Os 7 príncipes
5 Porta de vidro
Notas iniciais
Ela estava perdida, perdida em escuridão, uma escuridão que nunca presenciara antes. Seus olhos não conseguiam se ajustar e ela não tinha certeza se conseguiria se mover, sentia medo.
— Kaya – a voz era distante como se ela escutasse através de um grande corredor e embaixo d’água, não conseguia reconhecer e nem saber ao certo de onde vinha – você precisa me escutar com atenção.
As pernas estavam pesadas como chumbo, ela tentou responder um “quem é você” mas a pressão sob ela ali era tão grande que respirar já era uma missão quase impossível, ela precisava se concentrar para saber o que a voz dizia.
— Você precisa me encontrar, precisa me encontrar, consegue fazer isso?
Ela não conseguia nem se mexer, quem diria encontrar algo, talvez alguém? Algo começou a brilhar muito longe, um pequeno ponto de luz, muito distante para sequer fazer com que ela enxergasse algo a sua volta, ela se sentia cansada.
— Me encontre.
Acordou desesperada por ar nos pulmões, respirando tão fundo que o peito queimou e ela quase engasgou, estava ensopada de suor e ainda sentia suas pernas tão pesadas que essas mal se moviam, seu corpo todo doía.
Assim que conseguiu se acalmar e ver que estava em sua casa, em segurança e não em um lugar escuro desconhecido parou para pensar e viu que não fazia nenhum sentido seu sonho, nem mesmo um pesadelo havia sido, ela era familiarizada com pesadelos onde era perseguida, alguém estava em perigo, em que ela via algo ruim, mas este não se encaixava em nenhum dos padrões de “terror” que ela costumava presenciar neles. Não chegou a entender completamente a reação do seu corpo e nem o sentido daquilo que acabara de acontecer, mas não era como se sonhos tivessem algum sentido, certo?
Conseguiu jogar suas pernas para fora da cama e uma rápida olhada no quarto já era o suficiente para dizer que novamente o sol não nascera como o normal. O quarto estava opaco, com uma luz preguiçosa e fraca que também indicava o começo do dia. Esticou os braços e se espreguiçou devagar, levantou-se em seguida e alcançou os pés com as pontas dos dedos sem esticar as pernas, estava ficando boa nisso, nunca havia sido muito flexível, mas agora adquirira esse hábito, não tinha nada melhor a fazer mesmo de qualquer maneira.
Depois de fazer mais alguns alongamentos simples, ela não era muito prendada nem fã de exercícios, arrumou a cama e desceu. Chegando a base da escada e olhando para a porta, percebeu que aquela perturbação de ontem havia sumido, ela provavelmente estivera certa sobre ser uma armadilha e hoje eles haviam desistido de tentar, ou pego alguém. Não pensou nisso, apenas seguiu para a cozinha com seu estômago doendo, parecia que ele chegaria a suas costas a cada inspirada, ela nunca ficava assim apenas com uma noite de sono.
Foi até a bancada e sentou no chão em frente à segunda porta de vidro contando a partir da entrada da cozinha, observou que haviam mais coisas ali do que ela imaginava na verdade, e abrindo devagar a porta do armário baixo, pegou um saquinho branco de castanhas salgadas do tamanho de seus potinhos de mel, mas feito de organza ao invés de vidro.
Despejou o conteúdo na mão e organizou por ordem de tamanho antes de começar a comer, do maior para o menor. Com o saquinho agora vazio, colocou ele entre as mãos e assoprou, ele esquentou muito pouco e começou a girar no lugar, se desfazendo e deixando para trás uma pedrinha branca, igual ao saquinho que ali estava. Ela adorava ver as transformações, adorava como tudo era especialmente feito, mesmo que já sendo um padrão, era legal pensar que cada embalagem era pensada para ser algo em especial.
Segurou a pedrinha na mão e levantou-se, sentia falta de fazer bolinhos e biscoitos e de como a palavra manhã era associada com calor e luz. Agora ao passar pela entrada e olhar pela porta via apenas uma massa cinzenta onde era para estar um céu glorioso e azul, isso a frustrava mais que muita coisa.
Sentia falta também de ir do lado de fora e passear pela floresta que ficava atrás de sua casa, era impossível ver seu final dali, ia até onde sua vista conseguia alcançar com árvores altas e as mais variadas plantas... Sentiu as mãos formigarem e o coração bater mais forte, sentia mais vontade do que nunca de ver o sol, sentir seu calor, sentir a grama sob seus pés. E quando viu estava indo até seu vaso de sementes na ao lado da porta triste antes ensolarada neste horário.
Estava quase sorrindo pela emoção de fazer algumas flores crescer em algum tempo, quando congelou, literalmente seu coração parecia bombear cubos de gelo para suas veias, seu coração pareceu parar em seu peito e ela não sabia se respirava mais.
Na porta de vidro ela não encontrou a vista triste da casa metade destruída e um céu cinzento, mas uma menina, uma menina encapuzada na entrada da casa, há passos de distancia dela, olhando diretamente pra ela, como se soubesse que estava ali, mas era impossível, não era?
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