Notas iniciais
Aos que conhecem o Mundo das Trevas, peço desculpas.
Pois esse é um capítulo que vai destrinchar, pelo menos superficialmente, um pouco dele (no que se aplica aos Garou). Achei necessário, pois pode ser que nem todos que leiam a estória o conheçam. Tentei não me estender demais. Paciência, por favor! xD

III

Tudo bem.

Sim, não é todo dia que isso acontece. Mas a questão é: eu não acredito no que a maioria das pessoas acreditaria nessa situação. Bem, é difícil acreditar que ele realmente vira lobo, não? Eu nunca fui crédula. Nunca tive religião. Minha mãe tinha, e isso não a tornou uma pessoa melhor.

Eu passo muito tempo encarando, calada demais para o que a maioria das pessoas deve costumar fazer nesse tipo de situação (se é que eu não sou a primeira, ou a única com quem eles pretendem fazer isso... Imagino se ainda não é algum tipo de plano que envolva me machucar). Com o tempo, começo a perceber que o burburinho – mais uma vez retomado — dos outros em volta do fogo, que agiam como se o fato de Lobo em Pé ter se tornado um lobo fosse muito normal e não prestavam atenção em mim por causa disso, novamente começava a cessar. Acho que os surpreendi novamente. Parece que o normal para eles não era me ver calma e analítica. E sim, eu estava mais calma. Comecei a analisar, observar se haveria alguma falha no pretenso lobo, algum tipo de disfarce ou truque.

E então, esse lobo, que era marrom, menos peludo e ligeiramente menor que o outro lobo (que falou), Chuva de Sangue, (mas ainda sim, era grande), anda em minha direção e para, entre eu e Hank, e continua me encarando.

E é Hank novamente o primeiro a retomar a palavra.

- E o que você acha que vê agora?

Eu fico... confusa. E em silêncio. Há uma simples questão pairando: como reagir? Meu primeiro instinto foi atacar, mas era como se eu não devesse.

-Quem... Quem é esse lobo? De onde veio? – porque certamente não poderia ser verdade...

-Oras, não confia no que acabou de ver? É o Lobo em Pé, Theodora – Eu não sei como reagir. Hank começa a realmente achar graça, e embora continue com seu semblante que me parece ser sempre sério, ainda assim decide me facilitar as coisas – Tudo bem, Lobo em Pé. Volte ao normal.

Bem, o lobo realmente é o Lobo em Pé. Pois ele abaixa ligeiramente o focinho, gane levemente, e fecha os olhos. E essa forma, que não foi gerada normalmente, volta atrás e começa a se esticar. Não posso enxergar perfeitamente os detalhes, mas enxergo a forma aumentando de tamanho e comprimento e os pelos se encolhendo. Quando reparo, já é o Lobo em Pé, com uma expressão apreensiva no rosto, como se tivesse medo de minha reação. Ele ainda está vestido, o que é curioso. Depois disso, só posso concluir: Lobo em Pé, que nome irônico.

Hank sorri.

-Ainda não acredita?

Bufo.

-Isso também explica seu lobo, ou seu outro lobo, falar? – sim, é a única resposta que consigo formular. Pois eu vejo esse rapaz que me encontrou transformando-se em lobo, sim. Só que se ele for um lobo, de verdade, ele não fala. O lobo preto falou.

-Sim, explica. Porque ele é um lobisomem, um Garou, e não um lobo. Um lobisomem, ao contrário do que você deve imaginar, não pode ser apenas um humano se transformando em lobo. Pode ser um lobo transformando-se em humanos. Ou também, às vezes, em um meio-termo. Numa forma bestial, que é nossa forma guerreira, a Crinos, que é a representação mais fácil para você imaginar – Ele sorri de novo – É a que existe em seus filmes.

- Hollywood?

- Não somos todos assim. Mas é quase isso. Cada um tem suas especificidades, mas é tão meio-termo quanto. Mas você não está acreditando.

-Na verdade, eu acho que acredito.

Até Lobo em Pé levanta as sobrancelhas. Ele e Hank não são os únicos. Acho que foi a única situação que a mulher loira realmente parou de prestar atenção em tudo o mais para me observar. Com as sobrancelhas também levantadas e uma expressão de descrença, ela agora mesmo me encarava.

-Hm. Tudo bem então, creio. Mas se lembre de ter em mente que nós agora somos uma raça em extinção. Já não há muitos de nós no mundo, mas assim mesmo nossa raça está em guerra. Na verdade, sempre estivemos em guerra. E esse é o motivo de sermos tão poucos, principalmente nesse mundo civilizado. Pois ser um Garou não é como uma profissão, ou uma identidade secreta. Nossa raça tem uma cultura e uma religião, além do seu estilo de vida. Não somos os únicos metamorfos, embora de todos ainda sejamos os mais populosos. Não que não haja uma razão para isso... – Eu não quero, mas começo a prestar mais atenção – E eu vou lhe explicar, até porque faz parte de quem você é. Eu vou explicar-lhe a origem, como tudo começou em nosso mundo. Falarei-lhe sobre as forças que estão nele, pois algumas lhe ajudarão e outras lhe farão mal. Mas saiba, antes de tudo, qual é o seu papel, Theodora.

O soldado deixa escapar um riso. Embora ele pareça um pouco constrangido imediatamente após a interrupção, ele parece gostar do momento da conversa. Há um brilho nos olhos dele característico de empolgação. Eu sempre desprezei esse olhar, porque para mim essa alegria eufórica com um simples pensamento é uma precipitação, uma bobeira, por coisas às vezes não importantes. Eu não sou do tipo manteiga derretida. Não me empolgo muito com nada. Mas ainda assim, eu respeito esses olhos dele, pois parece algo mais visceral. A empolgação dele era para ele e somente para ele.

-Theodora – Hank chamou – Talvez agora você queira se sentar.



“Vou começar te contando sobre os augúrios, que são cinco: Ahroun, Galliard, Philodox, Theurge e Ragabash. Esses nomes referem-se à fase da Lua sob a qual um determinado Garou nasceu. Cada um deles indica uma Lua diferente, e nós acreditamos que isso influencia a personalidade, ou melhor, qual o melhor papel para o Garou exercer na nossa sociedade. Você e eu somos Philodox, os juízes, nascidos sobre a Meia-Lua. Nosso papel é guardar as leis e tradições dos Garou, e julgar quando for necessário. E os outros quatro augúrios são: Ahroun, os guerreiros, com o papel de serem soldados e guerreiros, e nascidos sob a Lua Cheia – a razão provável de existirem as histórias de Hollywood sobre a transformação só ocorrer nesse período. Galliard, nossos contadores de histórias, os que compilam histórias dos nossos feitos e heróis. São os que fazem e recitam os nossos registros e feitos históricos, para que nossa memória continue viva, e são nascidos sob a Lua Minguante. Os Theurges sãos os nossos xamãs e profetas, os mais próximos de nosso mundo espiritual, a Umbra. Lá ficam os espíritos de Gaia, da natureza e de Ancestrais, nossos antepassados, além de espíritos hostis. Eles vivem em conexão com esses espíritos e são os que nos passam conhecimento através deles. Sua Lua é a Lua Crescente. E, por último, os Ragabash, que são os nossos ‘ladrões’ e trapaceiros. Trazem a sabedoria àqueles que já se acham sábios, e seus logros e brincadeiras frequentemente engrandecem a sabedoria dos outros”.

O resto da matilha agora está prestando atenção. Em mim.

“E antes de te explicar sobre as 13 atuais tribos, vou te contar nossas regras, a nossa Constituição, que recebe o nome de Litania. Mas isso apenas se você estiver disposta a aceitar seu papel – uma decisão sua, porque se você decidir aceitá-lo, você terá que se provar, em um Rito de Passagem, onde será aceita como nova Garou”.

-Você está disposta, Theodora? – Pergunta gentilmente Lobo em Pé, que esteve sempre acompanhando nossa conversa, sendo quem me encontrou primeiramente.

E eu não sei por que, mas assenti com a cabeça.


O resto foi uma conversa longa, posso dizer isso. Primeiro, me contou sobre as Tribos. Disse que atualmente, existiam 13, e me explicou cada uma delas, pacientemente. Repetiu algumas vezes alguns nomes para que eu me acostumasse e entendesse a essência de cada tribo. Ele realmente gargalhou quando eu dei um sorrisinho e levantei as sobrancelhas quando ele disse que a minha tribo – chamada Crias de Fenris- é uma tribo originalmente nórdica e bem violenta. Depois, me disse as tribos de cada um dos integrantes da matilha dele – assim é chamado um grupo de lobisomens que saem juntos em missões, como uma equipe da CIA –, junto com os nomes deles.

-Esse é César – o rapaz do olhar penetrante que me encarava ininterruptamente — Sua tribo é a Senhores das Sombras, e ele é nascido sob a Lua Nova, pertencente ao augúrio dos Ragabash.

-Gina, uma Fúria Negra – Acho graça. Ela é uma “Amazona”? Sua tribo era composta exclusivamente por mulheres – e uma guerreira Ahroun.

- Este é o Soldado Mendez, que tem a honra de ser um Presa-de-Prata e um Galliard.

- Gile, que não desgruda do que ele chama de telefone celular do futuro, da tribo dos Andarilhos do Asfalto, e representando os Theurges aqui entre nós, juntamente com o Lobo em Pé, que se difere por ser um Uktena – Lobo em Pé ri.

-Aposto que você pensou que eu pareço um índio, não?

Eu dou um pequeno e relutante sorriso. Sim, eu pensei. E ainda penso.

-E é lógico, Chuva se Sangue, da tribo totalmente lupina dos Garras Vermelhas, sendo também um Guerreiro.

Esse lobo me dava uma sensação esquisita. O modo dele me olhar, como se me odiasse por algo que eu não fiz ainda, ou que jamais poderia ter feito, era curioso. Mas ao mesmo tempo, parecia uma atitude de quem estava te julgando por cada ação sua – e isso eu saberia reconhecer. Era como se ele me odiasse, e me perguntasse com seu olhar o que eu estava disposta a fazer para mudar isso.

- Acho que por último, devo apenas comentar algo. Sei que já lhe disse que divido o augúrio e o dever com você, Theodora. O que não mencionei ainda é que somos também irmãos de tribo. Porém – levanta uma sobrancelha, parecendo sério – não ache que somos todos iguais. Muitos de nós têm muitas semelhanças, mas não trate um da mesma maneira que pretende tratar o outro, pois não necessariamente funcionará. As tribos e os augúrios não servem de estereótipos, tente se acostumar com isso. Se não conseguir, vai se surpreender – Acho que ele deve ler pensamentos. Eu já começava a imaginar as semelhanças entre ele e eu. E se eu chegaria à idade dele – se chegasse, eu seria como ele? Ele me parecia um ótimo líder.

Mas ele continuou me contando. Falou-me sobre uma Tríade (Weaver, Wyld e Wyrm, é isso, se me lembro bem). Pelo que pude compreender, eram três forças primordiais e geradoras, além de entidades unas com emoções e pensamentos. Mas uma delas enlouqueceu – na verdade, duas, e não se sabe quem foi a primeira, a Weaver (Senhor dos Padrões e da Ordem) ou a Wyrm (a Destruição, a Mediadora). O que se sabe realmente é que a Wyrm não enlouqueceu somente, ela corrompeu-se. E começou a atacar Gaia, a quem todos os lobisomens são devotos.

– Gaia é nossa palavra para a Mãe, a soma de toda a criação. Tudo o que você vê aqui é Gaia. A Terra, o Sol, as estrelas, os mundos, tanto aqui quanto na Umbra — todas essas coisas pertencem a Gaia. Todas são de Gaia, até mesmo a Weaver, a Wyld e a Wyrm – Foram as palavras dele.

Baseado nisso, os Garou – o povo lobisomem em geral – foram criados por Luna para servirem como soldados de Gaia contra a devastação da Wyrm. E para isso, regras foram criadas. A Litania. Que eu, Theodora Martell, tinha obrigação de guardar, pois era o meu papel enquanto “Philodox”. Ele recitou e explicou-me brevemente a Litania, como se já tivesse feito isso antes milhares de vezes. Eu automaticamente priorizei, entendendo automaticamente a necessidade urgente de alguns deles, como “Combaterás a Wyrm Onde Quer Que Ela Esteja e Sempre Que Proliferar”, “Submeter-te-ás aos Garou de Posto Mais Elevado”, “Não Serás Fardo Para teu Povo” e “Não Desafiarás teu Líder em Tempo de Guerra”.

–Theodora, você ainda acredita? – Hank pergunta, mais uma vez.

–Eu acho que sim. Parece-me real, e pelo que acabo de ver, a existência de lobisomens foi comprovada, com um julgamento ao vivo – não que não tenha sido traumático nem nada.

Ele sorri de um modo perigoso.

–Isso é bom. Porque se você ainda acredita e aceita seu papel como Garou, você vai ter o seu Rito de Passagem agora mesmo. Eu vou te explicar sua missão...



Notas finais
Terminando, eu queria observar algo. Até quando jogo com ela (a campanha ainda está em curso), eu gosto de fazer a Theodora de verdade. DE VERDADE, como se fosse alguém que eu conheço, ou eu mesma. Imaginei como eu reagiria se eu tivesse sido informada que era lobisomem. Não seria rápido como é nos filmes me fazer aceitar isso. Mas tendo em vista que muita enrolação é chato demais, tentei um meio-termo entre a realidade e a fantasia, em relação à atitude dela. Espero ter conseguido isso.

Por favor, não me xinguem.
xD