Desse dia em diante não houve dias em que não via Luzia. Acomodou-se com naturalidade entre os laços de amizade entre eu e Helio, inocentemente inconsciente dos sentimentos que nós dois passamos a alimentar por ela.

O gato acabou ficando para nós três. Construímos uma família. Aos finais de semana o Helio ficava com o gato, com os olhos inchados e espirrando pela casa. Mais tarde fora batizado Chico. Isso acabou amarrando nós três com uma força inacreditável. A sensação de que nossa amizade transformara-se num delicado cristal na palma de nossas mãos. Éramos, além de tudo, responsáveis um pelo outro. Inicialmente, fiquei bastante incomodado pela forma que Luzia se colocara entre eu e Helio, provavelmente resultado dos conflitos por estarmos, ambos, nos apaixonando cada vez mais por ela. Não consigo me lembrar o momento, mas naturalmente nossa amizade se tornou uma disputa para chamar mais atenção de Luzia. Foram os poucos tempos em que odiei Helio. Mas me recordo do momento em que nossa guerra foi declarada. Aceitei participar do jogo do Helio, me lançando nessa briga que, conhecendo meu oponente, me condenava ao fracasso.

Foi numa festa junina na chácara da família da Luzia em que os primeiros tiros foram trocados entre nós. O Helio tinha bebido um pouco demais, e por algum motivo, magoado Luzia. Ela procurou consolo em meu abraço. Senti um calor dentro de mim, causado pelo ansiado toque e pelos olhos de Helio que me fulminavam, olhando diretamente para as pupilas de meus olhos. Ouvi claramente a voz de Helio na minha cabeça.

– É guerra, irmãozinho.

Com o coração gelado pela ameaça, respondi.

– É guerra.

Meu peito parecia explodir. Desde o início de nossa amizade, o Helio me causava uma estranha sensação. Me lembro da primeira vez em que o vi na escola, com dez anos de idade. Aquele menino estranho, com olhos marcados por suas já habituais crises de insônia que o deixava acordado por dias à fio não parava de olhar para mim. na hora do recreio, ainda tímido e sem ter feito contato com nenhum dos meus coleguinhas de classe, um menino se aproximou procurando interação. Foi puxado pela mochila e caiu no chão, espalhando a merenda pela roupa e ganhando os gritos e as risadas da criançada. Atrás dele, Helio ria mais do que todos.

– Você vai ser meu amigo, e não pode escapar disso. — Disse se apresentando. E eu não pude resistir em concordar.

Sua personalidade me deixava sempre confuso. Sentia como se estivesse sempre em posição de defesa, sem noção de qual seria sua próxima surpresa. Ficava geralmente passível aos impulsos de Helio para evitar o cansaço. Sabia que nunca valia a pena discutir com Helio, pois ele não perdia nem mesmo quando perdia. E finalmente eu travaria uma luta contra meu maior companheiro. A sensação de desafio amedrontava o meu desejo de liberdade, que estremeciam no peito.

Levei Luzia para outro lugar, evitando utilizar os mesmos espaços que Helio. Como bom farsante que era, deixou-nos em paz, conquistando a amizade e a confiança de cada pessoa presente na festa, utilizando todos os seus truques de carisma que tanto atraíam as pessoas. Helio era um verdadeiro Lúcifer. Não era de fato um rapaz bonito, mas todos queriam estar com ele. Sua companhia era disputada. Helio tinha os poderes mágicos da oratória.

Coloquei minha cabeça para trabalhar com as mesmas armas de meu oponente. Procurava pelos pontos fracos que só eu conhecia. O momento em que seus olhos convertiam-se do habitual brilho simpático para um risco de maldade, calculando os movimentos de sua estratégia. O olho vivo procurando qualquer passo que eu desse errado. Não saí de perto de Luzia. Precisava agir rápido antes que ele encontrasse uma saída.

Não consigo ter certeza se Luzia teria percebido nosso jogo, mas não demorou muito para que ela, ainda num acesso de raiva contra Helio, me desse um beijo. Não fora delicado como tantas vezes já havia imaginado. Ela me mordia os lábios, em sua fúria interior, consciente dos olhos de Helio colocados em nós. No meio do leve gosto de sangue que começava a brotar dos meus lábios, senti uma ardência quando foi lavado pela água em sal que escorria dos olhos de Luzia. Abri os olhos. Ela me beijava com raiva. Fechei os olhos, triunfante ao ver o olhar derrotado de Helio, mesmo sabendo que Luzia me beijava como beijaria Helio. Nossas bocas não combinavam, não encaixavam, pois os lábios dela se prepararam desde o começo para os do Helio. Tentei resistir à esse pensamento e aproveitar de minha falsa vitória, mas meus músculos relaxaram e reclamaram de dor. Interrompi o beijo e sem dizer nada, corri.

Fiquei por boas horas deitado no mato que circulava a chácara, fumando rápido, sentindo uma vertigem e uma grande vontade de gritar. Havia começado a fumar recentemente, junto com o Helio, apesar dele fumar para fazer amigos e eu fumar para evitá-los. Fiz do cigarro meu remédio para os dias em que tomava uma dose além da conta daquele meu grande amigo. Foi o cigarro que me impediu de brigar com ele muitas vezes.

As lágrimas inevitavelmente escorriam dos meus olhos em soluços. Descontei na grama macia minhas ofensas. Meus pensamentos de ódio foram cortados por um barulho atrás de mim, nas plantações altas de cana. Caminhei silenciosamente. Das frestas pude ver Luzia nua, arranhando as costas de Helio. Ele olhou pra mim. Mesmo no escuro, olhava diretamente nos meus olhos. Terminou num gozo de vitória, rindo, sempre olhando para os meus olhos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.