Os últimos dragões
14 Capítulo XIV
Tyrion Lannister caminhava pelas tendas do torneio, o som das trombetas e o clamor da multidão criando uma sinfonia estridente ao seu redor. Suas pernas curtas e tortas o obrigavam a se esforçar para acompanhar o ritmo dos outros nobres, mas sua mente estava muito longe dos jogos e do espetáculo que se desenrolava. Ele tinha algo em mente, algo que o incomodava desde que começara a investigar os mistérios dos Targaryen.
Ele avistou Olenna Tyrell, a Rainha dos Espinhos, sentada com a altivez de uma matrona que conhecia os meandros do poder melhor do que qualquer rei. Tyrion sabia que ela era uma fonte de sabedoria, embora a mulher fosse tão afiada quanto uma lâmina de aço valiriano.
— A senhora Tyrell parece estar aproveitando o torneio — Tyrion comentou ao se aproximar, sua voz carregada de uma cortesia que não enganava ninguém.
Olenna lhe lançou um olhar que poderia cortar pedra.
— Não me venha com seus rodeios, Lannister. Sei quando um homem quer algo de mim. Diga logo o que deseja e poupe-nos desse jogo enfadonho.
Tyrion sorriu, mais para si mesmo do que para ela.
— Sempre direta, não é? Muito bem. Estou interessado em certas figuras históricas... particularmente nos filhos do rei Jaehaerys II…
Olenna arqueou uma sobrancelha.
— Ah, então é isso? A velha linhagem dos dragões desperta seu interesse, é? Todos lembramos daqueles que devemos, e podemos, lembrar.
Tyrion se inclinou um pouco mais perto.
— E a senhora, por acaso, conheceu uma tal de Saerane?
A Rainha dos Espinhos ergueu-se devagar, suas vestes esvoaçando como um manto de escuridão ao seu redor.
— Conheci, sim. Ela era a menos desprezível dos Targaryen. Mas lembre-se, Lannister, às vezes é melhor deixar os dragões adormecidos.
Tyrion a observou se afastar, suas palavras reverberando em sua mente. Saerane, a menos desprezível dos Targaryen. Quem era ela realmente, e que papel desempenhou nesse jogo de tronos que parecia nunca ter fim? O anão sabia que, para encontrar respostas, teria que continuar cavando. E talvez, apenas talvez, ele encontrasse algo mais valioso do que ouro entre as cinzas de uma dinastia esquecida.
♚♚♚
Tyrion andava pelos corredores intermináveis da Fortaleza Vermelha, sentindo-se como um rato preso em um labirinto de pedra e sombras. A vasta extensão do castelo, com seus segredos e histórias esquecidas, sempre o intrigou, mas naquele momento, ele estava mais perdido do que nunca. Cada esquina parecia igual à anterior, e o som distante de passos ecoava de maneira sinistra, como se os fantasmas dos antigos reis e rainhas ainda vagassem por ali, inquietos.
Ele não sabia ao certo como tinha se desviado de seu caminho habitual, mas algo o guiava, talvez um instinto, talvez uma curiosidade que ele mal conseguia controlar. Quando empurrou uma porta de madeira antiga, esta rangeu em protesto, revelando um quarto abandonado. A penumbra e a poeira dominavam o espaço, como se o tempo ali tivesse parado. Móveis velhos e quebrados estavam cobertos por lençóis brancos, e teias de aranha adornavam os cantos, dançando ao menor movimento de ar.
Tyrion entrou, cauteloso, sentindo a história do lugar pesar sobre seus ombros. Ele não sabia de quem era aquele quarto, mas sentia que estava prestes a descobrir algo importante, algo que poderia mudar o curso de seus pensamentos e, quem sabe, de suas ações.
No canto da sala, uma escrivaninha antiga chamou sua atenção. Ele se aproximou, suas botas perturbando a poeira que repousava há anos no chão. Seus dedos pequenos e ágeis abriram uma gaveta emperrada, e de lá ele retirou um pequeno livro, coberto de poeira e com a capa de couro gasta. Quando a luz fraca revelou o nome gravado na frente, seu coração disparou.
Saerane.
Tyrion não conseguia acreditar no que via. Estava diante de algo que o destino parecia ter escondido por décadas. Ele limpou a capa com cuidado, tossindo quando a poeira subiu em nuvens finas, e então, com mãos quase trêmulas, abriu o diário. As páginas estavam amareladas pelo tempo, mas as palavras ali escritas ainda eram legíveis, como se Saerane tivesse falado com ele do além-túmulo.
As primeiras entradas relatavam os dias na corte, mas logo, o tom mudava. Saerane descrevia com clareza assustadora as primeiras manifestações de loucura do jovem Aerys, como a chama insana começava a crescer em seus olhos. Ela escrevia sobre Eamon, seu confidente e, como Tyrion começava a suspeitar, talvez algo mais. Eamon tentara, por várias vezes, falar com Jaehaerys, implorar que fizesse algo para deter Aerys antes que fosse tarde demais. Mas Jaehaerys, velho e cansado, preferiu o caminho mais fácil, planejando casar Saerane com um lorde distante, na esperança de separá-la de Eamon e silenciar qualquer voz dissonante na corte.
As palavras de Saerane ganhavam uma urgência desesperada à medida que as páginas avançavam, revelando os sentimentos que ela escondia do mundo. E então, na última linha, Tyrion leu a frase que congelou seu sangue:
"Vamos fugir esta noite."
Tyrion se recostou na cadeira velha, suas mãos ainda segurando o diário com força. Suas ideias corriam como loucas. O que teria acontecido naquela noite? Saerane e Eamon realmente fugiram? E, se o fizeram, para onde foram? Ele sabia que não havia registros deles após aquele ponto, mas isso poderia significar que haviam sido apagados da história, seus nomes eliminados como se nunca tivessem existido. Ou talvez... haviam conseguido escapar?
As perguntas se acumulavam na mente de Tyrion, mas ele sabia de uma coisa: esse diário era uma chave. Uma chave para portas que jamais deveriam ter sido trancadas, para segredos que, uma vez revelados, poderiam sacudir Westeros até suas fundações.
Não conseguia afastar a sensação de que havia muito mais a ser desenterrado. A pergunta sobre por que o quarto da princesa permaneceu intocado por tanto tempo o consumia, e ele sabia que as respostas que procurava não estariam facilmente ao alcance. Suas investigações o levaram às vastas bibliotecas da Fortaleza Vermelha, onde os antigos registros repousavam, guardando segredos há muito esquecidos.
A biblioteca estava imersa em uma quietude quase reverencial, como se os milhares de volumes ali acumulados guardassem mais do que palavras; guardassem vidas, destinos e a própria história de Westeros. Tyrion passou horas folheando manuscritos, buscando pistas, mas nada parecia trazer a revelação que ele ansiava. O silêncio do local era interrompido apenas pelo som das páginas sendo viradas e pelo ocasional estalar das velhas prateleiras de madeira.
Ele se perdeu em seu trabalho, movido por uma obsessão que crescera em seu peito desde o momento em que encontrara o nome de Saerane. E então, enquanto passava os olhos por um velho tomo de profecias, algo chamou sua atenção. Não era uma profecia comum, mas uma das visões de Aegon, o Conquistador. Estava prestes a passar à próxima página quando notou algo rabiscado abaixo da profecia de Aegon I.
As palavras eram escritas com uma caligrafia elegante, mas diferente da do resto do livro, como se tivessem sido acrescentadas muito tempo depois. Ele se inclinou para mais perto, o coração acelerado, e leu:
"Sonhei com o Guerreiro e a Donzela, eles tinham cabelos prateados e dragões."
A assinatura abaixo era clara: "Eamon Targaryen."
Tyrion sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Aquele nome de novo. Eamon, o homem cujo destino parecia estar intrinsecamente ligado ao de Saerane. Um nome que deveria ter sido apagado da história, mas que continuava a surgir como uma sombra do passado, recusando-se a ser esquecido.
Mas o que significava aquela frase? O Guerreiro e a Donzela... Ele sabia que as palavras poderiam ter múltiplas interpretações, especialmente em se tratando de profecias. Eamon Targaryen não apenas previu o futuro, mas o fez com uma precisão assustadora. Quem eram o Guerreiro e a Donzela de cabelos prateados? Seriam Eamon e Saerane, cujas vidas foram tragicamente interrompidas? Ou estava Eamon prevendo algo muito mais grandioso, algo que poderia estar relacionado ao presente, ou mesmo ao futuro de Westeros?
Tyrion sentiu sua mente fervilhar com possibilidades. Cada vez mais, parecia que as peças de um quebra-cabeça antigo estavam se juntando, e ele estava no centro dessa revelação. Porém, quanto mais ele descobria, mais ele percebia que as implicações poderiam ser enormes. Ele precisava continuar sua pesquisa, entender o que Eamon Targaryen previra e, principalmente, por que essas palavras foram registradas, mas nunca faladas?
Levantando-se com o tomo em mãos, percebendo que estava mexendo com algo perigoso. Os fantasmas do passado estavam se aproximando, e ele não sabia se estava preparado para o que viria a seguir. Mas, como sempre, sua curiosidade o empurrava para frente, e ele sabia que precisava seguir esse caminho, não importando aonde ele o levasse.
E naquela noite, o sono de Tyrion foi perturbado por um sonho que parecia mais real do que qualquer pesadelo que já experimentara. Ele se viu caminhando pelos corredores escuros e frios da Fortaleza Vermelha, sentindo o peso das sombras antigas sobre seus ombros. O silêncio era quase ensurdecedor, quebrado apenas pelo eco distante de passos, que ele sabia não serem os seus.
Quando finalmente alcançou as portas da sala do trono, hesitou. Algo em seu íntimo lhe dizia que não deveria entrar, que os segredos por trás daquelas portas poderiam destruí-lo. Mas a curiosidade, aquela maldita força que sempre o impelia, o fez empurrar as portas pesadas, revelando o que estava além.
Lá, no centro do salão, ele os viu. O guerreiro e a donzela. O homem estava sentado no Trono de Ferro, usando a antiga coroa de Maekar, uma relíquia de um passado há muito enterrado. Ao lado dele, repousava a Irmã Sombria, a espada lendária que tanto sangue derramara em nome de sua família. Seus dedos a tocavam suavemente, como se o aço frio fosse uma extensão de sua própria alma.
A garota estava parada diante dos degraus que levavam ao trono, sua figura fantasmagórica irradiando uma presença perturbadora. Seus longos cabelos prateados reluziam na penumbra, e seus olhos lilases, grandes e penetrantes, encaravam Tyrion com uma intensidade que o fazia estremecer. Ele se sentiu pequeno, insignificante, como se estivesse diante de algo que não poderia jamais compreender ou controlar.
O sorriso desdenhoso do homem sentado no trono era a única expressão em seu rosto duro e valiriano. Ele não precisava falar; seu olhar dizia tudo. Havia poder ali, um poder que Tyrion nunca sonhara em possuir, um poder que ele sentia poderia esmagá-lo com a mesma facilidade com que um gigante esmagaria um inseto.
Tyrion tentou reunir coragem para falar, para exigir saber quem eram aquelas figuras que tanto o assombravam, tanto a ele quanto a Robert. Sua voz, normalmente afiada e cheia de sagacidade, saiu mais como um sussurro trêmulo.
— Quem são vocês?
— O Guerreiro e a Donzela — garota respondeu. Sua voz era suave, quase gentil, como uma brisa de verão que acaricia o rosto antes da tempestade.
O significado das palavras dela atingiu Tyrion com a força de um martelo. O que quer que esses dois representassem, não era apenas algo do passado. Era algo antigo e poderoso, uma ameaça que estava além de qualquer jogo político ou intriga que ele conhecesse. Ele sentiu o peso do destino se aproximando, e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se verdadeiramente em apuros.
E então, antes que pudesse fazer outra pergunta, antes que pudesse pedir mais respostas, o sonho começou a se desvanecer, as sombras tomando conta de tudo, deixando Tyrion sozinho, perdido em meio a um mar de incerteza e medo. Quando acordou, seu corpo estava coberto de suor frio, o coração batendo acelerado. As palavras da garota ecoavam em sua mente, uma profecia que ele não podia ignorar.
O guerreiro e a donzela de cabelos prateados... Quem eram eles? E o que queriam?
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Na sala de jantar do castelo de obsidiana, as chamas na lareira dançavam e crepitavam, lançando sombras alongadas pelas paredes de pedra negra. Rhaella estava perdida em seus próprios pensamentos, os dedos brincando com as labaredas como se fossem fios de seda, seus olhos fixos no fogo com uma intensidade que parecia sugerir que ela via além das chamas.
Daemon entrou, seus passos ecoando suavemente no chão de pedra, acompanhado por seus visitantes. Ao se aproximar de Rhaella, ele inclinou-se para beijar sua têmpora, um gesto íntimo que a trouxe de volta ao presente. Ela piscou, como se saísse de um transe, sorriu levemente.
— Vejo um homem baixo — murmurou como se fosse um segredo.
Viserys, sentado à mesa, olhava com desdém para a cena e um pouco de incredulidade. Ele inclinou-se para frente, os olhos estreitados observando as chamas com uma mistura de curiosidade e ceticismo. Mas, para o rei pedinte, não havia nada além das chamas habituais, dançando com o vento que soprava ocasionalmente pela chaminé.
— É apenas fogo — disse Viserys, a voz fria, tentando esconder sua frustração.
Rhaella virou a cabeça lentamente para olhar diretamente para Daenerys, seus lábios se curvando em um sorriso enigmático, cheio de um conhecimento que parecia muito além de seus anos.
— Sim, é apenas fogo — respondeu ela, a doçura em sua voz contrastando com o mistério de suas palavras.
Nenhuma outra explicação foi dada. A tensão pairava no ar, um pressentimento que fazia o silêncio parecer ainda mais pesado. A refeição que se seguiu foi um dos jantares mais silenciosos que Viserys já experimentara, cada um deles perdido em seus próprios pensamentos, incomodados por algo que não conseguiam nomear.
Daemon observava todos, seus olhos afiados captando cada expressão, cada movimento. Havia algo que ele sabia, algo que ele ainda não estava pronto para compartilhar, mas que estava intrinsecamente ligado à sua ilha, aos dragões e àqueles que, agora, partilhavam de sua mesa.
Rhaella, por sua vez, continuava a brincar com as chamas, um sorriso quase imperceptível nos lábios, como se estivesse ouvindo uma canção que apenas ela podia escutar.
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Em Westeros, Ned Stark caminhava pelos corredores escuros da Fortaleza Vermelha, os passos silenciosos ecoando nas pedras antigas. O ar estava pesado, e uma estranha quietude pairava ao seu redor. Ele olhava para fora pelas janelas estreitas, tentando entender o que caía do céu. Era neve ou cinzas? As duas se misturavam, criando um manto pálido que cobria a cidade. King's Landing parecia deserta, uma sombra do que um dia foi.
Enquanto caminhava, uma voz familiar, mas distante, ecoava pelos corredores, carregada por um vento frio que parecia vir de todos os lados. A voz de Jon, mas não como Ned lembrava, mais enigmática, mais antiga, carregada de um pressentimento sombrio. As palavras eram ditas como uma canção macabra:
“Quando o inverno chegar, o rugido dos leões silenciará e os veados não mais saltarão pelas matas. As rosas murcharão antes de brotar e as serpentes sumirão das areias. O Kraken congelará em seu abismo e o homem esfolado apodrecerá no gelo. As trutas não cruzarão os rios, nem os falcões rasgarão os céus. Nem mesmo o sopro dos dragões aquecerá os salões de pedra... pois apenas os lobos uivarão”
A cada palavra, Ned sentia uma sensação crescente de desespero, como se cada frase fosse uma sentença, um destino selado para todas as grandes casas de Westeros. Ele continuou a caminhar, guiado por uma força invisível, até que, finalmente, chegou às portas da sala do trono.
Ele as abriu, e o que viu o fez congelar no lugar. A sala estava desolada, coberta de uma fina camada de cinzas, como se tudo ao seu redor estivesse morto há séculos. O trono de ferro, mais cinza do que nunca, parecia um esqueleto retorcido de um tempo esquecido. Sentado no trono, estava o homem de seus sonhos anteriores, aquele de rosto valiriano, forte e imponente, usando a coroa de Maekar, com a Irmã Sombria repousando ao seu lado.
Perto da janela, uma garota de longos cabelos prateados olhava para fora, os olhos lilases fixos no horizonte que Ned não conseguia ver. Ela não se virou ao ouvir as portas se abrirem, mas sua voz cortou o silêncio, suave e cheia de uma tristeza que Ned não conseguia compreender.
— Sua música errou — disse ela, ainda olhando para o horizonte. — Nada apaga o fogo do dragão.
Antes que Ned pudesse responder, o homem no trono se inclinou para frente, os olhos brilhando com uma fúria silenciosa. Ned sentiu o calor crescer ao seu redor, e então, de repente, as chamas surgiram, violentas e indomáveis, consumindo tudo à sua volta. Ele tentou gritar, mas o fogo o envolveu antes que qualquer som pudesse escapar de seus lábios.
Ele acordou em sua cama, o corpo encharcado de suor, o coração disparado no peito. As imagens do sonho ainda queimavam em sua mente, tão vívidas quanto o fogo que o consumira. O frio de Winterfell nunca pareceu tão distante quanto naquele momento, e as palavras de Jon ecoavam em sua mente como um presságio do que estava por vir.
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Joffrey estava parado diante de uma tapeçaria que permanecia intacta apesar da ira de Robert Baratheon, exibindo com um orgulho insensato. Margaery Tyrell o acompanhava, seus olhos brilhando com interesse enquanto ele falava. A tapeçaria, rica em detalhes, mostrava um cenário de uma antiga disputa pelo trono. Joffrey, com um gesto grandioso, apontou para uma figura imponente que dominava a cena.
— Esta — disse Joffrey, — é Rhaenyra Targaryen, que foi morta pelo dragão do irmão durante a disputa pelo Trono de Ferro. E ali, aquele cavaleiro com a Irmã Sombria, é Daemon Targaryen, o Príncipe Rebelde. Dizem que ele era tão amado quanto odiado, feito de luz e trevas na mesma proporção.
Ele gesticulou dramaticamente para a figura de Daemon Targaryen, sua armadura brilhando sob os fios dourados da tapeçaria. A espada, a Irmã Sombria, estava posicionada com uma elegância feroz ao seu lado. Joffrey continuou a falar, mas Cersei, que estava acompanhada por Lady Olenna, não conseguia desviar o olhar da imagem de Daemon.
Um arrepio percorreu sua espinha, uma sensação fria e inquietante que a fez estremecer. O nome de Daemon Targaryen parecia carregar um peso, uma lembrança de tempos antigos e de perigos não completamente compreendidos. Lady Olenna, perceptiva como sempre, notou o desconforto de Cersei e, com um olhar sagaz, levantou uma sobrancelha.
— Interessante, não é? — disse Lady Olenna, sua voz carregada de uma curiosidade não disfarçada. — Como o passado parece nunca deixar de assombrar o presente.
Cersei forçou um sorriso, tentando mascarar a inquietação que a dominava.
— Sim — respondeu ela, sua voz suave mas tensa. — Muito interessante.
Enquanto Joffrey continuava a exibir a tapeçaria com um entusiasmo juvenil, Cersei se viu perdida em pensamentos, o olhar fixo na figura de Daemon Targaryen. A sensação de que algo sinistro estava prestes a acontecer pairava sobre ela, uma sombra sutil que parecia refletir nas cores e nas formas da tapeçaria.
♚♚♚
Já Viserys passava seus dias observando os senhores da ilha, Daemon e Rhaella. A princípio, ele havia subestimado o poder que eles exerciam sobre a terra e as pessoas, acreditando que poderia dobrá-los a sua causa, talvez até manipular a jovem Rhaella para seus próprios fins. Mas conforme os dias se arrastavam, ele começava a perceber a profundidade daquela união.
Uma tarde, enquanto caminhava pelas muralhas, ele avistou Daemon e Rhaella próximos aos dragões. Merax e Aeryx estavam de frente um para o outro, as testas das duas bestas coladas, como se compartilhassem um entendimento silencioso. Viserys, intrigado, observou por mais tempo, e ao desviar os olhos para o chão, viu o mesmo gesto repetido por Daemon e Rhaella. Suas testas estavam encostadas, seus olhos fechados, e as mãos de Daemon deslizavam suavemente pelas faces da esposa. Havia um sorriso nos rostos de ambos, um momento de ternura pura que Viserys não conseguia associar com o homem que havia conhecido até então.
—Curioso, não é? — A voz do meistre o tirou de seus pensamentos. O homem se aproximou de Viserys, as mãos entrelaçadas nas mangas de seu robe surrado, o rosto marcado pela idade, mas os olhos ainda brilhando de sabedoria.
— O que exatamente? — perguntou Viserys, ainda encarando a cena com incredulidade.
— Aquilo — O meistre indicou com a cabeça o gesto dos dois dragões, que espelhava o gesto de seus cavaleiros. — Esse foi o primeiro sinal de afeto entre Daemon e Rhaella. Ela era ainda uma criança, muito pequena para sequer compreender o que significava, mas foi assim que começou. Desde então, a ligação deles se tornou algo... maior do que qualquer um de nós poderia imaginar.
Viserys cruzou os braços, refletindo por um momento antes de perguntar com desdém:
— E por que Daemon não deu Rhaella em casamento para alguém poderoso de verdade? Alguém que poderia lhe trazer alianças fortes, exércitos?
O meistre riu baixinho, sem arrogância, apenas uma risada de alguém que sabia mais do que deixava transparecer. Ele apontou para os dragões com um gesto sutil.
—Diga-me, meu príncipe, você conhece outro homem que possua duas feras dessas?
Viserys ficou em silêncio, sentindo-se tolo por sequer fazer a pergunta. Era óbvio. Aqueles dragões, tão majestosos e indomáveis, só poderiam pertencer a pessoas tão intimamente conectadas como Daemon e Rhaella. O meistre continuou:
— Os deuses esculpiram Daemon e Rhaella para serem marido e mulher, príncipe. Eles são um só, como essas criaturas ali. Desse amor, dessa união, vem a força que governa esta ilha. Não é uma aliança política... é algo muito mais profundo. Daemon jamais encontraria poder maior em outro lugar.
Viserys desviou o olhar dos dragões para o casal. Eles permaneciam na mesma posição, as testas encostadas, as mãos acariciando os rostos um do outro. Havia um sorriso de pura afeição entre eles, uma conexão que Viserys jamais havia testemunhado antes. Ele soltou uma risada, mais um reflexo de surpresa do que de humor.
— Ele não parece tão assustador assim, não quando está com ela.
O meistre apenas assentiu, o olhar distante, mas com uma sabedoria tácita.
— Rhaella é a única fraqueza de Daemon. Ele pode ser o senhor implacável da ilha, montado em seu dragão, mas quando está com ela... ele é apenas um homem. Um homem que ama.
Viserys olhou para o meistre, sua mente já trabalhando em mil direções diferentes. O que significaria ser a fraqueza de Daemon? O que aconteceria se algo acontecesse a Rhaella? Um pensamento sombrio começou a se formar.
— Se ela fosse tirada dele… — Viserys murmurou, quase para si mesmo.
O meistre virou-se lentamente, seu rosto de repente sério.
— Se ela fosse tirada dele, meu príncipe... Daemon seria como um dragão descontrolado. O fogo queimararia tudo. O mundo veria o verdadeiro terror de alguém que não tem mais nada a perder.
Viserys sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Mesmo no estado frágil em que se encontrava, molhado e desgastado pela tempestade, ele podia ver o poder destrutivo de Daemon — e como aquela ilha, aquela força, aquela paz, dependia de Rhaella. Era algo que ele poderia usar ou temer. Ele ainda não sabia qual.
Naquela tarde, Viserys finalmente entendeu por que Rhaella estava sempre presente nas audiências, mesmo quando parecia ser apenas uma figura silenciosa ao lado de Daemon. A presença dela, até então, parecia a Viserys um detalhe, talvez uma formalidade ou uma decoração. Mas, naquele dia, a ausência de Rhaella revelou a verdadeira extensão de seu papel.
Ela havia deixado o castelo para ajudar algumas mulheres em uma das vilas, e alguns homens da ilha, oportunistas, decidiram que aquele seria o momento ideal para pedir audiência com Daemon. Viserys, como de costume, permaneceu na lateral do salão, observando com olhos críticos. Assim que os homens começaram a falar, oferecendo propostas duvidosas, Daemon se transformou. O lorde, que até então mantinha uma calma rígida, explodiu em uma fúria incontida. Seu rosto ficou vermelho, as palavras dispararam como chicotadas, e a ameaça de violência estava evidente.
Viserys não pôde deixar de notar que, se Rhaella estivesse ali, talvez as coisas fossem diferentes. Ele a tinha visto, em audiências anteriores, intervir sutilmente, com palavras ou gestos, fazendo Daemon reconsiderar. Agora, sem ela, ele era uma força incontrolável. Quando os homens se retiraram, apavorados, o meistre se aproximou de Viserys, um pequeno sorriso em seu rosto.
— Entende agora, meu príncipe? — o velho olhou para Viserys —Daemon sem Rhaella seria como um dragão sem cavaleiro, Viserys. Rhaella é a única capaz de acalmar as chamas dentro dele. Sem ela, ele seria... imprevisível, destrutivo. Com ela, ele encontra um equilíbrio. Ela é a âncora que impede o caos de tomar conta dele.
Viserys ainda parecia perplexo. Ele sabia que a ligação entre Daemon e Rhaella era forte, mas não compreendia o alcance total.
Viserys ficou em silêncio por um momento, digerindo o que o meistre havia dito. Ele não tinha previsto que a dinâmica entre Daemon e Rhaella fosse tão intensa. Observando de fora, era fácil subestimar o papel que Rhaella desempenhava. Agora, porém, ele começava a entender o perigo que aquela ilha e seus habitantes enfrentariam se algo os separasse.
— Então — Viserys finalmente disse, a voz mais baixa — é ela quem mantém tudo de pé.
O meistre assentiu lentamente.
— Sim, príncipe Viserys. Sem ela, as fundações desmoronariam. E Daemon... ele se tornaria algo que nem mesmo Aeryx poderia conter.
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