que seria a última vez que as veria; pelo menos sob o título de mãe.

Três dias depois foi assinado seu atestado de óbito.

As gêmeas foram postas sob ordem judicial após o período obrigatório de amamentação, fazendo com que seu pai assumisse seus deveres. De malgrado ele as acolheu em sua fazenda, limitando-as a uma baia para cavalos improvisada como quarto. Suas visitas eram reduzidas a quatro, uma para cada refeição diária.

Desenvolveram-se de forma letárgica e animalesca, sem discernimento da realidade visto que não possuíam nenhum contato humano contínuo ou externo. A única cousa que as dissuadiu de uma vida na ignorância foi a manifestação de uma longínqua voz terna e envolvente que diariamente criava um elo com as meninas e tentava explicar as pequenas coisas da vida – as primeiras palavras, os primeiros movimentos mais complexos.

A partir dos quatro anos de idade, elas aprenderam a trabalhar em conjunto para destrancar o portão da baia e puderam finalmente desbravar o estábulo. Üvlla foi a primeira a atentar-se em um canto especial; um santuário entre os bichos – e, curiosas, decidiram explorar o casebre mirabolante. Entre as paredes de madeira decrépita elas encontraram diversos livros e relicários; devido à influência da voz, a atitude primordial para com os tomos foi de abri-los. Zenobius falhou em algumas de suas tentativas, mastigando as capas grossas ao invés de analisar seus conteúdos. Daquele momento em diante a voz estipulou que entre a terceira e quarta refeição ela as ensinaria a arte do que chamava de leitura; utilizando os opúsculos mais chamativos e bem ilustrados para guia-las pelo aprendizado. E durante os seis anos seguintes elas passaram a conhecer diversas línguas: a materna – estoniana, latim, aramaico, cantonesa, gaélica, rúnica, sfyria, dentre muitas outras – todas as que apareciam pelos grimórios, mortas ou modernas, faladas ou assoviadas. Junto do aprendizado dos idiomas, elas desenvolveram habilidades essenciais para a voz: a interpretação e execução de pequenas façanhas mágicas e algumas ritualísticas – eram momentos de orgulho.

Deu-se início ao declínio da vida das gêmeas no aniversário de dez anos. Üvlla estava desenvolvendo uma obsessão querençosa pela voz que se fez presente durante todos aqueles anos e, de uma ideia de impulso, determinou que a presentearia com um corpo mundano como recipiente para que perambulasse entre elas. O único obstáculo era convencer Zenobius de sua artimanha ardilosa. Tomou-lhe a primavera inteira e uma abundância de argumentação — salientando a ausência esporádica da voz – para convencer sua irmã do que ela achava que era certo fazer. Unidas, construíram uma estratagema para o ritual – escolheram como receptáculo o único humano que as visitavam diariamente. Em muitas das instruções, fizeram-se ciente de que o homem seria sacrificado; entretanto, além de medo, preocupação e euforia, não se sentiam inibidas pela ideia de ceifar uma vida – visto que em alguns rituais africanos e outros orientais eram muito comuns os sacrifícios de sangue e, semanalmente, elas presenciavam o abate dos animais do estábulo. O tabu da sociedade não as afetava já que elas não faziam parte.

Elas quebraram as lâmpadas do estábulo, deixando que a única fonte de iluminação fossem as velas que antes estavam estocadas no santuário. Estavam posicionadas ao lado da porta de madeira em um silêncio tão tátil quanto à tensão que pairava no ar. Seus corações aceleraram quando ouviram os cliques do interruptor e alguns berros, praguejando o infortúnio. O estresse do homem se dissipou subitamente quando, ao cruzar a portilha, foi recebido com uma estocada de forcado. Como resposta, ele esbravejou e, cheio de adrenalina, acometeu-se contra as gêmeas. Toda a luta não passou de um show sanguinolento de horrores, onde já não mais se sabia de quem era o sangue no chão. Com o fator da estratégia, surpresa e armamento, as meninas prevaleceram sobre o homem – entretanto, carregavam sérias lesões por todo o corpo.

Zenobius era a mais desestabilizada na situação, seu corpo tremia e os olhos marejavam – não estava acostumada com a dor e tampouco gostava dela. O pequeno momento de peleja foi avassalador e assustador. As duas passaram um tempo em silêncio se reconfortando em um abraço e buscando forças para iniciar a cerimônia.

O ritual era mais técnico do que complicado, mas estava fluindo perfeitamente até a quebra abrupta das citações antigas pelo grito desesperado da voz que pedia para que parassem antes que fosse tarde demais. Elas não tinham a consciência de que a pessoa que elas invocavam como espírito estava viva; todo o rito era em vão, mas, uma vez iniciado, deveria ser terminado; e, com a quebra repentina do cântico, os invocadores receberiam a punição.

Não tardou para que o círculo no chão de madeira começasse a criar rupturas. O corpo do homem foi consumido em chamas, mas ainda não era o suficiente. Para completar a penalidade da cerimônia interrompida, outro deveria pagar.

O chão estalou embaixo das garotas. Elas se entreolharam. Üvlla foi a primeira a se pronunciar: “Eu sempre vou te amar, me desculpa.” Seus olhos estavam cheios de lágrimas e sua irmã teve pouco tempo para compreender o que estava acontecendo quando o corpo da gêmea de olhos misteriosos perdeu as forças e sua cabeça tombou sobre o ombro da remanescente. “Üvlla? Üvlla?” – Zenobius, em puro desespero, começou a chacoalhar o cadáver de sua irmã; aguardava que fosse apenas uma brincadeira de mau gosto. Os pequenos lumes desapareceram aos poucos, deixando as irmãs iluminadas apenas por uma única vela. Apesar dos animais, todo o estábulo estava em silêncio; quebrado somente pelas lamúrias da jovem garota que abraçava sua outra metade.

Em melancolia, Zenobius mal pôde se levantar. Dentre tantas lágrimas e sangue, o sentimento de solidão se agravava quando fazia esforços para se pôr de pé e fracassava com o peso do corpo de sua irmã arrastando-a para o chão – desacostumada a andar com apenas um par de pernas, também faltava-lhe o equilíbrio. Teve que reaprender a andar em poucas horas; exausta além do limite e ferida, brigava com suas forças para se manter erguida. Sua mente estava cheia e a coisa que mais queria era poder fugir das desgraças que haviam acontecido naquela noite de lua alta. Sem raciocinar com precisão, derrubou a última vela sobre um dos montes de feno do estábulo e acompanhou o espalhar das chamas enquanto se arrastava para fora. Seus olhos brilhavam no mais puro vermelho quando seu corpo esgotado cruzava a primeira árvore da floresta ao redor da fazenda. A luz do luar banhava seus cambaleios sem direção e parecia acompanhar o seu trajeto pela noite adentro.

Na pequena cidade, predominantemente agrícola e pecuária, a cultura da caça ainda era muito presente em certos âmbitos familiares – e, graças a esses costumes, um caçador e seu filho perambulavam pela floresta em busca da proteína que serviriam no almoço e até mesmo na tiborna no mais tardar do dia, caso os deuses fossem generosos. A única coisa inesperada na caçada rotineira foi o pequeno corpo de um par de crianças que estavam, aparentemente, coladas uma a outra. O adulto surpreendeu-se com o estado das jovens e a quantidade de machucados que carregavam; uma estava mais pálida que a outra, mas sobre o olhar de desespero de seu filho, pouco checou se estavam vivas. Às pressas, ele carregou as gêmeas até o hospital mais próximo na cidade de Kirikuküla.

O ramo de aconitum era reposto todos os dias no vaso que ficava ao lado da cama da menina. Foram-se dois meses de recuperação da cirurgia e, quando Zenobius abriu os olhos, desejou que nunca tivesse acordado. Não sentia mais o peso do corpo da irmã e temeu, antes mesmo de olhar ao seu lado, o pior. Já lacrimejava quando tocou seu ombro e sentiu a ausência do outro. Tremia, não acreditava no que poderia ter acontecido. Estava completamente enfaixada e sozinha. Entre soluços, clamava pela irmã enquanto olhava para as mãos que agora formavam apenas um par. Em sua taciturnidade, envolveu todo o quarto em uma aura de pesar, desespero e catástrofe; sua melancolia era tão poderosa que afugentava aqueles de fraco espírito.

O momento de ruptura aconteceu em um quarto de hora após o despertar da enferma, quando um homem entrou na pequena sala de recuperação e repetiu sua rotina automática de reposição da flor até notar a pequena garota se debulhando nas próprias lágrimas. “Oh! Olha só quem finalmente acordou!”. A menina mal se dava ao trabalho de conter o choro enquanto olhava o adulto desconhecido. “E qual é o nome dessa princesinha guerreira?” Ele tratou de enxugar as bochechas molhadas da pequenina enquanto tentava acalmá-la. Seus olhos brilhavam em um tom de púrpura descomunal, mas não o impedia de olhar com tamanha ternura para tão frágil criança. “A sua irmã estava muito doente e foi para um lugar cheio de flores como essas; ela chorou como você chora agora quando soube que teria que te deixar, mas, se ficasse te causaria mal.” Pegando as pequenas mãos enfaixadas, ele colocou o ramo das flores do dia entre os dedos da moçoila e a ajudou a segurá-lo enquanto tentava acalentar seu coração despedaçado. Ela se mantinha num completo silêncio, salvo o choro. “Eu sei que dói, minha pequena princesa guerreira. Eu sei que a minha dor nunca se comparará com a sua, mas você terá que ser forte por você e por sua irmã. Ela não gostaria de te ver nesse estado, não é?” O homem tinha a aparência e a voz do caçador que a salvara, entretanto suas palavras iam além do carinho de um desconhecido por uma estranha. Tratava-se de um amor como o de uma mãe que tenta sarar a dor de um ralado com um beijo. “Tudo isso está acontecendo por conta de um deslize meu; jamais se culpe por isso. E como um erro, consertá-lo-ei.” Ele afastou os cabelos do rosto dela e retirou uma das bandagens que cobria uma de suas vistas, e com satisfação passou a admirar os olhos meigos para com quais se apaixonara a primeira vista. “Eu não posso ficar por muito tempo; por mim, passaria toda a vida ao seu lado. Mas há outras cousas que devem ser feitas. Não se acanhe, não se esconda e tampouco fuja. Voltarei amanhã para tirá-la daqui. Será difícil e você terá que confiar em mim, mas eu garanto que valerá muito a pena no futuro.” Contendo as próprias lágrimas de emoção, o homem beijou a testa da menina e caminhou até a porta. “E nunca se esqueça: eu as amo acima de tudo.” O plural da última frase de despedida do adulto chamou a atenção da criança que parecia quase em transe, numa mistura de medo, incompreensão e confusão; apesar de seu estado, ela notou que ele havia incluído em sua frase a irmã desaparecida.

Zenobius pouco podia se movimentar com as fortes bandagens em seu corpo. Passou o dia deitada na cama gelada e solitária do hospital, recebendo, com muita surpresa das funcionárias, as refeições. Pensava em fugir, mas não tinha motivos. Pensava em contradizer o homem e não escutá-lo, mas também lhe faltava justificação. As falas do visitante misterioso pareciam afetá-la do mesmo jeito que a voz lhe acolhia. Sem tantas opções, aguardou o novo anoitecer, ainda se flagelando pelo sumiço da irmã.

Quando o sol se pôs e a lua surgiu, o homem apareceu na porta de sua tão doce menina. Ele trazia sacolas e um sorriso sincero. “Trouxe presentes!” Sua visita era cronometrada, sabia que teria que aligeirar o tanto quanto pudesse. Passou a hora seguinte deleitando-se com a presença da menina que parecia não o temer. Vestiu-a com um belo vestido amarelo com o desenho de flores de açafrão, uma delicada sapatilha preta; fez seu cabelo em um rabo de cavalo. Contou diversas histórias de monstros aterrorizantes e horrendos que tiravam tímidas risadas da garotinha enfaixada. Acompanhou-a em um delicioso momento em que, juntos, devoraram um bolo de sorvete de chocolate. Nos últimos momentos no hospital, ajudou-a a se acostumar a caminhar sem a ajuda ou interferência do corpo ausente de sua irmã; deu-lhe uma mochila e, juntos, saíram do quarto de pacientes.

Aos poucos a moçoila parecia perder a vergonha e passou a conversar mais com o homem, fazendo-lhe as mais variadas perguntas enquanto caminhavam lado-a-lado. Ele se regozijou com o momento, rindo e sorrindo a todo o momento enquanto se aproximavam do destino final. Eles pararam na frente de um enorme navio e ele se agachou na frente de sua doce feiticeira. “É aqui onde nos separaremos de vista, mas não se preocupe! Estarei sempre com você, onde quer que vá. Esse papel, siga o endereço neste papel. Eu disse que iria consertar o meu erro, esse é um dos passos. Eu confio que você vai chegar lá sã e salva.” Ele deixou seguro nas mãos da pequenina uma folha com escritos em gregos. Deu-lhe o mais caloroso beijo na testa e a ajudou a subir na embarcação.

No navio, foi recebida pelos funcionários com educação e guiada para a sua cabine. Sua viagem durou um ano e sete meses – dos quais tirou total proveito. Sua melancolia foi ocupada por diversas atividades marítimas; conheceu as cozinheiras, faxineiras, os jogadores – todos de diversas nacionalidades. Entre eles aprendeu alguns idiomas que não conhecia, xeretou aqui e acolá e escutou das mais diversas histórias: de ninar, mitológicas, assustadoras, até culinárias. Ouviu sobre os mares e descobriu seus nomes. A única coisa que a incomodava era os outros passageiros que a evitavam e mantinham distância, sempre esvaziando o local quando ela chegava. Felizmente, não notava a indiferença e repugnância para com ela, focada apenas nas maravilhosas experiências que presenciava.

Desembarcou em Long Island, Nova Iorque. A pequena mochila estava abarrotada de suprimentos para a sua busca. “Acampamento Meio-Sangue, Colina Meio-Sangue, Estrada da Fazenda 3.141. Long Island, Nova Iorque – 11954.” Repetia em grego diversas vezes o endereço que estava no velho papel.

Sua passagem pela cidade se deu de forma insatisfatória: curta e apressada. Por muitos dias buscou em vão, recebendo direções confusas e olhares de estranheza para o endereço tão incomum. Apenas no final da primeira semana, um simpático homem em uma loja de serviços de correios pôde ajuda-la em sua jornada. Indicou as coordenadas em um mapa pitoresco feito à mão em fração de segundos e se despediu pouco depois. Com as novas informações, Zenobius não perdeu tempo para dar a volta na enorme metrópole até as florestas que a circundavam.

Mata adentro, perdeu-se incontáveis vezes. Rodava em círculos durante a noite, descansava pela manhã e dormia à tarde. Já tinha perdido a noção dos dias, aos poucos a comida ia escasseando. No período noturno, sempre notava a presença de pequenas chamas distante, decorando o fundo das árvores; tentou alcança-las uma porção de vezes, mas elas sempre se faziam distante – não importava o quanto se aproximasse.

Surpreendeu-se quando, em uma de suas investidas, as luzes não se afastaram – de uma forma icônica elas formaram uma trilha medonha pela floresta. Curiosa, primeiro tentou visualizá-las, mas toda vez que se aproximava, elas pareciam desaparecer como um holograma. Depois de um longo período de entretenimento com a brincadeira de esconde-esconde, Zenobius pôs-se a seguir o caminho formado. O clima parecia tenso; os animais, quietos.

Toda a diversão cessou quando, no final da estrada improvisada, a garota visualizou o vulto de algo impossível: sorridente, Üvlla estava na sua frente. A primeira reação foi de espanto, acompanhada pela descrença. Pensou em fugir, mas parecia atraída ao espírito como ímã. “Eu nunca quis te abandonar, Zenobius. Mas hoje eu retorno para você. Você é a chave para a minha existência, não me abandone. Eu te amo.” Com os olhos cheios de lágrima, a menina tentou, com todas suas forças, abraçar a aparição; mas ela desfalecia com o toque. Üvlla estendeu as mãos abertas e aguardou até o momento em que sua irmã tocou-as. No instante seguinte houve uma confusão de berros e movimentos: em contato, uma pareceu absorver a outra – mas o corpo rejeitava o fantasma. Eram idas e vindas dolorosas, elas se bipartiam e dividiam; durante seus segundos eternos, elas não notavam que as luzes que antes formaram a trilha, agora se reuniam ao redor das irmãs que passavam por um tortuoso processo de fusão.

A luz da lua parecia mais forte quando uma esbelta mulher surgiu, carregando um candelabro com duas velas acesas. Trajando a mais bela túnica prateada com as mais variadas runas e símbolos mágicos bordados em puro ouro e uma coroa de flores de açafrão, ela fechou o círculo. Banhadas pela luz da lua, a cerimônia deu-se início. Com uma duração de dois minutos e vinte e três segundos, pareceu quase eterna – a mulher recitava palavras em diversas línguas desconhecidas que pareciam flagelar o corpo que servia de receptáculo para as duas meninas; escritas surgiam sobre as cicatrizes da cirurgia e tingiam a pele com fogo. Os berros ecoavam por quase toda a floresta, a voz se bipartia até o ponto que começou a se tripartir. Todo o ritual parecia unir as duas crianças, mas de sua fusão surgiu uma terceira.

Em um corpo onde há mais do que um, sempre terá a busca pelo constante equilíbro: a partir de hoje, serão três. A emoção, Zenobius. A razão, Üvlla. E, pela segunda vez sobre a luz da noite, Surm; o instinto.” Declarada a sentença, o receptáculo caiu de joelhos sobre a terra fofa – os olhos viravam e reviravam com a mistura: ora amarelo e laranja, ora prata e roxo, ora vermelho. Complacente com o momento de angústia, a mulher prostrou-se em frente ao corpo e afagou o volumoso cabelo. “Eu sinto que este é apenas o começo, minhas pequenas feiticeiras, mas com estrelas iluminadas e noites de lua cheia, através da terra, mar e ar, pela chama da vela e fino incenso hei de acompanha-las eternamente.” Com um pesar no coração, ela colocou um colar no pescoço do corpo em que habitavam suas três meninas; o pingente mantinha uma delicada chave envolvida por um cristal roxo. Como sua última atitude, acompanhou, com olhares amorosos, a viagem mística que transportava o receptáculo para a beira do campo mágico do acampamento que Zenobius tanto procurava.

Sua chegada foi recebida com enorme espanto por um dos campistas que a localizou pouco além da fronteira; com a ajuda dos mais velhos, seu corpo exausto e exânime cruzou o grande arco e, no instante seguinte, reverberou sobre sua cabeça o símbolo de Strophalos: a roda de Hécate.

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