VIII
Me pego correndo atrás dele. Correndo pra valer, como se eu estivesse mais preocupada do que realmente estou (ou talvez seja só a agilidade dessa forma Crinos). Se ele não estivesse dificultando a tarefa, quem sabe não seria mais rápido encontra-lo.
Ele corria em ziguezague, urrando no início, mas parou quando percebeu que eu o estava perseguindo. Sem seus urros, eu não tinha nada para me guiar. Eu me peguei seguindo cheiros, que me eram muito mais proeminentes nessa forma, e rastros. Ele não estava deixando rastros calculados, mas o chão do bosque tinha marcas de pisadas (gigantes), sulcos formados pelas garras dele e outros tantos sinais que apenas agora eu podia reparar. Essa novo estilo de vida me demonstrava coisas, as quais não me convenciam totalmente ainda. Eram gostos, cheiros, sensações, que pareciam me preencher mais do que eu estive acostumada e eu não gostava disso.
No meio do caminho, eu tenho uma sensação sufocante. Sufocante pela força com a qual ela me atingiu. Era como se algo tivesse me deixado. Como se eu tivesse ficado nua de repente, em meio a uma multidão. E ao mesmo tempo, percebo que o próprio bosque começa a mudar. Não existem mais tantos animais como eu via antes; árvores mais cerradas, dificultando a navegação pelo local; cheiros mais conflituosos. Até o momento em que eu não me sinto mais segura. Sou uma pessoa lógica, mas acredito em instintos e intuição. Foi sempre minha maneira de me virar sozinha. Por isso, decido começar a marcar as árvores, seguindo clichês hollywoodianos (que só funcionaram por causa de minhas garras). Só que infelizmente, isso me atrasa e eu praticamente perco o cheiro de George, o que me confunde. Tendo que me basear apenas nos rastros, eu fico mais lenta. Não estou acostumada, claramente, com esse tipo de ambiente e situação. A única coisa que posso utilizar a meu favor são esses novos e melhorados sentidos.
Mesmo tendo ficado preocupada e sido tão cuidadosa, reparo que no final, não teria feito diferença. O caminho levava a uma grande clareira... com um lago.
Onde George está parado.
Com receio, me aproximo da beira. Ele está lavando o ferimento, e procuro não interromper; além dele poder se alterar, reconheço que é o certo a fazer – e que ainda assim eu não pensaria nisso. Ele deve ter sido escoteiro ou algo assim; nem nisso eu tinha experiência prévia, como a maioria daqui parecia ter.
Eu não havia reparado em quanto sangue eu havia retirado dele, com a mordida. Tocando levemente meu, hã... focinho, eu vejo que o pelo está sujo de sangue. E embora eu entenda e saiba que talvez ficasse enfurecida se estivesse na posição dele, eu me lembro do meu orgulho ferido e penso que não me importo o suficiente com ele para me arrepender.
– Desculpe.
Surpreendo-me ao ouvir isso dele. Ele me encara mais um pouco, e solta algo parecido com um riso abafado (embora com certo nível de dor).
– E também aceito suas desculpas, Theodora. Sem problema – Acrescenta, e para de lavar o ferimento. – Você sabe nadar?
Eu sei.
– Vamos! Podemos pegar o almoço depois – e mergulha.
Ele não está feliz, então porque age como se estivesse de qualquer outra maneira? Eu não entendo, e acho isso suspeito. Ainda assim, eu me vejo pisando no lago. Bem, eu estou suja de sangue, afinal. E suada. E cansada. Não me faz mal.
Eu gosto de nadar. Ainda mais aqui. Apesar de estar me sentindo mais insegura do que antes, antes da sensação, eu me sinto bem. Deve ser a primeira vez que eu sequer me sinto confortável sem estar na forma humana. Todo o tempo que levo para acreditar em alguma coisa... Bem, não costuma ser rápido. Eu ainda não consigo compreender. Mas começo a me sentir confortável... O que já é um começo.
George nada com muito mais destreza do que eu. Seu corpo magro e atlético, que se mantém com tal perfil mesmo em sua forma Crinos, desliza perfeitamente pela água. O cara é um mestre da sobrevivência, começo a pensar ironicamente. Mesmo sabendo que são coisas idiotas, eu não teria pensado nisso. Assim como não pensei em nada útil no momento em que acordei no celeiro. Mas esse cara... Ele talvez tivesse uma chance. De sobreviver. Diferente da maioria de nós.
Isso deveria me dizer algo sobre ele?
Não nadamos por muito tempo. Eu andava acordando muito cedo e certamente os dias andavam me cansando mais, por conta do treinamento puxado. Todos os dias, almoçava sem muita demora, mesmo embora almoçasse separada do resto do caern. Agora, quem sabe, começaria a montar um horário para mim. Treino físico de manhã, treino com o Chifre à tarde.
Eu não conseguia especificar por que eu treinava. Eu já não tinha muito – pois Anthony não era minha família. Não para mim. Mas agora, com ele morto, eu não conseguia pensar em nada para mim. Em objetivo nenhum, nada em que a minha vida poderia ser bem desperdiçada.
Eu não via um futuro para mim. E talvez por isso eu me obrigasse a treinar. Porque eu sentia algum objetivo chegando – e se ele chegasse, eu gostaria de estar pronta para ele... Com todas as minhas armas.
Assim que eu e George saímos do lago, almoçamos – ou melhor, eu almocei com a presença dele, pois não trocamos uma palavra. Ele me acompanha a minha cabana, após o almoço, e se despede com poucas palavras e um gesto, com as mãos dentro dos bolsos, no qual ele apenas levanta os ombros e dá um meio-sorriso, com a boca fechada. Ele se afasta sem se esperar uma resposta. Hm. Talvez esteja se acostumando comigo.
Sinceramente, com o tempo, eu não sabia o que fazer nesta tarde. Eu poderia treinar, mas tenho consciência de que levar meus músculos à exaustão não pode me conceder benefício algum; na verdade, pode me levar a algum tipo de lesão, o que seria exatamente o oposto do que desejo alcançar. Uma lesão não seria nada senão atraso, e eu não preciso de mais demora.
Eu ando pela minha cabana, e finalmente o peso dos acontecimentos recentes toca a minha consciência. Tudo em que eu evitava pensar, que eu decidi postergar, retorna com força inigualável, buscando um único julgamento coeso em minha mente. Apenas quando eu começo a refletir sobre isso, eu me lembro de quase todos os detalhes que ocorreram destes últimos dias até hoje. Desde que Lobo em Pé me encontrou naquela fazenda, eu me vi constantemente obrigada a desenvolver julgamentos sobre tudo – sobre as pessoas, sobre a maneira de viver delas, sobre as coisas que eles acreditavam – e ainda não estava certa sobre o que eu acreditava ou não.
Me lembrando da minha missão falha – ou melhor, a missão que eu estraguei – eu penso em viver uma vida como esta. Minha falta de hesitação em matar, por uma fé e por doutrinas que me eram – e são – completamente estranhas não fala nada sobre mim? Ou sobre a doutrina Garou em si?
Aliás, há um dever meu que ainda não foi cumprido, uma das outras tarefas postergadas por mim. E eu estou a caminho dele agora mesmo.
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